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Ao discutirmos as manifestações de religiões de influência indígena e negra, sua memória e identidade, suas manifestações presentes no Espiritismo de Umbanda, Macumba, Candomblé, Jurema e Catimbó cearense, importa nos reportarmos a obras que situem as religiões afro-brasileiras no Ceará, que informem acerca desses circuitos. Neste sentido, deparamo-nos com relato de Roger Bastide que, apoiado em carta de Joaquim Alves, considerou:

Certamente encontramos na capital do Ceará e em algumas regiões do sertão o termo macumba, que incida uma influência africana, e mesmo nome de orixás, como Xangô ou Ogum; todavia essas divindades tornaram-se “senhores” ou “encantados”; nesta “linha africana” como também na “linha cabocla”, utilizam-se a aguardente e o fumo, o charuto ou o cigarro e quando desce um guia, o aparelho (isto é o médium) canta os versos que lhe correspondem55.

O relato de Bastide, situa o Ceará, principalmente a capital, Fortaleza, e os sertões cearenses em geografia diaspórica em que a influência africana aparece, na utilização do termo Macumba, na presença dos orixás Xangô e Ogum, dentre outros. A carta de Joaquim Alves informa que, entre os praticantes dos ritos, “utiliza-se a aguardente e o fumo, o charuto ou o cigarro”, e que as divindades se tornaram “senhores” ou “encantados”. Fator que caracteriza a memória dos rituais de pajelança indígena e cabocla, presentes também nas linhas dos encantados da encantaria maranhense e amazônica.

Nestes ritos percebe-se que o aparelho, “cavalo” ou médium que incorpora o guia, orixá, caboclo ou encantado, além da utilização do fumo, charuto ou cigarro tauari, e da

aguardente, ao cantar seus versos ou curimbas, utilizam instrumentos musicais como o tambor, o maracá e o triângulo, dentre outros, sinalizando cearensidade nas religiões afroindígenas, indicam a permanência da memória indígena e africana no Ceará.

A história e a literatura, dentro de suas especificidades, buscam compreender as experiências humanas. Nesse sentido, a literatura muito contribuiu, de forma direta ou indireta, para a construção e fixação de uma visão negativa da presença e contribuição das culturas afroindígenas no Ceará. No processo de análise da produção historiográfica e literária, acerca da presença e contribuição de negros e índios na cultura religiosa cearense, nos defrontamos, muita das vezes, com o esquecimento. No entanto, quando o negro e sua cultura aparecem na narrativa literária de alguns autores, como, por exemplo, do cearense Gustavo Barroso, aparece caracterizado e classificado no rol dos tipos anormais, como os curandeiros:

Não há povo cheio de crendices, mais propenso a acreditar em bruxedos, do que o sertanejo. Crê em todas as feitiçarias por mais ignóbeis e estúpidas que sejam, misturando na sua prática crenças africanas, indígenas e européias, estas adquiridas por hereditariedade, aquelas pelo contato das raças. As reminiscências das bruxarias africanas e indígenas formam a base de todas as feitiçarias em que as européias aparecem apagadamente, com o seu cunho religioso velado pelo feticismo das duas raças inferiores. Um tipo interessante sintetiza toda essa inclinação e toda essa ignorância é o curandeiro.

No sertão, cada ribeira, cada região, cada povoado, tem o seu curandeiro – médico e nigromante ao mesmo tempo. É quase sempre um negro idoso, sebento, embrutecido, ou um mestiço esquálido, sujo, com tiques nervosos no rosto, aspecto concentrado de quem vive recolhido na profundeza de seus pensamentos, gestos vagos de assombro, sempre remoendo entre dentes frases ininteligíveis. Muitos, os mais afamados especialmente, têm atitudes impressionantes, voz imperiosa, gestos imperativos, modos fortes de comando. Vivem em palhoças retiradas, esquecidas em esquivos topos de cômoros, [...]. Há curandeiros especialistas para isto e para aquilo.

Em casa vão consultá-lo para tudo: para curar bicheiras dos gados e doenças dos homens; para encontrar objetos perdidos ou adivinhar autores de furtos misteriosos; para salvar pessoas mordidas de cobra, levantar espinhelas caídas, fazer passar dores atrozes de dentes, achar lugares bons para cavar cacimbas e “curar” ou “fechar” corpos às facadas, às balas, à água e às presas afiadas de serpentes.

Quando o curandeiro passa na estrada, vagarosamente, atravessando teso e esguio o largo terreiro dos casais, imerso na indiferença de profundo cismar, dizem as velhas que vai cochichando com o diabo

Afirmam os sertanejos que o curandeiro cura todas as doenças por meio de benzeduras e outras orações da mesma espécie, que um gesto seu rechaça os malefícios; [...]. O curandeiro faz “cousa-feita”; isto é, bota feitiço em alguém mediante pagamento. [...]

[...] Porque se há curandeiros aparvalhados e idiotas, convencidos profundamente do valor dos bruxedos, a maioria é de hipócritas e

mistificadores. [...] Pobre terra ressequida, e pobre gente sofredora e heróica que se agarra às mais tênues esperanças [...] Pobre gente que espera a salvação de um embrutecido mestiço, que se diz sabedor do segredo dos milagres e afirma o que não pode adivinhar!56

Ao se referir aos curandeiros, crenças religiosas provenientes de culturas africanas e indígenas são taxadas de bruxarias e feitiçarias. São enquadradas como provenientes de raças inferiores, e seus líderes religiosos, geralmente negros idosos ou mestiços, desmoralizados e embrutecidos. Constantemente acusados de envolvimento com o diabo da religião dominante. Situações essas que desencadearam africanofobias e indigenofobias paradigmáticas, onde negros e índios tornaram-se sinônimo de tudo o que é negativo.

Esses estereótipos cristalizados por “nossa” historiografia e produção literária permanecem no consciente e inconsciente das populações, não somente cearense, mas de todo o território nacional. São passadas e repassadas de geração em geração, fomentando intolerâncias e discriminações. Associando negros, índios e suas culturas, no caso em destaque as religiões afro-brasileiras e afroindígenas, como sinônimos de feitiçaria, charlatanismo, cultuadores de maus espíritos.

Publicada em 1912, esta obra de Gustavo Barroso, repleta de preconceitos em relação aos ditos tipos anormais - no caso os curandeiros -, carrega os mais variados adjetivos para desqualificá-los. É atribuído a indígenas, africanos ou seus descendentes, o peso de todos os desequilíbrios das violentas sociedades coloniais, recriminando seus costumes e tradições. O curandeiro é apresentado como sinônimo de feiticeiro, que pratica o mal mediante pagamento; como aparvalhado, idiota, hipócrita, mistificador, charlatão. Utilizando de discursos que procuravam, e ainda procuram desumanizar povos africanos, indígenas e seus descendentes, foram sendo desmoralizadas suas autoridades e formas de poder, costumes e tradições.

Esses procedimentos, recorrentes de ideologias eurocentristas, construíam e ainda constroem imagens em torno do primitivismo e isolamento de grupos culturais de ascendência indígena e africana. Porém, numa leitura a contrapelo podemos perceber em “lampejos” a presença de curandeiros em diferentes regiões e povoados do sertão cearense. Esses atuam enquanto médicos, especialistas, curando as mais variadas doenças, mazelas e males, mediante orações e benzeduras. Auxiliando a comunidade, que perece na seca, a encontrar água e proteção do corpo, que precisa ser “fechado” contra todos os tipos de malefícios.

56 BARROSO, Gustavo. Terra de Sol: natureza e costumes do Norte. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha,

A visibilidade deturpada ou invisibilidade espraiada pela historiografia e literatura, nutriu e nutre o senso comum de setores conservadores da sociedade e da academia, jogando com representações pejorativas acerca de etnias índias e negras, não somente no Ceará, mas no Brasil como um todo. Apesar disso, entre setores da historiografia contemporânea, grupos negros e entidades religiosas afro-brasileiras e afroindígenas enfrentam tais estereótipos.

Ao nos reportarmos à historiografia da escravidão e da presença indígena e negra no Brasil, é comum encontrarmos discursos relacionados à incapacidade destes segmentos sociais escravizados realizarem leituras da realidade em que viviam, remetendo-os à passividade e a uma pretensa impossibilidade de construírem brechas e negociações.

Invisibilizados ou com visibilidade deturpada, tornam necessários atenções, criticas e desconstruções discursivas, procurando revelar a multiplicidade de práticas e estratégias forjadas por indígenas e africanos que foram forçados ao cativeiro e até hoje têm sua liberdade e seus direitos desrespeitados.

Os cativos cearenses e seus descendentes, assim como de outras regiões brasileiras, mesmo sujeitos a uma série de limitações e a rígidos controles impostos pelo sistema e sociedade escravagista, não eram seres despersonalizados. Conseguiram, através da conquista de redes de sociabilidade, construir expressões distintas e significativas para a afirmação de suas práticas culturais, preservando elementos de suas memórias, histórias e culturas, muitas vezes materializados em relações familiares, linguagens, festas, músicas, religiões e rituais cotidianos.

Estando presentes em todas as vilas cearenses, nas mais diversificadas atividades, tais como vaqueiros, pescadores, jangadeiros, costureiras, rendeiras, fiandeiras, vendedoras, curandeiros, erveiros, cantadores, instrumentistas e escravos de ganho em geral, pessoas de ascendência indígena e africana romperam e continuam rompendo com a idéias a que foram sujeitados pelo pensamento ocidental moderno. Fazendo-se presentes e empreendendo ações que visavam e continuam visando à conquista de espaços, e a legitimação de direitos nos mais diferentes setores da sociedade, contribuem com elementos próprios de suas culturas ancestrais. Isso, nas mais diferentes expressões artísticas, religiosas que, ainda hoje, fazem e refazem o cotidiano de populações afroindígenas cearenses.

O entrelaçamento de saberes, cultura, religiosidade popular e práticas curativas existentes no Ceará, conforme diversos ângulos de análise resultam de um fluxo e refluxo de índios, negros e seus descendentes em circuitos religiosos e geopolíticos.