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No Maranhão, na região do Gurupi – Turiaçu, área de divisa, situada nos limites entre o Pará e o Maranhão, há registros de um campesinato que articulava mocambos e senzalas, originando comunidades negras rurais e o acesso a terra ainda na escravidão. Nessa área existiam quilombos bastante antigos em torno desses dois rios, principalmente do Gurupi. Os limites, nessa região, em meados do século XVIII, eram estipulados pela administração colonial do Estado do Maranhão e Grão Pará, que posteriormente foram divididos em duas capitanias.

Essas, no século XIX, tornaram-se, as províncias do Maranhão e Grão-Pará respectivamente. Importa ter em mente que a região do Turiaçu, até 1852 pertencia a jurisdição do Pará, e que após vários anos de conflitos, passou para o Maranhão. O rio Turiaçu, antes limite entre as duas jurisdições, foi substituído pelo rio Gurupi, que passou a ter uma margem pertencente ao Maranhão e outra ao Pará.

69 “Carta de D. João V para o governador do Maranhão”. 13 de junho de 1709. ABNRJ, vol. 67 (1948), pp. 53 e

As fronteiras foram marcadas por intensas disputas, lutas, conflitos e alianças. Grupos indígenas e quilombolas, presentes na região, posteriormente colonos e camponeses estabeleceram ali suas próprias fronteiras. Houve grande mobilização militar para combater os quilombos dessa região, principalmente na segunda metade do século XIX, com abundantes tropas penetrando a floresta nos anos de 1853, 1858, e entre 1863 e 1868. O resultado dessas ofensivas foi a invasão e destruição de mais de 15 quilombos e a captura de quase uma centena de quilombolas, ainda sendo encontradas comunidades camponesas em que residiam inúmeras pessoas, tendo algumas mais de 600 habitantes, estruturadas em vasta rede de comércio e extração de ouro.

Essa região de grande importância econômica, além de boas terras para cultivo, possuía mananciais auríferos. Fernando Carrilho, famoso por combater fugitivos, foi enviado para essa região nos primeiros anos do século XIX; assim como várias expedições contra os quilombos de Turiaçu e Gurupi. Políticas provinciais maranhenses foram organizadas, pois associadas à destruição dos quilombos e à expulsão de indígenas, visavam colonizar a região. Mas em termos geográficos e sócios econômicos, a região já estava ocupada por grupos indígenas e comunidades negras, compostas de camponeses livres, libertos e quilombolas.

Na região do Turiaçu, os grandes mocambos de São Benedito do Céu e São Vicente do Céu foram invadidos, sendo que em fins de 1876 foi preparada mais uma expedição contra o quilombo de São Sebastião (1876-1877) e, posteriormente o de Limoeiro (1878-1879), que foram atacados. Fugindo das tropas, os quilombolas penetravam cada vez mais nas matas, entrando em contato cada vez mais intensos com comunidades indígenas, sendo muita das vezes atacados por esses.

Vale reter que nas expedições contra os mocambos maranhenses do Queimado, do Pacoval e principalmente do São Benedito do Céu, em 1862, o tenente Máximo Fernandes encontrou, entre as casas do mocambo, “uma de oração”70. E que essa: "mereceu toda a

minha atenção e de toda tropa já pelo tamanho, já pela decência com que estava assentado o altar e já finalmente por causa de uma cruz que estava dentro desta, muitas flores, arcos, etc". No local também encontrou "quarenta e seis cachorros", que achou por bem "distribuir

entre os guardas e soldados"71. Importa observar, no relato de máximo Fernandes, a presença de um local no quilombo destinado aos ritos religiosos e o zelo para com a esfera do sagrado.

70ANRJ, IJ1 754, Ofícios de Presidentes de Província (MA)/Ministro da Justiça, Ofício do Tenente Máximo

Fernandes Monteiro enviado para o delegado de Polícia, Raimundo Benedicto Muniz, 22/02/1862. Apud: GOMES, Flávio dos Santos. Africanos e crioulos no campesinato negro do Maranhão oitocentistas. Revista Outros Tempos, São Luís, Volume 8, número 11, 2011, p. 83.

A presença de inúmeros cachorros no local nos remete ao culto de Omolu/Obaluaiê/ Xapanã nas religiões de matrizes africanas e a alguns grupos indígenas, como os Urubus (Kaapor), que atribuíam grande importância a esse animal.

João Manuel da Cunha72, diretor da Colônia Militar do Gurupi e comandante da primeira expedição que invadiu o quilombo de Limoeiro em 1878, mencionou a existência de: [...] 91 casas, em cada uma morando três, quatro e cinco pretos com suas mulheres e filhos, e tem mais duas casas destinadas à oração, a que chamam casas de santos; sendo uma com imagens de Santos, e outra onde encontramos figuras extravagantes feitas de madeira, cabaças com ervas podres e uma porção de pedras de que em tempos muito remotos os indígenas se serviam como machados, as quais a maior parte dos mocambeiros venera com a invocação de Santa Bárbara, porém, não passa tudo isto de uma casa de pajés.73

Nesta descrição acerca do quilombo de Limoeiro, notamos um forte entrelaçamento das culturas negras e indígenas, no que se refere a religiosidade. As “casas de oração”, denominadas “casas de santos”, referência ainda hoje utilizada por praticantes de religiões afroindígenas acentua a longevidade de cultos africanos na região Norte/ Nordeste. Nestas, podemos perceber a presença de “figuras extravagantes feitas de madeiras”, “cabaças com ervas podres” e “uma porção de pedras”, elementos que indicam assentamentos de orixás, voduns, inquices e caboclos, divindades das religiões de matrizes africanas e indígenas. As pedras nos remetem aos otás, de cada divindade, pois cada uma delas possui em seu assento sua pedra de força.

As “cabaças com ervas podres” remetem a conhecimentos tradicionais e práticas da cura do corpo em religiões afroindígenas. Ao preparo de remédios, pois muitas ervas são misturadas e maceradas, deixadas durante um determinado tempo em infusão, lembrando as garrafadas e mesinhas, tão presentes no Norte e Nordeste brasileiro. A “veneração” e “invocação” de Santa Bárbara evidenciam a importância desta santa na religiosidade maranhense, invocada como a chefa dos pajeleiros nos terreiros e rituais de pajelança, rituais também denominados de “brinquedo de Santa Bárbara” e “brinquedo de cura”, revelando entrelaçamentos de saberes e práticas de povos indígenas e africanos que habitaram quilombos e aldeias.

72 APEMA, documentação transcrita. In: ARAÚJO, Mundinha. A Invasão do quilombo Limoeiro. São Luís,

SIOGE, 1998.

73 Relatório de João Manoel da Cunha sobre a primeira invasão do Quilombo Limoeiro, em 24/01/1878. Grifos

O Capitão Feliciano Xavier Freire Júnior, no dia 24 de abril de 1878, às três horas da tarde, no comando de uma força composta por 38 homens, invadiu, em sua segunda expedição, o quilombo de Limoeiro. Esse mocambo, refúgio de várias centenas de negros, localizado nas matas próximo do rio Maracassumé, perto da fronteira do Maranhão com o Pará, já havia sido invadido em janeiro do mesmo ano. No momento da invasão os negros participavam de uma cerimônia comandada por seu líder, Estevão. O Capitão Feliciano diz em seu relatório:

É para notar-se, que ocasião de sitiar-se a ranchada do preto Estevão, estava ele presidindo uma festa de pajés. Formados os calhambolas [quilombolas] em círculo, o preto Bernardo ocupava o centro, e batendo palmas, cantava -- eu já vai no céu, eu já vem do céu -- e os mais faziam coro. Tinha Bernardo na sua volta do céu de fingir-se sonâmbulo e, então, revelar o futuro; porque tudo lhe havia dito Santa Bárbara com quem havia conversado. Durante esta nigromancia, era Bernardo chamado menino do céu74.

A cerimônia realizada pelos quilombolas de Limoeiro, descrita pelo capitão Feliciano com olhar preconceituoso, fala etnocêntrica e utilizando expressões como “fingimento”, em nossa leitura faz ver e sentir cultos de possessão presentes nas religiões afroindígenas. Essa “festa de pajés”, presidida por preto Bernardo, apresenta uma série de elementos rituais como o circulo, o canto, o bater de palmas, o acompanhamento em coro pelos presentes, o transe, métodos de previsão e compreensão do futuro e diálogo com as divindades. A “conversa com Santa Bárbara” mais uma vez retoma a pajelança afroindígena seus ritos de cura e adivinhação, marcando a forte presença desta divindade na encantaria maranhense ou encantaria de Barba Soeira.

A utilização de um termo tupi para falar de cerimônias realizadas em quilombos não deve nos surpreender, pois a referência a pajés e pajelanças, em contexto não-indígena, permite perceber ambiente de trocas, de junção de experiências indígenas e africanas, diversificadas nos quilombos maranhenses. É possível considerar, no caso dos quilombos do Turiaçu-Gurupi, a gestação de uma cultura e religiosidade fortemente marcada pela presença de matrizes culturais africanas e indígenas. Em constantes deslocamentos, extrapolaram o espaço dos quilombos e entraram em viveres de libertos, índios, negros, brancos e diversos setores da sociedade, sofrendo, na Amazônia e nas Américas, reinvenções e reapropriações históricas.

As tentativas não parariam por aí, ao início de cada novo administrador que assumia a província maranhense, novas tropas para atacar os quilombolas eram preparadas. As políticas imperiais pretenderam recuperar, no Gurupi, áreas que estavam sob o controle de negros e índios, que possuíam fortes tradições de lutas. A política provincial do Maranhão, dentre seus inúmeros projetos de colonização, enviou para a região em 1878, retirantes cearenses, que fugiam das secas no Nordeste. O intuito era de estabelecer, no local onde existiu o quilombo de Limoeiro, uma colônia. Tentativa que mais uma vez não obteve êxito.