A Ilha dos Lençóis, que não deve ser confundida com os Lençóis Maranhenses, localizada no arquipélago de Maiaú, litoral do município de Cururupu, lado ocidental da cidade de São Luís, possui área não maior que 900 hectares. Seu solo arenoso forma um campo de dunas de até 35 metros de altura, que se prolonga por quase toda sua extensão até se mesclar com o mangue no lado sudoeste, formando lagoas de águas cristalinas durante a época chuvosa.
Nela residem em torno de 400 habitantes, de uma antiga comunidade de pescadores, originadas de portugueses, que celebram a tradicional Festa de São Sebastião, legítimo padroeiro do lugar. A região é conhecida por ser um “lugar encantado” pelas condições físicas, pela alta concentração de indivíduos albinos e pela cultura gerada da mistura entre lendas dos colonos portugueses com as religiões africanas.
Ao chegar-se à Ilha dos Lençóis, na Ponta do Gino, porta de entrada para as embarcações, os visitantes são admoestados a pedir licença para Dom Sebastião, pois para os nativos da região, a ilha é a moradia deste encantado. Ao entrarmos, depois dos devidos ritos, somos saudados por várias revoadas de garças e guarás e somos envolvidos por uma atmosfera mística:
Afirma-se que as dunas de areia da Ilha dos Lençóis têm semelhanças com o campo de Alcácer-Quibir, onde El Rei Dom Sebastião desapareceu. Lençóis é considerada uma ilha encantada, que serve de morada a Dom Sebastião. Seu reino está oculto no fundo do mar, próximo aquela ilha. O rei vive em seu palácio submerso e seu navio nunca encontra a rota para Portugal. Dizem que nas noites de sexta-feira Dom Sebastião aparece na praia na forma de um touro negro, com uma estrela de ouro na testa. Se alguém conseguir atingir a estrela e ferir o touro, o reino será desencantado, a cidade de São Luís irá submergir e aparecerá uma cidade encantada com os tesouros do rei.16
A lenda, bastante conhecida no Maranhão, faz referência a Dom Sebastião rei português que morreu em 1578, aos 24 anos de idade, nas areias desertas do Marrocos, na esperança de converter mouros em cristãos. Segundo esta, ele não teria morrido naquela
16 Cf. FERRETTI, Sérgio. "Dom Sebastião, o santo e o rei na Encantaria e no folclore maranhense".
Comunicação à mesa redonda: Outras águas, outras lendas, V IFNOPAP, Marajó, 25 de julho a 01 de agosto de 2001.
batalha, mas teria atravessado o Atlântico e se encantado, por sortilégio dos mouros, numa Ilha, no caso, a ilha dos Lençóis, por conta dessa mitogeografia.
Ele desapareceu após ser derrotado na famosa batalha de Alcácer Quibir, e como seu corpo jamais foi encontrado, o sebastianismo se espalhou pelas colônias portuguesas ao redor do mundo. Portugal, após a morte do rei, foi anexado à Espanha e, por conta da crise política, econômica e social, o povo encontrou na idéia do encantamento deste monarca, que regressaria para salvar seus súditos do domínio estrangeiro e restaurar o império português, alento para suas dificuldades. A crença teria, dessa forma, chegado a Ilha dos Lençóis.
A lenda surge em torno de corpo não encontrado, e que, através de um encanto maligno, teria se transformado em animal, que esconde a figura do rei português, um touro negro com uma estrela de ouro na testa. O corpo deste animal/homem precisa ser ferido na testa, ter seu corpo transpassado, mortalmente abatido, para que adoecido possa obter a cura e o restabelecimento de seu corpo primordialmente humano, em processo de cura metamorfoseado pelo desencantamento.
Nesse imaginário, o corpo de Dom Sebastião, mesmo encantado na Ilha, é um constante reprodutor de vida, pois os albinos17 ali nascidos seriam seus filhos, trariam em seus corpos a marca da pertença. Não esquecendo que a estrela ou pentagrama, presente no boi e na bandeira do Marrocos, é um símbolo ancestral ligado a vida, saúde, sabedoria e paz18. Estes elementos remetem ao imaginário das primeiras religiões, de manifestações culturais africanas, indígenas.
Estas concepções se articulam a outros elementos presentes na cultura do Norte e Nordeste, que fazem referência a “Festa do Boi”, o “Boi Surubi”, “Boi-bumbá” ou “Bumba- meu-boi”. Festejos que, em muitas localidades aconteciam, geralmente, no período das festas natalinas, de 24 de dezembro a 6 de janeiro, mas que atualmente ocorrem no período das festas juninas.
17 A respeito da origem dos albinos, também chamados de gázeos, na Ilha dos Lençóis, importa saber que o
povoamento desta começou a partir do ano de 1900, quando pescadores começaram a construir seus ranchos no local, cavando poços e encontrando água doce. Uma das primeiras moradoras era dona Sebastiana Silva, filha de um português com uma albina. Dona Sebastiana teve quatro netas albinas, as primeiras nascidas na Ilha. Casamentos endogâmicos, entre primos, acentuaram o processo de albinismo, que na Ilha é uma referência global. Hoje, cerca de 3% da população de Lençóis é albina.
18 A bandeira do Marrocos, país localizado no extremo noroeste da África, é vermelha com uma estrela verde ao
centro. Até 1915, a bandeira era toda vermelha, assim como a de muitas bandeiras de países árabes na época. Por sugestão dos colonizadores franceses, com o objetivo de diferenciá-la das demais, o pentagrama foi incluído. A estrela, ou pentagrama, chamado de “selo de Salomão” é um símbolo ancestral de vida, saúde, sabedoria e paz. O verde é usado na estrela porque é a cor do Islamismo. O “signo de Salomão” é comumente encontrado em terreiros de Umbanda, Mina, Candomblé e demais religiões afro-brasileiras espalhadas por todo o Brasil.
Não podendo deixar de observar que, na origem dessas manifestações culturais religiosas, concorrem fortes elementos bantu, tendo em vista que, entre quase todos os povos da África Austral, o boi tem uma importância única, estando presente em velhos cultos africanos a animais, a cortejos e ritos religiosos ao boi sagrado19. Na cultura de celebração do boi, estão também mesclados elementos da crença popular católica no boi e no burrinho que auxiliaram e estavam presentes junto ao Menino Jesus ao nascer no humilde estábulo em Belém de Judá.
Na Festa de São Sebastião, realizada no dia 20 de janeiro, a tradição de ocorrer toque de mina nos terreiros, entrando pela noite adentro, é antiga. Nestas cerimônias e cultos, temos a presença de diversas entidades, pertencentes a encantaria, dentre as quais a Família do Lençol20 ou Encantaria de Dom Sebastião. Afirmam que esta mora na praia dos Lençóis, composta de reis e fidalgos, denominados encantados gentis. Algumas dessas entidades estão ligadas às narrativas míticas das Cruzadas e das guerras de Carlos Magno, muito presentes na cultura popular maranhense e nordestina. Seus principais componentes são:
Reis e Rainhas: Dom Sebastião, Dom Manuel, Dom Luís (o rei de França), Dom João Rei das Minas, Dom José Floriano, Dom Henrique, Dom João Soeira, Dom Carlos (filho de Dom Luís), Rainha Bárbara Soeira.
Príncipes e Princesas: João Príncipe de Oliveira, Princesa Rosinha, Príncipe Orias, Princesa Oruana, José Príncipe de Oliveira, Princesa Luzia, Príncipe Alterado, Princesa Flora, Príncipe Gelim, Tóia Jarina, Tói Zezinho de Maramadã, Princesa Clara, Princesa Linda do Mar, Boço Lauro das Mercês, Dona Maria Antônia, Princesa Barra do Dia, Moça Fina de Otá, Menina do Caído; Princesa Iná, Princesa Jandira e Sebastiãozinho (supostos filhos de Dom Sebastião).
Nobres: Duque Marquês de Pombal, Barão de Guaré, Ricardinho Rei do Mar, Barão de Anapoli. Os encantados femininos da Família do Lençol utilizam as cores azul e branco, enquanto que os masculinos usam o vermelho.
Lençóis guarda muitos segredos, os nativos mais antigos dizem que devido a grande movimentação de pessoas e barulho na Ilha, El Rei Dom Sebastião já se mudou de Lençóis para lugares mais ermos do arquipélago, no qual a Ilha encantada se insere. Essa opinião não é homogênea entre os nativos, gerando opiniões diversas na comunidade. Um dos líderes religiosos que se manifesta a respeito é o curador/pai-de-santo Zé Mário que afirma:
19 Sobre A Congada, Reisado, Maracatu, Boi-bumbá, ver: LOPES, Ney. Bantos, Malês e Identidade Negra. Belo
Horizonte: Autêntica, 2006, pp. 189-208.
Isto tudo aqui é uma coisa só. No mundo do fundo isto aqui está interligado, e Dom Sebastião pode até ter se mudado para mais longe, mas tudo aqui é encantado, e ele continua olhando sua Ilha. A filha dele, a princesa Jarina, por exemplo, fica aqui o tempo todo.21
O depoimento de Zé Mário faz perceber que as narrativas em torno da lenda vão sendo constantemente reelaboradas, de acordo com as circunstâncias. Demonstra também a crença na presença da Encantaria da Família do Lençol, representado na fala de Zé Mário pela Princesa Jarina, concebida enquanto filha de Dom Sebastião. O Encantado Jarina é bastante presente em diversos locais de encantaria no estado do Pará e em terreiros do Ceará, Pará, São Paulo e inúmeros espalhados por todo o Brasil. Outro ponto de discussão entre os mineiros e curadores cururupuenses é acerca da vinda do Rei Dom Sebastião no corpo de uma sacerdotisa. Para muitos deles isso não ocorre, para outros isso é muito raro, alguns falam que isso ocorre de sete em sete anos.
Como na Ilha dos Lençóis, diversos outros locais são considerados pelos cururupuenses como morada de encantados, especialmente a mãe d‟água e o Curupira, que são encantados da mata. Muitas pessoas, por desconhecimento ou descuido, invadem os lugares que servem de abrigo para essas entidades sem pedir as devidas licenças ou em horários impróprios. Como consequência pelo desrespeito, podem ser por eles molestados que costumam frechar o intruso através de uma espécie de dardo mágico que produz uma dor intensa, resultando no aparecimento de doenças. Além da frechada, apenas um dos muitos problemas que não podem ser tratados pelos médicos convencionais, há muitas enfermidades, moléstias, perturbações, provocadas por feitiçaria, espírito de mortos e encantados que só podem ser tratadas e curadas pelos curadores ou pajés.
O contato com o Sebastianismo e a cura na Ilha dos Lençóis, o conhecimento da lenda do rei transformado em touro, e a encantaria dele proveniente, assim como sua mitogeografia e vivência religiosa mágico-curativa motivam a prosseguir navegando. A singrar pelo interior e litoral, entre águas salgadas e doces, entre mares, rios, igarapés e lagoas, procurando descobrir e compreender a rica encantaria paraense.
21 Cf. Paulo Melo Sousa. Festa de São Sebastião na Ilha dos Lençóis. Jornal Pequeno, Edição 21, 451. Ano 56 –