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O mundo não é um objeto colocado diante de um sujeito, é fruto de uma relação social dos agentes entre si e com a realidade. Portanto a compreensão do real não é uma consciência conhecedora, mas um senso prático derivado de um sistema cognitivo empírico do ser social, o que faz com que a construção de um modelo teórico epistemológico e metodológico deva ser capaz de identificar os fatos sociais e de explicá-los diante da dinâmica da realidade onde estão inseridos.

Há uma interação fenomenológica do fato social pela teoria do conhecimento social130, com o auxilio das categorias (trajetórias tecnológicas, técnicas, espaço-lugar, habitus,

130 Conformou-se um modelo teórico do conhecimento do fato social através da elaboração do

governança institucional etc.), para interpretação do processo empírico. Pela operacionalização metodológica estes postulados teóricos são apropriados na análise da realidade na sua diversidade estrutural, como representação dos fatos sociais, por meio das relações produtivas e da rede de relacionamentos dos atores sociais.

O esquema teórico aqui apresentado utiliza o método hipotético dedutivo, tendo no espaço-lugar o elemento de objetivação da ação dos agentes sociais e as trajetórias tecnológicas, como elementos mais visíveis das alterações socioespaciais, as ferramentas condutoras do processo investigativo, integrando na análise de suas dinâmicas as demais categorias para conquistar, construir e constatar os fatos sociais.

Este procedimento teórico metodológico visa a possibilitar que a análise: a) das alterações no espaço-lugar sejam estudadas por dentro do fato social objetivado que lhe deu origem; b) dos fatos sociais estabelecidos sejam realizados pela identificação e qualificação das trajetórias tecnológicas; c) da qualificação dos agentes ocorra, por meio da representação simbólica do habitus, da composição do capital simbólico e das redes institucionais que constituem entre si, tanto na estrutura social produtiva, quando na reprodutiva; d) de como a capacidade das governanças institucionais em coordenar arranjos institucionais interferem na dinâmica das trajetórias e; e) da interação do sistema de objetos naturais e artificiais e as técnicas usadas na sua transformação com o sistema de disposições que motivam o agente a agir.

O esquema teórico visa correlacionar todos esses aspectos entre si e com a dinâmica das relações sociais, estruturas estruturadas e estruturas estruturantes, que interferem nas alterações de um espaço-lugar, como síntese de uma conformação física, social, econômica e cultural apropriadas em um dado momento da história. Por intermédio de eventos sociais, como elementos propulsores da dinâmica da trajetória de estrutura estruturante, observa-se como interagem com as trajetórias tecnológicas da estrutura estruturada.

Através das demonstrações esquemáticas das relações existentes entre estrutura e indivíduos (seres sociais), concretizados pelas suas ações, objetivados pela integração de dois sistemas: de um lado, o sistema de disposições (ser e fazer) e, de outro, o sistema de objetos (naturais e artificiais) a dinâmica social é apresentada. Esta interação do sistema de disposições (o habitus e os recursos disponíveis) com o sistema de objetos (relação entre o

senso prático, espaço social, e campos social de Bourdieu (2001,2011c); na concepção de espaço como método e sistema de objetos de Milton Santos (2012a); e nas contribuições sobre a dinâmica e a qualificação das trajetórias tecnológicas de Dosi (1982), Arthur (1989) e Costa (2012a;b;d).

meio natural e o meio artificial pelo processo social técnico). Esses dois sistemas (objetos e disposições) são mediados pela governança institucional, os quais se efetivam no espaço- lugar.

Há um triplo movimento (sistema de objetos, sistema de disposições e governança institucional) que se expressa na conformação das trajetórias tecnológicas que, por meio das ações, atuam na configuração do espaço-lugar, um espaço dual apropriado física e socialmente.

O sistema de disposições131 é o conjunto de motivações para ser ou fazer que decorrem do senso prático em situações subjetivas e objetivas. Essas propensões, que podem, ou não, efetivar-se em ações, são determinadas pela realidade dada e pela experiência vivida, o habitus, formando uma relação sistêmica entre desejos, necessidades e possibilidades de cada agente no mundo em que está inserido. Portanto o sistema de disposições é fruto das esperanças e das oportunidades. A decisão é mediada pelo interesse subjetivo e pela capacidade objetiva de se realizar. Dois componentes estão associados: a) o habitus, como experiência vivida, incorporada à percepção subjetiva do ser; b) os recursos disponíveis, como esfera objetiva da representação do capital simbólico (econômico, cultural e social), que abrange a capacidade física, intelectual, relacional, financeira etc. já acumulada ou que pode vir a ser adquirida.

O sistema de objetos baseia-se na teoria de Milton Santos (2008; 2012a). Aqui é definido como uma relação social em que os objetos naturais e artificiais interagem com os agentes, pela intermediação de distintos processos técnicos que levam a interação entre os circuitos superiores e os inferiores que se objetiva nas ações dos agentes. Partindo deste entendimento, os objetos são incorporados como sistema, fruto da relação entre os agentes e o meio, relação que é mediada pela técnica. Ganham, assim, um papel de relevância as técnicas,

131 O sistema de disposições de Bourdieu define as motivações do agente para agir dentro de uma

relação de desejos e de possibilidades. A propensão do agente para ser ou fazer deriva do senso prático da sua vida cotidiana, do seu habitus, da sua visão do mundo (desejos) e das relações sociais concretas que o cercam (possibilidades). A posição de Bourdieu diferencia-se do modelo weberiano, que se restringe à percepção subjetiva do sujeito. O conceito de sistema de disposições aqui proposto parte da noção de Senso Prático de Bourdieu (2001, 2011c) que incorpora a realidade objetiva na qual se insere o agente, ao mesmo tempo em que busca incluir de forma mais explícita a capacidade que o agente pode ter de usar os recursos tangíveis e intangíveis disponíveis em uma situação dada ou influir em situações futuras. O sistema de disposições passa a ser entendido não somente como algo retroativo, também como prospectivo, sem cair no dogma cognitivo de uma falsa consciência. Conforme crítica de Jessé Souza, é possível reunir o refletido e o não refletido. ―Afinal, se existe algo que possa ser articulado é porque existe algo para além do puro habitus irrefletido. Por conta disso, a ausência dessa dimensão na reflexão de Bourdieu faz com que a contraposição em relação à ‗grande ilusão‘ do jogo social só seja possível reativamente, sem o questionamento das regras do jogo enquanto tais‖ (SOUZA, 2012, p. 86).

definidas como um conjunto de meios instrumentais pelos quais os agentes, ao mesmo tempo, alteram o espaço e realizam suas vidas. Mas a transformação do espaço é feita não pela técnica em si, mas por um conjunto social que cria uma estrita correlação entre o tempo histórico, o espaço, as relações de trabalho, a experiência vivida (habitus) e as mudanças tecnológicas. Dessa forma, a técnica não aparece isoladamente, faz parte de um processo (social) técnico. Isso faz com que o sistema de objetos (naturais e sociais) seja compreendido como fruto das relações sociais. Como as práticas influem nas técnicas e nas atividades sociais, os objetos não se restringem ao seu significado paisagístico, pois, quando são incorporados ao processo relacional que os constitui, adquirem a conformação de um sistema social.

A governança institucional, conforme já foi apresentada no capitulo anterior, é a capacidade de influenciar um arranjo institucional como representação aglutinativa de distintas instituições que, por meio de regras formais e informais, influenciam as relações dos agentes e da estrutura. As instituições têm um peso significativo na dinâmica das relações sociais, interferem no sistema de disposições e de objetos, na dinâmica das trajetórias tecnologias, e como representações simbólicas legitimadas pelo senso prático dos agentes são estruturas sociais que tendem a serem relativamente estáveis.

Como elementos dinâmicos do sistema de disposições, sistema de objetos e governança institucional; o habitus, a técnica e as instituições, respectivamente, interagem entre si, por meio das relações sociais, em um locus concreto.

O lugar assume um importante papel no modelo teórico. O foco da análise tem o espaço como método. Através do conceito de espaço-lugar resgata a dimensão sociológica do espaço, representando a síntese do global e do local, da estrutura estruturada e da estrutura estruturante, a interação entre subjetividade e objetividade, endógena e exógena. O que faz do espaço a categoria síntese desta integração entre o ser e o vir-a-ser, como peças indissociáveis e complementares do mesmo cenário. Tudo caracterizado como locus dos fatos sociais nas suas mais diversas variáveis: sociais, econômicas, políticas, culturais e geográficas. A análise das dinâmicas das trajetórias como mecanismo interpretativo das relações sociais - na

interface entre os agentes e a estrutura, o local e global - enquanto reconfiguração do espaço- lugarem que estão inseridos (Figura3).

Figura 3- Fluxo do modelo teórico

Na entrada do fluxo do modelo teórico, encontra-se a trajetória tecnológica estruturante, como um elemento visível, objetivo, propulsor das mudanças, que deixa de ser real-abstrato para real-concreto. A trajetória estruturante defronta-se com as trajetórias tecnológicas já existentes, estruturadas, a expressão desta disputa entre estas diferentes dinâmicas objetivam-se pelas suas ações, a realidade estruturada é confrontada com forças estruturantes.

A trajetória estruturante interage com as trajetórias estruturadas. Proporcionando novas interações de eventos que, por sua vez, levam a um novo reposicionamento das trajetórias tecnológicas, agora, já como trajetórias (r)estruturadas. Pelo movimento das trajetórias podem-se identificar as constantes a (re)organização do espaço-lugar. As trajetórias tecnológicas (estruturantes e estruturadas) constituem-se ferramentas qualificadoras da dinâmica espacial.

Ao se efetivarem pela ação, as trajetórias passam a alterar a dinâmica de quem a produz (os agentes) e onde ocorrem (espaço-lugar). Pela ação – quem, como, quando e por que agiu – possibilita a compreensão objetiva de como se forma a dualidade espacial e as relações sociais que delas derivam. A solução apresentada como elemento metodológico é identificar por dentro das trajetórias tecnológicas que as praticam (agentes) e onde ocorrem (espaço-lugar).

Pelas ações é possível qualificar os agentes e suas relações sociais de poder e, o papel que desempenham nas disputas institucionais que, por sua vez fazem com que as trajetórias tecnológicas sejam também qualificadas. Com o auxilio da técnica, do habitus e das governanças institucionais as trajetórias tecnológicas são interpretadas a partir de quem pratica a ação (agente) e onde esta se efetiva (espaço). Esses três elementos (a técnica, o habitus e as governanças institucionais) por possuírem ao mesmo tempo categorias internas e externas, são capazes de assimilar as coerências (internas e externas) do espaço-lugar e, quando analisados de forma integrada, permitem uma abordagem objetiva e subjetiva da dinâmica das relações sociais. Pela técnica (tácita e explícita) são caracterizadas as relações das diferentes formas produtivas; pelos habitus (primários e secundários) através dos aspectos culturais da experiência vivida; pelas governanças institucionais (regras formais e informais) que formam o ambiente social e as esferas de poder.

Portanto a técnica, o habitus e as governanças institucionais são compreendidos pelos seus efeitos, percebidos no espaço onde se efetivam, nas trajetórias tecnológicas132.