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2.3 Network

2.3.2 Scalability Issues

Decerto que a relação entre vários agentes, objetos e instituições, dentro do mesmo espaço-lugar, historicamente delimitado94, afeta o sistema de disposições dos agentes para agir. Mas o que leva a incidir, em um dado momento, na protrusão de fatores (objetivos e subjetivos) que acabam influenciando as decisões dos agentes para optar entre as trajetórias tecnológicas? E como ocorrem os eventos para que garantam, ao longo do tempo, que seja estabelecida a dependência da trajetória?

93 Para Costa (2009b, p. 229), uma trajetória é formada pela ―articulação processada por agentes

orientados por racionalidade semelhantes, entre padrões produtivos e razões reprodutivas, expressas em heurísticas que se materializam em combinações particulares de meios e produtos. A diversidade de formas técnicas (combinação de meios) e de formas de participação na divisão social do trabalho (combinação de produtos) que diferencia as trajetórias depende das dotações naturais e institucionais que marcam as bases territoriais locais sobre as quais evoluem e dos nexos (que se conformam com a mediação destacada do mercado) que as vinculam a territorialidades mais amplas, nacionais e mundiais (cadeias de produção e troca)‖.

94 A referência temporal é um elemento importante, mas a variável histórica é uma dimensão

relacional. Quando se usa o conceito de dependência da trajetória, a fim de evitar definições por periodizações com categorias abstratas, deve-se especificar os agentes, as sequências de eventos e os momentos críticos de que participam, relacionando-os com a indicação da temporalidade.

A fim de entender em que circunstâncias e por que motivos ocorrem a dependência da trajetória, dois elementos devem ser considerados: a) o momento crítico, que está relacionado com a tomada de decisão inicial; b) a sequência de eventos, em que acontecimentos aleatórios favorecem a existência de um processo de autorreforço no curso da trajetória.

a) Momento crítico

Evolução significa uma mudança permanente, o tempo é irreversível, a história acontece e não ―desacontece‖, as consequências de um evento não podem ser desfeitas, não é possível voltar atrás e anular o fato que originou a cadeia subsequente. Dependência da trajetória não é sinônimo de fatalidade, ou de predestinação, muito menos de inevitabilidade. Trata-se de uma questão não determinística, uma relação estocástica que relaciona o passado com o futuro, o que significa dizer que as condições iniciais estão a variar continuamente, de tal forma que um processo evolutivo pode até romper a relativa estabilidade unidimensional exibida durante longo período de tempo na explicação da presunção do caos. Ilya Prigogine (2002), na sua teoria da complexidade, demonstra a evolução de sistemas não lineares, identificando a existência de pontos de bifurcação. A imprevisibilidade de comportamento e a grande sensibilidade a pequenas variações nas condições iniciais de um sistema dinâmico podem ser aplicadas à análise das formas evolutivas de uma trajetória.

A tomada de decisão, embora tenha um caráter aleatório, ocorre em uma estrutura estruturada pelo passado, que se conforma no espaço apropriado, por um ambiente institucional, social, cultural e historicamente constituído. Portanto, as decisões não se fazem no abstrato. Quando há mais de uma alternativa, a decisão de optar por uma trajetória tecnológica é tomada após a seleção de variáveis de elementos concretos (objetivos e subjetivos) num dado momento, que derivam de eventos que antecederam a escolha. Essas condições antecedentes formam o contexto no qual se instala o momento crítico. O movimento crítico é uma força estruturante, que atua na integração das relações sociais95, em uma estrutura estruturada. Há uma síntese relacional entre condições antecedentes, momento crítico e eventos de contingências, que faz com que a mudança seja fruto dessa dinâmica estrutura estruturada e estrutura estruturante, que pode acontecer de uma forma abrupta ou por um lento processo.

95 As relações sociais são fruto da relação entre os agentes (subjetividade) e a estrutura (objetividade),

que resultam da combinação do sistema de objetos (naturais e artificiais, mediados pela técnica) com o sistema de disposições (condições estruturadas e disposições de ser e fazer, pelo habitus) que interagem em um ambiente institucional, objetivados na ação, em um dado momento, num espaço- lugar apropriado.

Como a estrutura estruturada é a representação de um dado momento do acúmulo da correlação de forças das relações sociais existentes, o que gera um ambiente social entre as instituições e os padrões tecnológicos já constituídos, as mudanças diante de um momento crítico96 tendem a ocorrer pelo impacto inicial resultante do choque de forças externas com a participação de agentes exógenos97. Esse impacto de uma nova ação estruturante não acontece de forma mecânica, é relativizado por um duplo movimento: na dinâmica dos ambientes institucionais e tecnológicos, do global e do local.

As ações iniciais que se efetivam no momento crítico configuram um rearranjo das forças políticas, sociais, culturais e econômicas e são por ele configuradas, estabelecendo novos parâmetros para o ambiente técnico e institucional. As decisões atuam como força estruturante e desestabilizam a trajetória existente; ao mesmo tempo mobilizam novos elementos que provocam a bifurcação da trajetória. Isso gera um legado tecnológico e institucional que leva a uma nova situação de continuidade, mas com rumos diferenciados a trilhar. A nova escolha distancia-se das condições iniciais, dificultando e, eventualmente, inviabilizando o retorno às situações antecedentes.

Após o momento crítico, a escolha provoca, ao longo do tempo, alterações que passam a moldar a trajetória por meio de um conjunto de eventos que, por sua vez, desencadeiam outros conjuntos de eventos, imprevisíveis, com resultados diferentes dos pretendidos no momento inicial, quando da intervenção no momento crítico. A dependência da trajetória não se encerra no momento crítico; antes, inicia-se. No seu curso, ocorrem outros eventos aleatórios, formando uma sequência de autorreforço da trajetória.

b) Sequência de eventos

A trajetória, pela ação de eventos aleatórios, ao longo do tempo, agrupa um conjunto de forças que interagem dentro do ambiente institucional e na conformação tecnológica. Esse ambiente favorável ao desenvolvimento a uma trajetória tecnológica gera consequências futuras98, fazendo desta trajetória um polo de atração de novos eventos, cujos efeitos tendem a acumular-se. Como os recursos e os insumos são os mesmos, o movimento que potencializa

96 O uso do conceito do momento crítico na análise do desenvolvimento das trajetórias engloba

variáveis políticas e econômicas. A este conceito o presente texto acrescenta a noção de dualidade do espaço: físico e social, ação homogeneizadora (externa) e ação local (interna), conformando-se dentro da síntese sócio, econômico e cultural que é o do espaço-lugar.

97 Pode-se evocar aqui o conceito de Milton Santos (2008, p. 40): agentes e dinâmicas em um circuito

superior moderno, extrarregional, constituído por bancos, comércio e indústria de exportação, indústria urbana moderna, serviços modernos atacadistas e transportadores.

98 Como não existe um determinismo sobre o futuro, as consequências não seguem necessariamente

uma trajetória acaba restringindo o acesso às demais. Quando uma trajetória alcança sucesso, mostrando-se mais vantajosa ou uma alternativa possível, os agentes sentem-se incentivados a voltar-se para ela ou a continuar trilhando em sua direção, tendo em vista seus retornos crescentes. Com o acúmulo de retornos crescentes, forma-se um círculo de atividades, no sentido de existência de complementaridade, como indica Page (2006), entre os resultados que levariam ao reforço de uma trajetória. No futuro, pelo alto custo já internalizado em capital simbólico, seria criada uma barreira, que inviabilizaria a troca do padrão utilizado, conforme Arrow (2000). Decerto que não existe um único fator responsável; de fato, há um conjunto de eventos que se encadeiam, formando uma governança institucional e bases tecnológicas favoráveis ao desenvolvimento de uma trajetória em detrimento de outras.

Essa sequência de eventos não segue uma relação determinista e linear de causalidade, mas acaba por influenciar o caminho a ser seguido e atua na reorganização do espaço-lugar (social e fisicamente objetivados). A trajetória tecnológica que se destaca acaba por criar movimentos de autorreforço, o que dificulta a seleção por opções alternativas que estejam fora do padrão institucional, estabelecido como vitorioso. Esses eventos que induzem outros estão inseridos na relação social dialética que cotidianamente sofre alterações por causa da síntese da correlação de forças e das condições estruturais que se instalam.

Dessa forma, fazem com que, na disputa espacial, a consolidação de uma trajetória diminua a possibilidade de crescimento de capital simbólico de outra, por consequência reduz a capacidade atrativa para buscar uma alternativa social para contrapor-se. O capital simbólico é distribuído no conjunto das trajetórias tecnológicas estabelecidas. Aquelas com maior quantidade de capital simbólico (social, econômico, cultural) têm maior capacidade de governança, consegue atrair eventos a seu favor, o que possibilita que seu crescimento seja superior. A dependência da trajetória não determina necessariamente o colapso imediato de outras alternativas, que só acontece no lock in, quando as bases objetivas e subjetivas de uma trajetória não são capazes de conseguir sua reprodução99.

As trajetórias tecnológicas, em sua evolução, tendem a buscar rendimentos crescentes, não necessariamente econômicos, mas como capital simbólico acumulado, no futuro, pode se transformar em ganhos financeiros, por exemplo. A conformação do arranjo social do

99 Uma tarefa efetiva das instituições públicas seria a criação de políticas públicas que favorecessem o

ambiente institucional e tecnológico de trajetórias sustentáveis concorrentes, para reduzir a probabilidade de que uma única trajetória seja vencedora e sufoque as demais.

espaço100 desempenha um papel decisivo no sucesso ou no fracasso de uma trajetória, o que faz com que as ações estratégicas capitaneadas pelas formas institucionais do Estado101 tenham um peso decisivo na correlação de forças sociais para o sucesso no desempenho da governança institucional em pro da trajetória vitoriosa. A organização de um ambiente institucional e tecnológico permite que os agentes ajam em momentos de descontinuidade, tentando evitar ou aprofundar o quadro em que o sistema de objetos fica aprisionado numa trajetória tecnológica e institucional de evolução não desejável para um projeto de uma sociedade sustentável102. A conformação de um ambiente institucional que possibilita uma sequência de eventos, tanto combatendo as consequências aparentes de uma trajetória não desejada, por processos de comando e controle; como criando mecanismos sociais, em seus diversos aspectos (econômico, creditício, tecnológico, politico, e etc.), de apoio às trajetórias que deseja reforçar, a fim de favorecê-las no sistema de concorrência entre as trajetórias.

Há uma estreita relação entre o momento crítico e as especificidades da sequência dos eventos na conformação das trajetórias. As dinâmicas das trajetórias tecnológicas podem ser utilizadas como modelos interpretativos das condições antecedentes e futuras do espaço-lugar onde se instalam (Figura 1). O ponto de bifurcação das trajetórias – por exemplo, a trajetória C passa a ser C‘ e também C‘‘ – e as atividades contingentes são elementos que formam a explicitação sistêmica de uma dada realidade, por meio da dinâmica da disputa entre as trajetórias. A estrutura estruturada (EE) defronta-se com a estrutura estruturante e reorganiza- se novamente em uma nova estrutura estruturada (EE‘), em um processo contínuo movido pelas relações sociais, inseridas dialeticamente em um ambiente institucional.

100 O ambiente institucional e tecnológico tem um papel importante na disputa entre trajetórias. Os

processos tendem a ser estáveis, mas não imutáveis. A existência de dependência da trajetória não significa a impossibilidade de constituir-se outra ação estratégica alternativa, porém a dificuldade advém da incerteza quanto ao resultado exitoso da nova atuação pretendida.

101 As instituições públicas abrangem diversas esferas, suas atividades vão desde a normatização legal,

passando pelo apoio creditício e infraestrutura, até o desenvolvimento tecnológico.

102 A importância do posicionamento institucional foi demonstrada por Costa (2012) no estudo sobre a

carteira de empréstimos dos recursos do Fundo Constitucional do Norte (FNO), no período de 1990 a 2000. Costa analisou a distribuição dos incentivos financeiros públicos (FNO) para o atendimento de demandas de uma trajetória não desejável T4 (trajetória baseada na produção da pecuária empresarial de corte). Em seguida, ocorreu uma redistribuição do crédito, beneficiando as trajetórias camponesas, em especial a T2 (trajetória vinculada à produção extrativista), durante um breve período, e novamente o crédito foi redirecionado para favorecer a T4. O referido estudo demonstra o papel da ação das organizações que podem apoiar ou fazer regredir as trajetórias, principalmente podendo ser o elemento decisivo para impedir a prevalência total de uma trajetória não desejável sobre as demais, o que tem fortes implicações na diversidade estrutural e na dinâmica evolucionária do agrário na Amazônia.

Figura 2 - Dinâmica das Trajetórias (Estrutura Estruturada, Estrutura Estruturante, Nova Estrutura

Estruturada).

Fonte: Elaborada pelo autor (2017).

A análise do momento crítico e das especificidades da sequência dos eventos serve para explicar a alteração e a reconfiguração espacial, detalhando a compreensão dos movimentos de disputa na relação entre agentes e estrutura. A dinâmica que envolve a dependência da trajetória não é uma evolução desassociada da realidade que a compõe e nem de sua historia.

As trajetórias se desenvolvem, assim, em concorrência para apropriação de meios, tangíveis e intangíveis, e realização dos fins sociais e privados que as constrangem e orientam. Da apropriação de meios tangíveis faz parte o acesso ao capital natural, que pressupõe o controle sobre os fundamentos – naturais dos territórios – mediante relações de apropriação, formalmente legítimas ou não, e o acesso a capital físico, mediado por capital dinheiro, de empréstimo ou não. Da apropriação dos meios intangíveis faz parte o acesso a conhecimentos e informações institucionalmente mediados, seja pelo ambiente cultural que detém os saberes tácitos sobre as especificidades locais, seja pelo ambiente laboratorial das organizações de produção e distribuição do conhecimento técnico e de gestão dos processos produtivos, seja, ainda, por interfaces entre aquelas e estas, organizadas na forma de assistência técnica, extensão ou fomento rural, governamental ou não (COSTA, 2009b, p. 229).

Para sua compreensão é necessário a qualificação dos mecanismos específicos da condição antecedente, que produzem a conformação inicial das instituições e das tecnologias que interagem com o objeto. Essa condição anterior se dá pela identificação dos agentes

(indivíduos e organizações); das instituições (formais e informais); da capacidade de governança (gestão sobre os arranjos institucionais), dos padrões tecnológicos (a técnica entendida como relação social) e de suas representações simbólicas (capital simbólico e cognitivo); como elementos heterogêneos e contraditórios que compõem a dinâmica entre estrutura estruturada e as ações estruturantes. Esmiuçando-se, assim, o que normalmente é universalizado, o que normalmente se esconde na obscuridade de um retrato simplificador de dominação de forças exógenas homogeneizadoras que subjugam forças endógenas heterogêneas. Não basta, para entender as trajetórias tecnológicas, apenas identificá-las; é preciso explicar a sua composição, as diferentes combinações particulares de meios e produtos, a diversidade de formas técnicas e de relações sociais dos agentes e, principalmente, como se objetivam espacialmente.