• No results found

Optimum traversal rate

A relação da epistemologia com a metodologia não se limita à lógica da prova:

Diferentemente da tradição que se limita à lógica da prova, não consentindo por princípio entrar nos arcanos da invenção e que, assim, fica condenada a oscilar entre uma retórica da exposição formal e uma psicologia literária da descoberta, gostaríamos de fornecer os meios de adquirir uma disposição mental que é a condição, tanto da invenção quanto da prova (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 15).

Bourdieu; Chamboredon e Passeron (2010)rompem com as correntes tradicionais que fazem com que a metodologia seja submissa a um programa conceitual que excluí da pesquisa a reflexão sobre si mesma como condição de existência. A vigilância epistemologia se traduz na possibilidade de verificar a coerência da metodologia e a teoria do conhecimento referenciada.

O conhecimento das ferramentas técnicas do método por si só não é condição suficiente para definir como correto um procedimento metodológico a ser aplicado na organização dos dados (captura e análise) para explicitar o conteúdo do objeto. Para conceber uma metodologia das ciências da humanidade, distinta da ciência da natureza, que os seguidores do positivismo sociológico esforçam-se por imitar, os fatos sociais devem ser tratados em sua diversidade, como diferentes relações sociais que são sínteses de formas objetivas e subjetivas, que não são redutíveis aos métodos rigorosos da ciência natural. Os fatos sociais não podem ser definidos pela percepção externa do pesquisador; devem ser definidos a partir da interação entre sistemas de disposições do pesquisador e o objeto pesquisado. Daí a necessidade de uma vigilância crítica subjetivista da objetividade.

É preciso superar a tentação de indicar o que é verdadeiro ou o que é falso, para tentar alcançar um conhecimento mais verdadeiro e analisar os eventos concretos e sua relação na atividade científica. Neste sentido, para Bourdieu, Chamboredon e Passeron (2010), manter

uma vigilância epistemológica significa submeter a prática científica à sua própria reflexão, o que faz com que a análise científica seja um processo contínuo de se (re)fazer.

A manutenção constante de uma vigilância epistemológica é um dos princípios da teoria do conhecimento social, a fim de garantir que a análise dos fatos sociais mantenha, simultaneamente, a coerência teórica e a fidelidade ao real, rompendo com as oscilações das correntes sociológicas tradicionais120, que oscilam ―entre a ‗teoria social‘ sem fundamentos empíricos e a empiria sem orientação teórica, entre a temeridade sem riscos do intuicionismo e a minúcia sem exigências do positivismo‖ (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 86).

As análises empíricas acabam tornando-se rituais normativos - valorando mais os cálculos de inconformidades - para legitimar ―cientificamente‖ a pesquisa, do que investigar se os procedimentos a serem utilizados fornecerão informações capazes de explicar a realidade. Assim, a tendência de concentrar a atenção da pesquisa nos controles formais dos processos e nos conceitos operatórios da análise pode ter como consequência o esvaziamento da reflexão sobre as condições teóricas prévias. O questionamento da própria utilização do método, acaba ficando em segundo plano, não procurando demonstrar como as ferramentas técnicas de coleta de dados interligam-se com a teoria. ―A simples referência à prova experimental não passa de uma tautologia, enquanto não for acompanhada por uma explicação dos pressupostos teóricos que servem de base a uma verdadeira experimentação‖ (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 22).

Portanto as relações sociais são mais do que caracterizações de indivíduos. Não é possível transformar as relações objetivas e reduzi-las às representações de uma relação pessoal de indivíduo a indivíduo. A formação epistemológica das ciências humanas deve buscar a vigilância para preservar uma teoria do conhecimento social, em que a descrição da

120 Nos anos 50, a tentativa de conciliar a pesquisa empírica com a teoria levou a sociologia tradicional

a queimar etapas na pesquisa. Para obter o reconhecimento científico perante a comunidade acadêmica, a pesquisa sociológica organizou-se em etapas, adotando o uso constante de técnicas estatísticas, como os cálculos matriciais ou grafos. A análise sociológica mundial é influenciada pela escola americana, que altera o conteúdo e a forma da pesquisa, em especial a apresentação dos resultados das pesquisas. Com a divisão técnica da organização profissional do sociólogo, a produção sociológica fragmentou-se em pequenas monografias empíricas ou publicações de text books, tendo em vista a concorrência acadêmica nas organizações universitárias. A esses fatos, soma-se a profissionalização da pesquisa, que passa a impor uma procedência, como nas ciências da natureza. ―Vê-se que tudo leva a favorecer a dicotomia entre empirismo cego e a teoria sem controle, a magia formalista e o ritual dos atos subalternos da pesquisa. [...] Vê-se que pode ser útil tratar, por decisão de método, as profissões de fé epistemológicas como se fossem ideologias profissionais que visam, em última análise, justificar não tanto a ciência, mas o pesquisador; não tanto a prática real, mas os limites impostos à prática pela posição e passado do pesquisador.‖ (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 90-91).

subjetividade seja objetivada. Objetivar a subjetividade significa dizer que a subjetividade deva ser percebida pela interiorização da objetividade em que os fatos sociais estão inseridos. O que leva a concluir que a explicação do fato social deve levar em conta tanto a formação subjetiva dos agentes, como também as relações objetivas nas quais eles estão envolvidos:

[Cabe à sociologia construir] o sistema de relações sociais que englobe, não só o sentido objetivo das condutas organizadas segundo regularidades mensuráveis, mas também as relações singulares que os sujeitos mantêm com as condições objetivas de sua existência e com o sentido objetivo de suas condutas (BOURDIEU, 1965, p. 18-20 apud BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 29).

A abordagem epistemológica envolve a interação sistêmica das subjetividades do agente com as objetividades da estrutura, o que significa que as formações metodológicas não podem ser eternizadas, o social deve ser explicado pelo social.

Não se deve buscar a verdade nos dados que ressaltam as diferenças e semelhanças que mostram o homem social em uma universalidade. Com efeito, a sedução da explicação genérica leva a criar associações com os modelos preestabelecidos numa dada corrente de pensamento ou a transferir esquemas explicativos válidos no plano global para o plano de pequenos grupos, ou vice-versa. Da mesma forma, não se deve negar a capacidade interpretativa da teoria social para entender o fato social analisado. ―Sem dúvida, o rigor científico não nos obriga a renunciar a todos os esquemas analógicos de explicação ou compreensão‖ (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 35).

Elaborar uma teoria social do conhecimento significa construir uma identidade epistemológica que tenha capacidade de explicar os fatos sociais, em vez de adotar, de forma ingênua, os gestos metodológicos da prática de outras ciências121. O desafio de uma teoria do conhecimento é ir além das teorias sociológicas tradicionais que se fazem representar por um conjunto de leis experimentais que tentam justificar as contradições, as incoerências ou as lacunas das relações sociais. O sistema metodológico da representação sociológica positivista só alcança os fatos sociais por generalidades, por meio de padrões, ou explicando o fato não explicável pelo padrão estabelecido, como algo fora da curva, portando algo a ser desconsiderado na pesquisa.

121Bachelar, segundo Bourdieu, Chamboredon e Passeron (2010, p. 36), mostra que ―a máquina de

costura só foi inventada quando as pessoas deixaram de imitar os gestos da costureira‖. A sociologia deveria inspirar-se em uma justa representação da epistemologia das ciências naturais para verificar se está construindo verdadeiramente sua própria forma teórica de experimentação – a sua máquina de costura (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 36).

A realidade, como produto do pensamento, deve ser concebida como um concreto pensado. Os fatos sociais são construídos por uma lógica mental e tornam-se fatos científicos. A capacidade elucidativa da realidade relaciona-se, assim, com os pressupostos teóricos, tanto para o conhecimento e a explicação do objeto em si, quanto para o tratamento que lhe é dispensado pelo método utilizado para adquirir o seu reconhecimento. Portanto, para reconhecer e analisar o fato social, o objeto científico deve ser consciente e metodicamente construído.

A teoria social do conhecimento está presente nos diversos momentos da pesquisa, desde a explicação da realidade até as formas mais implícitas, como a escolha das técnicas a que serão submetidos os dados relacionados ao objeto. Há sempre uma referência à significação epistemológica e à sua coerência teórica em todos os procedimentos adotados. Nesse sentido, os fatos sociais são examinados em um arcabouço epistemológico capaz de correlacioná-los com a realidade em que estão inseridos.

Por mais parcial e parcelar que seja um objeto de pesquisa, só pode ser definido e construído em função de uma problemática teórica que permita submeter a uma interrogação sistemática os aspectos da realidade colocados em relação entre si pela questão que lhes é formulada (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 48).

Deve haver, necessariamente, uma coerência entre a construção do objeto de estudo e a teoria social do conhecimento e a metodologia aplicada. O uso de diferentes métodos e técnicas pode contribuir para o conhecimento e o reconhecimento dos fatos sociais, contanto que seja examinada a validade em cada caso. A metodologia deve buscar a renovação constante do método para que abarque os aspectos qualitativos e quantitativos que influem na formação dos fatos sociais. Esses procedimentos de tratamento da informação implicam escolhas epistemológicas, pois toda taxinomia implica necessariamente escolhas em função de uma teoria (explícita ou implícita).

A interação entre o modelo teórico e a realidade possibilita tratar as diferentes formas sociais que se relacionam com outras tantas variáveis, que só se revelam quando se aborda o recorte do objeto e o sistema em sua totalidade. Logo a relação entre a epistemologia e a metodologia usada para (re)conhecer o objeto é dinâmica, determinadas propriedades e relações vão aparecendo no decorrer do trabalho de análise. As características que definem uma construção teórica:

fornecem o princípio de indagações e questionamentos indefinidamente renováveis; como realizações sistemáticas de um sistema de relações verificadas ou a serem verificadas, obrigam a proceder a uma verificação

que, por si mesma, só pode ser sistemática; como produtos conscientes de um distanciamento em relação à realidade, voltam sempre à realidade e permitem medir em relação com essa realidade as propriedades que, em virtude unicamente de sua irrealidade, acabam sendo colocadas em completa evidência, por dedução. (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON 2010, p. 72).

Dissociar os atos epistemológicos e sua representação teórica dos métodos e técnicas do tratamento das informações cria fases sucessivas, como se fossem momentos distintos entre si, separando o ciclo teórico (problematização, hipótese) do ciclo experimental (empírico), em que a integração seria realizada por força de uma hierarquia do primeiro em relação ao segundo. A separação da análise em etapas teóricas e empíricas pode aumentar o risco de engessar a pesquisa em uma dialética escolástica (hegeliana), em que o procedimento mental reduz-se a uma percepção idealista.

O fato social é questionado e, a partir da hipótese, é recolocado como fato social revelado, e a relação empírica restringe a confirmá-lo, ou não, como verdadeiro. Isso faz com que toda a movimentação conceitual fique restrita à elaboração no campo das ideias. ―A dialética do procedimento científico não poderia ser reduzida a uma alternância, mesmo reiterada, de operações independentes, na medida em que a verificação é posterior à hipótese, limitando-se a manter com ela relações de confronto‖ (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 78-79).

Não há como querer observar a relação empírica como uma força probatória desconexa, como se houvesse uma ―hipótese ad hoc‖, que se fundaria em justificativas de sínteses vazias, ―procurar, em uma caricatura da prova experimental, a prova de sua aptidão para fornecer provas‖ (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 85). A análise científica deve estar vinculada a um conjunto teórico, portanto o processo investigativo não deve tratar as hipóteses como isoladas, mas deve reuni-las em uma teoria sistêmica do real, coerente com as proposições estabelecidas e a explicação do objeto.