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O fato social não é algo abstrato, para ser analisado como concreto deve necessariamente objetivar-se em um momento delimitado e em um espaço especifico. Ao contrário da visão idealista, a análise do objeto como concreto pensado faz toda a operação da pesquisa ter como referência a dialética totalizante entre a teoria (razão) e a verificação

(experiência). As representações advindas do fato social só conseguem ser conquistadas, construídas e constatadas quando percebidas na objetivação do espaço onde se realizam. O espaço objetivado apresenta-se como síntese dos movimentos endógenos e exógenos das relações sociais.

O espaço é o elemento de ligação entre as estruturas objetivas e as estruturas cognitivas, onde as relações sociais se efetivam. O que faz do espaço o método de análise para concretizar a interface do fato social como elo entre teoria e realidade.

Portanto a percepção do espaço como método122 objetivante resgata a coerência teórica do conhecimento social em evitar explicações da realidade por via de sínteses universalizantes. O fato social, quando não contextualizado histórico e espacialmente123, apresenta-se como um procedimento escolástico que o reduz a uma percepção idealista. O espaço como ferramenta metodológica garante meios para a qualificação dos agentes (objetiva a subjetividade); para objetivar socialmente os processos técnicos; e objetivar as disputas de capital simbólico nas representações de governança institucional. A opção de tratar o lugar como síntese espacial, o espaço-lugar é entendido como totalidade que através da análise possibilita paralelamente dividi-los em partes, compreender a dinâmica de seus movimentos, e ao seu término retornar ao todo. A construção e reconstrução desse todo resgata a vigilância do método hipotético-dedutivo na objetivação das relações sociais.

O espaço como método assume um papel determinante na compreensão dos fatos sociais. A ação transformadora dos recursos – naturais, financeiros, conhecimentos, mão de obra, entre outros – não pode ser analisada por meio de conceitos separados. Milton Santos (2012a) ressalta que produtos, inovações, populações e dinheiro, embora possam parecer concretos, são abstrações fora de sua referência espacial (social e historicamente apropriados), só se tornam uma realidade concreta quando se manifestam no lugar onde se efetivam. ―Por isso a formação socioespacial, e não o modo de produção, constitui o instrumento adequado para entender a história e o presente de um pais‖ (SANTOS, 2012a, p. 132).

122 O espaço como método é apresentado nos postulados de Milton Santos (2012 a)

123 Como exemplo pode-se citar o presente estudo sobre a expansão do dendê. Decerto que no mesmo

período este mesmo avanço no plantio aconteceu na Ásia, África e América Central, que também é certo que se pode identificar características bem similares entre eles (padrões tecnológicos idênticos, motivação econômica advinda pela forte demanda mundial, etc) mas ao resumir as explicações em macro contextos, a realidade é só parcialmente compreendia, e deixa de ser válida, quando não reconhece a diversidade estrutural e as diferenças entre os distintos espaços onde se instalam o plantio do dendê no mundo. O que faz do espaço elemento metodológico fundamental na objetivação do concreto.

A difusão (social) da técnica como propulsor da vida social está necessariamente relacionada ao processo de diferenciação espacial. Portanto cada momento e cada espaço são atributos individuais que, ao se relacionarem, constituem movimentos específicos que fazem com que o lugar seja resultante do movimento concreto das relações sociais objetivadas no tempo e no espaço. Logo o espaço-lugar não é uma história de sucessivos encadeamentos de divisões de trabalho; é preciso reconhecer que é o espaço, na sua dualidade, onde ocorrem uma sobreposição de diferentes formas de organização social do trabalho.

Só faz sentido analisar a formação social por meio da divisão social do trabalho à luz de um conceito amplo que, além de considerar a distribuição do trabalho vivo, abarque o trabalho morto, compreendido como um meio construído artificialmente, e também as propriedades naturais do lugar. Em especial, os fatores naturais deixam de ser algo que deve ser dominado, para ser um elemento determinante na análise da composição da formação social. Portanto o espaço não pode ser um conceito geral; deve ser analisado a partir do lugar. A chegada das novas técnicas124 não exclui necessariamente as anteriores. Ocorrem combinações sociais dentro de uma mesma temporalidade. O tempo é uma realidade abstrata que ganha concretude na vida ativa, por intermédio dos agentes, em suas diversas formas de relações sociais. Ainda que na atualidade, em todos os lugares, predomine o tempo do capitalismo monopolista, não necessariamente exclui a relação de outros tempos que se baseiam em diferentes objetivos na reprodução social. O processo de produção dominante busca impor ao pensamento social o seu padrão de tempo externo, para que abranja todos os espaços; mas não é por si um tempo absoluto, existem outros tempos internos não capitalistas dos lugares. Portanto o tempo da divisão do trabalho está relacionado à sua estrutura, pela participação da técnica (conhecimento tangível e intangível), mas também aos fatores sociais ligados aos lugares e aos habitus. Técnicas e fatores sociais influenciam as ações dos agentes, as relações sociais e a requalificação do espaço e são por elas influenciados.

Dessa forma, a definição do espaço na sociologia implica necessariamente a identificação das relações sociais (objetivas e subjetivas) e da interação com os agentes no espaço em que estão inseridos. Os agentes, por sua vez, estão relacionados com os seus

124 Em especial, a partir de meados do século passado, após a Segunda Guerra, a sociedade mundial

assistiu a profundas mudanças nas estruturas produtivas e nas relações de produção. Antes era o ―natural‖ que dominava o ―social‖, no atual estágio da modernidade, isso se inverte. Graças às novas formas técnicas, a relação social cada vez mais ganha relevância, o artificial tende a dominar todas as fases da produção material e simbólica. O sistema de objetos assume um caráter de realidade social concreta, objetivada pelas ações dos agentes.

sistemas de disposições e de objetos, em um ambiente institucional, em um momento dado, como síntese de um espaço apropriado física e socialmente.

O espaço deixa de ser um espaço abstrato, para ser um espaço-lugar concreto, palco de relações de trajetórias tecnológicas com interesses conflituosos que se objetivam na realização da ação prática dos agentes. Trata-se de uma realidade objetivada, historicamente constituída e modificada pela disputa de forças pelos agentes que alteram o espaço-lugar enquanto unidade entre a ação e a estrutura, estabelecendo uma interação entre o espaço social e o espaço físico.

Optar pelo espaço-lugar como método de análise do objeto da pesquisa implica considerar o espaço como representação de uma dualidade social concreta. O espaço-lugar não é uma simples referência de circunscrição geográfica como parte de um todo. O fato social é analisado em sua diversidade, como representação objetivada espacialmente, através do espaço-lugar. O lugar é a síntese espacial que contém em si diversas determinações da realidade Para chegar ao concreto, ao contrário do que foi indicado pelas principais correntes positivistas125, inicia-se a investigação, utilizando os conceitos mais gerais, porque eles contêm menos determinações; à medida que a investigação prossegue, outros conceitos permitem explicar a realidade com maior riqueza. Assim, por um processo dedutivo, que começa pelas determinações mais simples até chegar à rica diversidade da realidade e de suas relações diversas, o todo é apreendido pelo movimento das partes.

O espaço-lugar ganha relevância enquanto referência metodológica que possibilita objetivar a conquista, a construção e a constatação do fato social como elemento concreto, fazendo com que ele (fato social) seja ao mesmo tempo o início e ponto de chegada (como concreto pensado).

Tendo apresentado o espaço como base do método da análise do fato social, antes de avançar na definição sobre os procedimentos metodológicos, cabe algumas observações sobre o porquê da opção pelo espaço objetivado pelo lugar (espaço-lugar) como categoria metodológica a ser utilizada, ao invés de enveredar por referencias derivadas dentro do

125 A formulação filosófica do concreto pensado (MARX, 2010; MARX; ENGELS, 2007) distancia-se

da lógica positivista. A epistemologia da lógica formal, para criar padrões universais, busca suprimir as diferenças, ao isolar as características gerais do objeto, separando-as dos outros elementos específicos que o constituem. Para tanto, vê na parte o elemento para chegar ao abstrato, que leva a investigação a concentrar-se na menor parte que caracteriza o objeto para conceituar à totalidade, na medida em que, segundo a lógica formal, as partes constituem o todo. Essa identificação abstrata, por um processo indutivo, é tratada como uma determinação material que age como força interpretativa da realidade. Dessa forma, a visão escolástica da teoria do conhecimento de Kant e Comte desprezam a diversidade do concreto, criando uma representação abstrata e universalizante da realidade.

próprio ―Campo Social‖, de Bourdieu, como por exemplo, o campo econômico, politico, e etc.

O Campo Social como método, a realidade é analisada à luz de um olhar específico, o fato social é circunscrito a um recorte da realidade: ―a cada um dos campos corresponde um ponto de vista fundamental sobre o mundo que cria seu próprio objeto e encontra nele mesmo o princípio de compreensão e explicação conveniente a esse objeto‖ (BOURDIEU, 2001, p. 120). Cada campo, por perceber o mundo social de modo diferente, impõe um enfoque determinado à análise. Já quando a realidade é analisada a partir de um espaço-lugar, tem como referência o fato social total, por dentro de recorte espacial físico e socialmente objetivado pelas ações, que acontecem em um determinado momento histórico, enquanto locus de pesquisa. Portanto, busca-se não criar um objeto particular a partir de recorte de um Campo Social especifico, mas identificar como as relações sociais interferem no objeto social (fato social)126 a ser analisado, e vice-versa.

Além do que, ainda, sob o aspecto metodológico, a realidade a ser pesquisada é referenciada a partir de uma compreensão espacial, o uso do espaço-lugar, a área de abrangência da pesquisa pode ser delimitada pela percepção arbitral do pesquisador. O que não seria possível pelo Campo Social, pois o campo bourdieano tem descrição própria do seu espaço social. Não se constrói um Campo Social por uma vontade aleatória do pesquisador. Um Campo Social tem estatuto, características fundantes, qualidades demarcadas (nomos, doxa, illusios) e lógicas especificas de relações sociais que o delimitam socialmente. Daí a opção pelo espaço-lugar que dá a pesquisa a liberdade de construir seus próprios limites espaciais da área de estudo127.

126 Na presente pesquisa o fato social analisado é a expansão do dendê na Amazônia

127 No caso desta pesquisa a área delimitada de estudo é o Vale do Acará no Pará, uma área