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Challenges of distributed virtual environments

A dinâmica do desenvolvimento do capitalismo na sociedade global, onde se instalam os vetores da modernização exógena, busca fazer com que os lugares se unam cada vez mais verticalmente, produzindo um reordenamento espacial, pois a racionalidade capitalista que se dissemina está relacionada com o exclusivo beneficio da lógica de acumulação mercantil, que visa à coesão horizontal80 em seus projetos.

Esse processo de unificação do espaço pela ação vertical não é simples e traz consigo um conjunto de tensões para garantir a sua eficiência. Para implantar-se, precisa dispor de regras rígidas, mesmo nos discursos mais liberais, a fim de garantir no território um suporte de redes que transportem suas verticalidades. Ao contrário das estruturas verticais, as uniões horizontais, que se dão de forma mais espontânea, não são ligadas somente ao domínio econômico, existem outras lógicas na esfera de produção e de consumo. A reprodução social horizontal é orientada por uma perspectiva definida pela estrutura e pelo sistema de disposições dos agentes locais.

No capitalismo global, os arranjos espaciais deixam de ser figuras marcadas por pontos contínuos e contíguos, os espaços passam a ser definidos por interligações de fluxos que incorporam as relações verticais e horizontais às estruturas sociais. As extensões voltadas para os pontos que se agregam sem descontinuidade, sobretudo no processo de produção (bens materiais e culturais) propriamente dito, podem ser consideradas como horizontalidades. Já aqueles pontos no espaço, separados uns dos outros, que objetivam mais o funcionamento global da sociedade e da economia relacionados a outros momentos da produção, como a circulação, a distribuição e o consumo, são verticalidades. O espaço-lugar é onde ocorre a interseção da união inseparável de ambas81.

Antes, a dificuldade de mobilidade e de recursos gera modos dependentes do entorno, havia uma quantidade grande de sistemas para diferentes lugares e grupos sociais. Com a interação dos sistemas mundiais de difusão tecnológica, as técnicas de alguns lugares dominaram as de outros, consolidando-se, assim, uma desterritorialização da técnica, o que reduziu cada vez mais o número de sistemas técnicos. Por conseguinte, o sistema técnico

80 Essa coesão é um processo coercitivo, algumas vezes mais sutil, pelas representações simbólicas,

outras mais evidente, quando são feitas pressões econômicas, institucionais, e não são raros os casos em que a coerção se deu por meio de forças militares.

81 A conjunção das formas de horizontalidades e verticalidades manifesta-se na interação do localismo e o

globalismo, no circuito inferior e no circuito superior. O Espaço-lugar como dualidade espacial é a síntese da integração entre agente e estrutura, objetividade e subjetividade, ser (local) e vir-a-ser (global).

deixou de ser apenas horizontal para ganhar contornos verticais pela sua abrangência. O avanço da desterritorialização da técnica aumenta a tensão nas sociedades, subordinando as redes horizontais à logica vertical. A nova ordem capitalista, ao buscar dominar as relações espaciais, reorganiza o uso do território em seu próprio benefício, utilizando-se de processos de homogeneização e de hierarquização, por meio da especialização funcional dos espaços.

A busca para redução da sociedade a um paradigma tecnológico, também se dá pela tentativa de criar uma compressão única do tempo; assim a unicidade de padrões tecnológicos para o desenvolvimento dos sistemas técnicos depende de uma visão de unicidade do tempo e do espaço. Para obter uma atividade hegemônica exige uma integração dependente que tem um efeito desintegrador nas solidariedades locais, com profundas mudanças na vida local, interferindo no habitus dos agentes, confrontando-se com as estruturas sociais localmente constituídas. Seguindo uma nova lógica, de complementaridade ou não, as trajetórias sociais e tecnológicas do local reagrupam-se no espaço-lugar, em uma nova realidade, uma nova composição de horizontalidades e verticalidades no espaço.

As redes são virtuais, mas tornam-se, ao mesmo tempo, reais, mantendo uma relação com os sistemas de objetos e de disposições. A rede é subjetiva, atua nas representações simbólicas na estrutura da reprodução das relações sociais, na conformação do ambiente institucional, na escolha do padrão tecnológico e na própria percepção cognitiva do agente.

Assim como não se pode falar em homogeneidade do espaço, também não se pode afirmar que existe homogeneidade nas redes relacionais que se configuram nesses espaços. O espaço se conforma na diversidade e as redes que neles se instalam são igualmente heterogêneas. Um espaço, ou uma fração dele, reúne redes principais e redes afluentes, formando-se uma complexa teia de relações, redes que se complementam, mas também redes concorrentes entre si.

A globalização das relações sociais e da economia mundial fez com que a circulação prevalecesse sobre a produção. Assim, os fluxos ganham um papel de destaque na explicação das redes na reprodução social e, por consequência, na própria configuração do espaço-lugar. Com os avanços nos transportes, na comunicação, na difusão de técnicas, na circulação financeira etc., as redes isoladas, que aparentemente poderiam ser consideradas como marginais, cada vez mais se integram ao processo de reprodução capitalista global82. Dessa

82 Segundo Castells o ritmo cada vez mais acelerado das relações sociais configuram a sociedade em

rede. Economia, sociedade e cultura se organizam diante de uma era da informação. Os fluxos regulam e condicionam a um só tempo o consumo e a produção através de trocas de informações, capitais e comunicação cultural. (CASTELLS, 1999).

forma, as redes são incompreensíveis, se examinadas somente em suas manifestações isoladas, por serem indissociáveis e estarem inseridas na esfera global, nacional e local. Movimentos particulares e estruturais fazem com que se entrelacem as suas totalidades (SANTOS, 2012a, p. 270).

Nessa interpretação da totalidade, três dimensões devem ser consideradas: a esfera mundial, o território do país ou de um estado resultante de uma formação socioespacial limitada pelas fronteiras e o local, onde os fragmentos da rede ganham concretude. O local é uma dimensão socialmente concreta, em que se estabelece uma relação dialética: por um lado, o mundo opõe-se ao território e ao local, tentando incorporá-los à sua lógica reprodutiva; por outro lado, o local confronta-se com o território e o mundo como um todo, em suas relações sociais já estabelecidas. A existência desses três tipos de relações de redes (mundial, nacional e local) implica a existência de outros tantos níveis de contradições sociais, econômicas e culturais, que vão objetivar-se na dualidade do espaço-lugar, como síntese desses embates. A dualidade do espaço transmite-se às redes que são, concomitantemente, globais e locais, unas e múltiplas, estáveis e dinâmicas; integrando e desintegrando, destruindo velhos recortes e criando outros.

Nessa realidade de um duplo movimento, os sistemas técnicos são concentradores e dispersores, condutores de forças centrípetas e centrifugas que se efetivam na relação entre objetos e ações no espaço83. O sistema de objetos é a representação, no espaço, dos embates das relações sociais constituídas, entre a estrutura estruturada e a estrutura estruturante, sempre com a atuação mediadora da técnica, envolvendo também o habitus e o ambiente institucional.

Essa relação dialética entre as redes sociais e o espaço aproxima-se das questões de poder. As conformações de poder nas relações sociais envolvem a integração dos processos funcionais com os espaciais. O exercício do poder concretiza-se nas relações entre agentes, levando em conta o peso social de cada um, o acúmulo de capital simbólico e a capacidade de controlar os recursos (tangíveis e intangíveis) necessários para a reprodução social no espaço social. No processo global, a dominação é exercida por grandes grupos econômicos por meio da formação de estruturas organizacionais, que encontram na estrutura do espaço-lugar a condição fundamental para exercer o seu poder.

83 As forças centrípetas conduzem a um processo de horizontalização, e as forças centrifugas levam a

um processo de verticalização. Em todos os casos, porém, ambas atuam conjuntamente, com diversas capacidades de restruturação e escalas (COSTA, 2012a, p. 218; SANTOS, 2012a, p. 286-287).

A forte dominação exercida na economia mundial pelas grandes corporações faz com que suas intervenções tendam cada vez mais a instrumentalizar os espaços onde se instalam. Daí o aprimoramento constante de mecanismos, em especial os econômicos, que possibilitam a expansão permanente da atividade econômica para a acumulação do capital simbólico. Isso influi na representação simbólica do ambiente institucional, como processo de legitimação das novas exigências da racionalidade capitalista globalizada no sistema espacial. A dominação e a legitimação ocorrem ao mesmo tempo. Trata-se de um processo sistêmico de representação simbólica que atua na estrutura social e na conformação cognitiva do agente para conhecer e reconhecer a realidade. Essa racionalização do espaço atinge a sociedade como um todo: além da economia, influencia a cultura, a política, as relações interpessoais, enfim, influi na formação do ambiente institucional e do habitus. As estruturas tradicionais submetem-se, assim, a uma racionalidade instrumental de uma sociedade obrigada a ―modernizar‖ seus espaços. Há uma pressão permanente de institucionalização das relações sociais a fim de assegurar o progresso cumulativo de produção e a circulação de bens materiais e culturais ligados as relações mercantis capitalistas.

Na modernidade, os objetos técnicos cada vez mais se apoderam subjetivamente do espaço-lugar pelo sistema de disposições, fazendo com que as ações fiquem mais precisas para a ―racionalização‖ do espaço, porém mais alienadas84 dos agentes. As mediações

capitalistas tendem a fazer com que a ação do agente seja aprisionada pelo discurso da racionalidade econômica, impondo a sua logica como algo benéfico para toda a sociedade, que passa a ser apresentada como um efeito inevitável da modernidade no desenvolvimento social. As forças estruturantes da modernidade são presididas pelo nexo de exaltação do desenvolvimento capitalista por via de uma razão pragmática que se forma como justificativa para instrumentalizar o espaço, conformando o processo de homogeneização social como uma representação simbólica, que faz com que a racionalidade dos resultados sobreponha-se à racionalidade de valores85.

No entanto, não existe uma territorialidade absoluta de uma ação, as estruturas estruturantes defrontam-se com estruturas estruturadas. O espaço-lugar forma-se na disputa entre racionalidades de distintos paradigmas tecnológicos. Esse processo da razão técnica moderna não é incondicional, ―a força própria do lugar vem de ações menos pragmáticas e

84A palavra ―alienação‖ é empregada aqui no sentido da separação do ser e da sua essência humana,

como descrito por Marx nos Manuscritos econômico-filosóficos.

85―Essas ações racionais são movidas por uma racionalidade obediente à razão do instrumento, ação

deliberada por outros, ação insuflada. Para a maior parte da humanidade, elas não são informadas de modo endógeno, mas informadas de fora‖ (SANTOS, 2012a, p. 223).

mais espontâneas, frequentemente, baseadas em objetos tecnicamente menos modernos e que permitem o exercício da criatividade‖ (SANTOS, 2012a, p. 228).