Decerto, a técnica, o habitus e as governanças institucionais são elementos epistemológicos que auxiliam a entender a dinâmica dos sistemas de disposições, de objetos e o ambiente institucional no espaço-lugar como totalidade. O espaço deixa a formação de real- abstrato que, por meio de ações, surge como espaço real (espaço-lugar). O desafio a ser superado é estabelecer ferramentas capazes de abarcar a diversidade subjetiva e objetiva do agente para analisar todas as intercessões que levam as configurações do espaço-lugar, que o faz ser especifico. Ferramentas que assegurarem a mesma base analítica, tanto de vetores de procedência global, como do local, possibilitando uma coerência interna e externa.
Tendo como referência o uso do espaço-lugar como base metodológica, buscou-se uma ferramenta analítica capaz de promover uma aproximação da dinâmica do espaço-lugar como totalidade que fosse capaz de simultaneamente dividi-la em partes, ao seu término, e reconstrua-a como todo. A opção recaiu nas trajetórias tecnológicas como ferramenta epistemológica, por serem o elemento mais abrangente, assume, também, a função metodológica de traduzir o fato social, pela especificidade da produção e qualificação dos agentes e suas ações, perante a dinâmica das relações sociais que se efetivam no espaço-lugar.
As ações dos agentes se objetivam por dentro de uma trajetória tecnológica. As dinâmicas das trajetórias tecnológicas reconfiguram o espaço-lugar. Desta feita, pela qualificação das trajetórias tecnológicas é possível explicitar o fato social, como síntese das interações sociais em um mesmo ambiente geográfico, histórico e socialmente constituído, onde se confrontam o local e o global; a estrutura e o agente, os desejos e as possibilidades.
Neste modelo teórico (epistemológico-metodológico) as trajetórias são o ―elemento visível‖, o que possibilita decompor a análise da pesquisa sobre o fato social, por um processo dedutivo lógico, passando-se do concreto ao concreto pensado. Pela caracterização das relações objetivas existentes entre os agentes e a estrutura, através da correlação entre a produção, o uso da técnica e a organização social do trabalho, cria-se elementos identificadores e delimitadores internos para reconhecer as distintas trajetórias e as relações sociais que nelas se efetivam. Ao buscar interpretar essa diversidade estrutural, por meio das trajetórias tecnológicas, faz-se a opção metodológica de construir um modelo que possibilite alcançar as dinâmicas multifatoriais existentes na sociedade, superando as limitações geradas por dados agrupados setorialmente que levam a uma análise verticalizada do espaço e das relações de produção.
A estruturação da análise pela organização produtiva parte do pressuposto de que toda produção faz parte de alguma trajetória tecnológica, o que faz dos produtos elementos analíticos para delimitação de suas trajetórias. Daí a necessidade de caracterizar os produtos e suas relações socioprodutivas classificando-os dentro de uma trajetória especifica.
Tendo como referência as indicações elaboradas por Francisco Costa128, em que a mediação entre produtos e agentes é feita, incialmente pelas formas de organização da produção, como no caso do agrário (patronal ou camponesa). Em seguida, para qualificar estas relações produtivas que conformam as trajetórias tecnológicas, Costa busca a identificação da organização da produção, por meio da relação entre insumos e produtos e pelo uso das técnicas, como elementos que permitem compreender as dinâmicas evolutivas da diversidade estrutural da sociedade moderna (COSTA, 2012b).
A capacidade analítica das trajetórias tecnológicas amplia-se ao integrar, em um único processo, o conceito de governança institucional e o habitus do agente. Os agentes são considerados na sua diversidade, pela subjetividade cultural que se objetiva através do processo de (re)conhecimento do poder simbólico, a legitimidade que lhes é atribuída no ambiente institucional, ou seja, pelo reconhecimento social dos outros agentes129.
A amplitude das trajetórias tecnológicas é estabelecida pela interação entre estrutura e agente. Qualificando tanto a posição do fato social em relação ao agente, da perspectiva produtiva, quanto a posição do agente em relação ao fato social, da perspectiva reprodutiva. Fazendo com que a integração do agente com o objeto seja estudado tanto na estrutura econômica, como na conformação cultural. Busca-se, pois, qualificar a ação do agente pela análise qualitativa dos segmentos quantitativos que compõem as diferentes trajetórias.
O desafio passa a ser de como dar concretude aos aspectos objetivos e subjetivos decorrentes da relação entre o agente e a trajetória tecnológica. Primeiro é necessária uma boa qualificação do agente para perceber como se manifesta a interferência das relações subjetivas (ser); produtivas (vir a ser) e institucionais (capital simbólico) na formação do fato social, a partir da diferenciação das estruturas produtivas e das técnicas, das principais redes relacionais da experiência vivida, e da distribuição de poder no ambiente institucional. A
128 Na análise da cadeia de produtos, Francisco Costa decompõe e recompõe a teoria de Dosi sobre as
trajetórias tecnológicas, acrescentando ao conceito de trajetórias concorrentes e dependentes a noção dos objetos naturais. A natureza é um dos elementos explicativos da dinâmica evolucionária, em especial no espaço agrário (COSTA, 2012b, p. 115-118).
129 Em alguns processos relacionais, o que importa não é só o capital econômico, mas também a
posição que o agente ocupa no ambiente institucional, pelo acúmulo do capital simbólico, em especial o capital social, que é mensurado pela capacidade de tecer redes de relacionamento.
trajetória tecnológica é a representação visível da ação do agente que passa a ser analisada (pela dinâmica das técnicas e dos habitus, qualificados pela interação da capacidade de governança institucional perante as instituições) pela objetivação no espaço-lugar, não como algo estático, mas em constante movimento, a realidade do fato social é explicada, como concreto pensado. (Figura ).
Figura 2 - As trajetórias tecnológicas como capacidade analítica do fato social
Fonte: Elaborada pelo autor (2017).