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Combining reduction and scheduling techniques

A presente pesquisa afasta-se do procedimento positivista de Comte, em que a amostra é uma forma espontânea de uma parte do todo. O empírico, pela teoria do conhecimento social aqui construída, é percebido como um recorte da realidade apreendida por uma interpretação teórica. Assim, a análise busca sua validação pela interface metodológica com a teoria, não se trata de uma mera abordagem passiva da empiria108. A construção da realidade não ocorre somente pela descrição do objeto, mas por meio de uma análise estrutural das relações sociais alvo da problematização da pesquisa, que, por sua vez, está ancorada em uma base epistemológica109. O que vai ser testado empiricamente não é um conjunto de dados, nem um modelo explicativo isolado, mas um referencial interpretativo de conceitos relacionais (sistema de disposições, sistema de objetos, governanças institucionais, espaço- lugar, trajetórias tecnológicas etc.) que se evidenciam pela coerência entre o modelo teórico e a explicação da realidade. A opção em interpretar a realidade, em um primeiro momento por abordagem concreta e em seguida transformando-a em concreto pensado se efetiva com a aplicação do método hipotético dedutivo.

Segundo Bourdieu, Chamboredon e Passeron (2010), uma abordagem hipotético- dedutiva110, na qual o modelo teórico, a hipótese e as variáveis são definidos previamente. Mesmo que a pesquisa obtenha um entendimento prévio do objeto por meio da construção

108 A análise do fato social aplica os conceitos previamente elaborados. O trabalho científico, porém,

não é uma operação linear, a problemática pode vir a ser alterada; a hipótese, modificada; e as variáveis, reconsideradas, pela confrontação da base empírica com a teoria.

109 Faz-se aqui um esforço teórico para assumir uma diferenciação metodológica, uma posição crítica

às correntes estruturalistas, como a de Lévi-Strauss, que tem como referência a descrição e a universalização. Também é uma tentativa de afastar-se do pensamento objetivista marxista – em que os indivíduos são determinados pelas estruturas –, das correntes subjetivistas – cujo foco é o sujeito do fato social – e ainda do individualismo metodológico – que considera os fatos sociais como mero resultado de escolhas individuais.

110 Antes de apresentar a metodologia adotada neste estudo, faço aqui uma consideração preliminar.

Embora seja possível identificar no método de pesquisa de Bourdieu um ―protocolo‖ de investigação, pela referência feita ao processo empírico na análise, no meu entendimento, Bourdieu propõe outro percurso epistemológico. O empírico não se limita a uma abordagem a ser testada, como nas ciências naturais, há uma interação entre a teoria e a realidade, conforme as considerações tecidas em O oficio

de sociólogo (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010) e em O senso prático

(BOURDIEU, 2011c), e em diversas outras obras. Acreditamos que Bourdieu ao utilizar o processo dialético - relação tese e antítese - entre o real e a teoria, o seu método sai ―do racional para o real‖, e não o inverso, do ―real para o geral‖, como na linha estruturalista de Durkheim.

teórica, mas, em um segundo momento da investigação, deve confrontar a hipótese com a realidade, pela análise indutiva e pela confirmação empírica. Contrariamente à tradição dos modelos clássicos (hipotético-dedutivos), admite-se a possibilidade de que os dados empíricos terem uma relativa autonomia na dinâmica da investigação, não sendo meros receptores passivos de uma validação teórica, reconhecendo-se neles a capacidade de intervir e de mudar a estrutura da pesquisa111.

Como parte do método hipotético-dedutivo aqui proposto, a pesquisa construirá um modelo teórico que integre a elaboração epistemológica ao método de experimentação. A percepção prévia da dinâmica da realidade influencia desde a formação do objeto de estudo, originado pela condensação de elementos dispersos em eventos, que são organizados coerentemente em fatos sociais, formando, assim, uma noção preliminar do recorte social que será interpretado. Dessa forma, objetiva-se aproximar a macroteoria dos conceitos elaborados para delimitar e explicar os fatos sociais a serem estudados.

As explicações sobre a realidade devem manter a coerência com um quadro teórico (epistemológico e metodológico) capaz de elucidar a diversidade das relações sociais, tanto pela objetivação de sua objetividade, como pela objetividade da subjetividade.

Parte-se do entendimento de que a estrutura e o seu funcionamento são delimitados por uma dinâmica espacial que se revela pelos esquemas práticos do pensamento, da percepção e da ação, inscritos nas estruturas sociais e nas estruturas cognitivas dos agentes 112. Portanto o modelo teórico deve abordar o espaço em uma dupla dimensão: as disposições do agente e os objetos propriamente ditos. Esses dois conceitos sistêmicos interagem na caracterização e explicação do fato social, como representações complementares das relações sociais e das estruturas.

Como não há experimentação válida sem teoria, assim como não existe análise teórica sem base empírica, o modelo teórico hipotético-dedutivo, aqui proposto, procura, por meio de uma constante vigilância epistemológica, diferenciar-se do dogmatismo teórico que abriga seus estudos sob o guarda-chuva dos metadiscursos - através de razões proféticas ou programáticas que têm em si mesmo o seu próprio fim e que nascem e vivem da confrontação

111 Dessa forma, a pesquisa consegue refinar o método hipotético-dedutivo tradicional que, em geral,

se fecha em relações simplistas de causa e efeito, para construir simultaneamente o estudo empírico e a conformação teórica, ambos interagindo gradualmente, concretizando-se como um sistema de conhecimento (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010).

112 Trata-se de não reduzir a questão ao embate do capital versus trabalho, mas de examinar o

funcionamento do espaço, que é ao mesmo tempo econômico, social e cultural como um todo, envolvendo agentes, suas representações simbólicas, e as estruturas sociais.

com outras teorias - para elaborar uma teoria do conhecimento social que se apresenta como um programa de análise dos dados construídos pela pesquisa empírica, simultaneamente, utilizando o pensamento teórico. (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010).

A investigação é, pois, orientada pelo quadro referencial dos conceitos teóricos com a delimitação prévia do objeto e do espaço-lugar que será analisado – a escolha inicial é livre, feita pelo próprio pesquisador, pois se trata de um recorte analítico do objeto113. A presente opção metodológica114 é ir além da indicação do objeto como aparência, é buscar a sua essência, como fato social, identificando as relações sociais que o compõem115. Partindo-se do pressuposto de que o conhecimento é algo conquistado, a interpretação do objeto deixa de ser um processo descritivo, para ser uma realidade dinâmica constituída pelas relações entre os agentes, conhecida por meio de eventos. Decerto que em cada realidade ocorrem inúmeros eventos de forma simultânea, apresentando-se como elementos sociais dispersos. Para serem analisados, é preciso que sejam organizados, construídos como fato social.

Dessa forma, o quadro teórico do conhecimento social parte da análise que o objeto (a realidade a ser estuda) é percebido enquanto fato social objetivado, em que pelo método hipotético-dedutivo, o ser, ao ser caracterizado como ser social (objetivado), faz com que o objeto ganhe, pelas relações sociais, a natureza de objeto social (concreto) a ser submetido a uma formulação epistemológica, validada empiricamente, e retorna como objeto teórico (concreto pensado). O fato social é ponto de partida e de chegada ao mesmo tempo. Com base nos postulados da dialética marxista, podem-se identificar as mesmas características de categorias utilizadas por Bourdieu, Chamboredon e Passeron (2010), a chamada epistemologia do racionalismo aplicado116, em que o objeto é compreendido por dentro do fato social.

O objeto de estudo deve ser analisado dentro do fato social que lhe deu origem, que no processo investigativo, simultaneamente, é conquistado, construído e constatado.

113 No presente estudo, escolheu-se como fato social a expansão do dendê na Amazônia, objetivado na

particularidade de um recorte espacial, o Vale do Acará, Pará.

114 Bourdieu aborda a questão do pesquisador e sua relação com a construção epistemológica, o objeto

de estudo é conquistado, paulatinamente revelado pela pesquisa, contra a ilusão de um saber imediato. Essa ruptura com noções prévias, que se baseiam em representações esquemáticas e sumárias, é tratada na primeira parte do livro Oficio de sociólogo (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 23-44).

115 A interpretação do objeto de pesquisa deve buscar ir além de uma mera representação descritiva dos efeitos

advindos do fenômeno, pois é insatisfatório para explicar a diversidade da realidade.

116O ―racionalismo aplicado‖ é abordado no livro Oficio de sociólogo. Há uma estreita relação entre

os atos epistemológicos a serem seguidos: o objeto é conquistado, construído e constatado (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 73-86).

(BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 23-86). Enquanto método hipotético-dedutivo, a realidade a ser estudada (objeto) é percebida como fato social objetivado pelas relações sociais que lhe deram origem. Ao proceder à diferenciação e delimitação das relações que o compõem, desta forma, o fato social é conquistado, construído e constatado.

O fato social é conquistado, pois não há como absorvê-lo pela ilusão do saber imediato. O fato social necessariamente é conhecido e reconhecido pelo processo investigativo. O fato social é construído117, na medida em que ganha validade pela teoria (elaboração mental) e vale o que vale pela capacidade que a teoria tem de explicá-lo. Assim, o fato social não existe por si só, existe pela sua interação com a teoria. O fato social é constatado quando, defrontado com a realidade empírica, é analisado se sua explicação como elemento social é coerente. E retorna ao ponto inicial da investigação, agora como fato social concreto pensado (Fluxograma 1).