A teoria não explica a si mesma, a teoria explica a realidade. O que remete a teoria – para explicar a realidade – analisar e decifrar o objeto, através das relações sociais, pelo fato social que o compõe, como representação da dinâmica da organização espacial.
O fato social é um elo explicativo entre a teoria e a realidade. O pesquisador estabelece relações entre a teoria e o fato social. Aquando da observação e da experimentação, os eventos - organizados, agrupados hierarquicamente - são delimitados como fato, fato este, que é socialmente construído, o que faz com que a construção do objeto não se reduza a uma leitura literal do real.
Por sua vez o fato social não é abstrato, é objetivado pela ação dos agentes, em um espaço concreto no qual o fato social está inserido. A ação que efetiva o fato social advém da decisão de agir do agente a partir de uma interpretação subjetiva - sobre o sentido prático em um determinado contexto objetivo – da conformação das relações sociais. Portanto o que se torna inicialmente aparente não é a forma subjetiva da estrutura cognitiva, mas a repercussão desta no espaço-lugar, objetivado pela ação do agente. A percepção do fato social deve ser analisada como um processo social ―vivido‖, como um movimento de transformação continuada, que tem na ação a síntese da interação deste conjunto de variáveis; a objetividade do subjetivo das decisões e representações simbólicas; a objetividade da objetivação das estruturas em que está inserido.
O fato social, ao ser observado, é pelos valores de quem o observa, pela percepção do observador. Esta é a primeira constatação a ser feita sobre a análise do fato social, não se pode ignorar a singularidade das ciências humanas: a apreensão do fato social é algo sistêmico, que abrange a percepção dos agentes que estão envolvidos na pesquisa, inclusive a do próprio pesquisador118. O recorte do objeto e a própria problematização da pesquisa têm uma relação com quem faz a análise. Esse pressuposto relacional da análise está presente na escolha dos fatos sociais a serem pesquisados, na forma como as informações são coletadas e até na sua interpretação, pois ―não existe gravação perfeitamente neutra, assim também não há perguntas
118 A forma como são construídos os fatos sociais é determinante para o sucesso da pesquisa. Segundo
Bourdieu, Chamboredon e Passeron (2010), é importante que o pesquisador evite o risco do empirismo de cair na armadilha de conhecer o fato social só pela expressão dos atores e das testemunhas. A posição dos agentes, se não qualificada, limita a pesquisa a uma análise descritiva, e o entendimento dos fatos sociais a relatos fenomenológicos, cujas caracterizações tendem a ser representações do pensamento dominante, reproduzidos pelo agente (indivíduo ou organizações), até mesmo de forma inconsciente. O empírico pode ser distorcido pelo habitus não só do agente, mas também do próprio pesquisador.
neutras‖ (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 55). Logo, as próprias interrogações devem ser submetidas a uma dúvida sociológica.
A teoria do conhecimento social no âmbito do pensamento bourdieuano pressupõe, antes de tudo, que o fato social deve ser analisado, inicialmente, a partir de uma reflexão específica sobre a relação social que o constitui. Mas como o fato social se estabelece?
Dentro da análise sociológica tem variados matizes sobre a formação do fato social. A racionalidade weberiana dava uma abordagem ampla da subjetividade do agente, o sentido cultural como elemento motivador das ações humanas. Na visão materialista marxista, as relações da produção social estabelecem-se por determinações entre agentes, embora não dependa da vontade específica dos indivíduos. Na posição mais contundente, a de Durkheim, os fatos sociais não se subordinariam à arbitrariedade individual, o que o levou a tratá-los (os fatos sociais) como coisas. Até a posição mais extrema das correntes sociológicas ressalta o fato social como resultado relacional. Durkheim (2001) emprega a expressão ―como se fosse‖ no segundo prefácio da sua obra As regras do método sociológico119: ele reconhece os fatos sociais como forma estrutural da sociedade, mas fruto das relações entre indivíduos. Portanto todos os autores clássicos da sociologia reconhecem nos fatos sociais formas constitutivas próprias. Daí uma segunda constatação sociológica sobre o fato social:
as relações sociais não poderiam ser reduzidas a relações entre subjetividades animadas por intenções ou ―motivações‖ porque se estabelecem entre condições e posições sociais, e porque, ao mesmo tempo, são mais reais do que os sujeitos que estão ligados por elas (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 2010, p. 28).
A proposta metodológica, aqui apresentada, busca ir além de uma pesquisa descritiva, pois tem como objetivo explicar as ações práticas dos atores sociais, localizadas no tempo e nas relações dentro do espaço concreto (lugar). Muitas das questões a serem analisadas não são explicadas somente pela regularidade das ações ocorridas nos fatos sociais, mas também podem ser explicadas pela não frequência, ou seja, a ausência da ação que só é compreendida pelo cruzamento de variáveis subjetivas e objetivas, que relacionam, em um dado contexto histórico e em um espaço delimitado, as estruturas sociais e a decisão do agente de não praticar a ação, por exemplo. No outro extremo há eventos que são identificados somente em
119 O fato social seria uma expressão relacional entre indivíduos dentro de uma forma estrutural da
sociedade, o papel da sociologia não seria analisá-lo não pela ótica psíquica, mas tratá-lo assim como as coisas, só ―consegue compreender na condição de sair de si próprio, por via de observações e de experimentações, das características mais exteriores e mais acessíveis às menos visíveis e às mais profundas‖. Durkheim (2001, p.17).
momentos de grandes transformações, por resultarem em grandes mudanças, a conformação de um novo fato social.
Para garantir esta interface entre a teoria e a realidade, pela construção de uma interconexão do fato social e a experimentação, segundo Bourdieu, Chamboredon e Passeron (2010), são necessários três princípios que a pesquisa deve observar: a) a capacidade de vigilância epistemológica; b) as ferramentas técnicas do método coerentes com a teoria e o que se busca investigar; c) os esquemas teóricos com capacidade explicativa.