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Surprise-disapproval questions

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5.4 Special questions

5.4.1 Surprise-disapproval questions

Na cadeia do processo da EdC, para além das empresas que colocam uma parte do lucro em comum, existem ainda outras duas realidades: a estrutura que recolhe o lucro doado e os que o redistribuem.

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John Mundell | Mundell  Associates | EUA  consultoria em projectos ambientais e ciências da terra, in “Mundell & Associados”, in Movimento dos Focolares, Economia de Comunhão, uma nova cultura, Ano VII, Jun/2001, p. 15

72 Ferrucci, Alberto, “Dimension nuvelle”, in Mouvement des Focolari (2001)

73 in “Entrevista com Stefano Zamagni”, in Movimento dos Focolares, Economia de Comunhão, uma nova

Na maioria dos casos, os montantes são enviados para o Centro do Movimento dos Focolares, em Roma, onde chegam as necessidades apresentadas pelos seus responsáveis a nível regional, mas também existem situações, como no caso do Brasil, em que os apoios não chegam a sair do país, de modo a não haver custos de transacção. Em qualquer dos casos, a ajuda é administrada por responsáveis deste Movimento ligados às comunidades mais carenciadas. A sua capacidade para distribuir directamente no terreno os apoios representa uma vantagem, dado que aproveita as estruturas e redes que já estão montadas pelo Movimento e, desta forma, elimina custos intermediários de gestão de projectos e de administração da ajuda.

Mas a quem se destina a ajuda?

Os beneficiários dos lucros doados têm sido pessoas bastante carenciadas ligadas ao Movimento dos Focolares, embora o horizonte seja alargar a outras comunidades. Os apoios têm sido maioritariamente destinados a apoios de emergência temporária, o que levanta questões sobre os tipos de ajuda que são prestados aos mais pobres. Se nalguns casos são disponibilizados com vista à criação de actividades geradoras de rendimento ou projectos de tipo social (escolas, postos de saúde, centros sociais), a maioria são, pelo menos

aparentemente, de tipo assistencialista, ligados ao alívio da pobreza, mas não à sua

erradicação com projectos de médio e longo prazo74.

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Não houve um trabalho de pesquisa neste sentido, por um lado por falta de elementos de análise que permitissem uma investigação ao nível do impacto do projecto EdC no combate à pobreza, por outro como forma de não estender demasiadamente o campo de análise desta pesquisa. No entanto, nos boletins Economia de Comunhão, uma nova cultura, publicados pelo Movimento dos Focolares, encontram-se diversas extractos de cartas provenientes de pessoas que agradecem os apoios recebidos e cujo discurso revela situações de ajuda pontual, de tipo assistencial, aparentemente sem ligação a projectos integrados de combate à pobreza. Por outro lado, são vozes provenientes de beneficiários e não de quem administra a ajuda.

Não foi identificado material de análise sobre o modo como a gestão da ajuda especificamente proveniente da EdC está, ou não, integrada na acção global do Movimento dos Focolares. No entanto, realizaram-se duas visitas, em Maio de 2005, a dois bairros pobres do Brasil (a cerca de 50 km da cidade de São Paulo), onde este

Movimento realiza desde há vários anos um trabalho de promoção do desenvolvimento e combate à pobreza. Na entrevista realizada com a animadora do Bairro do Carmo (cuja população é descendente de escravos) – uma mulher do bairro – percebe-se: i) a aplicação de uma metodologia de desenvolvimento participativo e de envolvimento da comunidade local na criação de diversas actividades geradoras de rendimento que respondem a necessidades básicas da população; ii) o espaço que é dado, de modo transversal, à formação de Homens novos, à formação humana, cívica e espiritual segundo valores de comunhão e fraternidade. Esta animadora da

comunidade é acompanhada e paga pelo Movimento dos Focolares para realizar este trabalho. produzir

recolher

A resposta da socióloga Vera Araújo75 a esta questão do assistencialismo é reveladora da filosofia de base: a maior importância deve ser atribuída a uma real mudança de mentalidades, de valores, de comportamentos; defende que o tipo de compromissos assumidos, segundo lógicas de partilha, solidariedade e gratuidade, estes é que são as verdadeiras fontes de erradicação da pobreza.

Por isso, consideramos útil problematizar este ponto em duas dimensões: por um lado a relação entre ricos e pobres e a vivência da gratuidade. Por outro, a forma como são administrados os lucros doados em termos de uma efectiva erradicação da pobreza e da promoção do desenvolvimento.

Luigino Bruni, dirigindo-se às comissões regionais brasileiras de EdC em 2006 (no contexto das comemorações dos 15 anos do projecto EdC), dizia que havia chegado o momento de fazer um balanço do investimento no “terceiro círculo”, relembrando a importância de fazer chegar a riqueza às pessoas de modo que elas possam ser ajudadas a reinserirem-se na fraternidade. Mas relembrou também o carisma do projecto:

«se nestes anos tivéssemos feito campanhas de angariação de fundos, talvez tivéssemos arrecadado 40 milhões de euros. Se tivéssemos criado associações, fundações, alguns supermercados, alguns bancos... Mas não, nós construímos algumas empresas. Porquê? Porque não é tanto um problema de recolher fundos, o problema é como tornar este dinheiro instrumento de fraternidade.» (Bruni, 2006b).

Além disso, importa ainda referir que, no contacto realizado na primeira pessoa junto de empresários de EdC no Brasil76, verificou-se que a empresa de EdC não tem, na maior parte dos casos, uma relação de forte proximidade com a comunidade mais pobre da sua região. Os lucros são doados para a estrutura do Movimento dos Focolares e, aparentemente, não está ainda muito desenvolvida uma relação de maior implicação com a realidade do desenvolvimento local, ou com algum projecto de combate à pobreza da região em causa77, justificado como não sendo essa a vocação da empresa.

Neste sentido, Vera Araújo (idem) também explica que os actores da EdC não são só os empresários e trabalhadores de Economia de Comunhão, mas também os mais pobres. Pretende-se que os beneficiários da partilha não o sejam no sentido de “assistidos”, mas enquanto membros activos do projecto pois, em última análise, são eles que dão à empresa a possibilidade de viver a cultura do dom. Por isso se aponta sempre o princípio da reciprocidade, distinto de uma lógica de mera filantropia, que é uma lógica unilateral.

75 in “Avec les plus pauvres”, in Mouvement des Focolari (2001: 151-161), 76 cfr. Anexo 5

77 Não se pode, no entanto, generalizar esta afirmação, até porque há situações de maior compromisso, como é o

caso da participação da FEMAQ numa estrutura não partidária de planeamento estratégico da cidade de Piracicaba, Estado de São Paulo.

Chiara Lubich, numa carta sua ao Movimento dos Focolares em 1958, dizia que «quem confia as suas próprias necessidades, a fim de ser ajudado, também está a dar algo». Esta lógica de oferecer as suas próprias necessidades, de modo digno e fraterno, pode ser uma forma de doação e estímulo à solidariedade. É um novo tipo de contribuição, libertando energias humanas mais profundas78.

O projecto EdC considera que a maior pobreza é a pobreza dos relacionamentos, de solidão, de relações interrompidas, relações de poder, ausência de uma vida de comunhão (Bruni, 2007). Por isso, a sua visão de ajuda não é de tipo vertical, mas horizontal. O ponto de chegada da EdC não é apenas uma resposta à falta de bens e alimentos, mas a inserção da pessoa na comunidade, onde haja lugar para relações de reciprocidade79. E neste sentido o mais pobre não é visto como objecto de ajuda, mas visando a integração em novas relações de comunhão.

Quanto ao segundo aspecto – o da efectiva erradicação da pobreza – Luigino Bruni (2006b), mostra-se preocupado com a forma como a ajuda é administrada e com as energias que o projecto está, ou não, a orientar para o apoio aos mais necessitados. Por este motivo, alerta para os perigos de criar relacionamentos de dependência. Então, afirma (idem):

«creio que um desafio importante para os próximos anos é tornarmo-nos profissionais da terceira passagem – para os pobres – isto é, não podemos ser profissionais da produção de riquezas, que se deleitam em administrá-las na terceira passagem, porque isto não é digno de um projecto tão grande. A minha impressão destes 15 anos é que, talvez, tenhamos feito muito, mas não o suficiente para a terceira passagem.»

E acrescenta ainda:

«a mais importante contabilidade é a contabilidade dos pobres, não do lucro. Ou seja, quantas pessoas saíram da pobreza. (…) Caso contrário tornamo-nos [a EdC] num projecto de empreendedores filantrópicos, mas a EdC não é isso. (…). As pessoas vêem as empresas, que são uma primeira parte do projecto. É preciso que vejam também a última, é preciso que vejam uma comunidade de fraternidade.» (Bruni, 2006b)

78 Sorgi, Tommaso, “A cultura do dar”, in Costa (1992: 35)

79 pelo modo como Luigino Bruni considera que «é a comunidade que cura a pobreza e não o indivíduo», esta

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