Fugindo ao conformismo das escolas dominantes, Perroux (1967: 284) diz que o Desenvolvimento é «o inventário e exploração dos recursos latentes (potenciais)», referindo- se a Hirschman. Considera que uma das dificuldades do Ocidente passa por saber conhecê-
los, dada a tendência para os recursos de seu interesse. E diz ainda que «o pior meio de os
mobilizar seria tentá-lo exclusiva ou principalmente pelos simples métodos da economia de mercado», na sequência do que vimos anteriormente.
Mas este autor observava também que as próprias sociedades ocidentais e as suas partes constituintes apresentavam desigualdades no nível atingido e nas causas do desenvolvimento. Além disso, procura esclarecer que existe «uma economia de desenvolvimento distinta da economia de crescimento. O produto global, no seu montante absoluto ou por habitante, foi no passado muitas vezes aumentado e pode continuar a sê-lo ainda sem que as populações e a sua economia sejam colocadas em condições de desenvolvimento» (Perroux, 1967)
Portanto, Perroux (1967: 164) procura explicar que as fases de desenvolvimento são diferentes das fases de crescimento, estas últimas mais ligadas à taxa de crescimento do produto. «O crescimento não surge em toda a parte ao mesmo tempo, manifesta-se com intensidades variáveis, em pontos ou pólos de crescimento; propaga-se, segundo vias
diferentes e com efeitos finais variáveis, no conjunto da economia». O «Desenvolvimento é a combinação das transformações de ordem mental e social de uma população que lhe possibilitam o aumento cumulativo e duradoiro do seu produto real global.» (Perroux, idem). Assim, no crescimento verifica-se um aumento sustentado durante um ou mais períodos longos, mas que não só nada revela sobre o produto real por habitante, como não é homotético, como ainda gera alternâncias no processo de desenvolvimento, o qual engloba e sustenta o crescimento (Perroux, 1963: 174-175). Ao afirmar que nenhum crescimento observado é homotético, Perroux (1967: 713) explica que supõe realizar-se com e através de modificações de estrutura, passando por flutuações, ciclos e alternâncias no processo de desenvolvimento
Neste sentido, tanto crescimento como desenvolvimento são desequilíbrio (idem: 194) pela forma como mexem com a oferta e/ou com a procura de um modo não proporcional, como mexem no enquadramento social da mão-de-obra, como podem concentrar recursos sem alargar as suas vantagens, podendo mesmo retardar o crescimento e o desenvolvimento noutros locais.
Também a fase do «desenvolvimento harmonizado é uma sucessão de desequilíbrios ordenados e tornados socialmente toleráveis» (idem: 298), ou seja, o autor considera que o desenvolvimento não é linear em automatismos, em “rotinas” de crescimento, mas sujeito a factores endógenos e exógenos. Por isso, em qualquer país, mais rico ou menos favorecido, o crescimento não é igualmente repartido. Há fenómenos de concentração e expansão e o importante é tirar partido de ambos (idem: 299); além disso, «no desenvolvimento concreto nunca se observa um sentido único (da infra-estrutura para a produção); as influências são recíprocas» (idem).
Para Perroux (1967: 300) «o desenvolvimento processa-se pela combinação de pontos de convergência de forças impulsoras que geram os seus efeitos em determinado meio de propagação. Nesta perspectiva, o tipo de desenvolvimento deve ser escolhido em função do seu poder de indução e não pelo seu efeito isolado», visto que «os processos técnicos não são transmitidos isoladamente. A propagação é de estruturas económicas de produção e de troca, não são separáveis, na prática, de estruturas sociais mentais» (idem: 308). À medida que vão sendo criados focos de desenvolvimento, vão-se gerando desequilíbrios em cadeia no sector tradicional que, por um lado estimulam a aspiração, mas por outro criam rupturas nas franjas mais tradicionais e levam à tomada de consciência das desigualdades, de um modo algo desordenado e com sentimentos de frustração – aquilo que hoje chamaríamos de exclusão social. Para combatê-lo, Perroux considera de grande valor um processo de participação dos
interessados, por forma a garantir que se absorva, coordene e interprete os progressos técnicos e as suas estruturas. Tudo isto também porque, para o autor (1967), não são estes focos de desenvolvimento que permitem falar numa «sociedade economicamente progressiva», «é necessária uma transformação activa dos homens». É conhecida a sua observação sobre esta matéria: «A desigualdade dos desenvolvimentos arrasta a dos resultados obtidos, ou seja, dos progressos» (Perroux, 1987: 68).
Aqui se entende a distinção que este autor faz entre os progressos e o Progresso.
Os progressos dizem respeito às eficácias de desenvolvimento e de crescimento, associadas a
parcelas da sociedade global, por vezes dissimuladas pelo cálculo das médias; há crescimentos desiguais, quer por parte das indústrias, quer do lado dos salários reais, quer ainda no que diz respeito às transformações nos modos e níveis de vida. (Perroux, 1967: 715).
O Progresso reporta-se à sociedade global e à sua capacidade para gerar progresso económico
através de «relações óptimas entre as desigualdades produtivas e as modificações sobrevindas nos termos que traduzem essas desigualdades». (idem: 716)
Isto significa que temos a universalização do melhor (o progresso) distinta da melhoria para as partes (os progressos) (Perroux, 1987: 68).
Para Perroux (1963: 176), a aptidão da sociedade para ser progressiva advém da relação e influência mútua entre as desigualdades de produção e repartição, entre o lado mais activo e mais passivo da economia. Por isso, o Progresso está ligado à «propagação da novidade aos menores custos humanos e à velocidade óptima, numa rede de relações cujo sentido se universaliza.» (idem).
Como crescimento e desenvolvimento não se repartem uniformemente, tendem a manifestar- se em determinados pontos a partir dos quais se podem propagar efeitos de expansão ou efeitos de paralisação (Perroux, 1967: 192). Porque as desigualdades de produção e distribuição não são justapostas, há uma inter-influência entre sectores mais activos e sectores mais passivos. (idem: 716). Revela-se uma preocupação pela «perturbadora e ao mesmo tempo sugestiva» consequência desta situação: a falta de desenvolvimento local e a existência de fenómenos heterogéneos. Por isso, defende (idem: 192) a organização de pólos de desenvolvimento (como sejam centros industriais, concentrações urbanas), e respectivos meios de propagação e diz que «a grande empresa ou indústria terá de reinvestir no local parte dos seus lucros e contribuir para o desenvolvimento técnico e humano» (idem: 194).
Encontramos ainda esta visão dinâmica, não mecanicista, quando Perroux (idem: 195) nos remete para a ideia de “desenvolvimento recíproco” numa lógica de interdependência entre diversas regiões e sectores, valorizando o trabalho em comum, mas consciente das assimetrias
que permanecem sempre. «Por meio do mercado e de outros processos, transformamos o mundo material apenas para agirmos uns sobre os outros, para nos entre-produzirmos. E o desenvolvimento é pleno na medida em que, pela reciprocidade dos serviços, prepara a reciprocidade das consciências» (idem: 196)
Uma vez mais aproximamo-nos dos princípios filosóficos da EdC apresentados no próximo capítulo.