5.4 Special questions
5.4.3 Can’t-find-the-value-of-x questions
“Dar” adquire um sentido que varia muito de cultura para cultura, daí deriva que seja um factor cultural e, portanto, transmissível. Não doamos porque somos “bons”, mas porque alguém nos ensinou a fazê-lo ou, ainda mais provavelmente, porque recebemos98.
A EdC leva-nos para além da ética da caridade, em direcção à dimensão de gratuidade na experiência humana, incluindo na esfera económica.
A gratuidade é um imperativo ético para o qual é imprescindível a universalização da dignidade humana. A dignidade dos outros é de tal relevância que só a gratuidade está à sua altura (Barbosa, 2007: 176). Para promover a unidade e a fraternidade é absolutamente necessário esse sentido de dignidade do outro e implica a doação de si próprio como algo intrínseco à natureza humana.
98 Pelligra, Vittorio, “Socialidade, mercado e a extinção do Homo Economicus”, in Movimento dos Focolares,
Neste sentido, gratuitidade não é altruísmo ou assistencialismo, mas a noção de que o ser humano não pode ser feliz sozinho, nem alcançar a felicidade sem promover a felicidade dos outros (Aquini apud Barbosa, 2007: 131).
Barbosa (2007: 120-121) lembra que, diante do paradigma do utilitarismo, Bentham acabou por reduzir todos os tipos de felicidade ou infelicidade às sensações primárias de prazer e de dor, e que Stuart Mill tentou corrigir essa visão, acreditando que o ser humano tem um instinto de sociabilidade ou um impulso natural para a cooperação, procurando unir-se aos seus semelhantes. Devidamente cultivado, pode fazer com que os seus sentimentos se identifiquem cada vez mais com o bem alheio, ao ponto de fazer felizes os outros de forma que isto seja tão natural como satisfazer necessidades físicas, havendo uma harmonia entre o interesse individual e o interesse comum, ou a própria felicidade e a felicidade alheia.
O dom é a proposta de Marcel Mauss para sair quer do individualismo, quer do holismo. Enquadra-se no âmbito da gratuitidade, numa antropologia da partilha, numa perspectiva relacional. Godbout (apud Barbosa, 2007: 126) considera que se compreende o dom, não a partir do Estado nem do Mercado, mas do próprio dom, não há uma busca de equivalência, de intercâmbio ou de contrapartida. Dom é uma relação e não um acto isolado.
Neste sentido, autores como Alain Caillé (Barbosa, 2007: 126) vão para além da descoberta de Mauss, que apresentava a tripla obrigação de dar, receber e retribuir, considerando que, antes de haver o que dar, há o laço social que importa edificar. Por isso Caillé define dom «toda a prestação de bem ou de serviço efectuado, sem garantia de retribuição, tendo em vista criar, alimentar ou recriar o laço social entre as pessoas» (Barbosa, 2007: 164).
Também a socióloga Vera Araújo99 chama atenção que nem todo o “dar” leva a uma “cultura do dar”, se por exemplo for um “dar” contaminado pelo poder sobre o outro. Existe um “dar” egoísta que busca satisfação e prazer no acto de dar. Existe um “dar” utilitarista, interessado, que busca proveito próprio. Em ambos não há uma relação com o destinatário do dom. Existe ainda um “dar” que os cristãos apelidam de evangélico, que é o “dar-se” aos outros, no respeito pela sua dignidade. Em última análise a doação é a negação de si mesmo no sentido do que representa a superação do eu em direcção à alteridade do outro (Barbosa, 2007: 133), reconhecendo a riqueza recíproca da relação. Em suma, a cultura do dar é entendida como esta cultura do “dom de si”.
Araújo100 afirma que a «gratuidade é um valor que a nossa sociedade vai ter que reaprender, estamos demasiado acostumados a medir tudo, as acções, as pessoas, as relações, as
99 in “Economia de Comunhão e comportamentos sociais”, in Costa (1992: 19-20) 100
comunidades, os povos, tudo tem um parâmetro, um custo. Esta cultura do dar abre lugar a uma outra visão antropológica da própria economia, e pode tornar-se num novo agir económico, como pretende ser o do projecto de Economia de Comunhão.»
Assim, no caso da vida das empresas de EdC, a gratuidade não significa apenas livremente aderir ao convite de doar parte dos lucros, que é a dimensão mais visível do projecto, mas também em acções como a decisão de contratar novos trabalhadores, na forma de viver as fases mais difíceis onde se apresentam situações sem garantia de retorno económico, na relação de confiança com os stakeholders e em várias situações em que usualmente as relações de negócio desencorajariam essa postura.
«Um dos nossos concorrentes começou a enfrentar sérias dificuldades. Pensámos nas consequências que a sua eventual falência poderia provocar, como o desemprego e o fecho de uma empresa cujo serviço é útil para uma região – Nápoles – carente de indústrias. Ofereci a minha ajuda gratuitamente Ele precisava de vendas imediatas, então propusemos aos nossos clientes que parte dos pedidos feitos a nós fossem transferidos para aquela empresa e nós garantiríamos a qualidade do produto final.»101
Isto pode parecer difícil, árduo, heróico, mas não é assim, porque o homem, feito à imagem de Deus, que é Amor, encontra a sua própria realização precisamente no amar, no dar. Esta exigência está no mais fundo do seu ser, seja ele crente ou não. (Chiara Lubich, Dezembro
1991102)
A Economia de Comunhão introduz o dom na estrutura de base da economia moderna: a empresa. E a empresa nela encontra um novo dinamismo, dado que os seus membros visam um ideal que desenvolve o melhor de si mesmo» - assim consta em vários documentos do
fundamento do projecto.
De facto, o projecto EdC é a projecção da cultura do dar do Movimento dos Focolares na dimensão económica. E no contexto deste Movimento, a expressão “dar” não consiste em “oferecer” ou “fazer uma doação”, no sentido assistencial e caritativo ou desfazendo-se do que não precisamos. Nasce antes da antítese à cultura que se baseia no “ter”, no “possuir”103
. Segundo os princípios orientadores da EdC é esta cultura, que também podemos chamar
cultura da partilha, que transforma as relações sociais e económicas, entre empresários e
trabalhadores, clientes e fornecedores, sociedade civil e comunidades carenciadas excluídas do processo produtivo, de modo que todos se tornem agentes de relações baseadas na reciprocidade, numa lógica de co-responsabilidade, e em que todos contribuem para o benefício de todos. Esse é o ideal da EdC.
101 Franco Caradonna | Unitrat | Itália modelagem de produtos mecânicos, in “A Unitrat, de Bari”, in
Movimento dos Focolares, Economia de Comunhão, uma nova cultura, Ano IX, nº2 – Maio/2003, pp. 22-23
102 in Economia de Comunhão, proposta de um agir económico à dimensão do ser humano (s.n.t.)
103 Buckart, Hans, “Desenvolvimento Sustentável e administração empresarial: elementos para um novo modelo
“Produzir para dar” remete-nos à essência do Homem. Este “dar” não é só dar o dinheiro/lucro. Isso seria uma empresa filantrópica. Uma cultura, a cultura do dar, é algo maior. Dar de si é mais difícil que dar dinheiro, dar a competência é mais difícil (por exemplo partilhar a competência com um colega de trabalho), perder uma ideia em função do outro, dar é muito mais amplo na EdC do que só dar dinheiro. Dar uma parte do lucro aparece como consequência.»104
A aposta na Cultura do Dar e na chamada formação de Homens novos105, para a qual está também prevista uma parte dos lucros, faz-se por via da formação cultural – através de congressos, estruturas de pesquisa, bolsas de estudo, imprensa, etc. – visando o crescimento de uma mentalidade que aposte no desenvolvimento da pessoa toda, sendo convicção para os seguidores do projecto que, se a comunhão não se tornar cultura, o crescimento da EdC fica comprometido.
À medida que a EdC se vai implantando, esta necessidade é cada vez mais visível: a necessidade de dar vida a estruturas organizativas de comunhão que tornem efectiva a cultura
do dar. Conclui-se que não basta produzir riqueza e colocá-la em comunhão, doando parte
dos lucros, para vencer a miséria do mundo. Ao lado das ajudas imediatas é preciso criar postos de trabalho, é preciso formação para esta cultura de partilha e gratuidade.