4.3 Clefts in special questions
4.3.2 Rhetorical questions
Pela dificuldade em observar os resultados esperados com os tradicionais processos de desenvolvimento, sobretudo no quotidiano da vida das populações onde a pobreza aumentava, pela crescente tomada de consciência da falta de aproveitamento das capacidade locais e dos recursos das próprias comunidades, pela falta de conhecimento das reais necessidades das populações e dos seus ritmos, pela imposição de modelos externos de desenvolvimento, ainda muito associados ao crescimento económico e a uma abordagem macroeconómica, surge a corrente do Desenvolvimento Local. Surge na esteira do Desenvolvimento comunitário, enquanto opção metodológica que ganha expressão nos anos 60 e da ideia de
Desenvolvimento participativo, nos anos 80.
A corrente do desenvolvimento local procura, acima de tudo, responder a necessidades fundamentais não satisfeitas numa dada comunidade, o que implica um conhecimento e um envolvimento com essa comunidade.
Neste sentido, é uma linha teórica onde se cruza a experiência empírica e indutiva junto das populações, que busca novas técnicas de resolução dos problemas, com o contributo mais académico segundo uma visão territorialista dos processos de desenvolvimento (Amaro, 2003: 57).
Em termos conceptuais, situa-se na perspectiva de que os problemas identificados em contextos de não-desenvolvimento estão interligados na sua origem, pelo que as suas respostas também se requerem ligadas, integradas.
«Desenvolvimento Local exprime o processo de satisfação de necessidades e de melhoria das condições de vida de uma comunidade local, a partir essencialmente das suas capacidades, assumindo aquela o protagonismo principal nesse processo, segundo uma perspectiva integrada dos problemas e das respostas» (Amaro, 2003: 57).
Significa que problemas e soluções devem ser abordados de modo integrado entre os domínios disciplinares (pela interdisciplinaridade) e as áreas de intervenção (pela articulação entre a teoria e a prática).
Implica escutar a comunidade, ajudar a identificar as suas próprias necessidades, apostar nas capacidades de resposta local, seus recursos e potencialidades, com vista à construção dos seus próprios processos de mudança e bem-estar, corolários do princípio da participação.
Participação entendido como um processo de natureza individual ou colectiva, através do
qual os indivíduos ou grupos sociais conseguem exprimir as suas capacidades na sociedade e ter acesso às oportunidades que esta oferece (Amaro, 1992). É, portanto, um processo centrado nas pessoas, na valorização dos recursos, sobretudo humanos.
Tem como efeito a promoção de um sentido de cidadania mais activo e o crescimento do exercício de poder da própria comunidade, o seu empowerment, gerador de novas actividades, iniciativas e competências.
Este é, aliás, um ponto de distinção em relação à corrente do Desenvolvimento Humano, ou seja, na perspectiva do desenvolvimento local trata-se, acima de tudo, de considerar o desenvolvimento como o exercício pleno da cidadania e o resultado de uma participação activa de todos, sendo a satisfação das necessidades uma consequência e não o ponto de partida (Amaro, 2003: 57). Nesta perspectiva, o não-desenvolvimento é o não-exercício da cidadania e o desenvolvimento implica necessariamente o reforço das capacidades que permitem exercer o poder de participar.
Quanto à dimensão do “local” no Desenvolvimento, não significa necessariamente uma delimitação geográfica. O paradigma do território influencia esta corrente, mas a noção de
território não está limitada a um sentido geográfico, está antes associada ao sentido da
comunidade de vida, da comunidade em movimento, enquanto conceito sócio-antropológico (Amaro, 1992).
Com efeito, encontramos a necessidade de responder a dificuldades observadas ao nível local de certas regiões, cuja realidade fica frequentemente distante de outras análises de indicadores macroeconómicos, não poucas vezes porque o contexto de mudança gerado pelos processos de desenvolvimento gera um agravar de desigualdades entre regiões, com desvantagem para as mais periféricas. Mas por outro lado, este “local” vai hoje mais longe que uma visão regional.
Assim, considera-se território como sujeito, com uma identidade própria ao nível da sua cultura, história e espaço natural, como actor de desenvolvimento, como factor de mudança.
Nessa identidade encerram-se redes de regulação local, segundo lógicas de Sociedade Providência. E com a chamada crise do Estado Providência, há maior propensão em re-
dinamizar ao valor destas identidades.
Neste sentido, o Desenvolvimento Local é considerado uma metodologia que procura transformar ameaças em desafios, com iniciativas de base local, maximizando capacidades, oportunidades e recursos endógenos. Não significa que se dispensem os factores exógenos, que são importantes catalisadores, desde que não se iniba ou elimine a mobilização de recursos endógenos.
Por isso, reconhece-se e valoriza-se o princípio da diversidade, na identificação dos problemas, nas opções de resposta, no leque de actores envolvidos, no entendimento do próprio processo de mudança, e até dos resultados, o que faz com que cada um dos processos de desenvolvimento local seja único e irrepetível (Amaro, 1992).
Trata-se, pois, de um caminho muito distinto do modelo economicista da produtividade. Face à teoria tradicional sobre Desenvolvimento, encontramos por vezes uma crítica a uma visão do Desenvolvimento de fora para dentro, de cima para baixo, em defesa de uma articulação das dimensões micro e macro da realidade, geralmente tratadas de modo separado uma da outra (Quintela e Arruda, 2000: 319).
Estratégias enquadradas nesta linha do Desenvolvimento Local serão estratégias apostadas em promover parcerias e redes locais, procurando envolver o maior número de entidades locais, segundo uma perspectiva inclusiva, que evite excessivos “localismos”, e nas quais faz sentido incluir as empresas, sejam de economia social ou não.
Deste factor pode decorrer a propensão para uma maior humanização do tecido económico e para uma nova cultura empresarial, também ela mais ligada a necessidades e oportunidades que estão próximas. A densidade relacional que está associada a este sentido de proximidade é algo para o qual a experiência da EdC pode ter um contributo a dar, pela forma como procura estabelecer laços de confiança entre diversos stakeholders.