6.4 Flertallets syn
6.4.2 Styrking av ledelsesfunksjonen
A um primeiro olhar, a maneira como ouvi os meus interlocutores re- ferirem-se às árvores de fruto aproxima-nos dos dispositivos de memória sobre a territorialidade dos yanesha, no Peru, descrita por Santos Gra- nero: uma «escrita da história na paisagem» ou a partir da paisagem (cf. Santos-Granero 1998). Por se tratar principalmente de árvores de fruto, as árvores trazem o benefício evidente de fornecerem frutos abun- dantes e nutritivos, como o coco, a banana e a jaca, que asseguram ali- mento para a família. Junto à casa e, especificamente, ao seu redor, a plantação de árvores de fruto, como o coqueiro, a bananeira ou a ja- queira, cria um espaço de sombra que protege contra o calor abundante que se faz sentir na região ao longo de quase todo o ano. Ao longe, essas pequenas manchas de árvores, que frequentemente escondem uma casa, evidenciam, por sua vez, a existência dos sítios, destacados na paisagem rural, dominada pelo verde uniforme da cana-de-açúcar. Elas são, nesse sentido, um marco da paisagem do assentamento – como nos poderiam sugerir as abordagens sobre a antropologia da paisagem (cf. Hirsch 1995).
Em maior aproximação ao que Santos Granero descreve, foi ao acom- panhar os meus interlocutores nos seus movimentos quotidianos que as árvores de fruto surgiram de forma mais contundente como marcos da história. Assim aconteceu, por exemplo, quando estava a acompanhar Seu Vítor e ele se referiu a um grande cajueiro que está na sua parcela do as- sentamento. Debaixo dele, disse-me, já passou muitas vezes quando era solteiro e depois, desde que se mudou para ali. Além do cajueiro, descobri então que era também no espaço da sua parcela que se encontrava a casa onde a mãe morou por duas vezes quando aquela terra ainda fazia parte do espaço do engenho. Seu Vítor, que contava 70 anos à data do trabalho de campo, nasceu em Rio Comprido – engenho vizinho que dista alguns quilómetros apenas –, mas, segundo o próprio, «se criou aqui em Aru- pema». «Naquele tempo se mudava muito», acrescentou. Ao todo, desde a sua infância, já morou em Arupema por quatro vezes distintas.
Em muitas das minhas conversas sobre a constituição das parcelas de cada assentado repetidamente notei que as pessoas lembram explicita- mente as árvores que plantaram na sua parcela no momento em que se instalaram lá:
A parcela só era mato, tava pior que agora [...] Tinha mato, jaca... lá em baixo no córrego tinha jaca, depois eu plantei pés de coco, de jaca, graviola, limão... [Seu Amaro, Novembro de 2010].
As parcelas não tinham sido cortadas ainda não. Demorou ainda, se- nhora. Passou um ano! Trabalhando aqui. Já tinha escolhido. Cada um es- colheu a parte para trabalhar. Depois o INCRA veio e partiu [...] Aqui não tinha nada, só tinha mato. Era cercado aqui. A minha e a do Seu José Fran- cisco era tudo cercado. Esses pé de fruto já foi tudo que eu plantei. Era manga de gado [...] Por aqui era tudo pasto, era manga. Agora esse pé de jaca, pé de manga, foi tudo qu’eu plantei [Severino, Abril de 2011].
Esta avaliação acerca do que se encontrava na parcela no momento em que foi cortada ou partida, isto é, delimitada, e de como os seus ocu- pantes a têm transformado desde então foi sempre um mote trazido por eles para as nossas conversas de um modo significativo para o argumento aqui em causa. Alguns desses elementos são indicativos do que era so- cialmente valorizado na escolha para a nova parcela. De facto, ainda que os novos assentados não procurassem explicitamente locais com pés de fruta, a sua existência, decididamente, parecia mover as pessoas nessa es- colha:
Eu peguei esse trecho todo aqui de Arupema. Rodei a mata, não me agra- dei. Aí vi uns pés de dendê e disse [ao meu esposo]: «Amorzinho, ali tem água.» Uns pés de pau que bota coco, que a caça do mato gosta muito, tatu. Ainda não vi um lugar que tivesse dendê e não tivesse água. [Disse para ele:] «A gente vai a casa, faz um lanche e a gente traz logo uma foice, um facão e uma enxada, porque se tiver água a gente começa logo a roçar e a trabalhar» [Dona Mara, Novembro de 2010].
Pés de fruta como indicativos de recursos naturais, como a água – im- prescindíveis para cultivar –, estão aqui imbrincados, portanto, com essa memória do espaço de habitação antigo.
Este poder mobilizador dos pés de fruta tornou-se explícito também quando os meus interlocutores se referiam à altura em que teve de haver mudanças na atribuição das parcelas de terra entre as famílias dos assen- tados nos primeiros anos de criação do assentamento. Ao descreverem o que se tinha passado nesses processos de mudança, os pés de fruta apa- recem com todo o seu poder mnemónico: são o referente para assinalar a sequência de pessoas que, mesmo em curto espaço de tempo, ocupa- ram certa parcela:
Aqui, nesta parcela, tinha outra mulher, saiu para o outro lado de lá. Na outra [parcela] tinha bananeira, feijão e roça. Tinha milho também. Aí, quando mudou para cá, ficou. Nessa aqui era capoeirão. O pé de fruta que tinha aqui já foi a parceleira que tinha plantado, dois pés de manga que tem
ali em baixo e um pé de coco, que ficou dela. Somente. O proprietário não tinha nada plantado aqui, era quase mata, era mata, capoeirão [Rita, No- vembro de 2010].
Os pés de fruta são, portanto, explicitamente, um dispositivo de me- mória, uma forma de «inscrever a história na paisagem», como escreveu Santos Granero (1998). Mas são ainda mais do que isso. Inscrevem di- rectamente essa história nas tensões sobre a posse da terra. Na verdade, as descrições que tive sobre esses processos de mudança de parcela resul- tavam principalmente da necessidade de me explicarem como alguns deles tinham sido tão significativos. A relação entre a posse da terra, as suas tensões e as árvores de fruto vai, na verdade, percorrendo o tempo. Em situações mais recentes e entre familiares também ocorre. Num caso entre irmãos que conheci, o apego pessoal às árvores era mais acentuado. Júlia falou muito do que plantou na parcela que lhe foi atribuída no iní- cio do assentamento e donde saiu, com consternação, depois de o ma- rido a ter vendido e decidido que iam voltar para São Paulo. Referia-se es- pecialmente às muitas árvores de fruto que ela própria plantou, que complementava com a memória de terem tido de partir uma pedra ro- busta para chegar a uma mina de água que havia debaixo da pedra e era imprescindível para se fixarem ali. À data do trabalho de campo, quem vivia naquele lugar era Augusta, irmã do marido de Júlia, com quem esta última mantinha ainda relações hostis devido à desavença decorrente pre- cisamente deste processo. À medida que me mostrava o seu terreiro, Au- gusta fazia referência directa às árvores que haviam sido plantadas por Júlia, distinguindo-as daquelas que ela própria havia plantado desde que ali morava, havia apenas cinco anos. Estes casos são muito significativos. Mostram-nos como o cultivo de pés de fruta vai tornando uma terra com dono terra personalizada.