6.4 Flertallets syn
6.4.3 Juridisk og økonomisk handlefrihet 103
A personalização e responsabilidade na relação entre pessoas e culti- vos como fundamento da posse da terra têm sido referidas recentemente como uma das dimensões significativas em contextos rurais e indígenas no Brasil (Viegas 2007 e 2016; Fausto 2008; Costa 2010; Machado 2012). Tal como no caso dos ribeirinhos do delta amazónico tratados por Ju- liana Machado, esta ligação das pessoas com as árvores que plantam no seu terreiro surge mais frequentemente entre as mulheres. De facto, tam-
bém em Arupema são as mulheres, enquanto responsáveis pelo espaço da casa e do terreiro, que fazem domesticidade (cf. Marcelin 1999, 36). Esta constituição do espaço doméstico, familiar, faz-se assim tanto pela vivência quotidiana como pelos actos inaugurais, como sejam a planta- ção de árvores ou a construção da casa. Aliás, a presença destas árvores no terreiro não é, como vimos já desde o capítulo 4, dissociável da casa.
A relação entre as pessoas e as árvores assume ainda uma outra dimen- são que permite que a caracterizemos como personalizada: está presente em duas fases marcantes do ciclo de vida – o nascimento e a morte. No caso do nascimento é particularmente significativo que, num passado que me foi várias vezes relatado pelas mulheres mais velhas, depois do parto a placenta (normalmente chamada umbigo ou parto) era posta de- baixo de uma árvore no terreiro da mãe da criança. A prática parece ter sido muito generalizada nesta zona rural até à década de 1970, altura em que as mulheres deixaram de ter os filhos em casa e passaram a fazê-lo no hospital, com recurso a cuidados médicos.2Para grande parte da po-
pulação rural, diferentemente dos trabalhadores industriais da cana-de- -açúcar, o acesso à assistência médica é associado ao tempo de Arraes, um marco temporal que estabelece um corte com o passado, por referência ao governo do estado de Pernambuco de Miguel Arraes, entre 1963 e 1964, altura em que as populações rurais maioritariamente ligadas aos canaviais tiveram acesso a um conjunto de direitos resultantes da aprova- ção do Estatuto do Trabalhador Rural, tais como a aplicação do salário mínimo nacional, sindicalização, concessão de férias e de protecção so- cial e que são descritos como uma melhoria radical das suas condições de vida (Sigaud 1977 e 1980; Dabat 2007; Palmeira 2009).
Augusta, com pouco mais de 50 anos, tem guardados os umbigos dos quatro filhos, mas já não sabe qual é que corresponde a cada um deles. Os filhos, todos eles, nasceram na rua, ou seja, na cidade, portanto, a sua placenta seguiu o tratamento hospitalar comum. No entanto, Augusta guardou o pedaço do cordão umbilical que ficou preso à criança e que, depois de secar, cai nos seus primeiros dias de vida. Dá-se vulgarmente o nome de umbigo ou imbigo tanto a este pequeno pedaço de cordão um- bilical como à placenta expelida depois do parto e à cicatriz que perma- nece na barriga da criança ao longo de toda a sua vida.
2Sobre a medicalização do parto e outras questões relativas à maternidade, nomeada-
mente a prática tão disseminada de esterilização das mulheres no Nordeste brasileiro, v, Dalsgaard (2006).
Quando me falava sobre o assunto, na presença da irmã e deliberada- mente depois de o marido ter deixado a sala onde conversávamos, Au- gusta mostrava-se preocupada com os umbigos dos filhos (aqui no sen- tido de cordão umbilical desidratado) porque, «não sabe onde [os] jogar», ou seja, depositar. Segundo ela, «podem aparecer baratas e comer, o que daria doença» nos seus filhos. No extremo, a inquietação desta mulher assentava no temor de que, quando ela própria morrer, os umbigos dos filhos fiquem perdidos. Segundo me disseram, os umbigos devem ser en- terrados: «depois de enterrado fica logo sossegado». Isto faz-se, porém, sem que as crianças saibam o local em que são enterrados. Manter essa localização em segredo é considerado por estas mulheres imprescindível. Dona Biu, uma mulher mais velha, explicou-me como se fazia:
Tinha vez que eu mesma cortava, quando não tinha parteira e nem as irmãs chegava[m] logo. Botava o cordão, media, amarrava e cortava o imbigo. Embrulhava de pano, cobria e deixava pra lá. Quando a irmã chegava: «Ó comadre Rosa, tá tudo pronto aí.» Aí ia cavar buraco e ia, comadre Laíde, comadre Rosa, tudo era parteira. Era o parto3que era de enterrar. O umbi-
guinho quando cai serve de remédio. O parto não, ficava lá, cavava buraco e ficava [...] Aquela tripa do umbigo que a gente corta é pegado com o parto. Aí cava um buraco e enterra. É fora de casa, dentro do mato. Bota uma pedra em cima, por mor dos cachorro... Ninguém pode saber, não. Só a mãe e quem tá com a pessoa, né? Nem o filho pode saber, nem mocinha... O parto é es- condido para as menina não ver. Primeiro era assim. Não pode não. De jeito nenhum [Dona Biu, Novembro de 2010].
Na sua etnografia de 1951 sobre o Haiti, Remi Bastien fala do enterro do umbigo de um recém-nascido e de uma árvore (frequentemente tam- bém uma bananeira) para, por um lado, reclamar a pertença deste ao
lakou4e, por outro, reclamar direitos de propriedade. Na sua descrição,
«pouco depois de nascer, uma criança já é possuidora e dona, não de modo puramente simbólico. O cordão umbilical, depois de ser cortado, é enterrado perto da casa e, em cima, planta-se uma bananeira ou uma outra árvore de fruto. A planta pertence à criança e a venda dos seus pro- dutos será, de preferência, empregue para comprar-lhe algo de vestuário» (Bastien 1951, 38).
No contexto português do Alto Minho, estudado por João de Pina- -Cabral na década de 1970, a placenta enterrava-se dentro da casa, de-
3Refere-se à placenta.
4Lakou é a designação local do grupo doméstico, muito próximo do conceito nordes-
baixo das pedras onde se faz o fogo da cozinha (Pina-Cabral 1989). Ao mesmo tempo, queima-se o cordão umbilical logo após este ter sido cor- tado, porque, «se o cordão umbilical for apanhado por ratos, a criança terá tendência no futuro a roubar» (Pina-Cabral 1989, 140). Também no contexto haitiano acima mencionado se considera que, caso o enterro da placenta fosse feito fora da casa, os espíritos maus se apoderariam dela e poderiam prejudicar o bebé (Bastien 1951, 52).
Como verificamos, todos estes procedimentos estão sujeitos a grande cuidado, envoltos em perigo. Trata-se de uma concepção que liga as ac- ções da mãe com o corpo e o carácter dos filhos. Assim, se as mulheres ficam deitadas durante a gravidez, o bebé fica preguiçoso, se elas traba- lham durante todo este período, ele fica esperto. Além do terreiro onde se nasceu, contaram-me que a placenta podia também ser enterrada na por- teira de uma fazenda, de modo que a pessoa viesse a ser rica.5Nesta con-
tinuidade ontológica entre a pessoa e o destino que se dá ao seu umbigo, existem elementos simbólicos (tais como os animais e os lugares) aos quais se atribuem significados específicos e que lhe conferem identidade e pertença. Por outro lado, importa ainda referir que a propriedade da terra era e continua a ser um elemento fundamental na percepção da es- trutura social (Garcia 1983, 82), daí que enterrar o umbigo de um filho de canavieiros, geralmente moradores sem terra, na entrada de uma fazenda constitua um gesto simbólico de passagem para uma posição social me- lhor.
A plantação do umbigo enquadra-se, então, num tema recorrente na li- teratura antropológica (Pina-Cabral 1989; Carsten 2004; Viegas 2007; Godoi 2013). No caso de Arupema, estas práticas parecem criar laços entre as pessoas e a terra por intermédio das árvores, constituindo um sentido de pertença ao local onde essa parte do corpo foi cuidadosa- mente enterrada. Esta relação concreta, corpórea e simbólica, que existe entre a placenta de uma pessoa e a árvore que sobre ela foi plantada, o terreiro ou a terra onde foi enterrada, qual depositária, traz-nos para uma dimensão sensorial de afinidade entre o corpo das pessoas e a materiali-
5Neste sentido, porteira significa o portão de entrada de uma fazenda. De facto, a exis-
tência de uma porteira neste contexto está associada especificamente ao tipo de ocupação do espaço que é uma fazenda, dado que, ao contrário dos engenhos de cana, que não são delimitados materialmente por nenhuma vedação, as fazendas, onde se cria gado, são cercadas de sebes, que contêm o movimento dos animais e têm habitualmente uma entrada única marcada pela porteira. Sobre esta multiplicidade de categorias locais de ocupação da terra, nomeadamente sobre a distinção entre fazenda, engenho e sítio, v. capítulo 3.
dade dos lugares que elas habitam. Enfatiza uma dimensão bem mais ampla do que a das condições materiais de existência e da terra, como veremos já na secção seguinte.