Del II Statlige universiteter
Kapittel 8: Statlige høyere
7 Considerações finais
O Mediterrâneo ocidental é abastecido por cerâmica de verniz negro desde o séc. V a.C., com a importação dos produtos cerâmicos áticos, até à aquisição em massa de cerâmica campaniense do séc. I a.C. Desde os inícios do séc. II a.C. que a produção de campaniense napolitana está bem integrada nos circuitos comerciais, assumindo o abastecimento dos mercados abandonados pela produção de cerâmica de verniz negro ático. Apesar de parte do reportório se basear nos produtos da Magna Grécia as formas e as produções vão evoluindo entre os sécs. IV e I a.C., passando de uma Campaniense napolitana muito arcaizante para uma produção do Norte da Campânia renovadora, onde se assiste à simplificação de formas (com desaparecimento das mais complexas destinadas à ingestão de bebidas e preferência pelas mais abertas, predominando as páteras F2230‐80).
Parece‐nos incontornável a afirmação de que Mesas do Castelinho é um povoado pré‐ romano de fulcral importância na tentativa de descodificar os mecanismos da transição, mais do que constatar os efeitos, que resultaram dos primeiros contactos com o mundo romano durante o séc. II a.C. A convivência de elementos de tradição indígena com as primeiras importações contemporâneas da influência romana revelam a identidade do povoado pré‐ romano, que se vai adaptando ao novo contexto político e económico da região imposto pelo mundo romano. As evidências da cultura material e a evolução arquitectónica demonstram que este aglomerado concretizou a transição em seu benefício, integrando os principais fluxos comerciais da época.
A cerâmica campaniense é tida como um excelente fóssil director que testemunha esses primeiros contactos do sítio e no caso, expressa, simultaneamente, a prosperidade económica que o povoado conhece neste período. Esta pujança económica, acompanhada pela expansão da área ocupada, é particularmente interessante se confrontada com as dificuldades, relacionadas com os diversos contextos beligerantes conhecidos durante o séc. I a.C., que se faziam sentir por toda a Península Ibérica.
O mesmo cenário se pode vislumbrar à luz dos dados que o estudo do material anfórico permitiu conhecer (Parreira, 2009).
O sítio Mesas do Castelinho conta com um volume e variabilidade de importações de cerâmica de verniz negro de produção itálica, integrável nos sécs. II e I a.C., revelador da participação do sítio nos grandes fluxos comerciais republicanos, acompanhando as tendências comerciais Mediterrânicas. É, então, exemplo da tradicional existência de redes de ligação comercial que vincularam o interior alentejano à bacia do Mediterrâneo.
A existência, suscitada pela análise do Itinerário de Antonino, datado provavelmente de inícios do séc. III d.C., de uma via que partia de Faro para Norte, atravessando a serra algarvia em direcção a Almodôvar é pacífica entre os investigadores. Assim, a localização geográfica do povoado, próxima do limite da navegabilidade do rio Guadiana e das vias terrestres que estabeleciam ligação entre o Baixo Alentejo e o Algarve, entre a peneplanície alentejana e a serra do Caldeirão, favoreceu a sua ocupação humana, bem como a integração nos ritmos comerciais e económicos do período romano republicano.
É bastante complexo definir intervalos cronológicos finos no que respeita aos momentos de construção/utilização e abandono do povoado republicano, na medida em que se vislumbra uma homogeneidade material presente nestes contextos incompatível com esse propósito.
Os contactos com o mundo romano estão bem patentes na presença de materiais datáveis da primeira metade do séc. II a.C., contudo, não é credível que a ocupação republicana seja anterior a meados desse século, altura em que se terá dado início ao rearranjo urbanístico do povoado. A presença destes materiais mais antigos poderá estar articulada com a acção do porto de Cádiz, controlado no final do séc. III a.C., por Roma, que mantém a sua acção organizadora e distribuidora do comércio no Sul da fachada atlântica da
Ulterior, paralelamente à progressão e movimentação dos contingentes militares romanos por
toda a bacia mediterrânica e durante o processo de conquista do Sul da península.
A realidade verificada em Mesas do Castelinho reporta‐se ao maior conjunto estudado em território português, ainda que, e mais uma vez, alertemos para o facto de os 2532 fragmentos de cerâmica campaniense ali recolhidos não significarem um maior índice de importação relativamente a outros sítios, mas sim poder estar relacionado com as amostras estudadas ou com as escolhas das áreas intervencionadas.
Durante a segunda metade do séc. II a.C. a Campaniense A sofre importantes transformações, visíveis no reportório e patentes no registo arqueológico deste povoado. Raras são as decorações, já quase inexistentes neste período, a qualidade dos produtos decai e acaba por ser suplantada pela massificação das produções calenas. Estas invadem os mercados peninsulares de forma, cremos, bastante repentina. Não nos parece que a importação de Campaniense A cesse assim que a produção calena passe a fazer parte dos serviços de mesa peninsulares, mas paulatinamente vai‐se tornando mais difícil a aquisição desta. Apesar de se tentar equiparar à célere e massiva produção da B do Norte da Campânia, esta ganha terreno, até porque é suportada por transformações políticas, como seja a abertura do porto de Delos e a criação da província romana da Ásia, em 129 a.C., com repercussões económicas,
impossíveis de ignorar, que contribuíram, decisivamente, para o impacto que teve por todo o mundo romano (Pedroni, 2000, p. 348).
Ao contrário do que sucede em locais como Valentia (Marín Jordá, et al., p. 93) com índices de presença de Campaniense A e produções da B muito díspares e a que foi possível atribuir cronologias, em Mesas do Castelinho não foi possível determinar o momento de mutação dos mercados de importação da cerâmica Campaniense A pela B, pelo menos não nesta perspectiva de substituição. Trata‐se de um local com importação indirecta, ao contrário de Valentia, e como tal a observação desses fenómenos torna‐se mais complexa. O panorama aqui detectado parece resultar da tardia amortização do reportório napolitano, que em momento algum pode ser considerado como residual, apesar do povoado, obviamente, não ser alheio às alterações no sistema produtivo itálico e respectiva difusão para o ocidente.
Assim, não se podendo identificar uma substituição efectiva de A por B, porque de facto ela não ocorreu nesse sentido, pode‐se constatar um momento, algures centrado nos princípios do séc. I a.C., em que a B calena integra os mercados e, consequentemente, a realidade artefactual de Mesas do Castelinho, sendo naturalmente, e em termos percentuais, ligeiramente superior já em momentos avançados do séc. I a.C. Das restantes importações de campaniense destacamos a escassa representatividade de cerâmica de verniz negro aretino, centrada em momentos avançados do séc. I a.C., como seria de esperar, e que demonstra a fraca difusão que teve nos contextos mais a ocidente do Mediterrâneo. Inédito no actual território português é, sem dúvida, a identificação, já referida em relatório de escavação (Fabião et al., 2001), da marca de oleiro Q.AF, correspondente à produção da oficina aretina de Quintvs Afranivs, que terá produzido entre o ano 40 e 20 a.C. Desconhece‐se qualquer outra evidência deste género nesta área geográfica, sendo que no mesmo sítio, proveniente da campanha de 2010, foi possível recuperar um outro fragmento com marca característica desta produção, referimo‐nos à impressão dos 2 C’s contrapostos19. O conjunto com esta proveniência relaciona‐se com formas típicas do último século antes da viragem da Era, ou seja, F2230‐80, especialmente F2270 e F2280, com grandes páteras, de bordos muito altos característicos desta produção.
Um aspecto que nos parece relevante e susceptível de ser considerado no futuro deriva da possibilidade de terem existido reproduções da cerâmica calena de oficinas localizadas na Península Ibérica. Em fases em que os exércitos se movimentavam pela península não é de todo estranho a migração e fixação de oleiros nestas paragens, o que está, aliás, bem documentado para a produção de terra sigillata de tipo itálico, em finais do séc. I
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a.C. junto dos acampamentos de Herrera de Pisuerga e Lyon (Morillo e García‐Marcos, 2001), ainda que estes estejam directamente relacionados com oficinas militares. De qualquer forma, a hipótese que avançamos só poderá ser testada pela concretização de análises químicas às pastas das produções da B, recolhidas nos centros receptores da Península Ibérica.
A amostra de Campaniense “local/regional” em pastas cinzentas e laranjas com verniz negro, imitando o reportório das produções da B e da napolitana, é muito reduzida e a determinação das áreas de proveniência continua por apurar. De qualquer modo, e aparentemente, a área do vale do Guadalquivir terá tido um conjunto de oficinas produtoras de uma variante da cerâmica Campaniense “local/regional” de pastas cinzentas (Ventura Martínez, 2000), semelhantes com as identificadas em Mesas do Castelinho.
Apesar do estudo da cerâmica campaniense permitir avanços no campo da percepção dos fluxos e relações comerciais em período romano republicano, é imperativo que estes dados sejam confrontados com os passíveis de se extrair dos restantes elementos que caracterizam estes contextos, corroborando ou refutando as informações prévias. O conhecimento de uma ocupação, seja ela qual for, não pode ser limitado, nem se esgota, ao que um tipo cerâmico pode “dizer” sobre si. Neste sentido é imperativo que se procedam a estudos integrados que contemplem toda a informação estratigráfica e material, de modo a obtermos uma mais completa imagem das dinâmicas locais.
A falta de investigação e publicação de dados contribui, obviamente, para uma imagem trémula e precária do conhecimento que actualmente temos acerca da distribuição, caracterização e implicações económicas e sociais da cerâmica campaniense. Perante este cenário, crê‐se que, este pequeno contributo, que não pretende esgotar em si todo o espectro de debate sobre a questão da presença desta produção em Mesas do Castelinho, poderá ajudar a esbater esse vazio.