6.4 Flertallets syn
6.5.2 Forskning og utdanning
Tratando-se de agricultores cuja principal fonte de rendimento resulta da venda dos produtos na feira semanal, também a utilização das roças ou roçadinhos, tal como a criação de gado e outros animais, estão direc- cionadas para a venda do produto no mercado, de maneira que o seu dono tenha um rendimento autónomo e individualizado. Importa então salientar que, mais do que a propriedade da terra onde se cultiva, a posse dos cultivos advém de uma identificação que existe com a pessoa que é responsável por eles.
Relembremos o caso de Marcos, mencionado anteriormente. Mesmo antes de casar, além da roça de macaxeira, Marcos já trabalhava na horta de produtos orgânicos que tinha na parcela do pai. Ao trabalharem para si, os rapazes vão juntando dinheiro para o casamento, tornando possível a sua autonomia futura. Além da horta em si, trabalhar no orgânico pode significar também ter um banco de feira, assumindo um lugar de venda nas feiras semanais que se realizam na cidade do Recife. A deslocação para essas feiras é feita por um autocarro alugado semanalmente para transportar produtos e vendedores, na maior parte dos casos os próprios agricultores, a partir do assentamento. Quando Marcos saiu da feira, isto é, deixou a actividade agrícola e a respectiva venda para passar a ser mo-
torista deste ónibus que leva os produtores de Arupema, a horta que ele cuidava passou temporariamente a ser tocada pela mãe, Emília, dado que o pai trabalhava no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, auferindo por isso um ordenado mensal. Alguns meses passados, quando o irmão mais novo ficou desempregado e decidiu passar a produzir orgânico, pôde fazê- lo, tal como o irmão havia feito, também na parcela dos pais, mas desta feita noutra localização. Não sendo uma regra explícita, a mudança de dono implica a mudança do cultivo para uma nova localização, reco- nhecendo este vínculo entre a pessoa e o seu roçado ou a sua horta.
Um outro caso concordante com esta ideia é o de Lucas, que escolheu um novo local para abrir a horta, ou seja, transformar com o seu trabalho uma nova porção de terra em terra produtiva. Como o próprio me rela- tou, nesse local o chão estava muito duro, por ali ter estado anteriormente o cercado do gado onde os animais calcavam a terra. Lucas começou então por «abrir tudo com a enxada e depois chamou o tio com o tractor». A partir de então «é Lucas que coordena a horta». Disse-me a mãe: «Agora é ele, ele é que sabe o que fazer.» Coordenar a horta e saber o que fazer são tarefas a cargo da pessoa que é responsável pela horta ou pelo roçado e isso implica decidir quais os produtos a plantar, quando e onde o fazer.
Figura 6.3 – Marta ralando o milho no chão da sua casa (assentamento Arupema, Julho de 2012)
Além de encomendar o estrume necessário e gerir as sementes, o respon- sável pela horta tem também de preparar o leirão ou chamar trabalhador para realizar esse trabalho. Cavar ou fazer leirão é considerado um traba- lho muito duro, principalmente se tiver de ser feito durante a hora de mais calor, debaixo do sol. Essa é uma tarefa que compete aos homens – ainda que algumas mulheres também o façam – e é frequentemente realizada pelo trabalhador que se contrata ocasionalmente, sendo pago
ao dia (quando o pagamento corresponde às horas de trabalho acordadas)
ou à produção (quando o pagamento é ajustado de acordo com a tarefa a realizar, independentemente de quanto tempo implica a sua concretiza- ção).
Para a manutenção diária da horta do orgânico, que envolve as activi- dades mais minuciosas de semear, limpar, aguar (regar) e colher, Lucas conta com a ajuda da mulher, Amanda, e da mãe, Emília. As actividades relacionadas especificamente com a feira, a que se chama fazer mangalho, e que se realizam intensamente na véspera do dia da feira, são geralmente realizadas por todos os membros da família que se encontrem disponíveis na casa, mas não dispensam o contributo das mulheres. São as mulheres que seleccionam os produtos colhidos de acordo com o tamanho e o as- pecto, que os lavam e os separam em quantidades que correspondem às doses a serem vendidas directamente ao consumidor. Este trabalho de
lavar e amarrar verdura, diferentemente do da produção, faz-se em parte
na horta, mas também no espaço da casa e do terreiro, onde se dispõem as caixas já prontas, que serão depois carregadas no ónibus da feira. Nesta viagem e na venda, Lucas é geralmente acompanhado pela mãe, que du- rante algum tempo o fez sozinha. No entanto, assim que Lucas assumiu, decidiu também mudar de ponto de feira onde localizavam a sua banca no Recife, dado que, de acordo com ele, não vendiam muito no anterior, onde a mãe estava.
Tal como os outros feirantes de Arupema, Emília aproveita a viagem de regresso da feira de orgânico para, numa paragem em Vitória de Santo Antão, se abastecer dos produtos necessários ao consumo da casa durante essa semana. Ao fim do dia, ao chegarem a Arupema, Emília e Lucas fazem as contas de quanto ganharam com a venda dos produtos da horta e dos vários roçados da parcela e dividem os lucros. Uma vez que é Lucas o responsável pela horta, é dele a maior parte do rendimento, que reparte com a mãe por esta o ajudar. Neste cálculo importa também referir que o dinheiro ganho com cada produto específico é reservado para aquele que é o seu dono, isto é, que o cultivou, como acontece com a macaxeira de Marcos ou a banana de José Francisco.
Passadas algumas semanas após a horta de Lucas ter sido aberta, co- mentei que estava bonita e grande. Interpelado pela apreciação, Lucas respondia-me que ainda era pequena e que ele queria «ficar para ver como isto corre por mais um tempo». De facto, Lucas começou lenta- mente a assumir parte das responsabilidades que, na ausência do pai, eram exclusivamente assumidas pelo irmão mais velho, gerir a actividade agrícola da parcela, tanto da horta como dos plantios de milho, feijão, chuchu e ainda uma porção de cana-de-açúcar que é anualmente vendida à usina. Antes de «se meter nesse negócio dos ónibus», era Marcos quem tratava também dos outros cultivos familiares, mas agora, diz Manoel, amigo da família desde há muito: «É Lucas que voltou e que tem de tomar conta.»