No capítulo anterior, apresentamos como contribuição da segunda tendência nos estudos em referenciação a consideração de diversos elementos cotextuais para o estabelecimento da recategorização. Julgamos que uma consequência (comentada, mas pouco discutida ou explorada) de tal ideia é a consideração do caráter não linear do processamento referencial, o que comprova mais um avanço no entendimento dos fenômenos. Quando se trata de construir referentes em um texto, o caminho seguido não precisa, necessariamente, obedecer à linearidade do enunciado, ou seja, não precisa, apenas, reconhecer as relações entre um antecedente e seus diversos anafóricos, na ordem em que aparecem. O trabalho
interpretativo é muito mais difuso, feito de idas e vindas, de maneira que tanto o enunciador quanto os interlocutores (sabedores de que é assim que as coisas são) articulam suas ações via texto com base nesse parâmetro.
O exemplo (36) é bastante ilustrativo dessa não linearidade; apresentamo-lo novamente, a fim de que esclareçamos nosso ponto de vista.
(36) pôr-do-sol
O romance de Luana Piovani e Ricardinho Mansur – que começou cercado de flashes há quase dois anos – terminou discretamente, sem alarde nem fotos, em Paris. A decisão partiu do jogador de polo, que foi até a França – onde a atriz passa temporada de estudos – para finalizar a história. O motivo nenhum dos dois comenta. De lá, Ricardinho seguiu para Aspen, nos Estados Unidos, para esquiar com amigos. Já Luana preferiu ir até a Espanha... para dar aquela arejada.
(Época, 21/02/2005.)
Em (36), o termo recategorizado encontra-se, ―paradoxalmente‖, no início do texto. Para que a recategorização se efetive – o que implica perceber a metáfora pretendida – é preciso ler o texto todo e depois voltar ao título. Outro caso ilustrativo é encontrado no poema ―A rosa de Hiroxima‖, analisado tanto por Cavalcante (2005) quanto por Lima (2009), o qual reproduzimos a seguir:
(40) A rosa de Hiroxima Pensem nas crianças Mudas telepática Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas. Mas oh não se esqueçam Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada
(MORAES, Vinícius de. In: CAVALCANTE, 2005, p.129.)
Cavalcante discute, com esse exemplo, a condição peculiar de o título do poema – uma introdução referencial – já vir recategorizado, afirmando que ―nosso conhecimento de mundo
nos permite recuperá-lo [o referente em torno da bomba atômica] e compreender a transformação que se processa no próprio instante em que o objeto de discurso é introduzido no poema‖ (2005, p. 130). Lima (2009, p. 46) procura acrescentar à análise de Cavalcante a observação de que, na verdade, ―há outros elementos no cotexto que servem como âncora para a inferência do referente categorizado‖. Ou seja, para Lima, o reconhecimento de que a rosa de Hiroxima é a bomba atômica só se estabelece quando da leitura do poema como um todo. De acordo com esta autora (2009, p. 46),
se assumimos a recategorização como um processo cognitivo-referencial, podemos facilmente sustentar que a transformação não se dá pontualmente, mas vai acontecendo à medida que as inúmeras pistas dadas por expressões referenciais ou não ajudam o leitor a compor novos sentidos e novas referências, daí termos esse caso como muito mais complexo, algo próprio da riqueza do texto literário, em que a recategorização se realiza de forma circular. Ou seja, é preciso passar pelos vários elementos em que ela se ancora para, num movimento inverso, chegar-se à (re)construção do processo.
A nosso ver, a depender da experiência de leitura, tanto Cavalcante quanto Lima propõem explicações pertinentes em suas análises149. No momento, fiquemos com a posição de Lima, pois, a partir dela, temos mais material para dissertar sobre a não linearidade. A partir do que apresentamos até aqui, vemos que a recategorização, mais que a manifestação, em uma expressão, de um processo em cadeia, é um processo textual-discursivo, passível de ser efetivado pelas idas e vindas do interlocutor no (con)texto.
A questão da não linearidade é importante porque, ao mesmo tempo em que mostra a real complexidade da ação de construir referentes, chama a atenção para a possibilidade de tratamentos diferentes no que diz respeito à distinção entre introdução referencial e anáfora. Se aceitamos que a não linearidade é constitutiva do processo, questões como a relação entre o dado e o novo em um texto passam a ser redimensionadas.
Isso demanda uma reflexão cuidadosa sobre a introdução referencial – expressão nominal que institui ―um objeto no discurso sem que nenhum outro elemento do contexto discursivo ou da situação imediata de comunicação o tenha evocado‖ (CAVALCANTE, 2003,
149 Não há espaço para uma discussão mais detalhada, mas é interessante observar que o estatuto referencial dos elementos textuais pode passar por modificações a depender da experiência de leitura. Já são bastante aceitas as
noções de que um mesmo texto ―lido‖ por pessoas diferentes pode gerar interpretações distintas e de que uma pessoa que ―leia‖ o mesmo texto em momentos diferentes poderá reconhecer sentidos diferentes em cada ―leitura‖. Se assim o é, Cavalcante tem razão quando diz que a recategorização do título pode acontecer no momento mesmo em que ele é evocado, pois, em ―leituras‖ posteriores do mesmo texto (e essa é uma atividade
p. 106). A partir dessa definição, temos casos prototípicos de introdução referencial nas expressões destacadas em (41):
(41) Era uma vez, um lindo jovem que vivia em um castelo. Certa noite, ele recebeu a visita de uma velhinha, que lhe pediu abrigo. Ele negou e ela foi embora. A velha, furiosa, transformou-o numa Fera.
Em uma vila distante morava um comerciante chamado Maurício que tinha uma filha chamada Bela. [...]
(Disponível em http://camilagenaro.blogspot.com/2008/10/esses-resumos-dos-grandes-clssicos-so.html. Acesso em 28 jul. 2010.)
As expressões referenciais destacadas apresentam objetos de discurso que podem, no decorrer do texto/discurso, ser retomados ou por via direta (o que acontece quando, por exemplo, as expressões ―ela‖ e ―A velha‖ são utilizadas para continuar a menção à ―velhinha‖) ou por via indireta (o que se pode estabelecer a partir de relações semânticas como a que se constrói entre ―visita‖ – expressão-âncora – e ―abrigo‖ – anáfora indireta). Todas as possibilidades de retomada (incluindo o encapsulamento) são passíveis de promover a transformação do referente, o que garantiria a recategorização referencial. No panorama delineado, não haveria espaço para um possível caráter recategorizador da própria expressão que introduz o referente.
Contudo, a análise de dados mostra que uma introdução referencial pode, muitas vezes, não ter apenas a função de apresentar um objeto, supostamente ―isento‖ de cargas significativas para além da sua identificação. Conforme já vimos, a primeira menção ao referente pode já vir marcadamente recategorizada. Esse aspecto merece destaque por se tratar de um elemento importante em qualquer composição textual. Trata-se de algo tão frequente que caberia questionar (como ousadamente fazem Costa, 2007, e Ciulla e Silva, 2008) se não se trata de um procedimento constitutivo da atividade referencial.
Cabe-nos, agora, detalhar as ocorrências em que as introduções referenciais não são tão ―puras‖, a fim de que possamos entender os aspectos funcionais dessa estratégia, relacionando-os, quando for o caso, com a não linearidade. Comecemos com as reflexões feitas por Silva (2004), que, ao analisar os processos referenciais no gênero notícia policial, observa alguns casos em que a introdução referencial revela uma escolha avaliativa do enunciador, como se vê em (42), (43) e (44):
(42) ASSALTANTE MORRE EM TIROTEIO COM A POLÍCIA
O assaltante Juscelino Xavier dos Santos, 32 anos, que residia na cidade de União, morreu em tiroteio com a Polícia Militar [...]
(Jornal O Dia, 19 de março de 2003.)
Policiais de Miguel Alves (cidade localizada a 110 quilômetros de Teresina) mataram na noite de anteontem, durante uma operação, o pintor Juscelino Xavier dos Santos [...]
(Jornal Meio Norte, 19 de março de 2003.)
(44) ARTESÃO EXECUTADO POR POLICIAIS EM BARREIRA
O artesão Juscelino Xavier dos Santos, 30 anos, foi executado anteontem com um tiro de arma de grosso calibre, na virilha, ao tentar passar em uma barreira formada por policiais civis e militares [...]
(Jornal Diário do Povo, 19 de março de 2003.)
O objetivo do trabalho de Silva é investigar os processos referenciais presentes na notícia escrita sobre o mesmo episódio em três jornais diferentes, para analisar a subjetividade das escolhas lexicais explicitadas nos processos referenciais. Observando os exemplos (42), (43) e (44), o autor verificou a avaliação (nas expressões referenciais) apontada no título, sobre o mesmo sujeito envolvido no fato noticiado. Em cada caso, há uma orientação prévia que pode apontar a posição do enunciador (como se vê mais claramente no exemplo 42). Sobre esta orientação prévia, Silva (2004, p. 66) comenta:
A apresentação dos sujeitos na notícia é geralmente antecedida por algumas informações. A qualificação do referente como desempregado, traficante, líder da rebelião (para exemplificar termos muito usuais nas notícias policiais), antecipando e somando-se à apresentação do objeto de discurso, é realizada de forma estigmatizada, revelando uma orientação argumentativa para as informações que se quer prestar ao público leitor. As noções que se tem do objeto do discurso na notícia apresentam-se como dados nos quais se crê poder confiar, e nos quais se confia, de fato, eficazmente.
Mas, diferente das expressões anafóricas, as quais remetem sempre a uma âncora do cotexto, o introdutor de referente apresenta-o pela primeira vez, fazendo uma antecipação que será essencial para que o leitor, ―sozinho‖,
formule sua opinião e muitas vezes concorde com a do enunciador. (grifo nosso)
O processo de apresentação dos referentes exemplificado por Silva mostra como uma expressão introdutória já vem marcada avaliativamente, como estratégia de orientação argumentativo-discursiva. Acrescentamos, neste trabalho, que essa função não é exclusiva do gênero notícia; é possível identificar este mesmo procedimento em outros gêneros, como vemos em (45):
(45) Vamos enfrentar o monstro
O uso do crack no Brasil já é tratado no âmbito do governo federal como um caso grave de saúde pública, mas com um viés de risco à segurança pública. Tanto assim que o presidente Luiz Inácio da Silva determinou, no início deste mês, que o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência, [sic] que organize um seminário com especialistas para discutir a questão.
Não é necessário ser um especialista para se perceber o quanto o crack é uma droga devastadora e que coloca em risco não somente a saúde e a segurança dos usuários, mas das famílias e comunidades afetadas pelo crescente consumo desta substância entorpecente.
Relatos cada vez mais dramáticos envolvem desde a venda de utensílios e móveis para sustentar o vício até assaltos e homicídios cometidos por jovens – alguns deles ainda nem bem saídos da infância. Algo que não é somente preocupante, mas grandemente assustador.
Pais e mães, educadores, profissionais de saúde e policiais hoje manifestam o temor de que o crack chegue cada vez mais perto de jovens e crianças. Vulneráveis, eles podem ser levados a este abismo de difícil volta. As razões para o grande medo precisam se fazer acompanhar, claro, de ações corajosas e imediatas para o enfrentamento.
O crack é um monstro que coloca sob risco comunidades em todo o Brasil. Enfrentá-lo com determinação é uma medida urgente e inadiável. Além do combate ostensivo ao tráfico, faz-se necessário [sic] que, o quanto antes, fazer chegar às escolas o material didático para dar a professores o conhecimento necessário para que instruam seus alunos sobre os malefícios desta droga.
Quanto mais informação se tiver sobre os efeitos das drogas, quanto mais pudermos mostrar quão feio e ruim é esse monstro, mais chance teremos de impedir que ele seduza nossos jovens e crianças.
(Jornal Meio Norte, 21 de março de 2010.)
Em (45), um editorial, o enunciador discute a repercussão do uso do crack na sociedade e mobiliza os leitores a lutarem contra o uso das drogas. Para que essa mobilização seja efetivada, ele faz referências ao crack que sensibilizam os interlocutores (―droga devastadora‖, ―abismo de difícil volta‖, ―monstro‖, ―substância entorpecente‖). Antes de entrelaçar os fios dessa cadeia textual, o emissor introduz o referente com a expressão avaliativa ―o monstro‖, que remete, no conhecimento enciclopédico do leitor, a uma figura terrível. O terror impregnado nesta figura é confirmado com as menções anafóricas e com a descrição do cenário nacional devastado pelo consumo desta droga. No editorial, gênero que tem por função expressar a opinião do veículo de comunicação sobre um tema atual, esta operação lexical é fundamental para inaugurar o referente ―rebatizando-o‖ antes mesmo de ele ser expresso.
A análise dos quatro últimos exemplos mostra, ainda, que, para além da questão dos procedimentos referenciais recorrentes ou específicos de cada gênero textual, há uma diferença funcional entre o primeiro grupo (exemplos 42, 43 e 44) e o exemplo (45).
O que mais chama a atenção nos exemplos de (42) a (44) é o fato de uma introdução já vir com uma carga de significação explicitamente ―poderosa‖ e necessária para os propósitos estabelecidos na interação. Isso implica que a ação de introduzir um referente no discurso pode não se restringir a simplesmente colocar em evidência um objeto que passará por transformações; a transformação já se percebe na própria inauguração do referente. Isso, por si, já é uma grande colaboração para os estudos da referenciação.
Se, por um lado, a análise do exemplo (45) também mostra (como em (42) a (44)), uma expressão introdutória já ―transformada‖, por outro, este último exemplo evidencia, com
mais ênfase, que a transformação só é plenamente compreendida após a leitura do texto (ou de uma boa parte dele). Nesse caso, percebe-se de forma mais plena como o caráter da recategorização é não linear: há um referente inicial categorizado como ―um monstro‖; o reconhecimento de que essa expressão recategoriza, no texto, a droga crack (ou o vício decorrente do uso de crack) só se estabelece mediante a leitura, que redimensiona a expressão inicial. Há um movimento de ida e volta constitutivo da construção referencial, sugerindo que a recategorização, mais que uma manifestação linguístico-formal percebida por um sintagma nominal, é um processo amplo e difuso, interveniente na compreensão.
A partir das reflexões feitas até aqui, podemos assinalar duas funções (não excludentes) atinentes à natureza recategorizadora de expressões referenciais introdutórias: 1) a expressão introdutória aparece recategorizadora estabelece uma perspectiva do enunciador que pode ser confirmada com a leitura do texto; e 2) além dessa perspectivização inicial, o enunciador incita o interlocutor a promover uma transformação sobre a expressão introdutória, que depende do contato com o substrato posterior do texto. Nesse segundo processo, mais que confirmar a pertinência da avaliação inicial pretendida pelo enunciador, o interlocutor precisa trabalhar para reconhecer qual é, de fato, o referente de que se está tratando e/ou por que tal referente recebeu uma designação, em princípio, inusitada. Em outras palavras, o objeto de discurso não é tão evidente a partir do modo como ele vem formalizado pela expressão referencial.
Embora em ambas as condições haja um percurso não linear necessário à interpretação, é no segundo processo que a não linearidade se manifesta plenamente como operação cognitiva complexa, fundamental para a progressão textual que se pretende estabelecer com os acréscimos percebidos sobre um referente. Neste caso, podemos falar mais apropriadamente de recategorização referencial em uma expressão introdutória.
Vejamos outros casos em que esse tipo de recategorização se apresenta, a fim de reiterarmos as funções textual-discursivas promovidas por esse recurso.
(46) O insepulto
Terêncio Espinheira passava em frente à capela de São Raimundo quando sentiu travar o coração. Tombou, arrastou-se e morreu babando no último banco da igreja. O sacristão comunicou ao padre Otávio e foi avisar à família: duas filhas que com Espinheira moravam lá pras bandas do motor do arroz. As duas receberam com alegria, a notícia, e não foram à casa santa, ver o corpo do pai. Pe. Otávio pediu um caixão ao Major Apolônio que, como prefeito, enterrava os mortos da cidadezinha por conta dos dinheiros municipais. Mas não havia caixão para Espinheira, destratador de políticos e destruidor do patrimônio público. A saída foi o velho sacerdote providenciar uma rede para conduzir o morto, e o fez constrangido porque muitas vezes, Terêncio, embriagado, invadira a igreja durante a santa missa, montado no seu cavalo cardão.
As filhas não compareceram pois festejavam a morte do pai com muitas rodadas de cerveja quente num reservado do Bar da Bia. Nunca mais apanhariam no meio da rua, do pai feito fera, apesar das suas idades, com mais de trinta anos cada uma. À tarde Pe. Otávio utilizou o serviço de som da igreja e pediu ajuda aos cidadãos de Sipaúbas para o transporte do defunto até o cemitério, ninguém apareceu. Nem adiantava, pois Gervásio, o coveiro, já se havia negado a cavar a cova, depois de tanto sofrer nas mãos de Espinheira. O vigário teve a ideia de pagar com o pouco dinheiro da coleta da missa a um carroceiro para carregar o morto. O carroceiro veio mas o burro puxador da carroça assombrou-se ao ver o morto e disparou de rua afora de carroça seca. Espinheira anoiteceu insepulto.
Já exalando mau cheiro, era alta noite, quando Pe. Otávio teve a ideia de colocar o cadáver num carro de mão e empurrá-lo até os fundos da igreja onde um riacho caudaloso transbordava em cheias de abril. Jogou o corpo na correnteza e veio desinfetar a capela.
No dia seguinte por mais de uma légua de riacho abaixo apareceram centenas de piranhas mortas, e nos invernos dos anos seguintes nunca mais correu água no riacho das Guaribas.
(LIMA, Batista de. Disponível em http://www.revista.agulha.nom.br/batis6.html. Acesso em 29 jul. 2010.)
No conto, o narrador apresenta um referente no título do texto, selecionando uma característica ―peculiar‖: o sujeito de que se fala é um ―insepulto‖. Cabe ao interlocutor que entra em contato com esse título estabelecer um trabalho de leitura que busque, pelo menos, duas respostas: quem é o sujeito de que trata o título e por que ele recebe a denominação que lhe foi imputada pelo narrador. A leitura, então, fornecerá as pistas.
Observamos que as retomadas feitas à introdução referencial recategorizada no título são elementos textuais importantes para a progressão e para a manutenção do propósito comunicativo do texto: explicar o motivo pelo qual Terêncio Espinheira foi rejeitado por todos no momento do seu sepultamento. Expressões como o próprio sobrenome ―Espinheira‖ (que remete a espinhos, à brutalidade inerente ao personagem) e ―pai feito fera‖ ajudam a argumentar contra o sepultamento do ―morto‖. Além das expressões referenciais, informações de outra natureza também colaboram para a categorização do referente: Espinheira destratava políticos, invadia a igreja, batia nas filhas e fazia sofrer o coveiro. Acrescente-se a isso o fato de seu corpo ter matado as piranhas e secado o rio onde foi jogado.
Vemos, assim, um conjunto de informações textuais, de natureza diversa, que contribuem para a (re)construção do personagem principal do conto. A partir delas é que se pode compreender o real valor da expressão introdutória. Mais uma vez, estamos diante do caráter não linear da recategorização. Da mesma forma que, em (45), o trabalho do interlocutor não se resume a confirmar que o crack (ou o vício) é um monstro, em (46), o leitor, mais que confirmar a ―adequação‖ da categorização inicial, deve construir uma referência adequada e perceber, entre outras coisas, o efeito estilístico da expressão utilizada.
Atente-se para o fato de que o narrador poderia (como qualquer enunciador em qualquer interação) ter operado outras escolhas lexicais, inclusive não avaliativas, para apresentar o referente. É óbvio que sua escolha não é aleatória e preenche uma função (ou
mais de uma, a depender do envolvimento do leitor com o texto). Destacamos, aqui, que a apresentação do referente no título pretende despertar a curiosidade do leitor, gerando um efeito de estranhamento. Essa é uma característica considerada como essencial ao texto literário, a qual, cada vez mais, tem também sido destaque em alguns textos da esfera jornalística, como se vê no exemplo a seguir.
(47) O mau selvagem
O homem é originalmente bom; é a sociedade que o corrompe. Trata-se sem dúvida de uma das maiores bobagens já proferidas na história da humanidade. O problema não é tanto que o bom Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) tenha concebido mais essa ideia maluca, mas sim que pessoas importantes nos meios intelectuais tenham acreditado nela ao longo de mais de dois séculos. Pior, ainda há quem ache que o cidadão genebrino está certo.
Não me considero um pessimista – muito pelo contrário, como se verá –, mas basta dar uma olhadela à nossa volta para chegar empiricamente à conclusão oposta: o homem é um bicho naturalmente ruim. Como ocorre com a maioria dos animais, coloca seus interesses acima de tudo e não hesita em usar a violência para impor sua, digamos, visão de mundo aos demais. Se há um rival no seu caminho para copular com uma fêmea, tende a aplicar a solução mais simples, que é eliminar