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Já vimos que uma tarefa da Linguística Textual atual é propor uma conceituação de texto que abrigue o que já começa a ser feito em termos de análises de textos multimodais. Isso implica redimensionar o papel do modo de enunciação verbal como o único merecedor de atenção pela disciplina, o que decorre de ser ele o suposto responsável maior (ou exclusivo) pelos processos de significação. O ―embate‖ entre o verbal e o não verbal retoma a discussão sobre o redimensionamento do conceito de texto e lança novas perspectivas para a referenciação, que partem da seguinte questão: se há uma construção referencial que prescinde do verbal, que outros elementos contribuem para ela?

Antes mesmo de se trazer a questão da multimodalidade para responder à pergunta, é preciso ressaltar que esses outros elementos podem ser considerados como todo o conjunto de recursos contextuais (em sentido amplo) disponíveis quando da construção dos referentes no texto. Isso quer dizer que, numa dimensão, a parte não verbal do processo pode ser entendida como o aparato de conhecimentos prévios (assentados sociocognitivamente) ativados para a produção e a compreensão textuais. É a partir desse conteúdo não verbal que surgem os referentes sem menção referencial, como defende Cavalcante (a sair).

Outra dimensão, mais específica, de alcance do não verbal se encontra no que poderíamos considerar como elementos paraverbais da interação, e aqui, sim, começamos a entrar na seara das relações entre referenciação e multimodalidade. Essa dimensão responderia pelo conjunto de gestos, expressões faciais e outros recursos disponíveis na comunicação face a face que podem interferir no processo de negociação dos objetos de discurso dados a conhecer.

Tomando por base essa possibilidade, Bentes & Rio (2005) mostram como participantes de uma mesma comunidade de prática147 se utilizam de recursos multimodais

para elaborar referentes relacionados às personagens de uma história televisionada a que assistiram. O experimento em questão consistiu em fazer dois pequenos grupos de

147―uma comunidade de prática é uma comunidade de pessoas engajadas em um esforço comum por meio de um entendimento mútuo e que ‗vem para desenvolver e compartilhar meios de fazer coisas, modos de falar, crenças,

valores – em resumo, práticas‘‖ (LAVE & WENGER, citados por BENTES & RIO, 2005, p. 268-269, grifo das autoras).

universitários assistirem a uma história apresentada no programa Brava gente, da Rede Globo, e em seguida discutirem o programa, do que surgiria a elaboração de referentes textuais. As pesquisadoras mostram, inclusive com fotos (veja-se aí a multimodalidade no texto acadêmico), que, nos dois grupos, um dos participantes caracterizou uma determinada personagem utilizando gestos corporais e mímica facial, no que gerou a participação dos outros integrantes para a construção colaborativa dos referentes. Percebe-se, assim, que a construção dos referentes não passou por um tratamento apenas linguístico.

Também Mondada (2005) aborda o caráter não exclusivamente verbal da construção dos objetos de discurso ao investigar a visibilidade de detalhes anatômicos em cirurgias médicas. A pesquisadora demonstra como o marcador you see − que, tomando por base a situação investigada, poderia ser traduzido por veja aí − atua como orientador espacial, delimitando um detalhe anatômico em cirurgia laparoscópica (uma veia, por exemplo) e indicando o objeto que será discursivizado na interação. Dessa forma, ela mostra como a visão pode ser um fator direcionador da atividade referencial.

Mondada (2005, p. 12) nos diz que, ―numa abordagem interacionista da referência, [...] são as práticas referenciais manifestadas na interação social que são objetos de análise − práticas linguageiras, mas também práticas gestuais, movimentos no espaço, orientação do olhar‖ (grifo nosso). A autora, manifestando-se dessa maneira, posiciona-se muito claramente a favor de uma análise referencial que leve em conta fatores múltiplos. E continua, ao dissertar sobre a relevância de se estudarem práticas de interação autênticas (especialmente aquelas em que a orientação da visão tem papel fundamental, como a que a pesquisadora descreveu):

Estas práticas obrigam a Linguística a não se limitar a dar conta de atividades dos interlocutores que seriam exclusivamente verbais e, assim, relegar os outros processos ao domínio da cognição. [...] Isto nos parece fundamental para uma reflexão sobre a produção da referência – que se faz por meio de práticas sociais multimodais e não somente linguísticas (grifo da autora).

Mondada (2005, p. 26) encerra esse trabalho indicando qual deve ser a tônica dos estudos atuais em referenciação:

As observações analíticas convidam a um deslocamento teórico [...] para um quadro dinâmico, centrado em práticas de referenciação que implicam uma organização não apenas da fala, mas também do espaço e do contexto no qual ela se enuncia. A distinção entre o que é intra e o que é extradiscursivo não tem razão de ser neste quadro.

Cremos que a proposta levantada por Mondada – cujo núcleo salienta a necessidade de não distinção entre o intra e o extralinguístico – é válida para que se compreenda a interação social como um todo, e não apenas as situações de interação oral síncrona (conversas espontâneas, consultas médicas, aulas etc.), as quais equivalem ao universo de investigação privilegiado pela autora. Assumimos, então, a constitutiva relação entre verbo e imagem, e propomo-nos a investigá-la em um esquema diferente do eleito por Mondada (e também Bentes & Rio), conforme esclarecemos no próximo capítulo.

Por ora, a partir de tudo o que foi dito até aqui, podemos resumir os avanços da segunda tendência investigativa em referenciação nos seguintes postulados:

1) a construção de referência, no que diz respeito aos elementos do cotexto, se efetiva a partir da integração de diferentes partes (tanto na natureza quanto na extensão) da materialidade verbal;

2) a retomada de referentes pode ocorrer entre (co)textos distintos;

3) o estabelecimento de referentes pode se dar sem a supostamente necessária menção referencial cotextual;

4) a referência pode se construir a partir de todas os modos semióticos envolvidos em um texto.

Os desdobramentos apontados salientam a vocação da proposta da referenciação para respaldar e/ou fazer avançar os conceitos de sociocognição e de texto assumidos na atualidade. Levando-se em conta o panorama científico mais amplo, o quadro que aqui delineamos acerca dos avanços da referenciação confirma a ideia de que a Linguística está sempre disposta a encontrar explicações mais completas para sua teorização sobre os processos de significação.

Falta-nos, ainda, adentrar na discussão sobre as contribuições específicas de nosso trabalho. Elas se pautam pela reflexão sobre as relações entre o perfil investigativo da segunda tendência e as questões emergentes sobre o estatuto do texto na atualidade, apresentadas no capítulo anterior. No próximo capítulo, traçamos esse paralelo, esclarecendo quais as particularidades de nosso trabalho de campo.

4 O FENÔMENO DA REFERENCIAÇÃO: PRÓXIMOS PASSOS

No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam.

(Riobaldo, em Grande sertão: veredas)

Neste capítulo, continuamos a falar sobre o fenômeno da referenciação, com o intuito de destacar o que consideramos os próximos passos a serem percorridos por essa proposta teórica. Aqui, tratamos de aspectos já presentes nas reflexões dos pesquisadores da área (principalmente, os da segunda tendência), cujo detalhamento se faz necessário para que o caráter sociocognitivista do fenômeno seja ainda mais evidente. Ao mesmo tempo, trazemos acréscimos nossos à reflexão, indicando como estes podem ser úteis para a investigação dos fenômenos referenciais.

Trazemos de volta, neste capítulo, as reflexões, feitas no capítulo 2, sobre o papel da multimodalidade e dos diferentes tipos de interação na configuração dos textos, relacionando- as, mais especificamente, com as estratégias referenciais que atravessam essas temáticas. Há, portanto, um movimento de convergência entre os três capítulos já apresentados – principalmente o segundo e o terceiro, a cujos conteúdos serão feitas constantes remissões – com o que cremos ser contribuições mais marcadamente nossas. Todo esse trabalho prepara o terreno para a explicitação de nossas categorias de análise, a qual será empreendida no capítulo posterior.