Já dissemos, no capítulo 2170, que a Linguística Textual, grosso modo, faz formulações gerais sobre o funcionamento dos textos tomando por base situações de interação ininterruptas com textos curtos. Também já nos posicionamos em relação à limitação dessa prática, pois ela deixa de lado uma gama de situações de interação que podem suscitar o esclarecimento de mecanismos de estruturação e de compreensão textual diferentes dos normalmente elencados. Para a temática da referenciação, a limitação diz respeito à não consideração de uma série de
170 Seção 2.3 – ―A operacionalização das análises em Linguística Textual: em favor da diversificação das situações de interação analisáveis‖.
princípios e estratégias constitutivos do fenômeno, os quais pretendemos explicar/descrever no próximo capítulo.
Essa generalização das estratégias textual-discursivas para qualquer tipo de interação acaba por provocar uma perceptível contradição entre os pressupostos assumidos e as análises empreendidas. De um lado, a proposta sociocognitivista insiste numa abordagem de investigação dos textos que vá além da materialidade, considerando-se que a produção de sentidos requer a mobilização de uma gama de conhecimentos construídos no entrecruzamento do aparato cognitivo com o sociodiscursivo. De outro lado, as análises se limitam a reconhecer/explicar as estratégias textual-discursivas como sempre manifestadas por recursos linguísticos específicos.
No âmbito da referenciação, a contradição se percebe, no caso da primeira tendência, na assunção de que a construção referencial deve ser confirmada, em algum momento, por uma expressão referencial. São considerados vários pressupostos definidores da complexidade do fenômeno, mas tal complexidade não pode ser vislumbrada num esquema que ultrapasse o sintagma nominal referencial.
Defendemos que uma das características marcantes dos estudos da segunda tendência é a tentativa de propor análises mais coerentes em relação aos pressupostos assumidos. Nesse sentido, a posição de Cavalcante sobre a construção de referentes sem menção referencial, acrescida de nossa reflexão sobre as recategorizações independentes dessa menção, revela um passo importante. Essas contribuições assumem, como elementos interdependentes, a complexidade do fenômeno e a necessidade de, verdadeiramente, ir além do linguístico. Trata-se, a nosso ver, de um avanço importantíssimo.
Cremos, contudo, que, se queremos propor explicações sobre a interação mediada por textos, é preciso avançar ainda mais, e aqui insistimos na investigação de situações de interação com textos longos. Mesmo em análises da segunda tendência, vemos que as explicações da construção/transformação de referentes independentes das introduções referenciais e das retomadas são baseadas, amplamente, no entorno linguístico do texto. Relembremos os exemplos analisados com base nessa nova perspectiva.
(39) – Antes de começarmos, por favor, me diga uma coisa, o que o senhor fazia no emprego anterior?
– Eu era funcionário público! – OK! O senhor pode contar até dez?
– É claro! Dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, valete, dama, rei e ás.
(51) Que vergonha ver a atual prefeita censurar o uso de imagens de Ciro e Lula, grandes companheiros de Patrícia, no horário eleitoral! Será que essa prefeita tem vergonha de ver que Patrícia foi vice-líder de Lula no Senado??? Será que ela não se contenta em ver Lula longe dela, tal qual em
2004, quando o presidente estava com Inácio Arruda??? Antes era uma defensora da democracia, agora, no poder, se vestiu com as piores armas do autoritarismo e da censura! Liberdade de expressão JÁ! Patrícia é MULHER de RESPEITO e quer apenas ter o direito de mostrar a sua biografia, pena que a prefeita se [de]sespera com o passado histórico dela!
Nesses dois exemplos, a construção referencial que prescinde da confirmação por sintagmas nominais se efetiva, em nossa análise, pelo reconhecimento, em detalhes, do material linguístico. Claro que já é um avanço considerar que 1) esse material linguístico pode ser de natureza e extensão variada e 2) o processamento sobre esse material pode ativar referentes os mais diversos. Contudo, para nós, permanece em aberto uma questão: será que, em textos mais longos, a determinação bem delimitada de recategorizações é suficiente? Consideremos, por exemplo, o estatuto de um personagem em um filme. Não parece que a construção referencial sobre esse objeto se resolva apenas com poucas e definidas recategorizações.
Sugerimos que esse processo pode acontecer de forma diferente, e a investigação de situações de interação ininterrupta com textos longos e de interação interrupta pode providenciar momentos para uma observação específica deste aspecto da compreensão dos referentes. Levantamos, assim, a hipótese de que as interpretações atinentes aos objetos de discurso parecem ser conduzidas por um processo referencial que abriga a possibilidade de várias recategorizações (diferentes inclusive quanto a sua natureza) acontecerem, com o objetivo de realizar etapas funcionalmente dirigidas. Isso quer dizer, de um lado, que a construção dos referentes (pelos menos os centrais) em textos longos se pauta por numerosas recategorizações, as quais podem informar sobre diferentes aspectos dos objetos; de outro lado, que essas numerosas recategorizações podem ser organizadas em blocos funcionais.
Esse é um expediente ainda não discutido no que toca à referenciação, exatamente porque não há uma preocupação em se analisarem situações de interação com textos mais longos e/ou com contatos mais espaçados do interlocutor com o texto. Nessas situações, as estratégias de abordagem do texto parecem se pautar, mais explicitamente, pela necessidade de otimização do substrato a ser significado.
Vislumbramos, assim, mais uma possibilidade de contribuição teórica para o estudo da referenciação, na medida em que, a partir de uma metodologia mais planejada, poderemos explicitar o fenômeno em seus aspectos constitutivos. Pensamos que a contribuição pretendida configura-se como uma via de mão dupla: de um lado, a investigação feita à luz de uma nova proposta sobre os tipos de texto analisados poderá explicar melhor o fenômeno da referenciação; de outro, uma análise das estratégias referenciais nestes moldes poderá
fornecer informações preciosas para a discussão maior sobre o conceito de texto e de processos referenciais.
Para a análise que apresentamos no próximo capítulo, selecionamos textos de ficção nos quais ocorre uma explícita quebra de expectativa sobre a construção de um ou mais personagens envolvidos na história. O foco na surpresa revela-se um ―local‖ privilegiado para investigar os múltiplos fatores envolvidos nos processos de recategorização referencial. Essa situação exige a ―ação‖ do sujeito, que precisa propor um sentido para o texto, provavelmente diferente do que vinha sendo construído, o que cria um ambiente interessante para resgatar as motivações (con)textuais necessárias ao trabalho sociocognitivo. Dessa forma, a análise da construção dos referentes em tais situações demanda, obrigatoriamente, uma explicitação das estratégias interpretativas, do que decorre a reflexão sobre como o substrato material do texto é tratado pelos interlocutores.
Com isso, encerramos nossa exposição sobre os próximos passos nos estudos da referenciação. Resta, ainda, condensar as informações num bloco coeso, para que fique clara a unidade do caminho percorrido até aqui, o que será fundamental para a definição dos passos analíticos. Para tanto, na próxima seção, apresentamos o panorama geral do que foi discutido, com vistas a fornecer as orientações sobre os critérios de análise utilizados no capítulo seguinte.