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Na introdução desta tese, elencamos duas lacunas relacionadas à integração dos múltiplos fatores para a construção da referência. Essas lacunas aparecem particularmente destacadas no capítulo 2, em que tratamos dos potenciais avanços na conceituação de texto. É chegada a hora de fazermos a devida ligação entre elas, as reflexões teóricas construídas até aqui e nossa proposta de investigação sobre o fenômeno da referenciação. Comecemos com a questão da multimodalidade.

Conforme já anunciamos na seção 2.2 (―Os limites do (conceito de) texto: destaque para o não verbal‖), pensamos que, para a Linguística Textual, a inclusão do caráter multimodal nas análises não deve se limitar à caracterização dos gêneros textuais, orientação que tem respondido pela esmagadora maioria das investigações sobre esse tema nessa disciplina. A multimodalidade, na verdade, é constitutiva de outros aspectos (além da configuração genérica) que fazem parte da interação pela linguagem, como, por exemplo, as práticas referenciais.

Vimos, no capítulo anterior168, que Mondada (2005) propõe um trabalho no qual considera o papel das práticas multimodais na produção de referentes. Comungamos com a ideia de que tais práticas são por demais essenciais à comunicação para que sejam negligenciadas, porém temos a intenção de investigar os aspectos multimodais da construção referencial sob um prisma diferente do escolhido por essa pesquisadora (e também por BENTES & RIO, 2005). Ela privilegia a investigação de situações de interação síncrona, e por isso pode falar, muito apropriadamente, sobre o papel da multimodalidade na construção colaborativa e simultânea dos objetos de discurso. Interessa, nesse caso, observar como a

orientação do olhar contribui para que os sujeitos em interação organizem sua participação no que diz respeito a seu papel na negociação de sentidos.

O que há, nesse plano de consideração da multimodalidade, é uma ideia de que os recursos não verbais compreendem o entorno paraverbal (nos moldes do que é dito nas análises de interação face a face). Há, aqui, ainda, uma distinção entre o cotexto (exclusivamente linguístico) e o que lhe é exterior (os modos semióticos aplicados aos recursos paraverbais, principalmente, os da alçada da visão). Com essa observação, não queremos criticar a orientação assumida por Mondada, sobretudo porque o programa de pesquisa baseado nesse quadro, além de altamente produtivo, propõe, de fato, uma abordagem que salienta um necessário olhar integrador sobre o intra e o extra linguístico-discursivo. Pretendemos, apenas, deixar claro o feitio da proposta, para que possamos caracterizar melhor o redimensionamento que tencionamos dar.

Em nosso caso, não efetivamos uma análise das situações de interação síncrona, de modo que uma ênfase no papel dos recursos paraverbais na negociação de sentidos não nos interessa. Analisamos a multimodalidade em outra dimensão, como parte da materialidade manifesta na superfície textual, pertencente, portanto, ao cotexto. Nosso foco recai sobre textos construídos sob a égide da junção de diferentes modos semióticos (com destaque para verbo e imagem).

Assumimos, com isso, que, por exemplo, quando assiste a um filme ou a um seriado de televisão, o interlocutor reconhece como texto o ―conjunto da obra‖. Não se trata de entender como elementos separados as falas dos personagens e a imagem dos personagens durante as falas, ou de considerar a organização do ―cenário‖ como elemento secundário para a produção dos sentidos, como se esses recursos fossem complementares ao texto propriamente dito. Tudo faz parte do (co)texto, porque os elementos se mostram integrados na materialidade, a fim de que, a partir deles, se promova a compreensão.

Por isso, não nos cabe discutir, da mesma maneira que Mondada, a multimodalidade em termos de construção negociada dos referentes. Nosso objetivo é abordar, sim, a relação entre referenciação e multimodalidade, mas enfatizando o papel dos recursos multimodais como ferramentas utilizadas pelo enunciador na concretização de seu projeto discursivo, para o que é necessário estabelecer certos caminhos de interpretação dos referentes. No caso específico dos textos audiovisuais que selecionamos para análise – quatro episódios de um seriado de televisão nos quais há uma ―surpresa‖ a ser revelada durante a história – pretendemos descrever como as estratégias referenciais esperadas pelo enunciador seriam assumidas pelos interlocutores.

Nossa sugestão de investigar o papel da imagem na construção da referência assenta na hipótese de que os elementos visuais dos textos também fazem parte dos recursos passíveis de ―gerar‖ a referenciação, atuando de modo semelhante aos elementos linguísticos. Inicialmente, mostramos a pertinência de tal suposição com a análise sobre o exemplo (12), o qual reproduzimos novamente.

(12)

Lembramos que, em (12), a expressão referencial ―desta situação‖ estabelece uma espécie de encapsulamento: um conjunto ―proposicional‖ é condensado e passa a ter status referencial. Interessa destacar, nesse exemplo, que o conjunto encapsulado não é de natureza linguística, mas, sim, visual. O que se vê, então, é a manifestação de uma conhecida estratégia referencial, até então investigada apenas sob a alçada do linguístico, como resultante da inter- relação entre as partes verbal e não verbal do texto169.

Isso, por si, já seria um dado indicativo de que, de fato, as imagens de um texto podem ter o mesmo estatuto do conteúdo verbal quando se trata do papel das estruturas cotextuais na construção da referência. Contudo, pensamos que ocorrências como (12) se encontram, ainda, no plano do que chamamos de relações mais pontuais estabelecidas no cotexto. Claro que não desmerecemos a importância de tais ocorrências, mas defendemos que apenas isso não chega

169

Kress & van LEEUWEN (2006, p. 102) também comentam que o encapsulamento anafórico (chamado pelos

a ser suficiente dentro do paradigma que abraçamos, em virtude de assumirmos um panorama ainda mais complexo dos processos referenciais.

Se defendemos que a referenciação é um fenômeno submetido a diversos tipos de relação entre as partes do texto, e dessas com os elementos contextuais sociocognitivos, devemos assumir que a forma como as imagens participam do processo também é múltipla, de modo que não se trata, apenas, de considerar o papel das imagens na construção de ―anáforas‖. Em trabalho anterior (CUSTÓDIO FILHO, 2009), mostramos indícios de que a multimodalidade está associada a esse caráter complexo da construção referencial, a partir de uma análise da construção dos referentes equivalentes aos dois personagens principais de um filme. Na ocasião, mostramos como a organização das imagens de uma mesma cena, apresentada duas vezes sob perspectivas diferentes, promove a recategorização dos personagens.

Essa análise preliminar nos motivou a insistir que o tratamento das relações entre multimodalidade e referenciação é uma empreitada produtiva. Nas análises que propomos nesta tese, no capítulo 5, desenvolvemos melhor essa relação, na medida em que apresentamos uma descrição mais completa da integração entre o verbal e o não verbal. Mostramos que o papel do verbal na construção da referência é redimensionado, não apenas porque ele divide a materialidade textual com outros modos semióticos, mas também porque a situação de interação longa demanda um processamento textual diferenciado.

Vejamos, então, na próxima seção, as relações entre referenciação e distintas interações.