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FoU-prosjektsamarbeid mellom varehandel og UH-institusjoner

A primeira característica mais pertinente à segunda tendência diz respeito à decisão de, na análise dos processos referenciais, considerar as relações entre várias porções cotextuais, para além das expressões nominais. Essa reflexão é feita, principalmente, com base no que Lima (2007; 2009) e Leite (2007a, 2007b) dizem sobre a recategorização metafórica. Vejamos, então, o que é a recategorização metafórica e qual a proposta dos autores para a interpretação dessa categoria.

Em Apothéloz & Reichler-Béguelin (1995), embora não se fale explicitamente em recategorização metafórica, temos notícia de que o propósito argumentativo de uma recategorização pode tomar a forma de uma metáfora, como seria o caso da expressão ―Esta nova anglicização da língua‖, em (34):

(34) O reflexo conservador surpreendeu o vizinho gaulês. A adoção pelo Parlamento francês da lei Toubon contra o ―franglês‖ é um exemplo bastante ridículo.

Esta nova anglicização da língua...141 (L’Impartial, 2/7/1994.)

141 Tradução livre de Mônica Magalhães Cavalcante para ―Le réflexe conservateur a encore frappé em Gaule voisine. L‘adoption jeudi soir par le Parlement français de la loi Toubon contre le ‗franglais‘ en est un exemple

assez chocase. / Cette nouvelle glaciation de la langue...‖ (APOTHÉLOZ & REICHLER-BÉGUELIN, 1995, p. 246).

Tanto Lima (2007) quanto Leite (2007b) partem dessa constatação de Apothéloz & Reichler-Béguelin para fazer suas considerações acerca da recategorização metafórica. Leite, por exemplo, comenta que, a partir da proposta dos autores (seguida, de acordo com ele, por outros estudiosos, como Koch), têm-se três critérios para se classificar as recategorizações metafóricas: o ponto de vista argumentativo, a manifestação de uma relação entre expressões referenciais presentes na superfície textual e a correferencialidade. O autor discorda de uma classificação baseada nestes critérios, defendendo que, se forem mantidos, algumas recategorizações metafóricas acabam não sendo satisfatoriamente explicadas. Ele inicia suas críticas a partir do exemplo a seguir, retirado de Koch (apud LEITE, 2007b, p. 106):

(35) Há que se perguntar em que planeta vive o tucanato. Esse clã alienígena acha que as obviedades que o relator especial da ONU, sr. Jean Ziegler, constatou não são construtivas.

De acordo com Leite, Koch se detém na análise da expressão ―clã alienígena‖ como uma anáfora que recategoriza, metaforicamente, ―tucanato‖, o que define a orientação argumentativa do discurso. Leite, no entanto, aponta que a consideração do caráter recategorizador metafórico de ―clã alienígena‖ carece de uma explicação um pouco mais refinada que a sugerida por Koch. O autor apresenta, a título de ilustração, uma reflexão sobre a presença do modificador ―alienígena‖, que também é motivada pela influência das expressões ―planeta‖ e ―vive‖. Vê-se, já aqui, que a estratégia de recategorização não se esgota na relação entre termo recategorizador e termo recategorizado.

Leite, inclusive, chega a pôr em xeque a relação anafórica apresentada (―tucanato‖ = ―clã alienígena‖) dizendo que, a se considerar como base apenas os três critérios determinantes de uma recategorização metafórica, ―não fica claro qual expressão está sendo recategorizada — ‗vive‘, ‗planeta‘ ou ‗tucanato‘ – já que os termos ‗vive‘ e ‗planeta‘ também parecem pistas textuais relevantes para a recategorização‖ (p. 107). O autor também critica a ausência de uma reflexão sobre a relação correferencial, estabelecida no plano cognitivo e sem manifestação cotextual, entre ―partido político‖ (objeto de discurso ativado pela expressão ―tucanato‖) e ―clã‖.

Frente ao comentário, vemos que a posição de Leite (2007b), com a qual concordamos, é a de que um estudo satisfatório da recategorização metafórica não pode se limitar a analisar o material linguístico apenas em relação à correferencialidade ou à manifestação cotextual da ligação anafórica, já que tal postura leva a uma ―descrição imprecisa e superficial dos aspectos linguístico-cognitivos envolvidos no processo‖ (p. 107).

O autor comenta, ainda, que a proposta de Apothéloz & Reichler-Béguelin é limitada, também, porque restringe a recategorização metafórica às ocorrências de anáfora direta, haja vista a eleição da correferencialidade como critério determinante do fenômeno. Sobre isso, Lima (2007) mostra que a recategorização metafórica pode ocorrer implicitamente, a partir de uma anáfora indireta. É o que se vê no exemplo (20) (LIMA, 2003, apud LEITE, 2007b, p. 108), o qual já apresentamos. Na ocasião, foi explicado que, nesse exemplo, há uma recategorização metafórica, que ocorre apenas cognitivamente, de ―pênis‖ por ―afeição‖. Vejamos o exemplo novamente.

(20) E tem aquela do sujeito que chega em casa e encontra a filha agarradinha com o namorado. Aliás, bem agarradinha. O pai então dá o maior estrilo:

— Que pouca vergonha é essa?!

E o rapaz, todo sem jeito:

— Bem, o senhor sabe, eu estou apenas mostrando a minha afeição para a sua filha.

E o pai da moça:

— É! Tô vendo que sua afeição é grande! Mas bota ela pra dentro da calça!...

A recategorização mostrada caracteriza um processo anafórico indireto, o que já revela um acréscimo importante à proposta inicial de Apothéloz & Reichler-Béguelin. Ocorre que, mais do que apenas atestar que a recategorização metafórica pode ocorrer sob a forma de uma anáfora indireta, Leite (2007a, 2007b) faz uma crítica importante: em geral, as análises em referenciação são feitas com foco nas relações internominais; ou seja, focalizam-se apenas as relações entre anáfora e antecedente (para os casos de anáfora direta) ou entre anáfora e âncora (para os casos de anáfora indireta).

Os autor saem em defesa da efetivação de análises que procurem ir além do que é tradicionalmente feito. Por exemplo, para a piada apresentada em (20), Leite assinala que a reflexão é incompleta se não realçar a importância de pistas linguísticas várias − ―é grande‖, ―bota ela pra dentro da calça‖ −, que, acrescentamos, facilmente se coadunam com o conhecimento partilhado sobre a situação de namoro evocada por ―a filha agarradinha com o namorado‖; a partir da consideração desse conjunto de dados, concretiza-se a metáfora, responsável maior pela instalação do efeito de humor.

Vemos, então, como pode ser enriquecida uma análise que parta do princípio de que pode haver relações diversas entre as partes do texto, com o intuito de se construírem objetos de discurso. Leite (2007b) mostra que o reconhecimento de tais relações demanda ―estratégias inferenciais complexas‖ (p. 115), que levam, em última instância, a uma análise integrada dos elementos cotextuais e dos elementos que se situam além da superfície. Para o autor (p. 115),

o papel das pistas linguísticas cotextuais é de suma importância, uma vez que estas contribuem para a ativação de esquemas conceituais metafóricos estabilizados ou não na mente do leitor, e, consequentemente, para a construção do sentido textual. Sendo assim, a seleção dos traços conceituais necessários ou indispensáveis para se estabelecer a relação metafórica somente é possível pela integração simultânea, no ato interpretativo, de aspectos cognitivos, linguístico-textuais e conhecimento sócio- culturalmente partilhado.

Vejamos um exemplo de análise integrada apresentado por Leite (2007a, p. 189):

(36) pôr-do-sol

O romance de Luana Piovani e Ricardinho Mansur – que começou cercado de flashes há quase dois anos – terminou discretamente, sem alarde nem fotos, em Paris. A decisão partiu do jogador de polo, que foi até a França – onde a atriz passa temporada de estudos – para finalizar a história. O motivo nenhum dos dois comenta. De lá, Ricardinho seguiu para Aspen, nos Estados Unidos, para esquiar com amigos. Já Luana preferiu ir até a Espanha... para dar aquela arejada.

(Época, 21/02/2005.)

De acordo com Leite, o título ―pôr-do-sol‖, gera, a princípio, uma ―estranheza‖, pois, embora não reflita a condensação das informações contidas no texto, parece cumprir um papel argumentativo. Uma possibilidade de abordagem é tratar o título como uma recategorização metafórica. Nesse caso, é preciso determinar, então, qual elemento está sendo recategorizado.

Aplicando sua análise com base nos dispositivos interpretativos da metaforização142, o

pesquisador mostra que uma possibilidade de interpretação do título é considerá-lo como uma recategorização metafórica de ―fim de romance‖. Tal análise só é possível em virtude de se observarem algumas expressões da superfície linguística e os campos conceituais por ela ativados. As características ―desaparecimento lento no horizonte‖ e ―ausência de luz‖, atribuídas ao pôr-do-sol, são ativadas pelos elementos ―terminou discretamente‖ e ―sem alardes nem fotos‖, estes últimos associados ao fim do romance noticiado. Ou seja, há um objeto de discurso sendo elaborado em torno da ideia de ―fim‖ (de um romance, já que esse é o tópico discursivo do texto); tal fim pode ser caracterizado, em virtude das pistas linguísticas, como um ―pôr-do-sol‖. Comprova-se, assim, a relevância de se analisar elementos linguístico- textuais de natureza diversa para se chegar à elaboração de um referente textual.

Julgamos bastante pertinentes as observações de Leite em virtude de apontarem para uma investigação mais completa acerca da estratégia de recategorização metafórica, que leva

142 Os cinco dispositivos sugeridos por Leite (2007a, 2007b) são os seguintes: cooperação textual, figura do observador, raciocínio abdutivo, seleção de propriedades conceituais, isotopia.

em conta relações linguístico-cognitivas instauradas na interação. O fato de sua sugestão mostrar a possibilidade de integração de vários elementos do texto para a construção de objetos de discurso depõe em favor do conceito de texto como construto dinâmico, cujo propósito maior é a integração de suas partes para a configuração dos sentidos.

É importante salientar que, na verdade, o que Leite diz para a recategorização metafórica vale para o estudo das anáforas recategorizadoras como um todo. Conforme observamos anteriormente, um dos nossos objetivos será justamente analisar casos de recategorização (não apenas metafóricas) que só podem ser devidamente identificados se se investigar a questão como um fenômeno mais amplo do que a relação pontual entre anáfora e antecedente.

Vejamos outras possibilidades também produtivas para uma análise referencial mais completa. Consideremos o trabalho de Costa (2007) sobre as relações de retomada entre elementos de cotextos distintos.

3.2.2.2 Expressões referenciais que retomam objetos de outro cotexto

Costa (2007) investiga certos usos referenciais ―insólitos‖ presentes em mensagens eletrônicas trocadas entre membros pertencentes À CVL (Comunidade Virtual da Linguagem), lista de discussão na internet. O objetivo da autora é o de promover uma análise dos processos referenciais a partir dos princípios de acessibilidade143. Para tanto, a autora

utiliza como recorte as mensagens da CVL, salientando que seu trabalho não se inclui numa caracterização deste gênero do discurso:

O que sempre pretendemos, tomando como objetos de observação essas formas híbridas de comunicação [...], foi compreender os fenômenos cognitivo-discursivos que parecem ser inerentes à comunicação em geral, mas que nos são mostrados, de forma mais evidente, nesses contextos específicos (COSTA, 2007, p. 12).

O fenômeno cognitivo-discursivo destacado por Costa é a referenciação, mais especificamente, o encapsulamento anafórico. A autora salienta que sua investigação pretende fornecer respostas sobre procedimentos ―corriqueiros‖ e ―insólitos‖. Corriqueiros porque são

143 Não entramos em detalhes, aqui, sobre a teoria da acessibilidade proposta por Ariel, modelo escolhido por Costa em suas análises. O que nos interessa mais de perto é o fenômeno específico que dá título a esse item de nossa tese, o qual nos permite pensar em formas de retomada referencial ainda não devidamente explicadas.

―inerentes à comunicação em geral‖; insólitos porque, embora ―comuns‖, ainda não foram devidamente descritos na literatura em vigor. A escolha do gênero mensagem de grupo de discussão se dá pelo fato de tal gênero poder ilustrar mais apropriadamente algumas ocorrências, em virtude de suas características específicas:

Como é sabido, apesar de se verificar, nas listas de discussão, o distanciamento espacial e temporal (próprio da escrita) entre escritores e leitores, a redução drástica da distância temporal no funcionamento dos e- mailse a possibilidade de vários ―debatedores‖ abrirem, em um determinado

momento, uma mesma mensagem parecem criar, nos participantes, a

―ilusão‖ de um espaço físico comum, onde as trocas se dariam em tempo

real. Uma das consequências disso seria a presença de alguns usos que podem ser considerados insólitos, como o encapsulamento anafórico, não sumarizando porções do cotexto, como é conhecido na literatura corrente, mas apontando para o conteúdo veiculado fora da mensagem atual. Pelo que se conhecia até então, na literatura sobre os processos referenciais, os encapsulamentos resumiriam trechos do cotexto (COSTA, 2007, p. 12).

Temos, então, que o trabalho de Costa também promove um redimensionamento dos processos referenciais, procurando alargar o entendimento do fenômeno para além do consenso na literatura. Dessa forma, esse trabalho também contribui para os princípios teórico-analíticos assumidos pela segunda tendência nos estudos.

Vejamos alguns exemplos apresentados e discutidos no trabalho de Costa144 (2007).

(37) From: "A S" <[email protected]> To: <[email protected]>

Sent: Tuesday, May 18, 2004 11:01 AM Subject: [CVL] Re: o assunto das cotas!!!!!!!!!!

Não se poderia dizê-lo melhor! A. S.

(38) De: C C

Para: [email protected] Data: 10/11/2002 22:51

Assunto: *CVL* - E os cursos de graduação em língua estrangeira? Caros amigos,

144

O último exemplo já foi apresentado em outra seção (2.3 - ―A operacionalização das análises em Linguística

ao ver toda esta preocupação com a formação dos nossos futuros professores de língua portuguesa, refleti um pouco sobre os cursos de graduação em língua estrangeira. Gostaria de saber se há projetos ou estudos que falem da formação destes. Como os alunos estão recebendo diplomas, será que eles estão realmente capacitados para lecionar as quatro habilidades de uma língua estrangeira? Se não estão, como podemos fazer para tentar mudar esta situação? Agradeço pela atenção

C

(14) From: "T" <[email protected]> To: <[email protected]> Sent: Tuesday, May 18, 2004 5:49 PM Subject: [CVL] cotas para negros, índios

olha, estou gostando do debate. pela primeira vez, vejo as pessoas assumirem suas opiniões sem nenhum medo de serem censuradas. concordo com a colega d quando ela chama atenção para dois pontos importantes (...).

Em todos os três casos, os elementos grifados podem ser classificados como termos encapsuladores. Entretanto, o conteúdo encapsulado não se encontra na superfície textual; é preciso, pois, para compreendê-los, recorrer a outras mensagens que antecederam as apresentadas nos exemplos.

Costa procura explicar as ocorrências a partir dos critérios que podem determinar o grau de acessibilidade de um determinado referente. Apoiando-se na proposta de Ariel (apud COSTA, 2007), a autora diz que tais retomadas são possíveis em virtude de dois aspectos que contam para a configuração da escala de acessibilidade: saliência tópica e frame do gênero lista de discussão (que tem como um dos elementos a expectativa da réplica). Em relação a esse último aspecto, vê-se confirmar a sugestão da pesquisadora a respeito de as características do gênero lista de discussão determinarem certas configurações referencial- discursivas ainda não devidamente tratadas.

Costa também sugere que os resultados apresentados indicam a necessidade de se repensarem algumas categorias-chave dos estudos referenciais, dentre as quais destacamos a anáfora. Perguntamos: uma vez que a relação anafórica (direta ou indireta, nos seus vários subtipos) se dá entre partes de um mesmo texto, seria necessário, então, estabelecer uma nova categoria que contemplasse uma relação entre partes de textos distintos? Seria necessário, assim, falar de ―anáfora intertextual‖, em oposição a ―anáfora intratextual‖? E como ficaria, nesse caso, o status das introduções referenciais? Em que medida muitas delas não seriam apenas retomadas como as de (37), (38) e (14)?

Quaisquer que sejam as futuras respostas a estas perguntas, temos de considerar, já agora, a suposição de que os parâmetros analíticos atuais não são suficientemente abrangentes para dar conta da complexidade dos fenômenos referenciais, mesmo quando tais parâmetros se inscrevem numa perspectiva de linguagem como um fenômeno discursivo sociocognitivo interacionista. Como dissemos na introdução deste trabalho, o desdobramento natural das pesquisas em referenciação mostrou que tal fenômeno é revestido de uma complexidade maior que a esperada. Não poderia, portanto, ser outro o caminho teórico que não o de propor investigações que assumam essa complexidade como uma instância a ser permanentemente descrita.

A discussão lançada por Costa, conforme já dissemos no capítulo anterior145, toca, também, na questão dos limites formais do texto. Afinal de contas, é possível saber sempre onde começa e onde termina um texto (e, consequentemente, o cotexto)? Para as mensagens da lista de discussão da CVL, Costa (2007, p. 144) diz haver ―certa indefinição no que tange aos limites da materialidade textual‖. E essa própria indefinição suscitaria a possibilidade de ocorrências como (37), (38) e (14).

Como já vimos, trata-se de uma questão que se relaciona a como os fenômenos textual-discursivos são explicados a partir dos conceitos de texto assumidos, nesse caso, pelo paradigma sociocognitivista. No capítulo 5, em que apresentamos nossas análises, voltamos a discutir as questões do limite do texto, em relação à materialidade e à abstração dessa materialidade decorrente do trabalho dos interlocutores.

Por ora, observamos que, até aqui, as duas contribuições apontadas como geradoras de novas tendências nas análises (a conjunção de vários elementos cotextuais para o processamento da recategorização e a retomada de elementos presentes em cotextos distintos) centralizam-se, ainda, na necessidade de a expressão referencial fazer parte do processo (pelo menos, como manifestação final). Ou seja, as considerações feitas procuram fornecer explicações mais aprofundadas e completas sobre o processo referencial, mas assim o fazem para mostrar o papel dos sintagmas nominais referenciais presentes no cotexto. Como veremos a seguir, o encaminhamento das discussões nos permite considerar que é possível haver construção referencial sem que haja necessariamente a menção efetivada por sintagma nominal.

145 Ver seção 2.3 - ―A operacionalização das análises em Linguística Textual: em favor da diversificação das situações de interação analisáveis‖.