• No results found

Os princípios organizadores do fazer científico sobre a referenciação característicos da segunda tendência, considerando tanto as contribuições apresentadas no capítulo anterior quanto os acréscimos que fizemos neste capítulo, são os seguintes:

1) a construção de referência, no que diz respeito aos elementos do cotexto, se efetiva a partir da integração de diferentes partes (tanto na natureza quanto na extensão) da materialidade verbal;

2) todas os modos semióticos de um texto, por fazerem parte de sua materialidade, são substrato para a elaboração de objetos de discurso;

3) o estabelecimento e a transformação de referentes pode se dar sem a menção referencial cotextual;

4) a recategorização referencial é um processo eminentemente discursivo, não linear;

5) o processo de construção e transformação dos referentes demanda operações cognitivas de reelaboração do conteúdo textual com vistas a organizar as recategorizações em etapas funcionais;

6) a retomada de referentes pode ocorrer entre (co)textos distintos.

Nesses princípios de base, encontramos a síntese que revela o direcionamento escolhido para esta tese: partindo de uma proposta que reconhece a inter-relação intrínseca entre linguagem, conhecimento, inteligência e ação social, estabelece-se a primazia do texto como elemento central da mediação do homem com o mundo; esse objeto, de teor multifacetado, comporta materialidades semióticas a partir das quais se realizam as operações de produção dos sentidos e das referências; essa produção se organiza, a nosso ver, de acordo com os princípios elencados. Assim, cremos ser possível garantir, ao processo da referenciação, a complexidade que a proposta sociocognitivista já prevê em suas formulações de base.

O quadro esboçado permite o alargamento dos estudos para dar conta de ocorrências que não seriam adequadamente explicadas dentro do panorama da primeira tendência, a qual investe na formalização da referência por meio de um sintagma nominal. Embora reconheçamos que isso ainda é muito importante, optamos por destacar, nesta tese, que as estratégias analisadas/vislumbradas ao longo deste capítulo (bem como aquelas do capítulo anterior atinentes à segunda tendência) não dizem respeito a ―maneiras especiais‖ de realizar a construção referencial. Na verdade, consideramos tais estratégias como frequentes (e talvez constitutivas, em alguns casos) na interação. Se assim o for, teremos aberto novos campos de investigação para o estatuto da referenciação, o que justifica, em última instância, nossa proposta de pesquisa.

Considerando-se, preliminarmente, o papel da materialidade textual, é imperioso defender que as propostas classificatórias calcadas nas expressões referenciais devem dividir o espaço com outras possibilidades de organização científica. Dentro do panorama que ora se esboça, mesmo quando, em um texto, houver relações ―prototípicas‖ entre introduções referenciais e anáforas diretas, entre âncoras e anáforas indiretas, e mesmo quando as recategorizações se moldarem ao esquema básico da primeira tendência (o que, para nós, dificilmente ocorrerá), não é isso, apenas, que garante a construção da referência. O desgarrar- se dos supostos limites formais do fenômeno demanda uma outra forma de sistematização, e,

se isso gerará ou não propostas classificatórias razoavelmente estáveis, é algo que deixamos para discutir posteriormente.

Essa postura ―desconstrutivista‖ é insuficiente se não for acompanhada do compromisso de encarar um enorme desafio: uma vez que a materialidade textual, no que toca ao estudo da referenciação, não se limita à localização e ao eventual valor semântico- discursivo das expressões referenciais, o que se deve analisar? O que, afinal de contas, será colocado no lugar da introdução e das retomadas nominais? Claro que essa resposta, a partir de tudo o que defendemos nesta tese, demanda o reconhecimento de uma participação muito maior dos diversos substratos materiais no processo de elaboração da referência. Isso implica que a matriz verbal deve ser mais ampla (como sustentamos no princípio 1 e no princípio 3) e também que, quando se trata de textos multimodais, apenas essa matriz não é suficiente (como se vê no princípio 2).

No plano da matriz verbal, sugerimos que outros substratos, além das expressões referenciais, devem ser levados em conta na descrição dos processos. Mencionamos, especificamente, os adjetivos que não acompanham um sintagma nominal (ou seja, que funcionam como sintagmas adjetivais independentes, o que ocorre com a função de predicativo) e os conteúdos linguísticos mais amplos (uma ou mais ―frases‖) que contribuem para a construção de um referente, porque, por exemplo, indicam uma ação ou dão notícia de um fato relevante.

No plano da matriz visual, a definição de categorias razoavelmente específicas é mais complicada. Como já vimos no capítulo 2171, as propostas hegemônicas de estudo da imagem fogem à perspectiva sociocognitivista. A Gramática do Design Visual pretende reconhecer as regularidades ―sintáticas‖ das imagens (e apenas delas, sem levar em conta as interseções com outras semioses), de modo a definir a distinção entre imagens narrativas e relacionais e, dentro das narrativas, a distinção entre imagens que exprimem processo e que exprimem circunstâncias e, dentro das que exprimem processo, a distinção entre agentivas e não- agentivas etc. A sistematização da imagem em certos subtipos recorrentes, tomados de acordo com uma análise isolada, não é suficiente para a compreensão sobre qual é, de fato, o papel de uma imagem na tessitura textual, em que os fatores contextuais e a dinâmica de processamento são fundamentais.

Igualmente insuficiente é, para nós, a abordagem semiótica da matriz visual, conforme a reflexão de Santaella (2005) a partir dos princípios peircianos. Nesse quadro teórico,

importa descrever (assumindo-se que isso seja possível) o que os signos visuais têm de intrínseco, de constitutivo, independentemente da forma como a recepção possa ocorrer. Ainda que, a partir dessa ótica, seja possível encontrar elementos significativos importantes do signo visual, a desconsideração da interação deixa de fora uma série de aspectos relevantes para a compreensão do signo em uso.

Nas duas propostas, investe-se na função primordial da imagem (ou o seu valor gramatical ou o seu valor semiótico intrínseco) como o elemento mais fundamental na veiculação dos sentidos, como aquilo que dá conta de explicitar qual o seu significado. Ambas, portanto, deixam de lado o que para nós é crucial: a compreensão dinâmica da imagem, que só é realmente significada na interação, em relação a todos os outros elementos cotextuais e a todos os princípios textual-discursivos regentes do contexto sociocognitivo mais amplo. Olhar para menos que isso é, a nosso ver, limitante e pouco pragmático (ainda que as duas propostas se digam pragmáticas).

Dentro do arcabouço sociocognitivista que determinamos como fundamental, não vemos, no momento, como propor categorias discriminativas dos tipos de imagem sem cair na mesma limitação das teorias que criticamos. Uma suposta saída seria reiterar nossa crença de que a semiose visual pode ocupar o mesmo lugar da semiose verbal no processamento da referência e, a partir daí, determinar, para a imagem, categorias equivalentes às da matriz verbal. Ocorre, contudo, que este trabalho também destaca algumas críticas às categorias verbais normalmente elencadas para o estudo da referência, em favor de uma proposta que, mais intensamente do que se vê normalmente, aposte na instabilidade constitutiva do fenômeno, de onde vem a multiplicidade de manifestações. Querer, então, tratar a imagem em termos de introdução, anáfora, encapsulamento etc. é, também, reducionista.

De fato, para a matriz verbal, em substituição aos quadros classificatórios erigidos em torno da supremacia da menção anafórica, propomos a discriminação das entidades linguísticas intervenientes do processo (expressão referencial, sintagma adjetival independente e conteúdo linguístico mais amplo). Além de considerarmos essa ―divisão‖ mais produtiva para explicar o fenômeno (conforme ficará mais claro no próximo capítulo), ela decorre da nossa necessidade, como analista, de reconhecer a não exclusividade da expressão referencial. Contudo, ainda que quiséssemos, não seria possível extrapolar e propor categorias semelhantes para o estudo da imagem, porque nosso entendimento atual dessa matéria não nos permite encará-la do ponto de vista essencialmente sintático – não concebemos a imagem como uma estrutura maior passível de subdivisões em partes funcionais também significativas. Entendemos como mais apropriado não propor divisões ―linguísticas‖ para as

imagens analisadas, haja vista não reconhecermos, em tais divisões, uma interferência na maneira como ocorre o processamento da referência.

Insistimos, mesmo reconhecendo as diferenças estruturais de cada modo semiótico, que imagem e verbo podem realizar as mesmas funções no que diz respeito ao tratamento da referência. Conforme veremos no próximo capítulo, ambos são conteúdos interpretáveis, e é dessa forma que ―entram‖ no processamento (socio)cognitivo. Se há distinções na forma como a mente resolve tratar um e outro, isso não desmerece a constatação de que a imbricação deles é fundamental em tal processo.

Do ponto do vista da materialidade, portanto, à luz dos princípios 1 e 2, determinamos como elementos analisáveis o conteúdo verbal, que inclui a expressão referencial, mas não se limita a ela, e o conteúdo imagético. Consideramos, em nossa análise, consoante o princípio 3, que as relações entre as duas semioses devem ser observadas com vistas a reconhecer seu papel na apresentação e transformação dos referentes.

Além da materialidade (que responde a ―o que analisar‖), é preciso considerarmos o trabalho dos sujeitos (que responde ao ―como analisar‖). Nesse sentido, partimos dos princípios 4 e 5, pois descrevemos as ―idas e vindas‖ do interlocutor quando em contato com os textos (princípio 4), ao mesmo tempo em que formulamos uma explicação para o trabalho de seleção das informações relevantes na interpretação (princípio 5).

O princípio 6 será relevante para a análise de um dos nossos exemplares: os episódios de um seriado de televisão. Ao analisarmos como um determinado personagem desse seriado é construído ao longo de quatro episódios, temos de recorrer a esse princípio para fornecer as devidas explicações.

De todo este trabalho, cremos ser capazes de fornecer uma descrição/discussão que contribua para um entendimento mais pleno da ação de referir.

5 INTEGRAÇÃO DE MÚLTIPLOS FATORES PARA A CONSTRUÇÃO DA

REFERÊNCIA: REDIMENSIONANDO O VERBAL E ACRESCENTANDO

O IMAGÉTICO

Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está nem na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.

(Riobaldo, em Grande sertão: veredas)

Neste capítulo, apresentamos nossa análise e discussão dos resultados. Com base nos postulados assumidos pela segunda tendência em referenciação, mostramos como ocorre a construção de alguns objetos de discurso presentes em um conto e em um seriado de televisão (nos seus quatro primeiros episódios). A descrição apresentada propõe uma compreensão sobre como os múltiplos fatores (materiais e extramateriais) se integram com vistas à construção dos referentes (e dos sentidos).

Na primeira seção, apresentamos os procedimentos metodológicos utilizados para a coleta e análise dos dados. Justificamos os recortes feitos e apresentamos as categorias de analíticas utilizadas na investigação. Na segunda seção, apresentamos a análise dos textos. Para cada um, propomos uma descrição seguida de uma discussão. A discussão mais global, com vistas a destacar as contribuições resultantes da análise e a sinalizar as questões teóricas que podem ser redimensionadas a partir deste trabalho, é feita nas considerações finais.

5.1 Aspectos metodológicos

5.1.1 Universo e amostra

Via de regra, a prática nas pesquisas sobre uma determinada estratégia textual- discursiva, no que diz respeito à escolha do universo a ser investigado, consiste em selecionar um ―nicho‖ específico (por exemplo, um dado gênero textual, um dado domínio discursivo ou uma dada sequência textual), dentro do qual o fenômeno será investigado. Costa (2007), por exemplo, discute a acessibilidade referencial a partir de mensagens de uma lista de discussão;

e Ciulla e Silva (2008) exemplifica as funções discursivas das expressões referenciais com excertos de contos literários.

A escolha de um universo textual específico, em detrimento de uma análise que contemple textos pertencentes a diversos gêneros e/ou domínios discursivos e/ou sequências, assenta na crença de que, conforme Costa (2007, p. 12), alguns fenômenos cognitivo- discursivos, embora presentes na comunicação em geral, aparecem, de forma mais evidente, em contextos específicos. A determinação do universo de investigação é, portanto, guiada pela possibilidade de tal universo apresentar mais facilmente o fenômeno analisável, o que garante ao pesquisador maior probabilidade de coletar dados relevantes. Seguindo esse mesmo princípio, estabelecemos o recorte de nosso universo em dois níveis. Num nível mais global, decidimos trabalhar com gêneros da ordem do narrar172: um conto e um seriado de televisão. Num nível mais específico, selecionamos narrativas que promovem uma quebra de expectativa em relação à maneira como pelo menos um dos personagens vinha sendo apresentado.

A escolha por textos que apresentam esse tipo de ―surpresa‖ decorre da constatação de que o processamento em torno da modificação do personagem, aos olhos do interlocutor, implica necessariamente o fenômeno da referenciação, mais precisamente, da recategorização referencial. As informações que provocam mudanças na forma como o personagem vinha sendo construído praticamente obrigam o interlocutor a agir ―metacognitivamente‖, no sentido de compreender por que vinha assumindo a ―versão anterior‖ e por que deve assumir a ―nova versão‖. Além disso, o processo envolvido em tal recategorização, muitas vezes, incita o interlocutor a perceber que as pistas indicadoras da ―nova versão‖ já estavam presentes no cotexto precedente173. Essa estratégia solicita uma ação do sujeito em torno dos referentes construídos e modificados, o que permite uma análise dos múltiplos fatores acionados para a construção referencial.

Os textos analisados são os seguintes:

conto: ―Obscenidades para uma dona de casa‖, de Ignácio de Loyola Brandão;

172 Sobre essa nomenclatura, ver Schneuwly & Dolz (2004).

173 Esse procedimento é percebido nos romances policiais (embora não seja exclusivo dessa prática discursiva), em que um ou mais personagens vêm aparecendo como prováveis culpados, até que, no final da história, uma revelação indica que o culpado é outro personagem (e as pistas para que se descobrisse isso já estavam no texto). Também os livros e filmes de suspense lançam mão desse expediente. Um exemplo conhecido encontra-se em O sexto sentido: o personagem do ator Bruce Willis, um psicólogo, começa a tratar de uma criança que diz ver (e conversar) com pessoas mortas. Ao final, descobre-se que o psicólogo era também uma das pessoas mortas

vistas pela criança. Uma segunda ―leitura‖ da obra comprova que, desde o início, seria possível perceber essa

seriado de televisão: os quatro primeiros episódios da primeira temporada de Lost, criado por J. J. Abrams e Damon Lindelof.

A amostra contempla um exemplar do meio impresso e um do meio audiovisual, considerados, a partir do que discutimos na seção 2.3 (―A operacionalização das análises em Linguística Textual: em favor da diversificação das situações de interação analisáveis‖), como texto longo normalmente vazado em interação ininterrupta e texto longo vazado em interação interrupta, respectivamente. A opção por analisar um texto impresso e um texto caracteristicamente multimodal visa a atender aos nossos objetivos de investigação. Um deles diz respeito à participação dos elementos multimodais na construção da referência; outro propõe a análise de elementos da materialidade verbal que não se limitem às expressões referenciais. Se optássemos por textos do meio audiovisual apenas, poderíamos dar a entender que as ―novidades‖ sobre recategorização ocorreriam somente neles, o que, conforme se vê adiante, não é verdadeiro.

A opção por analisar um seriado permite, ainda, que discutamos a recategorização referencial entre textos diferentes. A análise desse exemplar nos permitirá continuar a discussão lançada por Costa (2007) a respeito das retomadas anafóricas em cotextos distintos, o que demanda uma reflexão sobre os limites do texto.

Nosso trabalho pretende dar conta do fenômeno de continuidade referencial, ou seja, analisamos os múltiplos fatores com vistas a entender como determinados objetos de discurso se apresentam e se transformam ao longo das interações. Localizamo-nos, então, no domínio da correferência, contudo alargamos o espectro a fim de englobar mecanismos outros que não apenas as menções correferenciais. Os referentes escolhidos, em cada exemplar da amostra, são os seguintes:

no conto: os personagens <dona de casa>, <marido da dona de casa> e <escritor das cartas>;

no seriado: o personagem <John Locke>.

Tanto num quanto noutro caso, poderiam ser outros os referentes a serem investigados, principalmente no seriado, em que John Locke divide o papel de protagonista com outros personagens. A escolha deveu-se à participação direta de tais personagens na quebra de expectativa. Além disso, seria possível propor investigações em que, em vez de perceber a construção específica de um ou mais personagens, seja focalizada outras formas de relações referenciais (por exemplo, as relações indiretas ou a determinação da hierarquização entre

referentes de um texto). Nosso recorte, portanto, é apenas isso: uma entre outras possibilidades de investigação do fenômeno à luz dos postulados enfatizados.

5.1.2 Procedimentos de coleta

Levando-se em conta que, bem antes de propormos essa investigação, já havíamos tido contato com os textos escolhidos, um procedimento anterior à coleta foi necessário: a releitura174 dos exemplares, com vistas a determinar que referentes seriam focalizados em cada obra. Em seguida, procedemos à coleta dos dados, que consistiu em providenciar uma ―superfície impressa‖ dos textos, sobre a qual nós pudéssemos trabalhar. No caso do conto, o trabalho limitou-se a encontrar uma versão digitalizada do texto, facilmente obtida por meio da internet175.

Para o seriado, o trabalho revelou-se mais extenso, pois foi preciso transcrever as falas dos personagens e apresentar, verbalmente, uma descrição das imagens (no que diz respeito a cenário, movimentação dos personagens, expressão facial, recursos narrativos etc.). O procedimento para chegarmos ao produto que seria posteriormente analisado consistiu em assistir às cenas, pausar em determinados momentos e escrever os diálogos e a descrição das imagens; frequentemente, voltávamos a cena, para completar o trabalho de escrita.

O produto final resultou em ―relatórios‖ das cenas, parecidos com os roteiros de peças teatrais e de filmes, no quais, além dos diálogos, o enunciador coloca marcações sobre o cenário e a caracterização dos personagens. A diferença é que esses textos são produzidos para se transformarem em outro produto, que pode (e na maioria das vezes o é) ser modificado, a depender, por exemplo, da direção e da interpretação. Nossos relatórios referem-se ao produto final, de modo que a descrição do aparato visual e a transcrição dos diálogos não são possibilidades que se concretizarão, mas elementos efetivamente observados (claro que, ainda assim, perspectivados por nossas limitações como telespectador e analista).

Utilizar um tratamento escrito dos dados analisáveis presentes no texto audiovisual pode parecer estranho, considerando-se que este trabalho tem como um dos objetivos

174

Para simplificarmos e para sermos coerentes com a ideia de que o texto pode ser erigido a partir de diferentes modos semióticos, vamos chamar de leitura o ato de interagir com os textos de nossa amostra, o que engloba tanto o texto impresso quanto o audiovisual.

175

Disponível em http://www.releituras.com/ilbrandao_obscenidades.asp. Último acesso em 16 jan. 2011. Uma versão impressa do conto encontra-se em MORICONI, I. (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do

investigar o papel da semiose visual na construção da referência. Um olhar mais desavisado pode supor, em tal procedimento, uma subordinação da imagem ao verbal, o que, no final das contas, revelaria uma grave incoerência entre o que vimos defendendo ao longo de toda esta tese e a análise que ora se efetiva. Contudo, tal restrição se revela, muito mais, como uma limitação do gênero discursivo – tese acadêmica – que orienta a interação entre o pesquisador e seus virtuais leitores.

Uma tese de doutorado é um gênero de concepção escrita (ou seja, planejado para ser lido por alguém) e com apresentação gráfica (ou seja, veiculado em uma superfície impressa). Dentro do continuum oralidade-escrita proposto por Marcuschi (2007), esse gênero encontra- se na ―ponta‖ do espaço reservado aos gêneros essencialmente escritos, por isso decidimos operacionalizar a análise a partir dessa retextualização. Em vista de tal decisão, foi muito natural, em nosso percurso investigativo, reconhecer, desde o princípio, a impossibilidade física de colocar na superfície do impresso (papel ou tela) os movimentos inerentes aos gêneros audiovisuais. Isso não impede, contudo, de propormos uma descrição desses gêneros, a partir dos pressupostos que elencamos como fundamentais.

Em outras palavras, reiteramos que o tratamento de coleta por nós escolhido não significa que o processo de construção da referência se subordina, em última instância, a um processamento exclusivamente verbal dos textos. O que está subordinado ao verbal é a necessária descrição científica que precisamos operar, e disso não há como fugir. Nossa ―descrição escrita‖ dos episódios do seriado tem por objetivo, pois, permitir a comunicação de