Hanks (2008), ao discutir questões atinentes ao texto e à textualidade, diz que esses conceitos podem englobar substratos um tanto diversos a depender do alcance que se queira dar. O autor menciona algumas instâncias que podem ser consideradas97:
co-texto: ―o fragmento discursivo que está associado a uma porção textual num dado texto‖ (p. 120);
meta-texto: ―qualquer discurso que descreva, estruture ou se refira à interpretação do texto‖ (p. 120);
con-texto: ―ambiente mais amplo (linguístico, social, psicológico) ao qual o texto responde e sobre o qual ele opera‖ (p. 120);
pré-texto: ―tudo o que prepara o terreno para o texto ou justifica sua produção ou interpretação‖ (p. 120);
sub-texto: ―todos os conhecimentos ou temas que formam o pano de fundo ou as dimensões tácitas de um texto, inferíveis mas não explicitamente afirmadas‖ (p. 120); pós-texto: ―A miríade de resultados e de consequências da produção, distribuição ou
recepção de um texto, se pretendidos e previstos ou não‖ (p. 120-121).
Esse levantamento mostra que ―O matiz semântico preciso e a extensão do termo ‗texto‘ mudam, dependendo de quais partes desta variedade de conceitos se escolhe compreender‖ (HANKS, 2008, p. 121). Isso é importante para termos uma ideia da flutuação terminológica em torno do estatuto do texto. Embora as definições atuais reiterem como característica principal a coocorrência de múltiplos fatores na tessitura textual, as diferenças na formulação das definições podem levar a conceitos distintos de texto no que toca ao alcance e ao limite do objeto.
Confrontemos duas definições correntes. Na seção 2.1 (―O objeto texto na atualidade‖), definiu-se texto como um evento; já em muitas obras de Ingedore Koch (por exemplo, KOCH, 2004), é recorrente a metáfora de que ―o texto é a ponta do iceberg‖. Parece-nos que não se está falando, num e noutro caso, da mesma coisa. Enquanto a primeira definição parece englobar todas as instâncias mencionadas por Hanks, a segunda parece nos dizer que a ponta (o texto) seria o cotexto e talvez o metatexto; as demais instâncias configurariam o resto do iceberg.
Perceba-se que não estamos tratando de duas concepções pertencentes a correntes distintas; ambas bebem da mesma fonte, que propõe, como já dissemos, a necessidade de se buscar o sentido além da materialidade linguística. A diferença entre elas serve para nos mostrar o que já insinuamos na seção anterior: a tarefa de limitar o texto (o que é e o que não é, o que faz e o que não faz parte) pode ser mais difícil do que se imagina.
No momento atual nas pesquisas em LT, parece-nos que a metáfora do iceberg representa a visão dominante no que diz respeito a determinar o objeto texto que serve de análise. Em outras palavras, o que os analistas consideram efetivamente como texto é uma unidade material perceptível (uma ponta) e finita, a qual, para ser compreendida/explicada, é relacionada a outras instâncias ―menos materiais‖ (o resto do iceberg). Há, portanto, uma unidade de análise perceptível.
Essa concepção permite que os analistas tenham um objeto visível ao qual se reportar, o que se demonstra pelo uso de construções do tipo ―O texto sugere que...‖, ―No texto acima...‖, ―O texto analisado apresenta...‖. Em todos os casos, a identificação é possível porque remete a uma materialidade perceptível. Nesse quadro, as situações apresentadas na seção anterior como textos (p. 67-68), levando-se em conta uma compreensão ampla do fenômeno, podem ser consideradas como extrapolações, talvez interessantes, mas pouco afeitas a uma análise sistemática.
Reiteramos, então, a necessidade de uma discussão acerca de como determinar os limites do que é um texto e do que deve ser estudado pela Linguística Textual. Já defendemos
que, levando-se em conta o paradigma sociocognitivista, é preciso assumir uma posição de entendimento abrangente do fenômeno, mesmo que para isso seja necessário pagar o preço das constantes desestabilizações e reformulações teóricas e seja necessário propor novas (e talvez difíceis) abordagens para a operacionalização metodológica das pesquisas. Cabe aos pesquisadores assumirmos nosso papel na eterna busca pelas explicações, incluindo-nos, sempre, no jogo intersubjetivo dos consensos e das rupturas.
Importa destacar, agora, que, mesmo dentro do paradigma razoável e aparentemente mais confortável do reconhecimento do texto em termos de limites da sua materialidade, há um problema a se enfrentar: a consideração da extensão/tamanho dessa materialidade e das diferentes possibilidades de contato com ela. Os usos parecem mostrar que, em algumas práticas, a análise da materialidade cotextual, mesmo que relacionada às outras instâncias submersas do iceberg, não é suficiente para explicar alguns fenômenos.
As imprecisões da materialidade podem ser exemplificadas por meio dos estudos sobre as retomadas anafóricas. Grosso modo, pode-se dizer que a retomada se manifesta numa superfície textual, levando em consideração relações diretas (correferenciais) ou indiretas (não correferenciais); mesmo nessas últimas, as relações são ativadas dentro de uma determinada materialidade analisada. Em (13), por exemplo, as anáforas direta e indireta manifestam-se, respectivamente, pelas expressões ―o homem‖ e ―no escritório‖, entre outras.
(13) O marido e a mulher não se falavam há uns três dias... Entretanto, o homem se lembrou que no dia seguinte teria uma reunião muito cedo no escritório. Como precisava levantar cedo, resolveu pedir à mulher para acordá-lo. Mas para não dar o braço a torcer, escreveu num papel: ―Me acorde às 6 horas da manhã‖. No outro dia, ele levantou e quando olhou no relógio eram 9h30. O homem teve um ataque e pensou: ―Que meeeerdaaa! Mas que absurdo! Que falta de consideração, ela não me
acordou...‖. Nisto, olhou para a mesa de cabeceira e reparou num papel no qual estava escrito: ―São seis horas, levanta!!!‖.
Moral da história: não fique sem falar com as mulheres, elas ganham sempre, estão certas sempre e são simplesmente geniais na vingança!!!!!!
―O casamento é a relação entre duas pessoas, onde uma está sempre certa
e a outra é o marido‖.
(Disponível em: http://100perdao.blogspot.com/2008/07/amenidades-o-marido-e-mulher-no-se.html. Acesso em 22 abr. 2009.)
Para situações desse tipo, o aparato teórico-analítico normalmente utilizado seria suficiente para suprir as explicações necessárias. Por exemplo, na ocorrência ―no escritório‖, justifica-se o uso do definido (uma marca de anáfora indireta) pela relação que a expressão estabelece com ―uma reunião‖ e ―o homem‖. Cognitivamente, a construção é interpretada como conhecida porque, no cotexto, já se tinha mencionado a existência de um homem, e foi informado que ele teria uma reunião (ou seja, já havia aparecido uma pista que direciona para
o trabalho desse homem); dessa forma, a expressão ―o escritório‖, por ser já esperada, aparece como conhecida. Uma análise nesses moldes provê, entre outras coisas, suporte para o entendimento de como as informações podem ser organizadas e apresentadas, partindo-se das habilidades sociocognitivas dos indivíduos (enunciador e seus interlocutores).
Há, contudo, situações mais complexas de retomada de um referente, que não são devidamente contempladas nos estudos normalmente feitos sobre as estratégias textual- discursivas. Ilustremos a questão com o trabalho de Costa (2007). A autora mostra casos de retomada referencial em que o referente já vinha sendo construído em outros (co)textos precedentes, como em (14):
(14) From: "T" <[email protected]> To: <[email protected]> Sent: Tuesday, May 18, 2004 5:49 PM Subject: [CVL] cotas para negros, índios
olha, estou gostando do debate. pela primeira vez, vejo as pessoas assumirem suas opiniões sem nenhum medo de serem censuradas. concordo com a colega d quando ela chama atenção para dois pontos importantes (...).
Não vamos entrar em detalhes sobre a análise da ocorrência acima, em virtude de termos reservado esse detalhamento para o próximo capítulo, quando abordamos a proposta teórica da referenciação. O que importa destacar para a discussão que ora encetamos é o fato de a expressão ―o debate‖ retomar (e, ao mesmo tempo, recategorizar) todo um conjunto de informações presentes em textos distintos (lembrando que, aqui, estamos falando do texto nos moldes da ―ponta do iceberg‖).
Adiantamos, já aqui, que o paradigma dominante no estudo das relações referenciais, o qual investe na noção de uma materialidade facilmente perceptível, não explica as ocorrências semelhantes a (14) de forma satisfatória. A fim de explicá-las coerentemente, é preciso definir o que, na interação em questão, seria responsável pela unidade texto. Nas mensagens de lista de discussão analisadas por Costa, o texto seria cada mensagem ou o conjuntos de mensagens sobre um tópico? Além disso, ainda que cada mensagem seja um texto, é possível considerar que o conjunto delas pode ser percebido como uma unidade e que isso traz consequências para a experiência do leitor? Somos levados a pensar que, de fato, além da unidade texto (conforme esta é percebida nas análises na área), pode haver um outro tipo de unidade, em que a relação íntima entre textos possibilita estratégias de retomadas anafóricas que se dão de um texto para outro(s). Isso nos possibilita a continuar as investigações que falam em favor da
referenciação como um processo muito mais complexo, passível de realização a partir de diferentes manifestações.
Defendemos, então, como uma das contribuições de nossa pesquisa, exatamente, a investigação de situações de interação normalmente não analisadas quando se trata de descrever e discutir as estratégias de referenciação. Para que determinássemos a escolha dos exemplares que servirão para nossa análise (ver capítulo 5), foi necessário, no que diz respeito à natureza (in)interrupta e ao tempo de contato com os textos, propor uma distinção (simplificada, mas útil aos propósitos de nosso trabalho) para as situações de interação em três categorias, entre as quais se manifestaria um contínuo, e não uma discretização absoluta. Vejamos cada uma delas.
A) Interação ininterrupta com textos curtos
Esse grupo engloba as interações que se estabelecem pelo contato com textos semelhantes a (13). Poder-se-iam incluir aqui as interações feitas a partir de notícias, crônicas, artigos de opinião, receitas, piadas e outros gêneros que possibilitam o contato entre interlocutores em um curto espaço de tempo. A característica que se salienta em tal interação é a possibilidade de as unidades linguísticas do cotexto serem mais facilmente lembradas (principalmente para os textos escritos) e, por isso mesmo, mais frequentemente acionadas quando da necessidade de construir os sentidos do texto.
Isso pode ser verificado nas análises em referenciação sobre a retomada anafórica; a proposta majoritária dos trabalhos reside em entender a anáfora (direta ou indireta) como uma relação entre partes do cotexto. Para ilustrar tais relações, os pesquisadores mencionam os trechos mais salientes do cotexto responsáveis pela interpretação do termo anafórico. Como dissemos, quase toda a reflexão em torno das estratégias referenciais é estabelecida com base nesse tipo de interação98, a partir do que se generalizam as explicações para as demais manifestações textuais. Tudo leva a crer que se assume, nesse esquema investigativo, que os sujeitos têm em sua memória uma representação bastante precisa (e extensa) do material cotextual, já que as unidades discretas da superfície linguística são elencadas para as explicações sobre as relações referenciais.
98
Mesmo quando se trata de analisar textos mais longos, as explicações se pautam pelas relações cotextuais (ver, por exemplo, a análise das funções discursivas das expressões referenciais em Ciulla e Silva (2008), a partir de contos).
B) Interação ininterrupta com textos longos
As situações incluídas nessa categoria dizem respeito às interações que ocorrem de forma ininterrupta (ou seja, sem que haja uma interrupção da leitura/escuta para retomada posterior), com textos que estamos chamando de longos: os filmes, os contos, as reportagens, as aulas, os artigos acadêmicos, entre outros. Defendemos que, nestas situações, a construção referencial não depende tão amplamente do mapeamento preciso dos elementos linguísticos manifestados na superfície textual.
Fundamentamo-nos, principalmente, nas considerações encontradas em Koch (2008) acerca das inferências. Informando-nos que, ―em diferentes pontos do texto, a informação cognitivamente disponível varia tanto em qualidade, quanto em quantidade‖ (p. 141) e que ―a organização do texto tem um efeito sobre a disponibilidade da informação já processada‖ (p. 141), a autora explica que o processo de reconhecimento das inferências é seletivo:
Há muitas oportunidades de conectar uma informação textual que acaba de ser captada com a informação precedente do texto e assim construir inferências conectivas. Essas possibilidades, contudo, são utilizadas apenas
seletivamente, devido à disponibilidade desigual da informação textual já processada: dependendo de quanta e de que parte da informação já processada está cognitivamente disponível no momento específico, o número de conexões potenciais entre a informação nova e aquela já processada que chega à atenção do leitor/ouvinte pode diferir, de modo que diferentes quantidades de inferências serão efetuadas (KOCH, 2008, p. 141, grifo nosso).
A seletividade aludida por Koch nos autoriza a pensar que, para a realização de operações inferenciais, não é necessário um conhecimento apurado de todo o cotexto precedente, já que o sujeito trabalharia, em princípio, com uma representação mental do texto lido/ouvido até então, a qual selecionaria elementos julgados como os mais importantes. Pensamos que essa seletividade é válida não apenas para o reconhecimento de inferências; trata-se, na verdade, de um expediente constitutivo da interpretação textual como um todo, necessário para que o sujeito alie à necessidade de realizar tarefas interpretativas complexas uma economia cognitiva que lhe permita operar sobre o que realmente importa. Cremos, portanto, que a seletividade da informação textual, que determina, inclusive, a forma como a informação é retida, é uma estratégia passível de acontecer em interações ininterruptas com textos longos.
C) Interação interrupta
Essa categoria inclui as interações efetivadas com textos que demandam uma leitura/escuta ―interrompida‖: por conta da natureza própria do gênero99
, é necessário fazer pausas no contato para posterior retomada. Aqui, também, temos os textos longos, mas, nesse caso, ainda mais longos que os anteriormente citados, daí a necessidade de se estabelecerem as interrupções no contato. Incluímos no rol de textos dessa categoria os romances, as telenovelas, os seriados, as séries em quadrinhos, as dissertações, as teses, entre outros.
No que diz respeito ao processamento textual, pensamos que, da mesma forma que na categoria anterior, deve haver um tratamento do material lido/ouvido no sentido de criar uma representação global do conteúdo textual, a partir do que se estabelecem as interpretações seguintes. Mais uma vez, o que está em foco é a necessidade de economia: fazer mais (ou seja, interpretar adequadamente) por menos (ou seja, com um conjunto prévio de conhecimentos obtidos no texto, condensado a fim de não sobrecarregar a capacidade de trabalho (socio)cognitivo).
Insistimos que os tipos de interação propostos não devem ser vistos como unidades discretas, mas sim como momentos de um contínuo. É óbvio que, dentro da enorme variedade de gêneros textuais (tendo em vista, ainda, as diferentes possibilidades de concretização de um mesmo gênero), haverá aqueles que não são tão curtos quanto os da categoria A nem tão longos quanto os da categoria B. E, ainda mais, pode haver gêneros que costumeiramente se prestam a um contato ininterrupto, mas que, devido a características específicas do interlocutor, sejam ―experimentados‖ em uma situação interrupta. Finalmente, é possível que um gênero seja efetivado a partir de uma interação interrupta em que a materialidade do(s) cotexto(s) precedente(s) é(são) facilmente acessada em sua totalidade, o que provocaria a emergência de estratégias mais pontuais100. Todavia, cremos que essas particularidades não precisam ser abordadas, considerando-se os objetivos de nossa proposta investigativa.
99
A configuração genérica é, de fato, o principal critério escolhido por nós para definir as interações interruptas. Estamos cientes de que, a rigor, qualquer interação pode ser interrupta: a leitura de uma notícia pode ser interrompida porque o sujeito perdeu o interesse; um aluno pode sair de uma sala de aula e interromper a interação que vinha acontecendo; alguém pode parar de assistir a um filme ou de ler um conto porque precisou fazer algo mais urgente. Não é esse tipo de interrupção, contudo, de que estamos falando. Com esse conceito procuramos tratar das situações de interação as quais, devido à própria configuração do texto (dependente do gênero a que pertence), exigem um contato espaçado.
100 Isso é verdadeiro, por exemplo, para o gênero lista de discussão, conforme veremos em relação ao trabalho de Costa (2007) sobre o encapsulamento anafórico.
Uma das críticas que fizemos ao método investigativo da Linguística Textual reside na contradição entre os pressupostos assumidos e as análises investigadas. A LT afirma que elege como objeto de estudo o texto em interação e se compromete a explicar as diferentes situações de interação pela linguagem. Contudo, as análises se limitam, em sua esmagadora maioria, às situações de interação ininterrupta com textos curtos. Não há, em princípio, problema algum em fazer esse recorte. O problema é propor que as explicações geradas a partir do recorte seriam características da interação como um todo, e qualquer estudioso familiarizado com as pesquisas em LT sabe que essa prática é a dominante.
Uma grave consequência de todo esse processo é, a nosso ver, a colocação do aparato linguístico de um texto como única forma de realização das estratégias textual-discursivas. Reconhecemos que, de fato, as análises pressupõem que a produção dos sentidos só se efetiva mediante uma gama de aspectos contextuais e cognitivos, de maneira que as explicações informam como esses aspectos configuram o conteúdo verbal. De certa forma, essa é uma possibilidade coerente dentro do paradigma sociocognitivista em Linguística: assume-se a complexidade do objeto e se procura fornecer explicações relevantes sobre a linguagem.
A grande questão é que, nesse panorama, isola-se a possibilidade de um fenômeno textual-discursivo ser manifesto a partir de substratos e estratégias diferentes das universalmente descritas. No que toca aos substratos, já falamos sobre o papel das imagens como parte da materialidade textual. No caso das estratégias, defendemos que a investigação de situações de interação diferentes das usualmente consideradas mostra procedimentos distintos de tratamento da materialidade textual. No nosso caso, pensamos especificamente nas diversas possibilidades de descrever o fenômeno da recategorização referencial.
Para que efetivemos esse tipo de descrição, investigamos situações de interação com textos que aqui chamamos de longos (pertencentes aos itens B e C da divisão proposta). Ao explicarmos a construção referencial, nesses casos, como resultante de um trabalho sobre um ―conteúdo cognitivamente elaborado‖, redimensionamos a influência da materialidade linguística na produção dos objetos de discurso. A discussão propõe um novo entendimento sobre o fenômeno da referenciação e toca nas questões sobre a definição de ―texto‖, ao procurar levar para as análises a noção de que o texto seria um evento comunicativo. Acreditamos que investigar interações com textos longos pode ser um procedimento produtivo para se tratar, com certo detalhe, as dimensões do meta-texto, do sub-texto e do pós- texto, definidas por Hanks (2008).
Postulamos, portanto, a necessidade de investigações cuja discussão incida sobre a crítica à natureza dos textos normalmente analisados. Rejeitamos a postura de estender os
postulados assumidos a partir dessa prática para as situações de interação como um todo, desconsiderando-se as especificidades atinentes à natureza ou à extensão do texto. Para que tais postulados se sustentem, é preciso que sejam submetidos à prova. A análise do conto e do seriado nos mostrará que as estratégias utilizadas para a construção dos sentidos não são totalmente idênticas ao que se vem demonstrando na literatura.
Atestamos, assim, a necessidade, cada vez maior, de considerar o texto como um construto dinâmico, que vai além da materialidade linguística. Assumir essa perspectiva, incorporando-a às análises, significa admitir a primazia dos usos reais como elemento maior da investigação.
Há, para nós, uma tarefa igualmente ousada, no que concerne à operacionalização das análises: a inclusão do fazer do interlocutor. De modo geral, as reflexões em LT se concentram nas análises que os pesquisadores propõem para os textos (orais ou escritos) que coletam. O que se diz que acontece na interação se embasa na interação entre o texto e o pesquisador. Mais que isso, pensamos que, na verdade, as análises procuram explicar (ainda que não o digam explicitamente) as estratégias textual-discursivas como o resultado de um projeto discursivo do enunciador101; teríamos, então, uma análise que, embora considere a