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Quando falamos da Gramática do Design Visual, dissemos que a aplicação das categorias dessa proposta, num estudo sobre referenciação, é inviável, em virtude do caráter modular que, em nossa opinião, não condiz com a visão processual da proposta sociocognitivista. Já a matriz da linguagem visual de Santaella, com sua abordagem lógica em favor de uma certa imanência dos produtos da comunicação, se afasta de uma visão que privilegia a interação. Em ambas as perspectivas, temos, portanto, postulados que assumem uma dimensão pragmática e/ou ideológica da produção dos sentidos, mas que deixam de lado, a nosso ver, uma faceta fundamental – o reconhecimento de que a interação pela linguagem é um processo estratégico no qual os sentidos são produzidos de acordo com fatores complexos atinentes aos diversos elementos da situação de produção: bagagem sociocultural e ideológica dos sujeitos, aparato cognitivo, circunstâncias imediatas da comunicação etc.

É esse processo que interessa, primordialmente, à Linguística Textual. Embora reconheçamos que as investigações construídas a partir de outros vieses sejam pertinentes e consideremos que os achados não sejam excludentes em relação ao que a LT venha a teorizar,

o fato é que há algo a se fazer quando se trata de compreender como as imagens participam dos processos de busca dos sentidos no texto.

Que a LT está impelida a propor explicações sobre os textos muitlimodais é, como já vimos, ponto incontestável. Se a vocação dessa disciplina é, conforme tratamos no início deste capítulo, a investigação dos processos de significação, nada mais natural que, em determinado momento, houvesse o reconhecimento de que a análise do aparato exclusivamente verbal é insuficiente para dar conta de uma gama de manifestações textuais. Com isso, volta-se a atenção para as possibilidades de relações significativas entre os modos semióticos, que tem se detido, até o momento, na análise do entrecruzamento entre verbo e imagem.

No momento, esse alargamento das propostas investigativas desemboca na teorização sobre a constituição multimodal de alguns gêneros textuais. Dessa forma, estabelecem-se, com maior ou menor profundidade, as relações entre parte verbal e imagens de alguns gêneros (por exemplo, o anúncio publicitário94). Além disso, tecem-se considerações sobre como até mesmo os gêneros pensados como exclusivamente verbais são atravessados por outros modos semióticos (veja-se, por exemplo, a recorrente utilização de fotografias em notícias, como menciona Koch, 2003), que interferem na produção/interpretação. Há, também, profícua reflexão sobre os recursos multimodais caracterizadores dos gêneros hipertextuais95.

A nosso ver, ainda falta, em LT, uma investigação sobre o caráter multimodal a que podem se submeter as estratégias textual-discursivas. Sustentamos que as relações entre as partes verbal e não verbal do texto podem ser muito mais radicais do que o estudo da caracterização de gêneros textuais, na medida em que os diferentes modos semióticos podem ser responsáveis por estabelecer fenômenos que, até o momento, foram considerados como da alçada apenas do linguístico, mesmo em tempos de ampla investigação das práticas multimodais. Vejamos um exemplo dessa limitação, dentro dos estudos em referenciação. Em seu trabalho sobre as funções discursivas das expressões referenciais, Ciulla e Silva (2008, p. 75) analisa o seguinte texto:

(11) O impaciente francês

(Publicidade de um carro da Renault, apresentada em outdoors – citado por Koch, 2004, p.151.)

94 Ver, como exemplo, Delphino (2001). 95 Ver, por exemplo, Araújo (2006).

A autora apresenta esse texto como um exemplo de ―introdução referencial que solicita e/ou supõe um conhecimento comum entre os falantes‖ (no caso, tal conhecimento advém do título de filme O paciente inglês). Acreditamos96 que a expressão ―O impaciente francês‖, como parte de um outdoor, deve vir associada a uma imagem do carro que é tema da propaganda. Logo, uma análise dessa expressão, dentro de uma perspectiva de estudo dos textos em uso, não pode esquecer isso, de modo que a aludida expressão atua não como uma introdução referencial (no sentido mais clássico do termo, em que uma expressão é mencionada pela primeira vez no cotexto), mas como uma anáfora que recategoriza, linguisticamente, o carro apresentado na imagem. Essa observação já comprova como a consideração de aspectos multimodais pode desestabilizar a tradição da análise de processos referenciais.

O que nosso comentário ao exemplo acrescenta mostra que uma imagem pode fazer parte do processamento referencial, em junção com o conteúdo linguístico do texto. Isso indica que Kress & van Leeuwen (2006) têm razão quando investem numa abordagem que explique as características dos modos de comunicação, em detrimento de uma abordagem que ou focalize a linguagem verbal como o modo de comunicação ou trate a imagem em termos de representação da realidade. Na verdade, há aspectos dos fenômenos textual-discursivos que são mais ―universais‖, os quais não podem ser suficientemente explicados por uma suposta exclusividade da linguagem verbal.

A fim de deixar mais clara a posição que assumimos, vejamos o texto seguinte:

(12)

96 Não podemos afirmar com certeza, pois, tanto em Ciulla e Silva quanto em Koch, o exemplo contém apenas a parte verbal do anúncio.

Na propaganda (distribuída sob o suporte de panfleto), a expressão ―desta situação‖ é visivelmente anafórica, visto que suscita a procura de um referente que ―preencha‖ a informação ―Que situação é esta?‖. A busca, neste caso, leva não a uma estrutura linguística, mas à imagem de um marcador de combustível com o ponteiro no valor quase vazio. Claro que a imagem remete a uma possível reconstrução linguística, de forma que ―esta situação‖ equivaleria a ―ficar com pouco combustível no carro‖. Mas a relação referencial foi inicialmente estabelecida num plano de ligação entre conteúdo verbal e imagem. Além disso, segundo Cavalcante (a sair), nem o referente nem sua âncora precisam ser necessariamente expressos por mecanismos linguísticos, haja vista ser a referenciação um processo intercognitivo e social, que estabelece relações diversas para além da materialidade verbal.

Isso mostra o quão produtivo pode ser o tratamento do fenômeno da referenciação a partir de um olhar sobre as práticas multimodais. Essa hipótese se baseia na crença de que tais práticas são frequentes demais para serem desconsideradas, ou para serem estudadas apenas como elementos constitutivos do estilo de determinados gêneros. Há, então, caminhos a serem percorridos, a fim de que as teorias possam explicar fenômenos correntes nas práticas sociais, os quais carecem de investigações mais apuradas.

Podemos resumir o que foi apresentado nesta seção dizendo que a concepção sociointeracionista de texto, que o define como um objeto constitutivamente multifacetado, impele à consideração e à análise de situações nas quais o verbal não é exclusivo ou predominante. Consideramos, então, que os avanços nas conceituações não devem se limitar a reconhecer que o texto vai além do material; trata-se, também, de assumir que esse material pode ser construído a partir de diferentes ―produtos‖, os quais participam da dinâmica textual- discursiva, muitas vezes, da mesma forma que os recursos verbais.

O desdobramento apontado solicita a revisão do uso de termos como ―linguístico‖ e correlatos, quando se estiver tratando da materialidade textual, uma vez que o caminho aberto não mais se assenta na exclusividade do verbal. Aceitar esse alargamento não pode ser encarado como uma concessão, mas, sim, como o compromisso de discutir seriamente os desafios que os usos impõem, mesmo que isso signifique reconhecer a falta (provisória) de aparato teórico para discutir algumas situações.

Claro que o tratamento teórico rigoroso da imagem como elemento participante do processo da referenciação não pode se limitar às constatações feitas até aqui. Nosso objetivo, até agora, foi mostrar, de um lado, que as propostas teóricas sobre o estudo da imagem não têm ainda como fornecer explicações e descrições da ―natureza textual‖ dessa semiose e, de outro, que a consideração da imagem como elemento caracterizador dos gêneros textuais não

é a única (nem a mais importante) possibilidade de estudo desse recurso no que diz respeito às reflexões abrigadas pela LT. Uma vez que tenhamos deixado clara a possibilidade aberta, resta traçar uma proposta de investigação que procure explicitar, à luz de pressupostos ―fortes‖ e a partir de critérios analíticos decorrentes desses pressupostos, a real dimensão do aparato visual na produção dos sentidos via objetos de discurso. Isso ficará mais claro nos dois capítulos seguintes, quando discutimos em detalhes a proposta da referenciação (capítulo 3) e propomos uma análise que integre os diversos fatores participantes da construção dos referentes (capítulo 4).

No momento, voltamos nossa atenção para continuar a reflexão acerca do alargamento das noções (e análises) sobre o texto. Na próxima seção, relacionamos a concepção atual de texto com a operacionalização metodológica das análises em Linguística Textual.

2.3 A operacionalização das análises em Linguística Textual: em favor da