8. Recalculations
8.1. Specific description of the recalculations
A relação entre espaço e media torna‐se, pois, central à compreensão das transformações no nosso ambiente vivencial. Na medida em que nele introduzimos novas coisas, estabelecemos novos laços comunitários, erigimos cidades e, pelas maneiras como modificamos nosso relacionamento com a biosfera da qual somos parte, construímos um espaço comum. Agora global, a este espaço comum é acrescido um entorno tecnológico que nos possibilita relacionar e interatuar/interagir a distância, identificado por Echeverría (2004) como terceiro entorno, bissensorial, no qual predominam as imagens, que se diferencia dos entornos natural e urbano que caracterizaram nossa existência.
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Nossa época estimula um estilo de vida que faz crescer as mediações que nos distanciam dos entornos naturais, fazendo com que uma parte importante de nossas experiências reais e imaginárias atravesse ou habite outros espaços, mesmo que de maneira passageira, como quando lemos um livro, falamos ao telefone, frequentamos o cinema, assistimos à televisão, navegamos na internet. Como assinala Cruz (2008, p. 126), “a presença das mediações, que cresceu com as formas de desenvolvimento de nossas sociedades e da nossa cultura, distanciou‐nos, pois da Terra e ofereceu‐nos o espaço.” Há incentivos à transferência da vivência imediata do território para um reconhecimento cada vez mais operado por imagens desse território. O mundo passa a ser conhecido por imagens, desde que o acesso facilitado a determinados equipamentos via satélite, como o sistema de posicionamento global – mais conhecido por GPS ou
global positioning system –, utilizado para determinar a posição de um aparelho
receptor na superfície da Terra e incorporado a smartphones e sistemas de navegação presentes em automóveis, e o Google Earth, com sua representação fidedigna da geografia terrestre, é visto como exemplo de uma sofisticação tecnológica em crescente diversificação de dispositivos para um planeta mapeado e documentado por imagens. O mundo nos é apresentado por aparatos tecnológicos, dispensando, para quem assim escolher, quaisquer experiências imediatas. Hoje, somos habitantes de um planeta que conhecemos por imagens, milimetricamente.
Ao expor‐se o mundo como imagem em revistas segmentadas, especializadas e ricamente ilustradas, canais de televisão, programas televisivos sobre cidades, animais e viagens, sites na internet, livros diversos, a indústria do turismo em massa articulada em torno de intensa publicidade, elabora e dissemina uma espetacularidade do planeta, alimentando e estimulando o consumo desenfreado dessas imagens. Conhecemos países e regiões inteiros do planeta como se os tivéssemos visitado, com uma riqueza de detalhes há pouco imaginável. Por meio de fotografias, televisão ou cinema, já percorremos muitas viagens de reconhecimento, a ponto de Flusser (2002, p. 27) afirmar que “quando não podemos ter experiência imediata, é a própria mídia que são as coisas para nós.” Assim, continua, “saber, é aprender a ler a mídia nesses casos.” (p. 27). Flusser (2005, p. 9) assinala que as “imagens são mediações entre homem e mundo”. Essa mediação aumenta exponencialmente, a ponto de se tornar um meio em si própria, uma realidade medial. Para o autor, o homem passa a viver em função das imagens, em vez de se servir das imagens em função do mundo. As formas tradicionais de representar não dão conta de traduzir o mundo, que se
torna mais e mais uma representação de um imaginário técnico e midiático. Há uma flagrante crise de referenciais do real, buscando‐se no imaginário esses novos referenciais. Diante disso, a capacidade imaginativa do homem de fazer e decifrar imagens impõe‐se de modo decisivo em sua maneira de interagir com o mundo. Livres do vínculo com o mundo físico, as imagens estabelecem relações diretamente com o repertório imagético do receptor, reforçando seu impacto cultural.
Enquanto McLuhan (1969, p. 21) diz que “o meio é a mensagem” e Kittler (1999, p. xxxix), que as “mídias determinam nossa situação”, percebemos que os espaços de imagens induzem comportamentos, criam ligações psicológicas, formam a mentalidade de quem os recebe, independentemente do conteúdo veiculado. O que une essas afirmações é a concepção de que vivemos em total integração com a paisagem mediática que alicerça o nosso entorno, quando os meios de comunicação adquirem poder para determinar o real e ganham a capacidade de afetar a nossa percepção do que seja o real, ao se constituir como extensões de nossos sentidos. Não há como escapar à estruturação do mundo pelos nossos meios de representação.
Há, assim, salienta Cruz (2008), “uma afinidade essencial entre media e espaço, entre o crescimento das mediações, o crescimento da experiência mediada e a problemática do espaço.” A mediação implica movimento entre corpos ou coisas, ou seja, aquilo que está, vem ou move‐se entre coisas, que de outra maneira estariam separadas ou em oposição. A mediação pode aproximar ou afastar esses corpos. Nisso reside seu poder, pois, quanto mais eficiente a mediação, maior sua capacidade para iludir nossos sentidos e, assim, teletransportar‐nos para a presença daquilo que é mediado e “experimentar o inteligível de modo tangível.” (QUÉAU, 2004, p. 96). Essa capacidade reside justamente em tornar o medium mais ou menos evidente para o espectador, relacionando suas propriedades técnicas com suas propriedades estéticas, aquilo que é exibido, sua visualidade. O que a mediação faz é indicar para o espectador em quais espaços está situado, ora os separando, ora os unindo. Quanto mais tecnológica torna‐se a mediação, tanto maiores são suas possibilidades de controlar a percepção do real. Hoje, o meio digital multiplica a capacidade da imagem de substituir a realidade por meio de uma visualidade realista capaz de engendrar o nosso mundo visível e tende a tornar‐se ele mesmo um lugar no espaço ou “espaço virtual”, que equivalem a campo de dados, “no qual cada ponto pode ser considerada a porta de entrada para um campo de dados”. Como analisa Quéau (2004, p. 94),
74 a imagem virtual transforma‐se num ‘lugar’ explorável, mas este lugar não é um puro ‘espaço’, uma condição a priori da experiência do mundo, como em Kant. Ele não é um simples substrato dentro do qual a experiência viria inscrever‐se. Constitui‐se no próprio objeto da experiência, no seu tecido mesmo e a define exatamente. Este lugar é, ele mesmo, uma ‘imagem’ e uma espécie de sintoma do modelo simbólico que encontra‐se na sua origem. É a própria experiência deste espaço que permite voltar à fonte da sua inteligibilidade, isto é, ao modelo. É a experiência interativa e progressiva do espaço que o constitui epigeneticamente como ‘espaço’. (QUÉAU, 2004, p. 94).
Diante disso, segundo Quéau (2004), dissolvem‐se as fronteiras entre o verdadeiro e o falso, e os parâmetros que antes permitiam distinguir os diversos níveis de representação e avaliar sua credibilidade ficam cada vez mais difíceis de controlar. A imagem, a partir de agora, não pode mais ser vista como natural, “distraidamente vista”, mas como um meio de escrita que deve ser lido com atenção, analisado e comparado ao seu contexto, pela mesma sobriedade que tradicionalmente aprendemos a fazer com a informação verbal. 1.4.4 Confundimos a imagem do medium com os dados da visão A consequência disso é a confusão entre o visual e a imagem. Para Belting (2011), próximo à ideia de Flusser, medimos o mundo com base na semelhança que ele tem com as imagens e não vice‐versa, quando as imagens tornam‐se matrizes do mundo. Segundo ele, essa confusão já começou com o cinema, que pela primeira vez simulou a nossa percepção do mundo e aboliu a diferença entre o ritmo visual dos nossos olhos e a imagem que atrai para si nosso olhar e a fixa na memória.
Pela perspectiva espacial, a imagem promove sempre um encontro de
meios, sustentando‐se nesse movimento a maior parcela dos esforços
metodológicos de se apreender o verdadeiro papel do espaço no processo de espacialização das imagens. Tanto mais o espaço é explorado, remexido e povoado, mais visual torna‐se nossa experiência. Tanto mais espaços de imagens são engendrados, incentivando o movimento das imagens e o encontro de meios antes isolados, mais imagético torna‐se o real.
Se a mediação situa o espaço para o espectador, distinguindo‐o daquele no qual sua presença está firmada, permitindo a passagem daquilo que se movimenta ao seu encontro, aventando‐se a possibilidade de uma mediação perfeita, que desapareceria no ato de comunicação, o que se revela de verdade
nesse pensamento é um “espaço entre” de natureza inerte. Serres (2007) explora esse tema ao examinar a mediação no âmbito de uma relação entre cada meio particular e o modo de mediação constituído. Como ele afirma em O
parasita, “a comunicação perfeita, exitosa, ótima já não inclui qualquer
mediação. E o canal desaparece na imediação.” (p. 79). Mas a comunicação necessita de pelo menos “duas estações e um canal”, que trocam mensagens, e um modo de movimentação entre eles. A mensagem tem que se mover por meio de um medium e cada medium possui propriedades distintas que afetam a mensagem de maneira precisa. Esse ambiente, ou milieu, quando entendido como “espaço de transformação”, deve ser um ruído que interfere naquilo que seria uma conexão clara entre emissor e receptor. O ruído é, portanto, a “presença do medium através do qual uma mensagem deve passar.” (CROCKER, 2007, p. 3).