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3. Energy

3.3. Energy production (fugitive emissions from fuels)

3.3.6. CO 2 capture and storage at Hammerfest LNG/the gas-condensate production

O método dialético preconiza um caminho diferente.

(GOLDMANN, 1979, p. 13)

Esta dissertação de mestrado foi realizada por meio de uma modalidade de pesquisa, ex-post-facto – realizada a partir de fatos passados de um trabalho, que tem como característica o desenvolvimento de metodologia de ação construída na própria ação –, que podemos considerar como pesquisa-ação.

Thiollent (1986) percebe um questionamento em relação à pesquisa-ação em alguns espaços acadêmicos, que a compreendem como uma atividade utilizada por profissionais que têm algum tipo de dificuldade relacionada à metodologia e que não querem seguir os seus critérios. Assim, o autor considera relevante discutir o conceito de metodologia, para que se possa entender melhor esse aspecto:

[...] a metodologia é entendida como disciplina que se relaciona com a epistemologia ou a filosofia da ciência. Seu objetivo consiste em analisar as características dos vários métodos disponíveis, avaliar suas capacidades, potencialidades, limitações ou distorções e criticar os pressupostos ou as implicações de sua utilização. Ao nível mais aplicado, a metodologia lida com a avaliação de técnicas da investigação. Além de ser uma disciplina que estuda os métodos, a metodologia é também considerada como modo de conduzir a pesquisa. Neste sentido, a metodologia pode ser vista como conhecimento geral e habilidade que são necessários ao pesquisador para se orientar no processo de avaliação, tomar decisões oportunas, selecionar conceitos, hipóteses, técnicas e dados adequados. (THIOLLENT, 1986, p. 25).

Na mesma publicação, Thiollent afirma que a pesquisa-ação pode ser compreendida como uma pesquisa social com objetivo prático, de acordo com os critérios da pesquisa e do envolvimento dos atores em análise. A pesquisa-ação é mais compreendida como estratégia de pesquisa do que como uma metodologia e, nesse caso, pode servir como uma “bússola” nas práticas do pesquisador.

Por essas questões, sendo a pesquisa-ação uma estratégia metodológica, considero que ela foi a mais adequada para o desenvolvimento dessa pesquisa.

A pesquisa-ação é necessariamente uma abordagem qualitativa, se compreendermos que esta “parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito” (CHIZZOTTI, 2010, p. 79).

Assim, tendo em vista uma análise crítica do objeto de pesquisa, reitero a utilização da abordagem qualitativa, baseada na análise dos materiais que documentaram as ações no período, durante a realização das oficinas com os adolescentes: poesias e letras de RAP, fotografias, filmagens, anotações (diário de campo), observações, percepções e artigo científico produzido.104

A escolha do Centro de Atendimento ao Adolescente (Cead) para o desenvolvimento da pesquisa relaciona-se ao fato de o trabalho ter sido ali desenvolvido, consecutivamente de 2007 a 2010 e, também, por ter me proporcionado uma sensibilidade para o trato da questão, possibilitando tanto o desenvolvimento continuado das oficinas – que contribuíram para o conhecimento da Instituição e dos adolescentes que estavam em cumprimento de medida –, quanto para a prática e desenvolvimento dos profissionais envolvidos nesse processo.

Entre as várias oficinas realizadas, foram selecionadas três, tendo por critério de escolha aquelas que mais tiveram elementos para subsidiar esta dissertação:

Tabela 21 – Descrição das principais oficinas de RAP e de poesia realizadas no Centro de Atendimento ao Adolescente (Cead)

DESCRIÇÃO OFICINA I OFICINA II OFICINA III

Principais Temáticas

Família, violência e história de vida

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Violência, educação, desemprego e amor Período Dezembro de 2007 a março de 2008

Junho e julho de 2008 Abril e maio de 2009

No de

Participantes 13 8 6

Apresentação Tarde Poética Comemoração dos 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

II Simpósio Mineiro de Assistentes Sociais

Fonte: Sistematização do autor.

A oficina I tratou de temas como família, violência e história de vida, que foram abordados em dez encontros (sessões). Resultou no sarau chamado de Tarde Poética, que aconteceu no dia de visita e contou, portanto, com a presença de familiares de adolescentes participantes e não participantes das oficinas, e convidados institucionais.

104 ARRUDA; PINTO. De volta pro Mundão: uma análise dos adolescentes egressos da medida

socioeducativa de internação. Anais do II Simpósio Mineiro de Assistentes Sociais. Belo Horizonte: Conselho Regional de Serviço Social (Cress, 6ª região), 2009.

Figura 14 – Cartaz do Sarau Tarde Poética. Crédito: Daniel Péricles Arruda.

A oficina II abordou os direitos e deveres rezados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e foi realizada em sete encontros (sessões). As produções foram apresentadas no evento Comemoração dos 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, organizado pelo Colégio Salesiano, em Belo Horizonte/MG.

Na oficina III discutiram-se temas como violência, educação, desemprego e amor e foi realizada em cinco encontros (sessões). Na ocasião, os adolescentes apresentaram suas poesias no II Simpósio Mineiro de Assistentes Sociais, em Belo Horizonte/MG.

Todos os encontros aconteciam dentro da unidade, no período de 50 minutos, cada. A participação dos adolescentes acontecia a partir do interesse e da articulação de horários, em razão de outras atividades realizadas. Havia oficinas em que os adolescentes participavam esporadicamente, no entanto, as três possibilitaram o trabalho continuado com todo o grupo.

Além da pesquisa ex-post-facto, tendo por objetivo conhecer resultantes atuais daquele trabalho, foram realizadas entrevistas com um adolescente; dois jovens adultos, que participaram das oficinas, quando eram adolescentes (ou seja, um adolescente de cada oficina mencionada na Tabela 21); dois profissionais que acompanharam essa prática de trabalho com os adolescentes; e um DJ, por ser uma das referências mais antigas da cultura Hip Hop, no estado de Minas Gerais. As entrevistas foram semiestruturadas, abertas e a realização teve apoio de um roteiro, que permitiu que os entrevistados discorressem sobre as temáticas, para além das perguntas realizadas.

As entrevistas com o adolescente e os dois jovens adultos objetivaram apreender os resultantes das oficinas, na perspectiva dos seus sujeitos; já as realizadas com os profissionais tiveram por objetivo a apreensão dos significados que estes atribuíram à sua realização; por fim, a entrevista com o DJ, deu-se em razão de ele poder subsidiar a apreensão histórica da influência do Hip Hop na cidade e em sua relação com os adolescentes.

O instrumental para a realização das entrevistas foi construído por meio de uma linguagem acessível à compreensão da pesquisa e das perguntas que foram feitas para os sujeitos. De acordo com Triviños (2009), nem tudo depende do investigador, mas há alguns pontos em que é possível ao pesquisador superar e/ou transformar, por exemplo: construir uma aproximação sucessiva com os atores da entrevista; não agendar em locais e horários inviáveis; evitar entrevistas longas; propiciar uma relação de confiabilidade e simpatia na entrevista; obter aprovação do entrevistado para escrever ou gravar o desenvolvimento da pesquisa; ter organização para lidar com gravação, transcrição, anotação e análise do conteúdo; atentar aos prováveis silêncios do entrevistado, diferenciando o “ponto morto” (isto é, insatisfação em responder ou falta de compreensão da pergunta) do “silêncio produtivo”, que se baseia numa reflexão e num tempo de elaboração da resposta.

Todas as entrevistas e todo o material documental que dizia respeito aos sujeitos, foram utilizados com prévio consentimento, obtido mediante assinatura de termo relacionado a essa questão, pelos sujeitos da pesquisa. Por considerar que o estudo envolveu seres humanos, fez jus às determinações da Resolução 196/1996, do Ministério da Saúde, tendo sido aprovado pelos comitês de ética da Diretoria de Gestão da Informação e Pesquisa (DIP), da Subsecretaria de Atendimento às Medidas Socioeducativas (Suase), e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

A pesquisa realizada teve por finalidade a construção de uma produção científica, o que significa:

[...] que seus procedimentos investigativos deve(m)[rão] explicitar um esforço no sentido de viabilizar uma produção de conhecimentos que permita ultrapassar as práticas espontâneas e as reflexões que se confinam em ações pontuais para, pela polêmica e pela crítica teórica, construir uma “metodologia dinâmica de ação”. (BAPTISTA, 2006, p.29)

Para tanto, este estudo apoiou-se nas categorias do método dialético: totalidade, contradição e mediação, que, de acordo com Netto (2009b, p. 28), Karl Marx descobriu por meio da articulação dessas três categorias “[...] a perspectiva metodológica que lhe propiciou o erguimento do seu edifício teórico”.

No texto de Marx, O Método da Economia Política, a questão do método apresenta uma profunda reflexão sobre as categorias, que foram apreendidas da realidade. A categoria da totalidade foi discutida como eixo fundamental, que expressa a articulação das demais categorias, considerando “[...] o cuidado de manter a indissociável conexão que existe em Marx entre elaboração teórica e formulação metodológica” (NETTO, 2009b, p. 26). Netto (2009b) afirma que não há como separar a base teórica do planejamento profissional, da

perspectiva sociopolítica. E, na base teórica marxiana, as categorias não são construídas pelo pensamento, elas emergem do processo de análise direta e concreta da realidade. Nesse sentido, a totalidade compreendida como categoria teórica e ontológica fundamental, não é construída de maneira intelectiva, mas é produto da observação da relação dinâmica, em que ocorrem os fatos sociais. Esse processo exige a compreensão dos circuitos e das conexões que interagem diretamente e/ou indiretamente nas relações sociais.

No estudo da sociedade burguesa – na qual são produzidas e reproduzidas várias transformações nas relações sociais –, há que se trabalhar na perspectiva de uma totalidade dinâmica, que emerge de uma sociabilidade, que

[...] é inerente a todas as atividades humanas, expressando-se no fato ontológico de que o homem só pode constituir-se como tal em relação com outros homens e em consequência dessa relação; ela significa reciprocidade social, reconhecimento mútuo de seres de uma mesma espécie que partilham uma mesma atividade e dependem uns dos outros para viver. (BARROCO, 2009, p. 21)

Por compreender a reciprocidade é que não se deve definir a totalidade como a soma das partes, pois, desse modo, haveria a anulação de especificidades e a não consideração das relações, das contradições, dos afetos, dos sentidos, das mediações e, também, das determinações sócio-históricas que incidem em sua construção.

Em relação a esse aspecto, Goldmann (1979), em seu estudo sobre as obras de Pascal e Racine, apresenta na introdução um texto, a que chamou de O Todo e as Partes, no qual analisa a relação entre verdade parcial e o conhecimento da verdade constante no todo,

[...] pois toda verdade parcial só assume sua verdadeira significação por seu lugar no conjunto, da mesma forma que o conjunto só pode ser conhecido pelo progresso no conhecimento das verdades parciais. A marcha do conhecimento aparece assim como uma perpétua oscilação entre as partes e o todo, que se devem esclarecer mutuamente (GOLDMANN, 1979, p. 5).

Esse esclarecimento mútuo, afirmado por Goldmann (1979), é fruto de uma análise que jamais estará acabada, seja em seu conjunto, seja em seus elementos. Por isso, o autor afirma que “o pensamento é uma operação viva, cujo progresso é real sem ser, entretanto, linear e, sobretudo, sem nunca estar acabado” (GOLDMANN, 1979, p. 7). Assim, a totalidade é apreendida pelo sujeito como um conjunto articulado de determinações, em que é possível fazer abstrações e retomá-las para a realidade como um guia. Esse conjunto pode ser compreendido como um “concreto pensado”.

Na carta de Karl Marx enviada para Anninkov105 vemos uma crítica acerca da totalidade tal como era vista por Proudhon. Nela, Marx faz uma crítica ao pensamento de Proudhon, por não ter considerado o percurso histórico do modo de produção. Em destaque, questiona a ausência de rigor crítico sobre a divisão do trabalho:

Para o sr. Proudhon, a divisão do trabalho é uma coisa bem simples. Mas não foi o regime de castas uma determinada divisão do trabalho? Não foi o regime das corporações outra divisão do trabalho? E a divisão do trabalho do regime das manufaturas, que começou em meados do século 17 e terminou em fins do século 18, na Inglaterra, também não difere totalmente da divisão do trabalho da grande indústria, da indústria moderna? O sr. Proudhon se encontra tão longe da verdade que omite o que nem sequer os economistas profanos deixam de levar em conta. (MARX, 2009, p. 247)

Percebe-se, então, que Marx faz indagações e questiona a simplicidade da divisão do trabalho, compreendida por Proudhon, o qual desconsidera a origem e o desenvolvimento histórico, bem como por não discutir a separação entre cidade e campo. Para Marx, o significado de totalidade abordado para a compreensão dos fatos, não deve se apoiar apenas na sequência cronológica, por mais que ela seja importante, mas deve assumir o sentido do movimento dos acontecimentos e, principalmente, não exatamente dos fatos imediatos que aconteceram, mas do que ocorreu para que tais fatos acontecessem. Ou seja, ir às raízes das questões (MARX, 1991).

Nesse pressuposto, fazendo uma aproximação da realidade e tendo a apreensão do objeto, é possível alcançar o concreto imediato para analisá-lo e desvendá-lo. O concreto não é uma produção do intelecto, mas uma apresentação do real que só é compreendido pela via da razão, que lhe dá sentido pela abstração, que, nas palavras de Netto (2009b, p. 20), “[...] é um procedimento intelectual sem o qual a análise é inviável – aliás, no domínio do estudo da sociedade, o próprio Marx insistiu com força em que a abstração é um recurso indispensável para o pesquisador”.

É por isso que na exposição de O Método da Economia Política, Marx discorre a respeito da abrangência, da profundidade e da clareza.

Quando estudamos um dado país do ponto de vista da Economia Política, começamos por sua população, sua divisão em classes, sua repartição entre cidades e campo, na orla marítima; os diferentes ramos da produção, a exportação e a importação, a produção e o consumo anuais, os preços das mercadorias, etc. Parece

105 Essa carta foi datada em Bruxelas/Inglaterra, no dia 28 de dezembro de 1846, e publicada pela

primeira vez por M.K. Lenke, em 1912. Nela, Karl Marx informa a Annenkov as suas impressões iniciais a respeito do livro de Proudhon – Filosofia da Miséria – e a questiona com a publicação de seu livro, Miséria da Filosofia.

que o correto é começar pelo real e pelo concreto, que são a pressuposição prévia e efetiva; assim, em Economia, por exemplo, começar-se-ia pela população, que é a base e o sujeito do ato social de produção como um todo. No entanto, graças a uma observação mais atenta, tomamos conhecimento de que isso é falso. A população é uma abstração se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem. Por seu lado, essas classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços, etc. O capital, por exemplo, sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem o preço, etc. não é nada. Assim, se começássemos pela população, teríamos uma representação caótica do todo e, através de uma determinação mais precisa, através de uma análise, chegaríamos a conceitos cada vez mais simples; do concreto idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos determinações as mais simples. (MARX, 1978, p. 116).

Do ponto de vista da economia política, é notório que as indagações podem levar à busca, à procura, isto é, ao processo investigativo que caminha para a produção também de conhecimento do concreto como uma totalidade, pois retomando a epígrafe inicial desta dissertação,

[...] o concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso o concreto aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação. (MARX, 1978, p. 116)

Nesse sentido, a totalidade é uma categoria que está em movimento, por isso, não há como defini-la simplesmente como “todo”. A vida social é uma totalidade formada por inúmeras totalidades. “Para Marx, a sociedade burguesa é uma totalidade concreta. Não é um ‘todo’ constituído por ‘partes’ funcionalmente integradas.” (NETTO, 2009b, p. 27). As categorias, tanto as do método quanto as empíricas, em Karl Marx, insisto, estão na realidade, são categorias reais e sócio-históricas. A realidade não é estática; não é absoluta; não é imutável. A realidade sempre se transforma.

A dificuldade, para Marx, está na apreensão das categorias que emergem da realidade social, as quais são constitutivas do método.

As especificidades são percebidas na realidade, compondo um concreto que se apresenta de várias formas para não ficarmos reféns das manifestações imediatas, “[...] seria partir-se da totalidade, totalidade que sendo tudo é ela mesma e a possibilidade de sua negação. Neste universo a crítica não é uma operação externa ao objeto, mas a explicitação necessária de seus constituintes” (PAULA, 2001, p. 19). Certamente:

[...] a totalidade concreta e articulada que é a sociedade burguesa é uma totalidade dinâmica – seu movimento resulta do caráter contraditório de todas as totalidades que compõem a totalidade inclusiva e macroscópica. Sem as contradições, as

totalidades seriam totalidades inertes, mortas – e o que a análise registra é precisamente a sua contínua transformação. (NETTO, 2009b, p. 27)

A totalidade concreta articula-se em dois movimentos importantes. A primeira articulação é a subordinação de uma totalidade às “totalidades mais complexas”. E, a segunda articulação é na qual esta totalidade subordina as “totalidades menos complexas”. Esses movimentos fazem parte da totalidade concreta, possibilitando uma “hierarquização dinâmica” a qual não é predeterminada, pois essa articulação se faz de modo diferente, conforme: o momento histórico vivenciado por uma sociedade; as condições materiais de produção e de reprodução; o plano ideológico vigente, etc. Esses processos são constituídos de campos de força contrárias, que atuam no propósito tanto de manter as estruturas de um determinado fato, quanto de modificá-la (BAPTISTA, 2012)106.

Nessa lógica, temos a categoria da contradição107:

Essas forças que operam em sentidos divergentes, contraditórios, não são introduzidas nos processos sociais, elas os constituem, são sua substância. Em toda realidade social, em toda instância do ser social, é essa colisão que produz a dinâmica, que efetiva o movimento da história. (BAPTISTA, 2012, p. 20)

As contradições, independentemente de seus níveis de complexidade, não se constituem sem os sistemas de mediações. Esses sistemas permitem a compreensão peculiar dos processos que se formam nas totalidades, por isso:

[...] sem os sistemas de mediações (internas e externas) que articulam tais totalidades, a totalidade concreta que é a sociedade burguesa seria uma totalidade indiferenciada – e a indiferenciação cancelaria o caráter do concreto, já determinado como ‘unidade do diverso’ (NETTO, 2009b, p. 28).

106 Material de aula apresentado no Núcleo de Estudos e Pesquisa Sobre a Criança e o Adolescente

(NCA) do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC/SP, intitulado A pesquisa

avaliativa de políticas, programas, projetos e/ou intervenções sociais (BAPTISTA, 2012). 107

Localizei dois trechos na música “O bagulho é doido”, do rapper carioca MV Bill, na qual ele apresenta as contradições constituídas na dinâmica de jovens no tráfico varejista de drogas. No primeiro trecho, diz: “[...] tipo peste, tá no sudeste, tá no nordeste, no centro-oeste/ Teu pai te dá

dinheiro, você vem e investe/

No futuro da nação, compra pó na minha mão/ Depois me xinga na televisão/ Na sequência vai pra passeata levantar cartaz/ Chorando e com as mãos sinalizando o símbolo da paz”. Nesses versos, MV Bill apresenta a movimentação do tráfico de drogas – “pó” (cocaína) – e os segmentos de classes diferentes que os constituem. Porém, um segmento alimenta o outro, por meio da compra da droga, logo, o mesmo segmento posiciona-se contra uma ação a qual ele também é “responsável”. No segundo trecho, Bill, diz: “[...] veja que ironia, que contradição/ O rico me odeia e financia minha munição/ Que faz faculdade, trabalha no escritório/ Me olha como se eu fosse um rato de laboratório/ Vem de sheroki, vem de kawazaki/ Deslumbrado com a favela, como se estivesse vendo um parque/ De diversões, se junta com os vilões/ De sente Ali ‘cuzão’ e os 40 ladrões”. Nesses versos, a relação contraditória também é presente. Ambos chamam a atenção para as mediações constituídas e que movem essas relações. Ver a letra completa no Anexo C.

As mediações não estão presentes de maneira dada em uma realidade. “No plano do pensamento, o desenvolvimento deste obedece a uma impulsão necessária que progride do singular ao universal, através do particular” (PONTES, 1989, p. 21). Aqui, a particularidade é referida não no sentido vernáculo, mas, como um dos momentos da perspectiva dialética. É um momento de leitura da realidade, é a forma como a singularidade é assumida.