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6. Agriculture

6.3. Emissions from manure management

Como  exposto  no  capítulo  anterior,  afirmamos  que  sem  espacialização  não  há  imagem.  Então,  se  propomos  a  relação  espaço‐imagem  como  foco  da  pesquisa, é porque entendemos, nessa conjuntura, não ser possível sustentar um  enfoque  que  compreenda  a  imagem  distante  do  meio  que  a  engendra  e  separada  do  ambiente  que  a  acolhe.  O  arcabouço  no  qual  se  sustenta  essa  análise  faz  parte  das  preocupações  contidas  no  estudo  das  imagens  enquanto  artefatos visuais pertencentes a um espaço social, estabelecendo relações com o  homem e os elementos que compõem esse espaço. Essa compreensão diverge  da abordagem que tipifica a imagem levando em consideração somente o estado  material/tecnológico  do  seu  suporte  específico,  seu  medium,  que  atuaria  isoladamente,  numa  condição  limitada  pela  sua  difusão  para  atingir  determinados grupos de espectadores.  

Apoiamos  nossa  análise,  portanto,  na  reivindicação  das  condições  espaciais  expandidas  da  imagem,  uma  que  inclua  as  condições  tecnológicas  e  materiais  vigentes  do  medium  da  imagem,  normalmente  apreendidas  em  sua  dimensão  formal,  nas  outras  dimensões  com  as  quais  interage,  dimensões  de  natureza  sociocultural.  Está  condicionada,  portanto,  ao  trio  meio‐medium‐ ambiente, que privilegia a natureza espacial da sua constituição, assim como as  diferentes mediações promovidas por essas espécies imagéticas de espaços, ao  incluirmos os indivíduos e seus modos de fazer, mostrar e ver.  

 

 Com essa divisão espacial, consegue‐se superar aquela completude que  impunha  obstáculos  ao  entendimento  e  atingir  a  complexidade  que  passa  a  definir  a  análise.  Cada  instância  espacial  identificada  possui  um  conjunto  de  características definidoras. 

O  meio  da  imagem  preocupa‐se  com  o  fazer  da  imagem  e  presume  o  início  do  processo  de  sua  espacialização.  Incluem‐se,  nessa  categoria,  todas  as  instituições sociais e modos técnicos responsáveis pela construção e viabilização  das  imagens  no  sistema  social  que  as  engloba.  É  a  instância  espacial  que  é  invisível  ao  espectador,  que  apenas  usufrui  de  seus  resultados,  possuindo  natureza  eminentemente  técnica  e  material.  O  meio,  sendo  mais  amplo  e  disperso, por isso de difícil acesso, é a expressão das forças sociais, políticas e  econômicas,  envolvendo  a  política  das  imagens,  o  desenvolvimento  e  implantação de suas bases tecnológicas e o gerenciamento de suas operações.  No exemplo anterior, o data center da empresa Google é identificado como um  dos elementos que compõem o meio digital, não acessível ao usuário comum. 

O medium da imagem é a instância intermediária, de caráter funcional,  incumbida da circulação da imagem. Caracteriza‐se pelo mostrar a imagem e é  responsável  pelas  estratégias  que  orientam  essa  atividade.  Por  ser  a  mais  evidente, pelo contato direto assumido com o espectador, é a instância com a  qual  a  imagem  normalmente  é  mais  identificada.  É  o  suporte  imediato  da  imagem, intermediada pela visualidade, que estabelece o vínculo, como relação  comunicativa funcional, com o espectador. 

Os  ambientes  da  imagem  são  aqueles  percebidos  pelo  espectador  quando  da  tomada  de  contato  com  o  seu  medium.  Os  ambientes  são  sempre  plurais,  dependentes  da  experiência  subjetiva  do  espectador.  Cada  um  destes,  em  sintonia  com  a  plasticidade  do  ambiente,  estabelece  relações  entre  os  elementos ali presentes para reconhecer, qualificar e interagir com o ambiente.  Por  isso,  os  ambientes  nunca  estão  prontos,  mas  sempre  em  preparação,  remodelação, renovação. Caracterizados pelo ver e subordinados à capacidade  perceptiva do espectador, os ambientes são os destinos finais das imagens. As  maneiras possíveis pelas quais os media atingem e são arranjados nos ambientes  estabelecem  o  grau  de  exposição  da  imagem,  que  assume  a  responsabilidade  pela  interação  com  os  observadores,  estabelecendo  o  ato  comunicativo  que  encerra o circuito operativo das imagens, quando as relações estabelecidas são  percebidas,  para  que  daí  compreenda‐se  a  ideia,  a  estratégia  em  torno  das  competências perceptivas, que é o próprio ambiente. A partir das experiências  perceptivas  então  ensejadas,  os  ambientes  produzem  efeitos  de  sentido  que 

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induzem  interpretações  acerca  da  realidade,  ajustando  e  corrigindo  nossa  imagem do mundo, ao se confrontar com o imaginário do espectador.  

O caráter híbrido e múltiplo com que temos caracterizado os ambientes  vivenciais elabora apelos tanto para os mecanismos sensórios responsáveis pela  percepção,  que  permitem  a  captação  polissensível  dos  estímulos  ambientais,  notadamente o estímulo visual, quanto para o vivido, em termos de experiência  social, ou seja, modos de vida revelados pelos usos e hábitos (FERRARA, 1999),  decorrente  do  modo  com  que  orienta  a  construção  de  artefatos  visuais  que  compõem  os  espaços  de  representação  e  da  maneira  como  esses  artefatos  visuais integram‐se às várias ocupações dos indivíduos, num jogo dialético entre  conhecimento e memória, mediado pela informação. 

Entre as problemáticas relacionáveis à proposição espaço‐imagem, a que  primeiramente  nos  prende  atenção  envolve  a  questão  da  multiplicação  de  imagens, que nos leva à atual situação de proliferação do visual pretendida por  muitos observadores da atualidade, que acabam por enxergar uma estetização  da  vida  social  como  consequência  desse  fenômeno.  Se  considerados  apenas  pelos  seus  aspectos  mais  imediatos,  as  conclusões  que  se  extraem  desses  estudos  são  reveladoras  do  aumento  da  presença  da  imagem  em  nossa  sociedade,  em  si  uma  condição  de  fundamental  importância  e  de  necessária  investigação,  desenvolvida  em  muitos  estudos.  No  entanto,  o  que  aqui  está  sendo sublinhado é a inversão dessa colocação: as imagens não são colocadas no  nosso  meio  social  para  alcançar  um  mero  efeito  estético  ou  ornamental,  mas  considera‐se  que  há  a  construção  deliberada  de  um  meio  social  que  busca  na 

imagem – e na visão – a inspiração para uma nova orientação existencial, função  antes exercida pela escrita. Por essa perspectiva, alteram‐se o próprio estatuto 

da imagem e o seu papel na cultura. As imagens são promovidas a uma condição  de  primazia,  como  precondição  para  as  noções  de  linguagem,  significado  e  presença. 

Para conferir essa conjuntura, faz‐se necessário compreender como se dá  essa disseminação, isto é, investigar as condições e os meios – seus espaços –  pelos  quais  isso  ocorre,  observar  as  condições  históricas  que  permitiram  a  instalação  de  uma  perspectiva  crítica  da  visualidade  no  interior  dos  meios  tradicionais da imagem (impresso, eletrônico) e, sobretudo, do meio digital e sua  relação com estes e, principalmente, entender quais são os mecanismos vigentes  de  geração  de  imagens,  como  também  a  presença  de  outros  processos  sociais  que  se  articulam  em  torno  desses  meios,  que  permitem  e  incentivam  a  ocorrência de uma cultura visual que caminha para se consolidar como campo 

de conhecimento emergente que busca compreender o papel da imagem na vida  da cultura. 

Nosso objetivo nesse ponto é, portanto, propor outros parâmetros para a  reflexão  crítica  da  experiência  visual  que  hoje  nos  é  oferecida  diante  da  multiplicação  medial  das  imagens,  vinculada  às  experiências  subjetivas  incorporadas  às  práticas  culturais.  À  frente  da  explicação  desse  fenômeno,  colocamos  a  análise  da  multiplicidade  dos  espaços  de  imagens,  que,  ao  se  intensificar  como  consequência  do  processo  de  digitalização,  se  torna  uma  ocorrência  típica  da  atualidade,  percebida  no  modo  como  a  imagem rompe  as  fronteiras  que  antes  a  prendiam  a  um  suporte  fixo,  observada  em  ambientes  únicos  e  reservados.  A  sensação  de  rompimento  de  fronteiras  é,  na  verdade,  uma percepção generalizada criada pela mobilidade dos media e dos encontros  que  acontecem  entre  eles.  Por  conta  desses  aspectos,  a  concepção  expandida  dos  espaços  de  imagens  pretende  abranger  a  vida  cotidiana.  A  relação  que  se  estabelece  entre  imagens  que  se  infiltram  no  dia  a  dia  das  pessoas,  afetam  e  influenciam o ritmo de suas vidas leva em consideração os espaços que, antes  tidos  como  reservados  em  suas  atividades  e  práticas,  agora  são  abertos,  integrados  e  participativos.  Isso  significa  que estes  não  existem  desconectados  uns dos outros, mas imersos num fluxo do cotidiano.  

O  desfile  ininterrupto  de  imagens  oferecido  pela  facilitação  informática  insta  os  sujeitos  a  produzir  a  si  mesmos,  enquanto  formalizam  apresentações  baseadas  na  aparência  e  no  julgamento  de  suas  individualidades.  Embora  servidas em pequenas porções, essas imagens constituem uma parte inseparável  daquilo  que  cada  um  pensa  de  si  e,  à  maneira  de  Goffman  (1986;  2007),  enquadram aquilo que cada um pretende que os outros pensem dele. A imagem  torna‐se um meio de compartilhar experiências e colecioná‐las constitui um dos  principais pivôs para a construção das várias identidades enquanto registros de  sua passagem no mundo. 

Belting  (2007)  sublinha  a  necessidade  de  inserir  o  estudo  da  imagem  a  partir  de  um  conceito  antropológico,  necessariamente  interdisciplinar,  como  uma relação viva entre indivíduos e imagem. A montagem e exibição da coleção  de imagens de cada um, à maneira de um álbum de fotografias à moda antiga,  como  fazem  o  Facebook,  Flickr,  Photoblog,  Pinterest  e  outros,  os  dispositivos  digitais portáteis e suas memórias sempre em dilatação e os porta‐retratos com  imagens  rotativas  são  pontos‐chave  para  a  determinação  da  alteridade  na  contemporaneidade e ilustram a maneira como queremos que nossa identidade  seja  percebida  pelos  outros:  fabulação  autobiográfica  criada  por  imagens.  São 

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heterotopias,  “cartões  de  identificação  de  grupos”  que  exprimem,  segundo  Vattimo  (1992,  p.  75),  “a  ‘verdade’  possível  da  experiência  estética  da  modernidade  avançada”,  percebida  nas  atitudes  do  “colecionismo”,  na  mobilidade das modas e também nos museus. 

A imagem corriqueira, ou profana, acessível e fácil de elaborar, é vista por  onde  quer  que  se  circule.  As  telas  eletrônicas  perderam  seus  altares  e  vulgarizam‐se  por  toda  parte,  suas  dimensões  variando  do  muito  pequeno  ao  exageradamente grande. As impressões, antes produções exclusivas do processo  fotográfico, agora digitalizadas, seguem nas proporções o mesmo padrão elástico  e  adquirem  novas  e  inusitadas  propriedades,  como  aderência  a  qualquer  superfície,  resistência  a  intempéries,  fosforescência,  entre  outras.  Sejam  impressas  ou  projetadas,  as  imagens  são  corpos  destinados  a  não  mais  referenciar o ausente, mas a indiciar o presente. Acentua‐se o distanciamento da  consagrada noção das imagens como cópias do mundo e percebem‐se tentativas  da imagem de participar de um discurso sobre o mundo, não mais preocupada  em  representar  o  mundo  visível,  mas  em  tornar  o  mundo  visível,  ao  gosto  do  homem contemporâneo.