5. Solvent and other product use
5.2. Solvent losses (NMVOC)
Na Apresentação já mencionamos que ocorrem desconexões nas práticas de saúde quando a população atendida vive em condição de pobreza, o que gera dificuldades para a população melhorar a saúde ou mesmo ter acesso aos serviços. Através dos microeventos, das entrevistas, do grupo focal, das visitas com o PSF e da participação na renuião de Saúde da Mulher exploramos melhor as desconexões nas práticas de saúde vividas diariamente.
Lembramos que as desconexões nas práticas de saúde a qual nos referimos perpassam a organização dos serviços, a política de saúde, a gestão da saúde no município, a formação/educação dos profissionais e o discurso científico – ao consideramos como práticas discursivas, no caso, o discurso das revistas de Saúde Pública e Saúde Coletiva. Assim, buscamos explorar tais desconexões em outros espaços da saúde.
1) O profissional da saúde e a dieta inviável para o paciente
Microevento. Data: 12/05/2005. Hoje durante o trabalho estive conversando com uma nutricionista, conversamos sobre assuntos corriqueiros até chegarmos à pergunta “como está o mestrado”, comentei com ela sobre o tema da pesquisa, sobre pobreza e saúde. Ironicamente, questionou: “nada haver com nosso trabalho aqui em Eldorado, não é mesmo?” Relatou a dificuldade em trabalhar aqui, principalmente no caso das dietas, por exemplo, para os pacientes diabéticos. Muitas dessas pessoas mal têm o que comer em casa e têm dificuldades em seguir a dieta. Relatou também que acontece de pessoas chegarem na Santa Casa e pedirem alimentos porque não tem nada em casa. Perguntei o que ela faz nesses casos, disse que encaminha para o S.O.S (Serviço de Obras Sociais) e para a assistente social da prefeitura.
Microevento. Data: 25/08/2005. Hoje durante o trabalho encontrei a enfermeira do PSF no pátio da Santa Casa, conversamos sobre uma situação semelhante aquela que relatou a nutricionista uma vez. Em conversa com a enfermeira do PSF, pedi que visitasse uma senhora que residia na região atendida pela sua equipe. Comentei com a enfermeira que eu sabia que tal senhora tinha feito uma colostomia e perguntei se já foram visitá-la. Prontamente ela respondeu que iria fazer a visita no dia do atendimento naquele bairro, que passaria as orientações nesse caso, inclusive de alimentação, mas questiona se eu sei o quanto é difícil para eles cumprirem as orientações. Relatou que muitos deles cumprem, mas muitos têm dificuldades, por exemplo, no caso da colostomia, indicaria refeições mais leves com verduras e legumes.
E mesmo morando na zona rural, no sítio, onde poderiam cultivar esses alimentos, não significa que é fácil para o paciente comer esses alimentos. Aliás, uma coisa que ouço muito – entre profissionais da saúde, numa reunião de segurança alimentar – é o fato das pessoas que vivem em sítios não terem o hábito de fazer uma horta.
2) A alimentação insuficiente relaciona-se com a procura e permanência dos pacientes nos serviços de saúde
Microevento. Data: 05/10/2006. Com a técnica de nutrição, sobre médica da Santa Casa que não queria que servisse comida na no setor de observação. A técnica explica que pode acontecer das pessoas estarem na observação justamente por não terem comida suficiente e adequada em casa.
Trecho 6, entrevista com médico plantonista da Santa Casa
R. Você pega a pessoa carente, às vezes uma pneumonia você precisa internar. (silencio) Porque em casa às vezes corre até risco de vida, tá. Você lida com o fato da desnutrição, que é sério aqui na nossa região. Desnutridas, tem uma gripe e gera uma pneumonia. Criança de baixo peso, desnutridas. A qualidade do alimento, né, a qualidade e a quantidade, também, né.
3) Os profissionais da saúde e a dificuldade para o paciente nos cuidados em casa
Microevento. Data: 11/04/2005. Hoje após o almoço na minha casa com uma amiga, médica da UBS, chegamos até uma discussão sobre sarna, sobre tratamento para sarna - para os médicos escabiose. Formada ano passado (2004), contou o quanto já estava familiarizada com pacientes com sarna, que só de olhar da porta do consultório na UBS já sabia que era escabiose. Conversamos sobre o tratamento, ela me contou que tem o medicamento gratuitamente na UBS. Porém há procedimentos que o paciente deve seguir, como trocar a roupa todos os dias, inclusive roupa de cama. Também deve ferver as roupas ou deixar dentro de um saco plástico por duas semanas. Procedimentos essenciais para ficar livre da escabiose. Para a médica, certamente os pacientes não tem condições de cumprir tais procedimentos, pois mal tem o que vestir, muitos chegam à UBS com roupas não muito limpas. Relatou que atender criança pequena com escabiose é mais triste ainda, as mães chegam e desenrolam os bebês na maca, com a pele toda vermelha.
Trecho 5, grupo focal
disso também.
G – Acho muito que é da parte cultura. C – Tudo isso.
E - Uma casa que não tem piso frio, gente, não tem como você andar, manter os pés das crianças limpos.
G - Um fator cultural interessante, na minha região, tinha uma família, pegar, tem uma área lá que é bastante pobre, realmente, casa de madeira, barro, né, mas numa dessas casas tinha uma senhora. Uma casa (?), da mesma forma que as outras, mas com um quintal limpo, uma casa muito bem limpa, uma casa, quer dizer, ali não precisa de dinheiro. A limpeza que ela praticava na casa dela, não é dinheiro, não tinha custo, não sei se é cultural, o que é (?). Isso é um fator, é um fato que tô citando, que às vezes é interessante falar, né? Às vezes relaciona, né? Ah não né, tem que ser desse jeito, a pobreza obriga que seja assim. Não necessariamente, você pode ter uma higiene, né, pode ter uma limpeza, independente de estar faltando (?).
4) Chegar ao serviço de saúde quando se vive distante, há pouco transporte público e falta dinheiro para pagar a passagem
Microevento. Data: 13/01/2006. No pátio da Santa Casa conversando com uma senhora com seus setenta anos, do Quilombo São Pedro, sobre o ano novo e passagem de ano. Relatou o problema do transporte nessa época do ano, ou seja, janeiro, época de férias escolares. Para sair da comunidade São Pedro é necessário pegar o ônibus escolar até a balsa – para daí atravessar e pegar o ônibus de linha normal de R$3,00, ida e volta até Eldorado, R$6,00 por pessoa - ou andar a pé 7 km até a balsa; “pra gente fica caro”. Durante o período de aulas é possível utilizar o ônibus escolar, alguns motoristas permitem que além dos alunos, outras pessoas peguem ônibus. Em tempo de férias somente a pé para chegar até a cidade. Geralmente eles saem de casa quando ainda está escuro e retornam duas horas da tarde. Muitas vezes pensamos que essas pessoas, até mesmo as crianças que estudam e tem que acordar tão cedo, se acostumam com esse tipo de situação. Com essa senhora pude perceber que não é bem assim, pelo tom da conversa ela jamais se acostumará com isso.
Microevento. Data: 17/11/2005. No estreito corredor da UBS encontro um grupo de mulheres esperando atendimento e uma delas reclamando da demora. Desse jeito poderia perder o ônibus para a casa, não recordo o nome do bairro aonde vive. Não poderia perder o ônibus porque depois do meio-dia não teria mais ônibus para casa, na verdade teria, mas somente onze horas da noite (e ainda era de manhã). Todos que estão em volta ouvem e concordam com o comentário. Para as pessoas que residem fora da área de cobertura dos PSF´s, mas na zona rural o atendimento na UBS é de manhã. A tarde são atendidas as pessoas que residem na zona urbana. Por esta conversa entendi que as pessoas da zona rural vem para a cidade nos ônibus que saem às sete ou oito horas da manhã, retornando às onze ou meio-dia. Esses são os ônibus de linha, o preço mais alto de ida e volta é R$7,00, referindo-me aos lugares mais afastados. Nem todo mundo pode pagar reclama a mulher. Quando utilizam o ônibus escolar podem sair de casa até antes das cinco da manhã, dependendo do local, mas a
vantagem é que não pagam passagem (quando o motorista do ônibus é “bonzinho” e aceita trazer quem não é estudante). Dificilmente essas pessoas têm dinheiro para lanche na cidade.
Muitas vezes R$7,00 é o que uma família tem para passar aquele dia, equivale a menos de 2 USD por dia por pessoa. Um dado que merece atenção dos profissionais de saúde, por exemplo, o Banco Mundial considera que pessoas que vivem com menos de 2 USD por dia estão em condição de pobreza.
Trecho 7, entrevista com a médica pediatra da UBS
S. – E as dificuldades aqui em Eldorado, para estar atuando na saúde.
I. - O povo aqui, eles até que são bem receptivos com as coisas que você explica para eles, entendeu. Eu consegui que algumas mães viessem, trouxessem as crianças para fazer um cadastro, pra gente investigar essa coisa da anemia. Alguns desnutridos, desnutridos assim, baixo peso, né, que estão fazendo um controle. Mas elas não tem, assim, muita crença de que aquilo ali pode comprometer aquela criança pro resto da vida não, sabe. Então ela vem, daí eu faço toda aquela avaliação, gasto um português danado, falo. Falo, assim, daqui a quinze dias você volta, pra gente ver quanto ele ganhou, que existe uma avaliação, você pode calcular basicamente quanto gramas aquela criança ganhou por dia, por semana, por mês e tal. Aí ela não volta, sabe, pelas próprias dificuldades deles que moram lá longe, que não tem condução, choveu, o rio encheu, a balsa não sai, então é complicado. Tudo isso é complicado. O bom seria se tivesse gente para atuar lá na comunidade, que ficasse lá, que pudesse ir lá todo dia, entendeu, mas por enquanto ainda não tem esse nível de PSF, com vários núcleos desses, para poder atender esse pessoal assim. O que o cara faz é se desdobrar e ir uma vez por semana em cada bairro para poder atender, isso não resolve, isso não resolve. Você vê, eu que sou (?), aqui no centro da cidade, a tarde que é o pessoal da cidade que vem, eu encontro, vamos dizer assim, uma desistência, um abandono de tratamento pequeno. Eu falo pra voltar e escrevo lá, porque você não lembra de todo mundo que você manda voltar, são quarenta que você atende por dia, então não dá pra você lembrar de todo mundo, então eu escrevo na caderneta, voltar dia tal. O pessoal da tarde normalmente volta.
S. – Mora aqui, tá mais perto.
I. – Exatamente. De vez em quando mora no sítio, mas é uma coisa mais perto, e consegue uma carona ou vem de bicicleta. Então, dá para eles voltarem, então, dá pra você fazer tudo. Mas o pessoal que mora lá longe, lá naqueles, sei lá, nem sei o que é mais longe por aqui.
S. – Ivaporunduva.
I. É, sei lá. Então, eles não vão vir, né, você pede pra voltar e tal. (?) Você nem pode dizer que a mãe é negligente, é que não tem condições mesmo. Daqui a pouco vai chegar fim de ano, acaba o ônibus da escola, aí acabou o jeito delas chegarem até aqui.
S. – São férias das crianças.
virem. Aí é isso, nem pra o programa do leite mesmo às vezes elas conseguem vir, né. Mas é aquele negócio, essas que tem a tal da bolsa escola, que não vem e fica na preocupação de levar o tal do atestado, que é pra não levar falta na escola (?) Eu acho essa tal de bolsa escola simplesmente um absurdo, porque manter filho na escola é obrigação de todo mundo. Você não pode ser premiado porque está fazendo sua obrigação, isso aí, a mãe tem que ter na cabeça dela, que já que ela pariu uma criança ela tem que dar a ele, pelo menos um meio para poder escrever, ler e se comunicar com as outras pessoas. Ela não tem que ganhar dinheirinho porque levou para fazer a obrigação dela, entendeu. Isso é uma coisa que me deixa irada. Essa história de premiar o sujeito porque ele tem que fazer a obrigação dele. Isso não resolve nada, é tapar o sol com a peneira. Eles que tem uma cabeça estreitinha, eles acham uma maravilha. E é baseado nisso que os safados desses políticos sobrevivem, porque ficam enrolando essa gente.
O programa do leite o qual a médica se refere é o Vivaleite. O programa é da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento, governo estadual. E em parceria com a prefeitura municipal, distribui 15 litros mensais de leite in natura enriquecido com vitaminas A, D e ferro para a alimentação de crianças de 6 meses a 6 anos de idade, pertencentes a famílias com renda mensal de até dois salários mínimos e idosos portadores de doenças crônicas. Os pais ou responsáveis pela criança têm obrigação de comparecer mensalmente a UBS para a pesagem e apresentar a carteira de vacinação da criança em dia. A prioridade do programa são as crianças de baixo peso. Atualmente há lista de espera de pessoas para serem cadastradas no programa.
Trecho 2, grupo focal
G - (?) Achei interessante no caso (?), ter acesso e fazer o tratamento. Outro ponto. Para muitos, fica muito complicado, você não consegue, por exemplo, dar um afastamento para essa pessoa, com um suporte financeiro, né, do INSS. Ele não tem como parar ou interromper aquele trabalho pesado, que até certo ponto é a causa do problema dele, né, para sair e fazer um tratamento. Então às vezes ele tá lá, trabalha com banana, por exemplo, que é a região aqui, é um serviço pesado (?). Aí, machucou, às vezes ele teria que parar, fazer o uso da medicação, fazer o tratamento fisioterápico, mas como ele vai ficar afastado? Ainda quando a gente consegue afastar ele e ele recebe o benefício, ele tem como estar fazendo o tratamento (-). Mas supomos que ele não vai mais conseguir trabalhar? Aí é outro problema enorme que ele ganhou na vida, ele não tem mais condições físicas de trabalhar (-), precisa do trabalho para ganhar dinheiro, quer dizer, aí ele vai para onde? Busca uma aposentadoria, busca alguma coisa. Então ele é uma pessoa, às vezes de uma idade muito nova, né, uma pessoa jovem, que já está sem condições de desenvolver trabalho, isso é uma coisa que eu acho interessante. Uma vez conversei com um médico perito, que ele falou, que os médicos tem muita resistência em dar atestado, mas se a pessoa precisa para recuperação, ele tem que dar atestado. (?) afastado algumas semanas, alguns dias, né, mas ele recupera a volta para o trabalho. (?) condições, senão, a pessoa machucou, você obriga ele a
trabalhar, daqui a pouco entra com uma le[ E - [lesão pior.
G - entra com uma lesão pior (?) acaba tendo que afastar, acaba não tendo condições (?)=
C - = E aqui é até assim, você fica até sem jeito de falar porque pergunta, pôxa fulano, você tá sumido do tratamento. Ah “dotora”, tava sem dinheiro para vir fazer fisioterapia. Aí você pergunta, você tá melhor. Não, não tô legal. Porque o paciente vem uma vez, uma vez a cada quinze dias, então isso aí não adianta nada, daí eu falo, você tem que fazer o tratamento e tem que fazer repouso. Ah “dotora” como é que eu vou fazer repouso, não tenho quem faça as coisas pra mim, não tenho dinheiro pra pagar alguém pra fazer as coisas dentro de casa, eu mesmo faço. Então, como é que uma pessoa desse jeito (?)
Reunião de saúde da mulher
A DIR XVII – Direção Regional de Saúde – promoveu no centro de treinamento em Registro, várias reuniões com equipes de saúde dos municípios sobre a saúde da mulher; pude participar de apenas duas reuniões. De Eldorado, a equipe que participou da reunião foi a psicóloga da Santa Casa, o enfermeiro e a médica de uma equipe de PSF. Em pauta esteve a idéia dos municípios absorverem parte do programa de Planejamento Familiar, centralizado no HRVR.
Durante a reunião, logo foi possível perceber o quanto o Planejamento Familiar corria o risco de resumir-se ao método cirúrgico. Um ponto importante de discussão. Então, tínhamos duas concepções de Planejamento Familiar: como “direito cirúrgico” de toda a pessoa e como direito de toda pessoa escolher em que momento da vida quer ter filhos, incluindo, portanto, a informação e escolha de algum método anticoncepcional. Os profissionais da primeira concepção compartilhavam a indignação da falta de acesso de muitas pessoas aos métodos cirúrgicos, inclusive as que estavam muito decididas quanto a isso. A falta de acesso se dá porque não é fácil as pessoas, principalmente da zona rural, se locomoverem até Pariquera-Açu no HRVR, sem ter com quem deixar os filhos e sem o marido (que trabalha), para participarem de todas as etapas até finalmente conseguirem a cirurgia. E nos alertavam que as pessoas mais necessitadas de laqueadura e vasectomia – que estariam cobrando acesso a esses métodos aos profissionais – também são as mais pobres, as que “não tem condições de cuidar de um filho, imagina de cinco, seis”, “são as que tem um filho atrás do outro”. E que a pobreza aumenta com maior quantidade de filhos. Por esse motivo cobravam objetivamente a autonomia dos outros municípios em assumir as etapas preliminares a cirurgia, que continuaria no HRVR. Essas etapas são: reunião em grupo para palestra informativa, assinatura do termo de consentimento e entrevistas individuas com assistente social, psicólogo, enfermeiro e médico. Etapas que aconteceriam no próprio município, diminuindo o deslocamento das pessoas até Pariquera-Açu.
Por outro lado, durante a reunião houve várias tentativas para ampliar a discussão de Planejamento Familiar, envolvendo a idéia original do direito que “toda pessoa tem à informação, à assistência especializada e ao acesso aos recursos que permitam optar livre e conscientemente por ter ou não ter filhos. O número, o espaçamento entre eles e a escolha do método anticoncepcional mais adequado são opções que toda mulher deve ter o direito de escolher de forma livre e por meio da informação, sem discriminação, coerção ou violência.”(www.saude.gov.br) Compartilhavam a idéia de que não é a
laqueadura ou vasectomia que resolverá a pobreza daquela família, pode ajudar, mas não é uma certeza. Assim armava-se um grande conflito.
5) Quem não pode pagar o ônibus dificilmente pode comprar medicamentos
Trecho 1, entrevista com usuária do serviço de saúde
S - E às vezes você tem alguma dificuldade? Por exemplo, eles falam alguma coisa, e você não tem condição de estar cumprindo, seguindo a orientação, os medicamentos? E. - É, só em medicamento, às vezes, né, eu me atrapalho, e estar saindo, correndo com viagem, dos meus filhos, assim, às vezes me complico, mas do contrário tudo bem. S. - É? Tá, bom. Você pode dizer também dos seus conhecidos, você acha que os serviços de saúde são adequados pra eles, se alguém já teve alguma dificuldade?
E. - Não, dá saúde até agora, tá dando tudo certo comigo. A única coisa é outro departamento que não me tratam bem, né, que não inclui a saúde.
S. - Vamos lá, pode falar. E. - Posso falar?
S. – Pode.
E. - Que não inclui a saúde, e que não me tratam bem é no S.O.S. Que a gente sempre quando precisa, principalmente eu que preciso de transporte para ir para algum lugar, não tenho condições de estar pagando transporte, sempre que eu preciso, eles sempre têm uma desculpa para me dar. Na parte que eu queria que mudasse é na S.O.S.
Quando E. diz “correndo com viagem, dos meus filhos” significa o uso dos serviços de referência, como em Santos (Hospital Guilherme Álvaro) ou São Paulo (Hospital de clínicas). No caso, ela tem que acompanhar o filho adolescente numa cirurgia em Santos. Já relatamos que praticamente todas as pessoas usuárias do SUS dependem do transporte gratuito que o departamento de saúde disponibiliza. E. tem que se organizar com parentes e vizinhos para deixar outros filhos sob cuidados, porque o transporte que leva os pacientes para Santos e São Paulo sai às 2h30min da madrugada, sendo que os atendimentos começam geralmente às 7h ou 8 horas nesses lugares.
Trecho 4, entrevista com usuária do serviço de saúde
O trecho inicia com risos porque E. faz um elogio para mim, o que me deixou um pouco sem jeito. Esta situação revela nossa dose de intimidade, porque como psicóloga da saúde já atendi E. em diversas situações, principalmente em relação aos filhos. Não exatamente neste trecho, mas em outro momento da entrevista E. fala comigo