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Adolescente (Cead) com o RAP e a poesia

Porque a gente estar lá dentro é fácil, é só ficar dois três anos parado, deitado e dormindo, mas através daquilo [das oficinas] eu tive uma reflexão e pude mudar de vida e ter a

vida que eu tenho hoje, graças a Deus. (SATURNO – sujeito da pesquisa)

As oficinas de RAP e de poesia, realizadas de 2007 a 2010, possibilitaram a formação de um espaço para a construção de valores com os adolescentes e, também, de um lugar de aprendizado. Naquele contexto, percebi que as oficinas proporcionavam reflexões sobre as temáticas – as quais eram trazidas por eles, por mim e por profissionais da instituição –, para além das questões trazidas. Por isso, o trabalho de campo, após dois anos da realização das oficinas, propiciou um estudo mais aprofundado, a partir da análise dos próprios sujeitos.

O RAP e a poesia tiveram apreensões diferenciadas, mas não distintas, para cada sujeito da pesquisa, que participou das oficinas.

O primeiro jovem adulto, ao qual chamarei de Júpiter108, hoje com 20 anos de idade – tinha 16 anos, quando participou das oficinas –, já cantava RAP em sua comunidade de origem antes de iniciar o cumprimento de medida socioeducativa de internação. Disse que tem o dom para cantar RAP, que, para ele, é uma forma de aprender e ensinar. Afirmou que sentiu “responsa”109 quando apresentou a sua arte em atividades e para outras pessoas, e que

as oficinas de RAP e de poesia foram um lugar que possibilitou mudanças em sua vida:

Eu não era um menino fácil igual eu sou hoje, entendeu?! Ninguém me encontrava aqui numa hora dessa [aproximadamente 9h da manhã]. Mudou, porque assim..., porque você vai ficando mais velho e vai vendo as coisas diferente. Você vai vendo que viver é bom demais, entendeu?! Você vai ver que o que a mãe falava naquele momento era certo. E o que vinha na sua cabeça é que não era. Você vai aprendendo, entendeu?! E passando pro outro, daí vai... (JÚPITER)

108 Lembrando que os três sujeitos da pesquisa que participaram das oficinas

– Júpiter, de 20 anos; Saturno, de 20 anos; e Marte, de 16 anos – serão mencionados por nomes de planetas, bem como os dois profissionais entrevistados que serão mencionados como Lua e Sol, conforme explicado na introdução deste trabalho.

109

É a sua letra de RAP, intitulada “Uma história”110 – a qual apresento novamente para

que o leitor a compreenda, com os seus depoimentos –, que abre a introdução desta dissertação:

Você tá ligado que o mundo é isso aí Vamos curtir o RAP, vamos ouvir A vida é embaçada, se eu fosse um vento O vento é uma vida que te leva ao pensamento

Fico olhando que eu tô ficando louco Tipo assim, como se fosse um poço

Os meus pais não vêm aqui me ver Fico bolado e começo a sofrer Penso em matar, penso em morrer

Penso em salvar, penso em viver Na vida do crime eu entrei muito cedo Achava que era o tal só pra mim ter conceito

Traficava, fumava um, que prejuízo Na minha infância perdi vários amigos

Mas é Deus o meu grande amigo Porque sempre está comigo

Refrão:

Quero que a minha história tenha um final feliz Final feliz, final feliz

Um final feliz é um novo começo Levar a minha vida e corrigir os meus erros

A vida que eu levo não é fácil, não Uma rapa de treta tenho no coração Morar em um abrigo amanhã, quem sabe?!

Ficar longe da bandidagem Arrumar um trampo e voltar a estudar

É melhor do que cheirar e roubar Pois sei que no presídio não vai ser bom Quero correr atrás e investir no meu dom

Cantar e dizer o que eu vivo Dizer o que eu penso e o que eu sinto

No mundão, família e diversão Na escola e numa profissão Sangue bom, fico por aqui, um abraço Tenha fé em Deus e valorize o seu espaço

Refrão:

Quero que a minha história tenha um final feliz Final feliz, final feliz

Esse jovem, enquanto em cumprimento de medida, fazia acompanhamento psicológico e psiquiátrico para tratar questões de transtorno mental. Porém, isso não o impedia de participar das oficinas, pelo contrário, nos encontros, ele apresentava espontaneidade,

memorização e alta capacidade elaborativa e metafórica, como é visto nos seguintes versos: “A vida é embaçada, se eu fosse um vento/ O vento é uma vida que te leva ao pensamento/ Fico olhando que eu tô ficando louco/ Tipo assim, como se fosse um poço/”.

Em certo momento da pesquisa mostrei para o jovem a letra de RAP acima, que ele havia feito há cerca de quatro anos na oficina. Ele foi o único que tinha a produção decorada. A letra apresenta uma série de categorias que se referem à vida do adolescente: “Vamos curtir o RAP, vamos ouvir/111” é tido como um chamado introdutório para que se atente à sua condição de vida e para o que ele tem a dizer sobre ela. Não somente apresenta respostas sobre a sua vida, mas apresenta um terreno, que permite a construção de um diálogo a partir das vivências do próprio jovem, que afirmou:

Meu RAP tem umas coisas bacana e algum ensinamento, e... assim... e daí vai... é... RAP é uma coisa legal, é uma coisa bonita, uma coisa assim que eu posso te falar, uma coisa... vai ensinando, aí você vai cantando ali... entendeu?! RAP nós vivemos de RAP, nós vivemos de música. E assim vai... (JÚPITER)

O adolescente aponta uma questão importante acerca da invisibilidade. Para ele, as pessoas de sua comunidade nem sempre conseguem vê-lo como uma pessoa “humilde”. Isso, anterior e posteriormente ao cumprimento da medida socioeducativa de internação: “A humildade. Eles não veem, mas assim, é uma coisa que você vê em você e eles não veem, entendeu?! É uma coisa assim que você vive ela. Entendeu?! Só que eles não estão vendo. Só você sabe que é... Só você sabe...” (JÚPITER).

Para ele, ser humilde:

É você ser compreensivo. É ser compreensivo com a pessoa e assim: que lei é lei e limite é limite. É você viver o seu limite. É viver a humildade. Ter seu respeito [...]. Às vezes, é você saber brincar... Ter o seu limite ali... Igual você ir dançar... Você chegar lá e dançar e tal. Você curtir sua vida e não ser zuado, entendeu?! Você entrar lá e bater no peito que é o tal e tal?! Você vai ser zuado. Não vai ter ninguém que vai gostar. Mas com humildade você chega ali tranquilo, do seu jeito, conversa... (JÚPITER).

Para o segundo jovem adulto, ao qual chamarei de Saturno, hoje com 20 anos de idade, e com 16, na época em que participou das oficinas:

O RAP pra mim significa... às vezes, [alguém] canta um RAP ali... só de você ouvir o toque é bonito, mas pra mim não é só o toque o RAP que eu escuto. Eu medito na letra, no que ele [o MC] está querendo passar para mim, entendeu?! A música está rolando e eu medito... Por que o RAP é uma história, praticamente, não é?! Então, para mim é isso: meditação! (SATURNO)

111Esse verso faz lembrar a música “Realidade”, do grupo de RAP Jigaboo, cujo refrão diz: “Chega

Para ele, o RAP se apresentou como forma de contar histórias às quais, ao ouvir, meditou na letra. Possibilitou a meditação, a sua análise interior e, mesmo considerando o toque bonito – a base ou o instrumental –, a letra do RAP é o que o tocou mais, por ele querer buscar a mensagem que o MC transmite. Tal meditação ajudou-o a vencer a vergonha (no sentido da timidez) que sentia nos momentos que apresentava a sua arte para os outros.

Ao ser indagado sobre as mudanças concretas em sua vida, Saturno afirmou:

Mudei praticamente o jeito de viver. Porque o RAP fala muito de vida, de maldade, de paz, fala muito desses motivos. Então, através do RAP eu pude refletir alguns momentos que a gente passa que, às vezes, você escuta um RAP, que fala uma história que no futuro você vai passar por histórias [semelhantes a] que ele [o

rapper] passou. Então, você ouvindo aquela música você já sabe mais ou menos se desviar daquele problema.

Para esse jovem adulto, o RAP é a tradução da realidade da vida cotidiana, sendo transmitida por meio de histórias a partir dessa realidade. Por compreender que o RAP “fala muito de vida, de maldade, de paz”, ele entende que o RAP, então, anteciparia as prováveis situações da vida cotidiana – situações que assumiriam diferentes faces, de acordo com a particularidade de cada situação vivenciada – assim, ele procurou outros caminhos para desviar-se de algum possível problema parecido no futuro.

A questão da invisibilidade é o ponto de maior significação em sua convivência comunitária anterior e posteriormente ao cumprimento da medida socioeducativa de internação, a qual foi percebida em sua relação com a comunidade de origem:

Eu tenho esse pensamento na minha mente também. Às vezes, eu passo um... Aqui no [nome do bairro] na hora que você chegar e perguntar “quem é o [apelido dele]”, aí eles já falam, “lá em baixo”. Aqui todo mundo me conhece como [apelido dele] Então, às vezes, eu ando aí pelas ruas e as pessoas ficam me olhando meio assim, achando que eu ainda sou o que eu era, entendeu?! Eu ainda não consegui passar confiança para as pessoas. Porque o que eu mais quero é ter a confiança da comunidade. Então, às vezes, eu passo na rua e os outros me veem e falam “aquele menino é isso e aquilo”, sendo que eu não sou mais. Então, eu tenho esse grande problema com muitas pessoas: eu tenho o problema de não passar confiança para eles, entendeu?! Muita gente ainda não tem em mim aquela confiança que tinha antigamente. Então, isso para mim... na minha vida, prejudicou um pouco nessa área da confiança mesmo, muito poucas pessoas têm confiança em mim hoje, mas eu ainda vou conseguir conquistar essa confiança de todos, se Deus quiser, e ele quer, não é?! Com certeza... (SATURNO)

O relato exemplifica a invisibilidade projetada112 por alguns moradores da comunidade. Para Saturno, é evidente que a comunidade ainda o olha a partir de seu passado, evidenciando sua invisibilidade no presente. Ele ainda ressaltou que:

Pelo o que eu já fiz, eu acho difícil a comunidade me olhar do jeito que eu era. O jeito que eu já fui antes de passar pelo que eu passei. Então, eu acho que o jeito que está indo está bom, mas se a comunidade me desse uma oportunidade, uma confiança a mais, eu acho que ela ia dar uma fortalecida a mais na gente. A gente podia andar onde a gente puder ir. Se todo mundo confiasse, seria melhor, não é? Pra mim um ponto que me prejudica muito é a falta de confiança da comunidade. (SATURNO)

Nessa questão, Soares (2005, 2011) fala das “profecias que se autocumprem”, ou seja, atitudes discriminatórias das pessoas que podem acarretar e/ou corroborar para a existência daquilo que se pretendia evitar. Por isso, a partir de sua experiência e dos relatos acima, perguntei se ele já pensou em reafirmar o que a comunidade diz sobre ele:

Já, já... Teve muitas vezes dos outros chegarem na minha cara assim e apontarem o dedo e falar... Eu dentro da casa da pessoa e a pessoa, ao chegar na casa dela, falar: “Você não vai entrar aqui dentro, porque você é isso, isso e aquilo.” Eu já tive muita vontade de voltar sim e falar “já que você está falando que eu sou, eu vou ser.” Mas a minha força maior é a minha família! Porque eu, depois que saí do Cead... quando eu saí não... quando eu tava dentro do Cead, eu pude refletir o sofrimento que a minha família passava sem a minha presença! Porque família é assim... Então, por causa da minha família mesmo, da sua força, da vizinhança, dos amigos que também davam força – “não, não faz isso não” –, até hoje eu estou firme e forte. (SATURNO)

É possível perceber que a família e os amigos têm sido um suporte fundamental para que ele não retorne a envolver-se com a criminalidade. O que se evidencia em sua letra de RAP intitulada “Lembra?”113

Eu conheço o ECA não faz muito tempo Então vou lhe dizer o que estou aprendendo

Direitos e deveres, irmão, é muita coisa Coisas que não tive, coisas muitos boas

Esporte, lazer, cultura e educação Perdi minha moral fazendo confusão

Mas sei, que posso superar, então Estou na correria com Deus no coração

Centro de Internação é uma passagem Não quero retornar e evitar a malandragem

Daqui pra frente trabalho e estudo É o melhor que eu faço pro futuro O ECA está comigo, está com você O ECA não foi feito pra gente esquecer

112 Invisibilidade projetada, no sentido assumido na Tabela 2, da página 64.

113 Esse trecho foi escrito pelo próprio jovem, na oficina II. É constituída por mais três partes não

mencionadas aqui pelo falto de eu não ter localizado os seus respectivos autores para que autorizassem a reprodução.

Então, olhe para trás e veja a história Do Código de Menores ao ECA é uma vitória

Refrão:

Você já foi criança um dia, lembra? Já adolescente um dia, lembra?

Então pare pra pensar, irmão.

Já o terceiro sujeito da pesquisa, que ainda é adolescente, com 16 anos de idade – tinha 14 anos na época das oficinas –, ao qual chamarei de Marte, disse que as oficinas de RAP e de poesia o ajudaram a ter paciência no processo de aprendizado escolar. Paciência que o ajudou a vencer o medo e a vergonha [timidez] de expor a sua arte. As oficinas eram para ele uma atividade diferente, pois antes delas ele só jogava futebol: “A minha experiência foi grande, eu não conhecia nada. Pensava que poesia para mim era você, tipo, escrever tudo lá e no final você tira umas palavras lá e faz uma poesia, e depois ver a diferença. Nós ficamos lá... fala sobre o livro, fala sobre isso...” (MARTE).

O “fala sobre o livro, fala sobre isso” refere-se à sua poesia e às discussões realizadas sobre ela. A poesia do adolescente chama-se “O Livro”114:

O livro precisa de alguém para passar as páginas, E as pessoas precisam do livro para passar a vida.

E quem não gosta de ler? A falta de leitura faz mal para os olhos. E os bons olhos não desperdiçam oportunidades.

Em relação às possíveis mudanças e aprendizados, Marte relatou:

Ah, cara. Sinceramente?! Ah, velho... Com isso eu pude ter algumas oportunidades diferentes. Só que, sinceramente, até hoje eu fiz, gostei, igual eu falava com você que gostei muito [...]. Só que, hoje: assim, eu falar com você que mudou... não mudou não [...]. Ah, cara, minha cabeça mudou muito. [...] O que não mudou é o crime: é o mesmo.

A passagem apresenta aspectos relevantes. O adolescente afirma que gostou de ter participado das oficinas de RAP e de poesia e que seu pensamento mudou (“minha cabeça mudou muito”). Entretanto, ao realizar a entrevista em sua comunidade, e pelo fato de eu conhecer a dinâmica comunitária daquele lugar onde o tráfico de drogas é intenso e se apresenta como alternativa de sobrevivência para muitos adolescentes e jovens, ele se vê diante de uma realidade que confronta a sua “cabeça que mudou muito”. Esse depoimento é importante, pois o adolescente foi sincero em me responder, trazendo um não uma negativa, que abriu a vertente para essa reflexão: as oficinas constituíram-se desse movimento concreto-

subjetivo – não viam os adolescentes como “maus” e que precisavam ser transformados em “bons”, viam os adolescentes como pessoas com possibilidades a serem aproveitas e limites a serem superados.

A observação permitiu-me notar que a invisibilidade desse adolescente tinha por base a sua relação comunitária, anterior e posterior ao cumprimento da medida: “De vez em quando eu sou humilde, mas muitos não conseguem ver. Não sou humilde assim... falar que é humilde é ser assim... Tem hora que você esgota a paciência. Só que sou bem humilde; só que as pessoas não veem isso.” (MARTE).

Para ele:

Ser humilde é você saber falar com as pessoas. Na minha opinião, é você conversar com a pessoa tranquilo, calmo, baixo... não chegar tipo grosso, endoidando, isso e aquilo. Na minha opinião, é saber conversar e saber lidar com as pessoas que estão ao seu redor. Na minha opinião é isso. (MARTE)

De acordo com Guará (2000), a humildade é um valor de importância para o jovem. Há nessa relação a presença da contradição do “valor humildade”, com as características de suas vidas.

A humildade, para os jovens – na pesquisa realizada pela autora –, é “um valor que qualifica aquele que não prejudica ninguém e ‘não quer ser diferente de ninguém’ e, assim, a ‘humildade’ é equiparada à igualdade. Sujeito humilde é aquele que ‘não é melhor que ninguém’, não é presunçoso ou orgulhoso.” (GUARÁ, 2000, p. 195).

Comte-Sponville (apud GUARÁ, 2000, p. 196) aborda a humildade como uma questão relacionada a outro sentimento, que é a tristeza. Para ele, a humilde é “o esforço pelo qual o ‘eu’ tenta se libertar das ilusões que tem sobre si mesmo e porque essas ilusões o constituem – pelo qual ele se dissolve.” A autora afirma que essas “ilusões” podem ser compreendidas também como ilusão da própria condição social. Nessa lógica, “a humildade é para os jovens o reconhecimento de sua impotência diante das dificuldades da vida, mesmo que com seus atos procurem demonstrar coragem e orgulho.” (GUARÁ, 2000, p. 196).

Na entrevista que tive com a profissional – a quem chamarei de Lua –, do Centro de Atendimento ao Adolescente (Cead), ela comentou que as oficinas possibilitaram o trabalho direto com o adolescente, visando a critica a partir de uma arte que eles gostavam, que é o RAP, pois:

De forma geral, as oficinas agregaram muito valor à instituição, ao trabalho com os adolescentes, e elas ganharam lugar de destaque dentro da proposta de trabalho. Teve uma época que as oficinas estiveram bem sistematizadas. Eu acho que acrescentou muito porque os adolescentes eram envolvidos nas oficinas. A gente via a vontade, via o interesse deles, e [percebia] uma transformação daquele sujeito que

estava ali, [pelo fato de ele se] deslocar de lugar – sair do lugar de ser somente assistido pela instituição e [passar a] ser protagonista. Então, eu acho que as oficinas tiveram esse lugar de relevância, tanto para a instituição quanto para os próprios adolescentes que participaram como protagonistas desse processo. (LUA)

O deslocamento mencionado no relato acima foi possível pelo movimento que o RAP e a poesia têm de objetivar, como arte, ou seja, de elevar-se para além das básicas condições de vida. Isso é o que Heller (1972) chama de “suspensão do cotidiano”.

Isso para mim é ampliar a noção de mundo. Por mais que o RAP ou a poesia falem da experiência do menino, lá na comunidade dele ou não... o que ele assistiu desde quando nasceu... você pode também através do RAP apresentar um mundo novo para o adolescente. E isso é ampliar a noção de mundo, [possibilitar] alternativas de vida. (LUA)

Para o segundo profissional entrevistado no Centro de Atendimento ao Adolescente (Cead) – a quem mencionarei como Sol –, as oficinas foram as atividades que os adolescentes puderam se identificar, principalmente pela linguagem e pela capacidade de superação:

Todos [os adolescentes] me chamaram muita atenção porque nós o acompanhamos [o processo das oficinas] do início até o final. Mas teve um que eu gostava muito, era o [Júpiter], porque ele tinha muita dificuldade. Acredito que ele talvez tenha sido um dos que tiveram mais dificuldades. Mas foi um que, diante da dificuldade, mais brilhou. Acho que ele conseguiu brilhar mesmo porque tinha essa dificuldade, pois o desejo dele [de superação], era grande que ele ficava dançando, imitando os

Jacksons: mexia o corpo... tinha dificuldade de fala, mas... como ele conseguiu! Ele era muito tímido, mas por isso mesmo é que ele não chamava muito a atenção. Às vezes, aquela timidez, aquele jeito dele, aquele desejo de fazer a coisa... E como ele conseguiu dar conta disso... Desse interesse que ele tinha, de estar ali, de estar produzindo, de estar fazendo... a vontade de estar participando... Ele foi uma pessoa que chamou muito a atenção. Eu acredito que ele conseguiu se destacar. Pela dificuldade que ele tinha ele se destacou, porque o seu desejo foi maior que a sua dificuldade... Então, ele conseguiu chamar atenção e ficou marcado. (SOL)

Antes de iniciar as oficinas na unidade, alguns adolescentes falavam que era proibida a entrada de alguns CDs de RAP, pois eram consideradas músicas muito “pesadas”. Alguns CDs de RAP eram permitidos, desde que fossem ouvidos com o discman e fone de ouvido. Quanto a isso, não tive qualquer problema para realizar as oficinas; pelo contrário, a unidade se interessou pela proposta de utilizar o RAP e a poesia no trabalho socioeducativo.

Embora seja longo o depoimento abaixo, optei por apresentá-lo de maneira completa,