Em consonância com o projeto da CNBB para a Igreja no Brasil - “Queremos ver Jesus, Caminho, Verdade e Vida” -, o XI Encontro Intereclesial de CEBs teve como tema “Espiritualidade Libertadora” e o lema “Seguir Jesus no compromisso com os excluídos”.
Nesse encontro, os grupos não foram chamados de blocos ou arraias, mas de locomotivas. Foram seis locomotivas com aproximadamente 700 pessoas, cada uma delas foi subdividida em grupos denominados vagões, com cerca de 100 pessoas. Auxiliados por 112 assessores, os vagões aprofundaram o tema da Exclusão, relacionando as CEBs com a espiritualidade libertadora, com a dignidade humana e a promoção da cidadania, com a formação de novos sujeitos capazes de contribuir para a construção de outro mundo possível.
Segundo Moreira (2005), o encontro seguiu a metodologia da reflexão em três etapas: VER (1o dia), JULGAR (2o dia), AGIR (3o dia) e CELEBRAR (em todos
os dias e durante todo o encontro). Em alguns momentos, todos estavam na grande plenária, batizada de Estação Geralda Procópio.
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Uma novidade metodológica do XI Intereclesial foram as trinta e seis tendas de trocas de saberes; inspiradas na experiência do Fórum Social Mundial, foram articuladas em seis eixos: 1) CEBs e espiritualidade libertadora, 2) CEBs: a dignidade humana e a promoção da cidadania, 3) CEBs e via campesina, 4) CEBs e a construção de um outro mundo possível, 5) CEBs e a formação de um novo sujeito e 6) CEBs e educação libertadora.
Um das tendas que mais chamou a atenção foi a Tenda da Ecologia; nela foram enfatizadas dezenas de experiências que demonstram que as CEBs também agem ecologicamente. Nas palavras de Moreira (2005):
Vimos que a terra é nosso corpo; a água, nosso sangue; o ar, nosso sopro; o fogo, nosso espírito. Invocamos Francisco de Assis que nos inspira a ver todas as criaturas como irmãs e irmãos. Percebemos que fazemos parte de uma grande comunhão holística. Nossos corpos são um universo de átomos, células e moléculas constituídas dos mesmos elementos das estrelas. Os órgãos dos nossos corpos se relacionam de forma ecológica. Estão sempre estabelecendo relações de parceria, de complementariedade, de solidariedade e de co-responsabilidade. Nosso corpo pessoal pertence ao corpo social que por sua vez pertence ao corpo universal. (p.420).
Em síntese, o XI Intereclesial se empenhou em apontar caminhos de solução e ações concretas para, a partir das CEBs e em parceria, superar os diversos tipos de exclusão e assegurar na Igreja a valorização dos carismas e a convivência pacífica e fraterna com a sociedade e o meio ambiente.
2.1.1.3.3 XII Encontro Intereclesial de CEBs - CEBs: Ecologia e Missão – Do ventre da terra, o grito que vem da Amazônia, Porto Velho/R0 (de 21 a 25 de julho de 2009)
Com o tema “CEBs: Ecologia e Missão – Do ventre da terra, o grito que vem da Amazônia”, o XII Intereclesial de CEBs aprofundou o tema do meio ambiente. Divididos em doze grupos de 250 participantes, batizados com os nomes dos rios da bacia amazônica - Madeira, Juruá, Purus, Oiapoque, Guamá, Tocantins, Tapajós, Itacaiunas, Guaporé, Gurupi, Araguaia e Jari - os mais de três mil participantes partilharam as experiências das comunidades em relação ao planeta, a partir do bioma amazônico e dos outros biomas do Brasil, da América Latina e do Caribe, como afirmam na carta final do encontro:
Vimos nossa Casa ameaçada pelo desmatamento, com o avanço da pecuária, das plantações de soja, cana, eucalipto e outras monoculturas,
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sobre áreas de florestas; pela ação predatória de madeireiras, pelas queimadas, poluição e envenenamento das águas, peixes e humanos pelo mercúrio dos garimpos, pelos rejeitos das mineradoras e pelo lixo nas cidades. Encontra-se ameaçada também pelo crescente tráfico de drogas, de mulheres e crianças e pelo extermínio de jovens provocado pela violência urbana. (CARTA FINAL).
Realizado em cinco dias, o encontro teve início na noite do dia 21 de julho com uma celebração. No dia seguinte, orientados pelo Ver, foi realizada uma pequena reflexão sobre a esfera sócio-política e econômica, apresentada por Pedro Ribeiro de Oliveira, Julieta Amaral da Costa e Leonardo Boff. Em seguida, foi realizada em grupos uma visita às muitas realidades locais: populações indígenas, comunidades afro-descendentes, ribeirinhas, extrativistas, assentamentos rurais, áreas de ocupação urbana, bairros da periferia, hospitais, prisões, casas de recuperação de dependentes químicos, entre outros. Retornando à sede do evento, os participantes partilharam suas experiências e nessa partilha destacou-se a reflexão sobre “os projetos dos grandes, principalmente as barragens das usinas hidroelétricas, as usinas nucleares geradoras de lixo atômico que põem em risco a população local, são projetos do capital transnacional que não favorecem os pequenos” (CARTA FINAL).
No terceiro dia, foram realizadas celebrações, reflexões e testemunhos. No período da manhã as celebrações resgataram “as memórias da espiritualidade dos povos da região e das experiências colhidas no caminho missionário percorrido no dia anterior, nas visitas às muitas realidades eclesiais e sociais de Rondônia” (CARTA FINAL). À tarde foram realizados vários testemunhos, dentre os quais destacam-se:
Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba, retomou em sua história a trajetória dos negros no Brasil, suas dores, resistências e esperanças de um mundo melhor, nos seus Quilombos da liberdade. Marina Silva, senadora pelo Acre e ex-ministra do Meio Ambiente, contou sua caminhada de menina analfabeta do seringal para a cidade de Rio Branco e de lá para São Paulo, mas principalmente sua incessante busca, a partir da fé herdada de sua avó, alimentada pela experiência das CEBs, da leitura da Palavra de Deus e pelo exemplo de Chico Mendes, de bem viver e de colocar-se publicamente a serviço, em favor do povo Amazônia. Por fim, depois da apresentação de Dom Tomás Balduíno, em que ele ressaltou o papel de Dom Pedro Casaldáliga da Prelazia de São Félix do Araguaia na fundação, junto com outros, do CIMI, da CPT e de Pastorais Sociais, acompanhamos pelo vídeo seu testemunho e nos emocionamos com suas palavras de esperança e confiança em Jesus e na utopia do seu Reinado. (CARTA FINAL).
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No último dia, representantes das diferentes religiões acolheram, no diálogo e respeito à diversidade da teia da vida, os gritos da Amazônia e de todos os biomas, reafirmando o compromisso com a justiça geradora da paz. Os participantes ainda se comprometeram a fortalecer as lutas dos movimentos sociais populares indígenas, afro-descendentes, mulheres, ribeirinhas, sem-terra e movimentos ecológicos.
Essa breve descrição dos encontros e do contexto no qual foram realizados permite uma primeira reflexão sobre os principais temas que permearam esses eventos. De uma maneira geral, é possível afirmar que alguns temas são inseridos nas discussões dos encontros nessas três décadas. Nos quatro encontros realizados nos anos 1980, os temas principais são “fim da opressão” e a “nova sociedade”, nesses grandes temas discutem-se os principais acontecimentos do país: abertura política, Diretas-já, Nova Constituinte etc. Nos dois encontros realizados nos anos 1990, mantêm-se os temas da década anterior, mas outros temas também ganham destaque, como o ecumenismo, os direitos da mulher, entre outros. Por outro lado, nos encontros realizados na década de 2000, além dos temas das décadas anteriores, tem destaque o tema da preservação ambiental. Os Encontros Intereclesiais de CEBs têm se mostrado vinculados aos anseios de cada contexto histórico.