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Reconhece a queda E não desanima

Levanta, sacode a poeira E dá a volta por cima.

(Paulo Vanzolini/ Noite Ilustrada)

Assim como Ana Ozores, Dona Paula será outra figura feminina da qual o narrador clariniano se ocupará com grande vigor e interesse. Através dela, o sujeito da enunciação apresentará a imagem da mulher inteligente e ambiciosa, que tudo fará para conquistar uma melhor condição de vida, comportamento bastante criticado e mal visto na sociedade patriarcal do século XIX, movida pelas diferenças de classe e por uma mentalidade conservadora que condenava, de forma severa, a emancipação da mulher, mesmo sendo esta por intermédio do trabalho.

Através do relato retrospectivo, nós, leitores, somos conduzidos pelo narrador de La Regenta ao período correspondente à infância de Paula. Aqui é preciso comentar que, ao lado da história principal, ―o romance pode conter outras, secundárias, que só servem habitualmente para caracterizar uma personagem‖ (TODOROV, 1971, p.236); tratam-se, pois, das histórias encaixadas, daí sua importância na narrativa de La Regenta. Para Todorov, essas histórias são menos integradas ao conjunto da narrativa que às histórias principais, e é em razão disto que nós a sentimos como se estivessem, de fato, ―encaixadas‖, já que o encaixamento é a inclusão de uma história no interior de outra (Ibidem, p.236).

A partir da leitura dos capítulos dedicados à criação de Paula, notamos que o aflorado desejo por uma qualidade de vida melhor a fez mulher antes do tempo. Dona Paula, quando jovem, tinha uma seriedade prematura, uma prudência firme e fria, demonstrando possuir uma personalidade bastante atípica para a pouca idade que possuía:

La niña fue aprendiendo lo que valía el dinero, por la gran pena con que los suyos lo lloraban ausente. A los nueve años era Paula una espiga tostada por el sol, larga y seca; ya no se reía: pellizcaba a las amigas con mucha fuerza, trabajaba mucho y escondía cuartos en un agujero del corral. La codicia la hizo mujer antes de tiempo; tenía una seriedad prematura, un juicio firme y frio. Hablaba poco y miraba mucho. Despreciaba la

pobreza de su casa y vivía con la idea constante de volar…, de

volar sobre aquella miseria. Pero ¿cómo? Las alas tenían que ser de oro. ¿dónde estaba el oro? Ella no podía bajar a la mina. Su espíritu observador notó en la iglesia un filón menos oscuro y triste que el de las cuevas de allá abajo <<el cura no trabajaba y era más rico que su padre y los demás cavadores de las minas. Si ella fuera hombre no pararía hasta hacerse cura. Pero podía ser ama como la señora Rita>> (Ibidem, p.451).

Por intermédio do discurso indireto livre do narrador clariniano, a ambição da pequena personagem revela-se de forma imediata, sem rodeios. Deparamo-nos,

então, com uma figura inconformada com a situação de miséria da família, que passa a ver na Igreja Católica uma excelente oportunidade para se livrar da angustiante vida que levava em Matalerejo. Paula era determinada, queria definitivamente mudar de vida, e o primeiro passo dado para transformar o seu sonho em realidade foi aproximar-se do próspero universo religioso. A partir daí: ―comenzó a frecuentar a la iglesia; no perdió novena ni rogativas, ni misiones, ni rosarios y siempre salía la

última del templo‖ (Ibidem, p.451).

A devoção fervorosa da personagem não nasce de uma vocação religiosa verdadeira, mas sim de um desejo incontrolável de enriquecer, de prosperar, libertando-se, assim, da pobreza a qual estava confinada, submetida. Extremamente consciente de sua deplorável situação financeira e de suas inúmeras limitações como mulher pobre e sem dotes, Paula, que não saia mais da igreja, empenhava todos os seus esforços para conseguir um trabalho como auxiliar de serviços na paróquia de sua cidade. E, diante de tanto empenho, o próprio padre não teve como não realizar o

desejo da jovem que se ―fuera hombre no pararía hasta hacerse cura‖ (Ibidem,

p.451).

Paula conseguiu o emprego tanto almejado: trabalhar como criada na casa da Reitoria de Matalerejo; porém, sua admirável ambição e perseverança não a deixaram se acomodar com o pouco que ganhava cuidando dos afazeres domésticos na casa do idoso pároco da cidade. A jovem queria voar mais alto, pensamento que a motivou a vencer a grande batalha contra a penúria, o que por si só já a torna uma das personagens mais transgressoras da obra. Pérez Galdós, em Tristana, também retrata a ambição desmesurada da personagem central do romance, no entanto, a

e não atua, aprende e não cria, começa mil coisas e não acaba nada‖28

(NAVARRO, 1999, p.117), demonstrando ter forças apenas para idealizar, para imaginar e não para concretizar os seus sonhos e as suas ambições. Sendo assim, enquanto Tristana é derrotada pela realidade, dona Paula luta bravamente contra ela, mostrando-se vitoriosa, dada à sabedoria apontada pelo narrador da obra como a maior virtude da personagem, avessa a qualquer tipo de lirismo e de fantasia romântica.

Com a morte do bondoso religioso, um novo padre é indicado pela arquidiocese para assumir o controle da pequena paróquia local. Esse ―tenía fama de santo; era un joven que predicaba moralidad, castidad, sobre todo a los curas de la

comarca, y predicaba con el ejemplo‖ (ALAS, 1998, p.452), porém, a imagem de

homem casto é desconstruída à medida que o narrador relata o lado animalesco do religioso, que não resiste à tentação e acaba se entregando ao pecado. E, para melhor aclarar o furor que se apodera do religioso, nos pareceu interessante citar o episódio em que o jovem padre, excitado por desejos selvagens, assedia e ataca a senhorita Paula, no intuito de possuí-la fisicamente. Vejamos:

Y una noche, reparando al cenar que Paula era mal formada, angulosa, sintió una lascivia de salvaje, irresistible, ciega, excitada por aquellos ángulos de carne y hueso, por aquellas caderas desairadas, por aquellas piernas largas, fuertes, que pedían de ser como las de un hombre. A la primer insinuación amorosa brusca, significada más por gestos que por palabras, el ama contestó con un gruñido, y fingiendo no comprender lo que le pedían; a la segunda intentona, que fue el ataque brutal, sin arte, de hombre casto que se vuelva loco de lujuria en un momento, Paula dio por respuesta un brinco, una patada; y sin decir palabra se fue a su cuarto, hizo un lío de ropa, símbolo de despedida, porque tenía allí muchos baúles cargados de trapos y otros artículos, y salió diciendo desde la escalera: -¡Señor cura! Yo me voy a dormir a casa de mi padre (Ibidem, p.453).

A linguagem erótica utilizada na descrição da cena nos despertou atenção para a manifestação do desejo masculino. Esse é indiscutivelmente aflorado pela presença feminina, pois é no corpo da mulher onde reside a sensualidade, o erotismo e o desejo: <<aquellos ángulos de carne y hueso>>, <<aquellas caderas desairadas>> e <<aquellas piernas largas, fuertes>> (Ibidem, p.453). O narrador clariniano aponta a existência de uma importante pulsão de ordem física, em outras palavras, carnal,

manifestada pelo ―hombre casto que se vuelva loco de lujuria en un momento‖

(Ibidem, p.453), e Paula será a principal responsável pelo florescimento deste incontrolável desejo que levará o padre a cometer a mais irracional loucura de amor.

O religioso, no entanto, teve de pagar um preço muito caro pelo silêncio de Paula. Desde esse dia, a personagem o tem nas mãos, fazendo-o refém de sua incontida ambição: ―La transación le costó al clérigo humillarse hasta el polvo, una abdicación absoluta. Vinieron en paz en adelante, pero él vio siempre en ella a su señor de horca y cuchillo; tenía su honor en las manos; podía perderle‖ (Ibidem, p.453), e foi justamente esta condição de submissão que permitiu que Paula, com a ajuda de Francisco de Pas− um licenciado de artilharia, que frequentava muito a casa do padre, de quem era parente, na intenção de conquistar a esquiva criada, que repudiava com bofetadas os seus galanteios−, aplicasse um golpe no padre e lhe arrancasse todas as suas economias, quantia suficiente para que ela pudesse abrir o seu próprio empreendimento, tal como nos aponta o narrador no fragmento abaixo:

Cuando Paula estuvo segura de que había fruto de aquella traición, o de las concesiones subsiguientes, dijo a su novio: «Ahora se lo digo al amo y tú, cuando él te llame, te niegas a casarte, dices que dicen que no eres tú solo... que en fin... -Sí, sí, ya entiendo. -¡Lo que sospechabas, animal! -Sí, ya sé. -Pues eso. -¿Y después? -Después deja que el cura te ofrezca... y no digas que bueno a la primer promesa; deja que suba el precio... ni a la segunda. A la tercera date por vencido...».

Y así fue. Paula arranco de una vez al pobre párroco de Matalerejo, el más casto del arciprestazgo, el resto del precio que ella había puesto al silencio. ¡Con qué fervor predicaba el buen hombre después la castidad firme! <<un momento de debilidad te pierde pecador; basta un momento! Un deseo, un deseo que no sacias siquiera, te cuesta la salvación>> (y todos tus ahorros y la paz del hogar, y la tranquilidad de toda la vida, añadía para sus adentros).

Paula compró grandes partidas de vino y lo vendía al por mayor a los taberneros de Matalerejo; empezó bien el comercio gracias a su inteligencia, a su actividad. (Ibidem, p.454).

Muitos foram os preconceitos enfrentados pela personagem clariniana, a começar pelas acusações de promiscuidade, de haver tido relações com o jovem padre enquanto trabalhava para ele. No entanto, dos ataques selvagens do religioso resultaram apenas materiais para que Paula elaborasse o astuto plano que desencadearia a ruína do pároco, que, temeroso em perder sua honra pelo descuido fatal, opta por entregar a Paula todas as suas reservas. Não houve relação sexual entre Paula e o padre louco de luxúria, logo o filho que ela teve não poderia jamais ter sido dele. O pai biológico é Francisco, que invade o quarto de Paula para manter relações com ela. A personagem engravida e dá luz a Fermín, dois meses antes de o patético padre uni-los com as bênçãos do sagrado matrimônio.

Francisco de Pas sabia que aquelas injúrias levantadas sobre a pessoa de Paula tratavam-se de comentários mal intencionados, proferidos com o principal objetivo de difamá-la, desmoralizá-la socialmente. Mostrou-se, portanto, indiferente às observações do povo e convicto da honestidade de Paula, em outras palavras, de

sua ―honra verdadera‖. Vejamos:

Todos los vecinos dijeron que Fermín era hijo del cura, quien dotó al ama con buenas peluconas. Francisco De Pas no era interesado; siempre había tenido intención de casarse con Paula, pero los vecinos le habían llenado el alma de sospechas y espinas, y él, creyendo que podía el cura estar riéndose de un licenciado, hizo lo que hizo. Pero aquella noche que fue como

la de una batalla a obscuras, terrible, le convenció de la inocencia del párroco y de la virtud de Paula. Aquello no se fingía; mucho sabía el artillero de las trampas del mundo, de las doncellas falsas, pero él se fue a su casa al alba persuadido de que había vencido, bien o mal, una honra verdadera (Ibidem, p.454).

A indiferença de Francisco de Pas aos caluniosos comentários feitos pela sociedade sobre a figura de dona Paula, nos fez pensar novamente na obra El Lazarillo de Tormes. Assim como o pícaro Lazarillo, o pai de Fermín não se manifesta nem um pouco preocupado com sua honra social, mostrando-se indiscutivelmente avesso aos comentários maldosos feitos pelos vizinhos. De Pas acredita convictamente em Paula, e esta confiança aumenta, sobretudo, quando ele se conscientiza de que poderia tirar lucrativos proveitos do inescrupuloso plano idealizado pela astuta mulher. Francisco torna-se, então, o cúmplice do golpe de mestre que deixaria o casal numa posição mais confortável, fato que evidencia a notória ausência de caráter dele, que se permite corromper por dinheiro.

A astúcia da personagem é, por diversas vezes, posta em evidência pelo sujeito da enunciação. A prosperidade de Paula deve ser atribuída principalmente ao espírito empreendedor que a motivava e a fazia querer voar cada vez mais alto, rompendo as infinitas barreiras impostas por uma sociedade machista, que inutilizava

uma das faculdades mais brilhantes capazes de propiciar felicidade tanto a elas quanto a seus companheiros: o saber, a inteligência feminina.

Não obstante, a esperteza de Paula entrará em conflito com o caráter fantasioso de Francisco. O repetido ato de contar aos amigos e aos assíduos frequentadores da improvisada taberna que abrira com Paula as façanhas e as aventuras vividas por ele fez com que os negócios do casal ficassem muito prejudicados. De Pas, em muitas das suas bebedeiras, não só vendia a fiado, como

também não cobrava dos clientes, que expertamente se aproveitavam para não pagar o que consumiam:

La manía de dar al fiado llegó a ser un vicio, una pasión del manirroto licenciado. Le gustaba darse tono de rico y despreciaba el dinero con gran prosopopeya. «¡Los países que él había visto! ¡las mujeres que él había seducido, allá muy lejos!». Sus amigos los taberneros que no habían visto más río que el de su patria, le engañaban al segundo vaso. Mientras él se perdía en sus recuerdos y en sus sueños pretéritos, que daba por realizados, sus compadres interrumpiéndole, entre alabanzas y admiraciones, le sacaban pellejos y más pellejos de vino pagaderos... «De eso no había que hablar». «El hombre es honrado» decía el artillero y añadía: «Si yo tengo un duro pongo por ejemplo, y un amigo, por una comparación, necesita ese duro... y quien dice un duro dice veinte arrobas de vino, pongo por caso...». Pocos años necesitó, a pesar de la prosperidad con que el comercio había empezado, para tocar en la bancarrota. Se atrevió un parroquiano a no pagar y tras él fueron otros, y al fin no le pagaba casi nadie (Ibidem, p.455).

Em razão das crescentes dívidas, Paula optou pelo fechamento do estabelecimento. Com o pouco que lhes sobrara, Francisco de Pas, como patriarca da família, decidiu, então, investir na atividade pecuária, tomando algumas vacas com alguns fazendeiros em parceria. Buscava, no campo, uma vida mais tranquila principalmente para o seu filho Fermín, a quem desejara transformar num habilidoso pastor e vaqueiro.

O plano de Francisco para o pequeno Fermo entra, novamente, em confronto com as expectativas da ambiciosa mãe, que desejava, com toda intensidade, um futuro mais grandioso para o filho: a carreira eclesiástica, o que corrobora o caráter inegavelmente visionário da personagem. Por conta do destino, De Pas perde a vida

de uma forma bastante trágica: ―Había caído de lo alto de una peña abrazado a la osa

mal herida que perseguían los vaqueros hacía una semana‖ (Ibidem, p.456), e essa fatalidade permitiu que dona Paula pusesse em prática o projeto idealizado:

transformar o filho em padre. Para isso, contou com a ajuda do pároco que ela havia enganado.

Sensibilizado pela precária condição da viúva, repleta de dívidas, de promissórias e de créditos que jamais seriam pagos, o padre, mais por caridade que propriamente por medo das inflames ameaças feitas por ela no passado, decide ajudá- la a cuidar do menino, que, na ocasião, já era adolescente; tinha quinze anos de idade.

O jovem Fermín, além de trabalhar, ajudando nos serviços domésticos da Reitoria e nos cuidados da horta, estudava com muito afinco para ingressar no seminário, o que seria uma forma de recompensar o sacrifício da mãe, que, após a morte do marido, passa a dedicar-se exclusivamente à educação do filho. E para melhor ilustrar o admirável esforço da personagem para mudar de vida, nos pareceu interessante citar o seguinte fragmento:

El espectáculo de la ignorancia, del vicio y del embrutecimiento le repugnaba hasta darle náuseas y se arrojaba con fervor en la sincera piedad, y devoraba los libros y ansiaba lo mismo que para él quería su madre: el seminario, la sotana, que era la toga del hombre libre, la que le podría arrancar de la esclavitud a que se vería condenado con todos aquellos miserables si no le llevaban sus esfuerzos a otra vida mejor, una digna del vuelo de su ambición y de los instintos que despertaban en su espíritu (Ibidem, p.457).

Assim, vemos Fermín incorporar o discurso transgressor da mãe, que desde menina, vê na Igreja uma forma de conseguir conquistar uma melhor qualidade de vida. Não há dúvidas de que o sacrifício de Fermín, personagem de infância e adolescência repletas de privações e limitações, é reflexo do desmedido esforço de dona Paula para educá-lo e para direcioná-lo ao caminho da prosperidade, queremos dizer, da riqueza material.

Paula abre novamente uma taberna, onde tudo o que vendia era clandestino,

de procedência duvidosa: ―todo era falsificado; ella compraba lo peor de lo peor y los

borrachos lo comían y bebían sin saber lo que tragaban...‖ (Ibidem, p.459). Encontrava-se circunscrita em uma realidade sombria e marginal, e, para sobreviver, tinha de agir da mesma forma, o que justifica, aos nossos olhos, a influência do meio nas atitudes e no comportamento da viúva.

À frente de seu negócio, a personagem teve de deparar-se com situações, muitas vezes, constrangedoras, especialmente porque lidava com um público que, apesar de pagar-lhe bem, era rude e pouco instruído. A maioria dos frequentadores da

taberna de dona Paula, também conhecida como ―la Muerta‖, por sua palidez

excessiva, o que lhe dava um aspecto cadavérico, eram trabalhadores bêbados e viciados em jogo. Ainda que a frequência se tornasse cada vez mais desagradável, pior, a personagem clariniana não se intimidava, nem mesmo quando um ou outro frequentador, depois de exagerar no consumo de bebida alcoólica, decidia atacá-la, uma vez que se encontrava sozinha, sem a presença de um homem para protegê-la.

Todo aquele universo imundo, deplorável e, quase sempre, grotesco, lhe incomodava profundamente, lhe causava asco. Não obstante, essa era a forma que encontrara para garantir o sustento da casa e principalmente os estudos do filho, o futuro Magistral de Vetusta. Paula, como mulher, se anulou e passou a se dedicar integralmente a Fermo; logo, tudo que fazia era em função do filho, em prol da prosperidade e da ascensão do rapaz que, a todo custo, deveria seguir a carreira religiosa, tal como nos revela o narrador:

A veces quería Fermín ayudarla, intervenir con sus puños en las escenas trágicas de la taberna, pero su madre se lo prohibía: - Tú a estudiar, tú vas a ser cura y no debes ver sangre. Si te ven entre estos ladrones, creerán que eres uno de ellos.

Fermín, por respeto y por asco obedecía, y cuando el estrépito era horrísono, tapaba los oídos y procuraba enfrascarse en el trabajo hasta olvidar lo que pasaba detrás de aquellas tablas, en la taberna (Ibidem, p.457).

Paula possuía uma força interna admirável, surpreendente, não só porque conseguia defender-se fisicamente das constantes investidas dos alcoólatras, mas principalmente porque conseguia suportar, com muita frieza e tolerância, todo aquele ambiente imundo e repugnante do qual obtinha sua fonte de renda. Convicta,

portanto, de que todo esse sacrifício era necessário, ―no dejó el tráfico hasta que los

estudios y la edad de Fermín lo exigieron‖ (Ibidem, p.459).

Se a Ana Ozores faltava convicção para determinar o seu destino, Paula a tinha de sobra. A ambição desmedida que nutria a personagem clariniana fez dela uma figura feminina de fibra, que não se entregava facilmente às adversidades da vida. A vontade de prosperar, de livrar-se da desprivilegiada condição social a qual estava submetida, motivou-a a investir todas as suas forças na carreira do filho, que, desde jovem, demonstrou grande talento, sagacidade e vocação para o ofício