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5   Metode

5.5   Cultural  probe

O instrumental teórico do presente trabalho se caracteriza pela integração da abordagem sociodiscursiva apresentada acima, com os conceitos de metáfora desenvolvidos por Gérard Genette, autor de obras de referência da teoria e crítica estéticas, e por Éric Bordas, pesquisador da Análise de Discurso de Linha Francesa. A análise da trajetória de Pétrus Borel no campo literário, logo das diferentes posições e posicionamentos enunciativos assumidos pelo autor, será analisada, em uma primeira instância, com base nos indícios de composição da cenografia enunciativa de Champavert e de Madame Putiphar. Considerando a hipertrofia de determinadas metáforas do grotesco, nestas obras de Pétrus Borel, este trabalho destaca o potencial desta figura de analogia, manifestando-se como elemento estrurante e estrutural, na configuração da cenografia frenética221

A conceituação da metáfora abrange um campo de estudos amplo e problemático, animado por profundas e numerosas querelas teóricas manifestadas ao longo dos séculos e no seio de diferentes disciplinas. “A noção mais antiga de metáfora no Ocidente vem de Aristóteles, do século IV a.C. Segundo ele, uma metáfora é o uso do nome de uma coisa para designar outra”

das narrativas selecionadas.

222

221 A definição do frenesi romântico será apresentada no capítulo 5.

. Naquela época, a metáfora representava apenas uma das numerosas figuras que integravam a Elocutio, que constituía, por sua vez, uma das cinco partes da antiga “máquina retórica”, referente à seleção do léxico e à ornamentação do discurso com figuras de estilo. Constata-se, então, que para Aristóteles, a metáfora dotava a língua comum, o sentido literal, de “cores” e “desvios”, tornando o discurso mais luxuoso e atrativo, como evidencia este trecho da Arte Retórica: “É necessário, portanto, produzir uma linguagem não familiar, pois as pessoas admiram o que é afastado, e aquilo que provoca admiração é coisa agradável.

[...] É sobretudo a metáfora que possui clareza, agradabilidade e exotismo [...]”223

Em La rhétorique restreinte (1972), Gérard Genette descreve a continuidade deste processo de restrição da retórica a um arsenal de figuras, designando as etapas de constituição da neoretórica moderna. Pierre Fontanier é considerado como sucessor de César Chesneau Dumarsais, contribuindo para o movimento de redução tropológica da retórica. Em Des

Tropes (1730), Dumarsais não propunha nada mais do que um tratado de tropos, evocando a

possibilidade de subordinação entre eles, transformando a retórica em um estudo da oposição próprio-figurado. Pierre Fontanier, por sua vez, em Traité général des figures du discours (1821-1827), apresenta apenas um paradigma de figuras de estilo, salientando a diferença

. Posteriormente, verifica-se um movimento de restrição das cinco partes que compunham a “máquina retórica”, operado pelos latinos, de forma a reduzi-la à Elocutio e ao repertório de figuras de estilo. Este movimento é explicitado por Roland Barthes, em L’ancienne

Rhétorique (1970), destacando as participações de Cícero e Quintiliano. O primeiro

“desintelectualiza” a retórica de Aristóteles, enfatizando o gosto pelo natural como qualidade suprema do orador. Considerando o sentido figurado como vestígio de uma linguagem original e pura, a Elocutio passa a ser privilegiada e as figuras de retórica ascendem ao nível de manifestações legítimas do espírito, isentas de qualquer artifício ou racionalidade. O segundo institui uma retórica de cunho pedagógico, na qual as figuras são elencadas como instrumental para técnicas de composição textual, que alcançarão grande fortuna no ensino, vigorando até o século XIX, como exercício de escrita e análise estilística indispensável à formação dos alunos. Desta forma, a Elocutio resiste à decomposição da estrutura da retórica clássica, em conseqüência da morte das instituições republicanas, dos pomposos rituais discursivos da vida cívica e do declínio da eloqüência, sendo, porém, reduzida a um paradigma de figuras de estilo e limitada à análise da lexis poética.

223 ARISTÓTELES. Retórica. Trad. Manuel Alexandre Júnior, Paulo Farmhouse Alberto e Abel do Nascimento Pena. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2ª ed., 2005, p. 245-246.

entre tropos e não-tropos, operação que lhe rende, juntamente com a distinção entre sinédoque e metonímia, o título de “pai” da retórica moderna.

Desse repertório de tropos e figuras, a retórica sofre um processo de redução ainda mais agressivo, de natureza bipolar, fundamentado em estudos das mais diversas correntes teóricas, visto que o interesse referente aos mecanismos de analogia e contigüidade, desencadeados pela metáfora e pela metonímia, ultrapassa as fronteiras das ciências da linguagem. Sigmund Freud, na obra intitulada Sobre o sonho (1900), aponta as propriedades de condensação e deslocamento, inerentes à metáfora e à metonímia, como elementos-chave na construção de imagens no sonho. A primeira propriedade se refere à fusão de características de diferentes pessoas em um novo e único representante, que se manifesta no conteúdo do sonho. A segunda, diz respeito ao fenômeno de “transposição dos valores psíquicos”, já que desfiando o conteúdo de um sonho, aparentemente “insignificante e desinteressante, a análise desvenda as numerosas vias associativas que ligam essas trivialidades com coisas da mais alta importância psíquica na estimativa do sonhador”224

224 FREUD, Sigmund. “Sobre o sonho”. In: Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de

Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, sd. CD-ROM.

. Ainda no campo da psicanálise, deve-se destacar a releitura de Freud empreendida por Jacques Lacan, sobretudo no texto L’instance de la lettre dans inconscient (1966). Lacan sustenta que a lógica de estruturação do inconsciente segue aquela peculiar à linguagem, seguindo a lei do significante através dos mecanismos de condensação e deslocamento. De acordo com a teoria lacaniana, que desconstrói a relação entre significante e significado proposta por Ferdinand de Saussure, o sentido se produz na cadeia de significantes, deslizando, incessantemente, de um termo a outro. Logo, nenhum significante seria portador de um significado, senão por uma relação de contigüidade dentro da cadeia discursiva. Este movimento linear, horizontal (sintagmático) de produção de sentido é complementado por outro, de natureza vertical, referente ao jogo de substituição ou elisão acionado na escolha do

significante e à “sobrecarga” de sentido, que indica a polifonia constitutiva de todo discurso. A estrutura da cadeia de significantes, assim proposta por Jacques Lacan, acabou por desvendar os meios de que dispõe o sujeito para burlar a censura e velar o próprio desejo, tais como o deslocamento metonímico e a condensação metafórica. No campo das ciências da linguagem, o artigo Roman Jakobson, Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia (1956), figura como uma das principais contribuições para a bipolarização da retórica moderna, reabilitando a assimilação dumarsaisiana entre metonímia e sinédoque, desfeita por Pierre Fontanier. Retomando a teoria de organização dos signos e de funcionamento da linguagem, desenvolvida por Ferdinand de Saussure, Roman Jakobson põe em evidência os conceitos de similaridade e contigüidade para caracterizar os dois tipos de afasia. Com base nos resultados da pesquisa, o lingüista conclui que “a metonímia [...] é muito empregada pelos afásicos cujas capacidades de seleção foram afetadas. Garfo é substituído por faca, mesa por

lâmpada, fumaça por cachimbo, comer por torradeira”225. Em uma desordem psicolingüística

oposta, o falante, com a operação de contigüidade comprometida, “usa as similitudes, e suas identificações aproximadas são de natureza metafórica [...], óculo de alcance por

microscópio, fogo em vez de luz de gás”226

O final da década de 1960 e o início da década de 1970 foram marcados pela consolidação do último e mais arbitrário movimento de redução da retórica, fundamentado na entronização da metáfora, qualificada como sentido figurado por excelência. O livro

Rhétorique générale (1970), escrito pelo Groupe μ, apresenta definições e classificações da

metáfora que remetem a este “centrocentrismo” retórico. Os tropos, sob a designação de

metasememas, são elencados em um esquema tripartido (metáfora, metonímia e sinédoque),

no qual a supremacia da metáfora é evidenciada por sua classificação como “figura central de .

225 JAKOBSON, Roman. “Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia”. In: ___. Lingüística e

comunicação. 23ª ed. Trad. de IzidoroBlikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 2006, p. 49.

toda a retórica”227. Decompondo o mecanismo de funcionamento da “rainha das figuras”, os pesquisadores de Liège sustentam que, em sua estrutura, “a metáfora se apresenta como o produto de duas sinédoques, [...] uma Sg (sinédoque generalizante) e uma Sp (sinédoque particularizante)”228

Paul Ricœur, ao escrever La métaphore vive (1975), alimenta a discussão acerca da “soberana” das figuras, remontando ao estatuto da metáfora na antiga retórica. Ricœur assinala que tanto na neoretórica de Dumarsais e Fontanier, quanto nos estudos de Jakobson, a metáfora é qualificada como tropo (figura construída por uma única palavra), em uma retomada cíclica da definição aristotélica da metáfora: transposição do nome de uma coisa para outra, por meio de analogia. Desse modo, a metáfora é reduzida ao simples estatuto de unidade lexical cujo mecanismo de funcionamento é explicitado através do que Ricœur denomina como “teoria da substituição” (uma palavra/sentido por outro). Ricœur enfatiza a importância do trabalho de Émile Benveniste que, rejeitando a oposição saussureana de

langue vs parole, introduz o conceito de discurso nos estudos lingüísticos, tecendo a distinção

entre semiótica e semântica. Com base na teoria de Benveniste, Ricœur defende a concepção da metáfora em nível sintagmático, enquanto predicação impertinente, logo a “teoria da substituição” cede espaço para uma “teoria da tensão”, provocada pela presença da metáfora

. Assim, quando um indivíduo é comparado metaforicamente a um leão, produz-se uma sinédoque generalizante, na qual o termo leão conota coragem e agressividade, seguida de uma sinédoque particularizante, que condensa tais atributos no próprio indivíduo comparado. Considerando-se a semelhança de funcionamento entre sinédoque e metonímia, torna-se claro o grau de contribuição dos estudos do Groupe μ na decomposição da retórica bipolar, uma vez que a metáfora passa a englobar o processo característico da metonímia, chegando ao “trono” do reino retórico.

227 GROUPE μ. Rhétorique générale. Paris: Seuil, 1982, p. 91. “[...] la métaphore, figure centrale de toute la rhétorique. [...]”. 228 Idem, p. 108.

na frase. Um dos pontos centrais de La métaphore vive corresponde ao sexto estudo da obra, intitulado “Le travail de la ressemblance”. Nesse estudo, o autor refuta a teoria bipolar de Jakobson e, em seguida, neutraliza a oposição entre metáfora e metonímia ao instaurar um desnível, no que tange ao estatuto destas figuras, como evidencia o trecho a seguir:

[...] em oposição a Roman Jakobson, o que na metáfora pode ser generalizado não é sua essência substitutiva, mas sua essência predicativa. Jakobson generalizava um fenômeno semiótico, a substituição de um termo por outro; nós generalizamos um fenômeno semântico, a assimilação uma pela outra de duas áreas de significação, por meio de uma atribuição insólita. Neste mesmo movimento, o “pólo metafórico” da linguagem, sendo de essência claramente predicativa ou atributiva, não tem, em contrapartida, um pólo metonímico. A simetria dos dois pólos é rompida. A metonímia – um nome por outro – permanece um processo semiótico, talvez até o fenômeno substitutivo por excelência dentro do domínio dos signos. A metáfora – atribuição insólita – é um processo semântico, no sentido de Benveniste, talvez até o fenômeno genético por excelência no plano da instância de discurso;229

No campo da lingüística cognitiva, a primazia da metáfora, especificamente no que se refere ao trabalho de George Lakoff e Mark Johnson, autores do livro Conceptual metaphors

in everyday langage (1980 – a tradução francesa Les métaphores dans la vie quotidienne, data

de 1985), a primazia da metáfora é justificada pela constatação de que nosso sistema conceitual é organizado metaforicamente. Sob uma perspectiva funcional, os autores subdividem o campo metafórico em dois grandes conjuntos: “metáforas estruturais, um conceito é metaforicamente estruturado em termos de outro conceito (e) metáforas de orientação, (que) atribuem aos conceitos uma orientação espacial”230

229 RICŒUR, Paul. La métaphore vive. Paris: Seuil, 1975, p. 252.

. Desta forma, toda concepção de espaço físico, de configuração do corpo humano e, em conclusão, da realidade é

“[...] à la différence de Roman Jakobson, ce qui dans la métaphore peut être généralisé, ce n’est pas son essence substitutive, mais son essence prédicative. Jakobson généralisait un phénomène sémiotique, la substitution d’un terme par un autre; nous généralison un phénomène sémantique, l’assimilation l’une à l’autre de deux aires de signification par le moyen d’une attribution insolite. Du même coup, le “pôle métaphorique” du langage, étant d’essence nettement prédicative ou attributive, n’a pas pour contrepartie un pôle métonymique. La symétrie des deux pôles est rompue. La métonymie – un nom pour un autre nom – reste un procès sémiotique, peut-être même le phénomène substitutif par excellence dans le domaine des signes. La métaphore – attribution insolite – est un procès sémantique, au sens de Benveniste, peut-être même le phénomène génétique par excellence dans le plan de l’instance de discours;”.

230 LAKOFF, George & JOHNSON, Mark. Les métaphores dans la vie quotidienne. Trad. Michel de Fornel en collaboration avec Jean-Jacques Lecercle. Paris: Minuit, 1985, p. 24.

“[...] les métaphores structurelles: un concept est métaphoriquement structuré en termes d’un autre concept. [...] métaphores d’orientation donnent aux concepts une orientation spatiale. [...]”.

estruturada metaforicamente, fato que constitui uma resposta ao questionamento acerca da motivação que desencadearia o uso freqüente de metáforas.

Na década de 1990, desenvolveu-se um movimento de “retorno da retórica”. Deve-se entender que essa tentativa de resgate do sistema retórico consiste apenas em um esforço de desfazer a hegemonia da metáfora dentro desse sistema, inserindo-a novamente no grupo das figuras de estilo ou de retórica, dividindo esse campo com as demais, em igualdade de condições. O livro de Patrick Bacry, Les figures de style (1992), é um representante desse movimento. Bacry enquadra a metáfora no grupo das figuras de analogia, juntamente com a comparação, a personificação, a alegoria e a prosopopéia, ultrapassando a concepção tropológica ou lexical desta figura e admitindo a possibilidade de construção de enunciados metafóricos, como, por exemplo, os provérbios populares.

O interesse em torno da metáfora permaneceu, porém, em um fluxo crescente. Eni Orlandi sustenta que a noção de metáfora constitui elemento imprescindível no seio da Análise de Discurso. Entretanto, tal importância não se vincula ao seu estatuto de figura de retórica. Na esteira dos estudos de Michel Pêcheux, a autora atribui ao mecanismo de transferência peculiar à metáfora a responsabilidade pela própria constituição dos sentidos, pondo fim à crença na literalidade. Retomando Pêcheux, Orlandi destaca que cabe ao “efeito metafórico” articular discurso e língua, estrutura e acontecimento. Assim, ele protegeria a “estrutura profunda” da língua (ancoragem semântica) através de um conjunto de variantes que atua na “superfície”, fazendo emergir um ilusório processo de produção de sentidos. Como destaca a autora, “na representação dessa figura, vemos [...] a historicidade representada pelos deslizes produzidos nas relações de paráfrase que instalam o dizer na articulação de diferentes formações discursivas, submetendo-os à metáfora (transferências), aos deslocamentos [..]”231

231

Opus cit., p. 79.

interpretação e da historicidade, em um diálogo diacrônico entre discursos que atravessa e subjuga o sujeito.

Após esta apresentação do amplo e complexo campo de estudos e das múltiplas concepções de metáfora, ao longo do tempo, em disciplinas e teorias distintas, será possível reconhecer com maior clareza o estatuto das teorias selecionadas como instrumental de análise deste trabalho no seio da problemática levantada. Em oposição ao “centrocentrismo” da metáfora, a relação de complementaridade entre esta e a metonímia será privilegiada, com base no texto Métonymie chez Proust (1972), escrito por Gérard Genette. Este autor defende que “longe de serem antagonistas e incompatíveis, metáfora e metonímia se sustentam e se interpenetram, mostra(ndo) a presença e a ação das relações de “coexistência” no interior da relação de analogia: a função da metonímia dentro da metáfora”232. De acordo com Genette, o fundamento metonímico da metáfora reside na seleção do termo comparante, bem como no grau de desenvolvimento do enunciado metafórico. O primeiro caso corresponde ao que Gérard Genette, empregando um termo da linguagem cinematográfica, designa como

metáfora diegética, diretamente vinculada ao espaço e ao tempo da narrativa. Como exemplo

deste tipo de metáfora Genette cita uma passagem do primeiro volume da grande obra de Marcel Proust, À la recherche du temps perdu, relativa à descrição do “olhar da duquesa de Guermantes na igreja de Combray, “azul como um raio de sol que teria atravessado o vitral de

Gilbert le Mauvais”, - justamente o vitral que orna a capela onde se encontra a duquesa”233

232 GENETTE, Gérard. “Métonymie chez Proust”. In: ___. Figures III. Paris: Seuil, 1972, p. 42.

. No segundo volume da obra, em uma cena em que a duquesa se encontra sentada em uma tapeçaria náutica, a mesma é qualificada metaforicamente, em uma sorte de sistema de “analogia por contágio”, como uma divindade marinha. O segundo caso concerne à

“[...] loin d’être antagonistes et incompatibles, métaphore et métonymie se soutiennent et s’interpénètrent [...] montrer la présence et l’action des relations de “coexistence” à l’intérieur même du rapport d’analogie: le rôle de la métonymie dans la métaphore.”

233 Idem, p.48.

“[...] le regard de la duchesse de Guermantes dans l’église de Combray, “bleu comme un rayon de soleil qui aurait traversé le vitrail de Gilbert le Mauvais” – lequel vitrail est justement celui qui orne la chapelle où se tient alors la duchesse [...]”.

propriedade da metáfora de se desenvolver ao longo do corpo textual, abrangendo um número expressivo de páginas, suscitando no leitor “a ilusão de uma continuidade e, logo, de uma proximidade entre comparante e comparado, onde há apenas a multiplicação de seus pontos de analogia e consistência de um texto que parece se justificar (se confirmar) por sua própria proliferação”234

Essa noção de continuidade, associada à expansão e à disposição da estrutura metafórica ao longo da narrativa, será retomada por Gérard Genette, em Fiction et diction (1991), desarticulando as práticas e teorias estilísticas que ainda abordam a metáfora sob uma perspectiva tropológica, como ocorrência lingüística lexical, pontual, ou seja, como fato

estilístico. Genette compreende a metáfora, ou a conotação em geral, como traço estilístico,

propriedade construída através da recorrência de fatos estilísticos, formando feixes de significação. Esta noção permite ao teórico recusar a estilística literária tradicional, baseada “(em)uma visão atomista que pulveriza o estilo em uma coleção de detalhes significativos [...] ou de elementos marcados [...], contrastando com um contexto “não-marcado” [...] sobre o qual se destacariam efeitos estilísticos, de alguma forma, excepcionais”

. Tal manifestação analógica em cadeia, seguindo o mecanismo da contigüidade metonímica, recebe a denominação de métaphore filée (metáfora desenvolvida).

235

No que concerne à estruturação do quadro teórico deste trabalho, o livro Les chemins

de la métaphore (2003) de Éric Bordas apresenta grande valor, visto que o autor não se limita

apenas a mostrar a transformação do conceito, da função e do lugar da metáfora ao longo dos séculos, mas destaca todos os questionamentos que foram elaborados, no decorrer dessa trajetória, por representantes de diversas disciplinas, constatando que muitos, até os dias atuais, não encontraram resposta ou possuem resposta imprecisa e divergente, sobretudo no

.

234 Idem., p. 54-55.

“[...] l’illusion d’une continuité, et donc d’une proximité, entre comparant et comparé, là où il n’y a que multiplication de leurs points d’analogie et consistance d’un texte qui semble se justifier (se confirmer) par sa prolifération même”.

235 GENETTE, Gérard. “Style et signification”. In: ___. Fiction et diction. Paris: Seuil, 1991, p. 133.

“[...] une [...] vision atomiste qui pulverise le style en une collection de details significatifs [...] ou d’éléments marqués [...] contrastant avec un contexte “non-marqué” [...] sur lequel se détacheraient des effets stylistiques en quelque sorte exceptionnels. [...]”.

que se refere à problemática relativa ao estatuto e à função estética desta figura. No capítulo intitulado “L’expression métaphorique comme style littéraire”, Bordas analisa de que modo a metáfora ultrapassa o nível da palavra para atingir as redes de significação de um texto. Em seguida, retomando os conceitos desenvolvidos por Gérard Genette (1991), Éric Bordas alerta para “a necessidade de não se restringir [...] a metáfora a uma unidade lexical pontual, a um fato lingüístico, para poder admitir sua função estilística, não como uma simplificação, mas como um componente estrutural e estruturante, como traço estilístico”236

[...] a metáfora como texto não se limita a uma página, do gênero “morceau

choisi”, [..] (mas) pode perfeitamente ser desenvolvida no conjunto de um