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Como foi dito na subseção anterior, após contribuírem expressivamente para a vitória de Victor Hugo, no episódio da “batalha” de Hernani, o grupo do Pequeno Cenáculo é vitimizado pelo ostracismo, dada a resplandecência absoluta do mestre, ou pelo descrédito, referente ao rótulo de “romântico fanático” ou de “soldado hugólatra”, encontrando dificuldade de inserção na cena literária da época. Desta forma, o grupo liderado por Pétrus Borel investe na excentricidade juvenil como valor distintivo, assinalando sua posição singular no campo literário francês de 1830. Constata-se, entretanto, que as arriscadas

tomadas de posição dos integrantes são viabilizadas por estratégias de proteção mútua e de

exaltação do cenáculo como instância de produção e legitimação de bens culturais, convertendo a força do coletivismo ora em anteparo, ora em trampolim para os investimentos individuais. Assim, o Pequeno Cenáculo toma parte na discussão sobre a legitimidade da

camaraderie literária, acentuada e difundida desde a formação do Grande Cenáculo.

O livro La querelle de la camaraderie littéraire (2008), de Anthony Glinoer, constitui, atualmente, a principal referência acerca da polêmica relativa às estratégias de solidariedade empreendidas pelos cenáculos românticos, a fim de legitimar tal forma de inserção no campo

literário, bem como o posicionamento enunciativo de seus integrantes. No prefácio do livro,

Glinoer estabelece a devida mise au point, no que diz respeito à extensão cronológica da querela da camaraderie literária. A história literária restringe os limites cronológicos desta

querela ao período do romantismo francês, mais especificamente à discussão desencadeada pela publicação do célebre panfleto De la camaraderie littéraire (1829), escrito por Henri de Latouche. No entanto, Glinoer destaca que, longe de estar circunscrita a tal período, a querela da camaraderie se faz presente na história do campo literário francês, espraiando-se, a montante e a jusante da data de publicação do artigo de Latouche. Desta forma, a polêmica envolvendo denúncias das conivências literárias remontaria à própria fase de instituição da literatura, com o surgimento de instâncias legitimadoras dos produtores e dos bens culturais, como os Salões e a Academia, no século XVII, acompanhado da formação de comunidades de escritores que recusavam a função legitimadora destas instâncias, em favor do julgamento de seus pares, reivindicando a autarquia do mundo das letras. Surge, então, “a idéia de que a associação dos homens de letras gera um desvio do espírito crítico e põe em perigo a franqueza do julgamento”268

A constituição do Grande Cenáculo tem início em janeiro de 1827, data da publicação de dois artigos laudatórios sobre as Odes et Ballades (1822-1827), escritos por Sainte-Beuve, jovem jornalista do Globe. Esta publicação é seguida do encontro e do nascimento de uma amizade entre o jornalista e o já renomado poeta Victor Hugo. Na primavera do mesmo ano, o casal Hugo se instala no apartamento da rua Notre-Dame-des-Champs, quando são organizadas as reuniões para as leituras de Cromwell (1827), que culminam com a formação

. Apesar de reconhecer a extensão de tal querela, Glinoer restringe o foco de análise do livro em questão à primeira metade do século XIX, entre os anos de 1824 a 1839. O presente capítulo enfatizará, por sua vez, a formação e as práticas de sociabilidade da camaraderie do Pequeno Cenáculo, retomando, contudo, pontos-chave referentes ao Grande Cenáculo, dada a explícita reverência do grupo de Pétrus Borel ao cenáculo hugoliano.

268 GLINOER, Anthony. La querelle de la camaraderie littéraire. Les romantiques face à leurs contemporains. Genève: Droz, 2008, p. 10.

“[...] l’idée que le compagnonnage des hommes de lettres produit un gauchissement de l’esprit critique et met en danger la franchise du jugement [...]”.

definitiva do Grande Cenáculo, com a presença dos demais integrantes. Assim, os românticos “se impõem como missão, a partir de 1828, a conquista das instâncias de consagração e do público dos teatros, ao mesmo tempo. Isto passa, a princípio, por uma campanha de leituras públicas nos cenáculos, [...] leituras (que) proliferam particularmente no verão de 1829”269

En ces jours de martyre et de gloire, où la hache

. O grupo se empenha na conquista do público e das instâncias de consagração, fazendo destas leituras um momento de elogios e encorajamentos exacerbados a seus pares, de modo que o cenáculo passa a ser classificado, pelos inimigos da camaraderie, como espaço de galvanização e de conivências literárias, forjando glórias factícias. Deve-se destacar que a designação do grupo como um cenáculo foi realizada por empréstimo de um termo do vocabulário bíblico. A escolha de tal denominação visa desarticular as classificações deste agrupamento de artistas como uma seita excêntrica ou como mera reunião mundana, a exemplo dos salões. O cenáculo adota oficialmente esta denominação em abril de 1829, data da publicação do livro de Sainte-Beuve, intitulado Vie, Poésies et Pensées de Joseph

Delorme. O termo cenáculo aparece em um poema epônimo, especificamente nas estrofes

transcritas a seguir:

Effaçait dans le sang l’impur crachat du lâche Sur les plus nobles fronts;

Où les rhéteurs d’Athène et les sages de Rome Raillaient superbement les fils du Dieu fait homme Qu’égorgeaient les Nérons;

Quelques disciples saints, les soirs, dans le cénacle Se rassemblaient, et là parlaient du grand miracle, A genoux, peu nombreux,

Mais unis, mais croyants, mais forts d’une foi d’ange: Car des langues de feu voltigeaient, chose étrange! Et se posaient sur eux.270

269 Idem, p. 44.

“[...] le mouvement romantique se donne pour vocation, à partir de 1828, la conquête tout à la fois des instances de consécration et du public des théâtres. Cela passe d’abord par une campagne de lectures publiques sur les lieux des cénacles [...] ces lectures prolifèrent particulièrement à l’été 1829 [...]”.

270 SAINTE-BEUVE. Vie, poésies et pensées de Joseph Delorme. Paris: Michel Lévy Frères, 1863, p. 67.

“Naqueles dias de martírio e de glória, onde o machado/Limpava com sangue a impura cusparada do infame/Sobre as mais nobres frontes;/Onde os oradores de Atenas e os sábios de Roma/Ridicularizavam soberbamente os filhos do Deus feito homem/Que os Neros degolavam;/Alguns santos discípulos, à noite, no cenáculo/Se reuniam e ali falavam do grande milagre,/De joelhos, poucos,/mas unidos, mas crentes, mas fortalecidos por uma fé de anjo:/Pois línguas de fogo flutuavam, coisa estranha!/E pousavam sobre eles”.

A partir de então, como assinala Glinoer, o cenáculo hugoliano adota uma mitologia própria, uma vez que, no poema de Sainte-Beuve, encontram-se alusões a alguns membros do grupo, como Vigny, Emile Deschamps e Louis Boulanger, que figuram como irmãos de luta do autor, formando, “sob a égide de Victor Hugo, um cenáculo que, de alguma forma, assumiria para o campo literário pós-revolucionário, o papel que a assembléia dos apóstolos desempenhou para a cristandade”271

[...] uma pequena sociedade de apóstolos que, se dizendo perseguida pela prática de um novo culto, se fechou sobre si mesma para se fortalecer. Os apóstolos se amarão; [...] eles se apoiarão uns aos outros por sua utilidade recíproca e, já que era tempo de conquistar a independência poética derrubando mil preconceitos, eles terão servido a uma causa justa com zelo e, algumas vezes, sucesso.

. Na mitologia do Grande Cenáculo, a espinhosa missão do poeta, “apóstolo do mistério”, é comparada à provação e ao massacre sofrido pelos santos cristãos. Como sublinha Anthony Glinoer, tal temática é recorrente na poesia romântica em geral, mas, neste caso, a hostilidade dos “filisteus” não remete o poeta a um tipo de isolamento para desenvolver sua genialidade, mas ao investimento na formação de uma comunidade ideal, visando derrubar as adversidades exteriores por elevados laços fraternais. Ainda no poema de Sainte-Beuve, a batalha dos “apóstolos” da nova escola alude à batalha de Jericó, na qual Hugo figura como o líder portador da trombeta que fará desmoronar o antigo templo da arte. Desta forma, em reação à galvanização relativa às leituras públicas no Grande Cenáculo, bem como à adoção desta mitologia bíblica, anunciada por Sainte-Beuve, o jornalista Henri Delatouche compõe o célebre panfleto, intitulado De la camaraderie

littéraire, publicado em 11 de outubro de 1829, na Revue de Paris. O ponto central do texto

de Latouche, o histórico ataque à camaraderie de Victor Hugo, constitui o trecho transcrito abaixo, no qual o autor define, ironicamente, o cenáculo como

Mas, passado o perigo, a amizade terá se tornado uma especulação; a vaidade terá servido de elo social, e a caridade iniciada por si mesma terá terminado exatamente aonde começara. Uma congregação de poetastros

271 Opus cit. (2008), p.45.

“[...] Il [Sainte-Beuve] convoque dans cette pièce certains de ses compagnons d’armes pour former avec lui, sous l’égide de Victor Hugo, un cénacle qui en quelque sorte tiendrait pour le champ littéraire postrévolutionnaire le rôle qu’a tenu l’assemblée des apôtres pour la chrétienté”.

bizarros se tornou um complô para se adular, e algumas confidências de aprendizes que se testam, uma conspiração flagrante contra nomes consagrados. [...] esta reunião que disse a si mesma que “o século lhe pertence”, que se denomina modestamente um Cenáculo, [...] guarda em seu seio seus mártires e suas divindades. [...] todos querem palavras que indiciem a transfiguração, e as posturas condescendentes suplicam artigos mentirosos à porta de todas as gazetas. Ali, fizeram do elogio uma servidão, uma vassalagem de todas as horas; é a prece da manhã e da noite na igrejinha ultrarromântica; [...]272

A crítica de Latouche não contém ataques pessoais, nenhum nome do Grande Cenáculo é citado, contudo constata-se que este panfleto e o poema Cénacle de Sainte-Beuve, compartilham a mesma isotopia, referente à temática bíblica. Assim, por meio da criação do neologismo camaraderie, Latouche empreende uma contra-resposta velada a Sainte-Beuve, e ao cenáculo hogoliano em geral, demonstrando igualmente sua perícia na articulação de polêmicas e apresentando-se, então, como um adversário à altura do autor de Joseph Delorme. Glinoer resume a importância dos textos de Sainte-Beuve e de Henri de Latouche, na configuração da querela da camaraderie literária, através desta reflexão:

Sainte-Beuve, em abril, elevara o grupo romântico à categoria do Cenáculo; Latouche o rebaixa, em outubro, à categoria das relações de alojamento ou de pátio de escola. O primeiro, inaugurando o gênero da “poesia cenacular”, inventara uma sociabilidade idealizada, o segundo lhe atribui uma face horrorosa, um duplo grotesco, um artefato pervertido. “Cenáculo”, “camaraderie”: os dois termos soam como as duas faces da mesma realidade, [...] da mesma coletivização da vida literária. Os dois poetas- críticos devem assumir a dupla paternidade da querela que se engaja, definitivamente, neste final do ano de 1829273

272 DE LATOUCHE, Henri. “De la camaraderie littéraire”. In: Revue de Paris, t. VII, 1829, p. 103-104. .

“[...] une petite société d’apôtres, qui, se disant persécutée dans les pratiques d’un nouveau culte, s’est enfermée en elle-même pour s’encourager. Les apôtres se seront aimés; [...] Ils se seront appuyés les uns sur les autres pour leur utilité réciproque, et puisqu’il était temps de conquérir sur mille préjugés l’indépendance poétique, ils auront servi une juste cause avec zèle et quelquefois avec succès. Mais le danger passé, l’amitié sera devenue une spéculation; la vanité aura servi de lien social, et la charité commencée par soi-même aura fini exactement où elle avait commencé. Une congrégation de rimeurs bizarres est devenue un complot pour s’aduler, et quelques confidences d’écoliers qui s’essaient, une conspiration flagrante contre des illustrations consacrées. [...] cette réunion qui s’est dit à elle-même que « le siècle lui appartient », qui s’appelle modestement un Cénacle, [...] trouve dans son sein ses martyrs et ses divinités. [...] tout le monde veut des paroles qui sentent la transfiguration, et les souples postures implorent des articles menteurs à la porte de toutes les gazettes. Là, on s’est fait de la louange une servitude, un vasselage de tous les instants; c’est dans la petite église ultra- romantique, la prière du matin et du soir; [...]”.

273 Opus cit. (2008), p. 67-68.

“[...] Sainte-Beuve avait élevé en avril le groupe romantique au rang du Cénacle; Latouche l’abaisse en octobre au rang des relations de chambrée ou de cour d’école. Le premier, en inaugurant le genre de la « poésie cénaculaire », avait inventé une sociabilité idéalisée, le second lui ajoute une face hideuse, un double grotesque, un artefact perverti. « Cénacle », « camaraderie »: les deux mots sonnent comme les deux faces d’une même

A época da publicação do panfleto de Henri de Latouche, final de 1829, coincide com a mobilização dos românticos e o processo de recrutamento de soldados para a “batalha” de

Hernani, em 25 de fevereiro de 1830. Como foi citado anteriormente, a hugolatria dos

soldados e sua ardente participação nas representações de Hernani atestam a supremacia absoluta de Victor Hugo, no seio do Cenáculo, acentuando as rivalidades internas, ofuscando seus pares e conduzindo-os ao distanciamento do astro rei do grupo, no intuito de demarcar a singularidade de seu perfil enunciativo e de seu projeto estético. À época de publicação do texto de Latouche, os membros do Grande Cenáculo já mantêm elos de amizade e admiração mais frouxos, fundamentando, assim, a acusação de “fraternidade interesseira” entre os integrantes, em nome da conquista do sucesso. Nesse sentido, as críticas parecem dirigidas especificamente a Victor Hugo que, desde então, passou a ser visto como grande estrategista, manipulando habilmente seus pares e a juventude romântica de 1830 na sólida construção de sua glória. Tal é a concepção de Henri Lardanchet, no que tange à significação, sem maquiagem, dos cenáculos românticos, como ilustra esta passagem:

De acordo com o seu princípio inicial, o cenáculo devia ser um centro de pensamento comum, um núcleo de assistência recíproca. O gênio ambicioso de um único homem o desviou de seu fim fraternal, lhe fez sair do grande caminho por onde seguia e, sem que ele se desse conta, o conduziu ao lamaçal dos interesses individuais. Esta associação atraiu toda a vida, absorveu toda a verdade. [...]

Victor Hugo precisava de uma preeminência absoluta, que talvez ele não tivesse conseguido sobre uma assembléia menos restrita, e acostumando o público a considerar os cenáculos, dos quais ele era a emanação quintessenciada, como a elite da jovem escola, ele assentava seu próprio império. 274

réalité, [...] d’une même collectivisation de la vie littéraire. Les deux poètes-critiques doivent assumer la double paternité de la querelle qui s’engage résolument en cette fin d’année 1829”.

274 Opus cit.,p. 44-45.

“Selon son principe initial, le cénacle devait être un centre de pensée commune, un foyer d’assistance réciproque. L’ambitieux génie d’un seul homme le détourna de son but fraternel, lui fit quitter le grand chemin où il marchait et, sans qu’il s’en doutât, l’engagea dans le bourbier des intérêts individuels. Cette association attira vers elle toute la vie, absorba toute la vérité. Hors d’elle, il n’y eut pas de salut. [...] Il fallait à Victor Hugo une prééminence absolue qu’il n’eût peut-être point gardée sur une assemblée moins restreinte, et, en accoutumant le public à considérer les cénacles, dont il était l’émanation quintessenciée, comme l’élite de la jeune école, il asseyait son propre empire.”

Anthony Glinoer admite que, com o episódio de Hernani, Victor Hugo neutraliza toda concorrência no seio do romantismo, figurando como soberano incontestável do movimento. Entretanto, no que diz respeito ao esfacelamento do Grande Cenáculo, Glinoer propõe uma argumentação fundamentada na dinâmica de funcionamento das formações cenaculares e da posição de seus líderes. Conclui-se, sob esta perspectiva, que com a entronização do líder Hugo “o cenáculo, por sua vez, conquistou e perdeu sua razão de ser, ele não acumula mais capital simbólico, ele o transfere para seu representante posicionado em primeiro plano: ele se esfacela por deixar visível apenas uma massa dominada por um só, transformado em uma sumidade literária”275

Entre o final de 1829 e o início de 1830, elegendo Victor Hugo como um tipo de “mestre espiritual”, desprezando as críticas e polêmicas referentes à primeira camaraderie romântica, “uma valente jovem guarda, composta de capitães, avançava sobre as ruínas – poderia dizer, sobre as traições – do cenáculo”

. Por conta desta dinâmica cenacular, da supremacia de Hugo, distanciando os demais integrantes e, finalmente, devido a um atrito pessoal entre Hugo e Sainte-Beuve, tendo Adèle Hugo no centro do conflito, o Grande Cenáculo se desagrega definitivamente, no outono de 1830. Apesar de toda esta querela, ainda em efervescência, envolvendo as fraternidades literárias, o grupo de jovens românticos liderados por Pétrus Borel investe na formação de uma nova camaraderie, constituindo o novo alvo dos críticos da época, inclusive de ex-integrantes do Cenáculo, como Sainte-Beuve.

276

275 Opus cit. (2008), p. 101.

. A denominação de Pequeno Cenáculo foi criada no intuito de, ao mesmo tempo, homenagear o Grande Cenáculo de Hugo e assinalar

“Avec Hernani, Hugo a anéanti toute concurrence au sein du mouvement romantique. Le cénacle a quant à lui a atteint et perdu sa raison d’être, il n’accumule plus le capital symbolique, il le transfère à son représentant placé à l’avant-plan: il éclate pour ne laisser visible qu’une masse dominée par un seul, devenu une sommité littéraire. [...]”.

276 HOUSSAYE, Arsène. Les confessions. Souvenirs d’un demi-siècle. 1830-1880. Paris: Dentu, t. I, 1885, p. 275.

“Une vaillante jeune garde, composée de capitaines, s’avançait sur les ruines – je pourrais dire sur les trahisons – du cénacle. [...]”.

uma relação de inferioridade e reverência aos seus predecessores. No prefácio de sua primeira obra, Rhapsodies (1832), Pétrus Borel define o grupo do Pequeno Cenáculo nestes termos:

[...] são todos jovens, como eu, de bons sentimentos e de coragem, com os quais evoluo e que são amados por mim! São eles que me espantam o tédio desta vida; são todos amigos verdadeiros, todos camaradas de nossa

camaraderie, camaraderie estreita, não aquela de M. Henri Delatouche, a

nossa, ele não compreenderia; [...]277

Desta forma, Petrus Borel responde às críticas tecidas por Henri de Latouche, definindo a camaraderie do Pequeno Cenáculo como uma verdadeira “comunidade emocional”, sustentando a legitimidade dos laços de afeto e companheirismo que uniam seus integrantes. A defesa dos estreitos laços de afeto entre a camaraderie do Pequeno Cenáculo encontra sustentação no fato de que alguns membros, como Nerval, Gautier e Maquet, mantinham relações de amizade que remontavam aos tempos de colégio. Jean-Louis Vaudoyer, por exemplo, destaca a intensidade da “longa amizade que uniu fraternalmente Gérard de Nerval e Théophile Gautier, (mantendo-se), sem sombra de dúvida, - pelo menos até a hora de seu fatal e dramático desfecho”278

Reuniões mais belas do que se pode contar, onde todos desejavam o sucesso de todos, sem exagero insensato e sem vaidade coletiva, onde cada um de nós oferecia seu ombro como apoio ao pé daquele que queria tentar escalar e ascender.

. Em uma carta a Théophile Gautier, escrita em 12 de janeiro de 1857, Joseph Bouchardy reafirma, décadas após a dissolução da

camaraderie, a legitimidade dos vínculos de amizade e o princípio de harmonia e igualdade

prezado pelo grupo, como indica o trecho transcrito a seguir:

Quais de nós eram os ricos ou os predestinados? Nós o ignorávamos, porque nós formávamos uma família sem filho caçula e sem direito de primogenitura.279

277 BOREL, Pétrus. Rhapsodies. Paris: Levavasseur, 1832, p. V-VI.

“[...] ce sont tous jeunes gens, comme moi de cœur et de courage, avec lesquels je grandis, que j’aime tous! Ce sont eux qui font disparaître pour moi la platitude de cette vie; ils sont tous francs amis, tous camarades de notre camaraderie, camaraderie serrée, non pas celle de M. Henri Delatouche, la nôtre il ne la comprendrait; [...]”. 278 VAUDOYER, Jean-Louis. “Une amitié romantique. Gérard de Nerval et Théophile Gautier”. In: La Revue

des Deux Mondes, 15 mai 1962, p. 176.

“La longue amitié qui lia fraternellement Gérard de Nerval et Théophile Gautier fut sans l’ombre d’un nuage, -