Falemos agora do tema central deste projecto – as relações intergeracionais. De acordo com Pimentel (2001), “. . . as relações entre gerações serão potencialmente mais frequentes nos nossos dias, uma vez que o aumento da esperança de vida leva a que as famílias de quatro gerações se multipliquem . . .” (p. 93).
As relações intergeracionais estendem-se, actualmente, para fora do seio familiar não tendo por isso menos importância. “As Actividades Intergeracionais promovem a consciencialização e compreensão entre as gerações mais novas e as mais velhas, aumentando a auto-estima em ambas” (p. 1)12.
À medida que a nossa sociedade se torna mais compartimentada, é importante que as pessoas mais velhas e mais novas tenham oportunidade de se encontrarem e de interagirem. Tudo isto facilita a transferência de competências, o intercâmbio de experiências e o enriquecimento mútuo dos mais velhos e dos mais novos. (Naves, 1998, p. 91)
De acordo com Andrade (2002)
Conhecendo as fases da vida posteriores àquela que se vive, preparamo- nos para elas e interagimos com elas de formas mais satisfatórias, não tendo ideias feitas, não reflectidas, não aprofundadas, que nos levam a afastar de nós aqueles que poderão ser, afinal, o espelho do que seremos. (p. 28)
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Site: http://www.projectotio.net/site.php?Tipo=1&IDPag=6144, da responsabilidade do Projecto Tio – Terceira Idade Online, acedido a 23 de Novembro de 2008, pelas 15h00.
Por outro lado, Fontaine (2000) diz-nos que “. . . os idosos e os jovens não pertencem à mesma geração (ou coorte) e nada prova que os jovens actuais venham a envelhecer da mesma forma que os idosos actuais” (p. 46). Jacob (2007), por sua vez, diz-nos a respeito das actividades intergeracionais,
Juntar crianças e idosos nem sempre é boa solução, correndo-se o risco de os resultados serem opostos aos esperados, dado que a mobilidade, os interesses, os ritmos e os objectivos são muito diferentes entre os mais e os menos jovens. Assim aconselhamos a fazer actividades pontuais, com grupos pequenos e de curta duração (uma hora), entre os diversos grupos etários, em detrimento de actividades longas. (p.40)
Isto não invalida a importância de promover a interacção entre novos e velhos, a qual deverá começar desde os nossos primeiros dias, de modo a que nos habituemos a conviver e a aprender com aqueles que muito têm para nos ensinar, os nossos antepassados – aqueles dos quais nós descendemos e que, tantas vezes, desvalorizamos.
“A interação entre crianças e idosos é muitas vezes prazerosa e enriquecedora para ambos, e a compreensão do que está envolvido nesse processo é ainda pouco explorada na Psicologia” (Brandão, Smith, Sperb & Parente, 2006, p. 2).
“Dispomos, hoje, de uma grande riqueza de pessoas mais velhas com tempo e aptidões. Estas pessoas podem desempenhar um papel, cuja importância e amplitude urge descobrir (ou redescobrir) para benefício de todos” (Naves, 1998, p. 91).
Contudo, de acordo com Brandão et al. (2006)
Os estudos a respeito da interação da criança com o idoso são ainda escassos na literatura. Com exceção de algumas pesquisas até agora conduzidas, ainda se investiga a relação entre esses grupos etários de forma unilateral, buscando compreender a percepção que um grupo tem sobre o outro, principalmente a percepção das crianças sobre os idosos. (p. 4)
Assim, torna-se necessário tentar perceber não só a percepção que os mais novos têm dos mais velhos e vice-versa, mas também os benefícios que a interacção entre ambos
A bibliografia que refere as relações intergeracionais entre avós e netos pode adaptar-se, nalguns aspectos, à realidade em questão se encararmos os idosos da Aldeia de São José de Alcalar como potenciais avós e as crianças do jardim infantil como potenciais netos.
Para muitos avós . . . cuidar dos netos . . . pode preencher o vazio de um quotidiano menos activo e contribuir para a luta contra o declínio do envelhecimento.
O papel dos avós na infância dos netos manifesta-se muito para além de uma função de guarda . . . São educadores por prazer, não por dever ou por missão . . . (Sampaio, 2008, p. 85)
Diana (2003) refere “O avô é uma instituição” (p. 41), reforçando esta ideia inicial ao dizer que “as histórias que eles contam estão sempre cheias de informações interessantes e recomendações preciosas” (Ibid.). Os idosos acabam, indirectamente, por assumir o papel de educadores informais. Ensinando as gerações mais jovens sem disso se darem conta e sem estas se aperceberem desse facto. “A aprendizagem intergeracional pode favorecer a transmissão oral de histórias e de artes tradicionais que, de outra forma poderiam desaparecer” (Naves, 1998, p. 92).
Na idade escolar tudo se altera, mesmo quando a criança frequentou o jardim infantil. A sua curiosidade natural leva-a a colocar perguntas aos avós e a fazê-los participar das suas brincadeiras: é o tempo das leituras iniciais, dos jogos caseiros e da companhia para os primeiros feitos desportivos – os avós revivem a infância dos seus filhos, ensinam aos netos novas habilidades e mostram a sabedoria feita de experiência, que surpreende as crianças. (Sampaio, 2008, p. 92)
Os idosos “educam pelo afecto e pela experiência, sabem que têm a seu favor a continuidade através do tempo . . .” (Ibid., p. 87). Deste modo, as actividades intergeracionais podem, de certa forma, preencher um pouco do vazio do quotidiano dos idosos, bem como contribuir para que estes não encarem o seu processo de envelhecimento como um declínio.
Os psiquiatras têm de identificar fontes de apoio social para os idosos, facilitar contactos plenos de sentido para os que carecem de redes sociais e, sempre que possível, promover a reciprocidade na ajuda. A terapia familiar intergeracional pode ser útil, especialmente se reforçar a aptidão dos doentes idosos tanto para dar como para receber. (Spar & La Rue, 2005, p. 57)
No que respeita ao efeito de actividades intergeracionais entre crianças e idosos institucionalizados, um estudo feito por Saavedra, Ramirez e Contreras (1997) veio demonstrar que “. . . a interacção com crianças pode trazer benefícios afetivos aos idosos, que com frequência sofrem de depressão” (Brandão et al., 2006, p. 6).
. . . através da mensuração por uma escala de depressão. Os resultados demonstraram que idosos que participaram do PI13 e que fizeram uso de medicamento antidepressivo tiveram uma maior redução da depressão em comparação ao grupo controle que também estava medicado. (Ibid.)
Um outro estudo, bastante interessante e que não posso deixar de referir foi desenvolvido por Chamberlain, Fetterman e Maher. De acordo com Brandão et al. (2006),
Chamberlain, Fetterman, e Maher (1994) argumentaram que a educação sobre o envelhecimento deveria ser uma das maiores prioridades para os profissionais que trabalham com crianças, pois as atitudes dos adultos mais jovens com relação ao envelhecimento e à pessoa idosa são associadas positivamente com experiências intergeracionais. Os autores investigaram os efeitos da relação entre idosos que viviam em uma instituição residencial que servia de creche para crianças pré-escolares e escolares durante o dia. Interações entre crianças e idosos, classificadas como positivas e negativas, foram observadas durante atividades intergeracionais no início, meio e fim dos três meses de observações que
se sucederam. Foi possível verificar a predominância de um padrão mais positivo de interação, à medida que o tempo avançava. (p. 5)
Os programas intergeracionais, que há muito têm vindo a ser realizados nos Estados Unidos
. . . objetivam construir uma ponte entre idosos e crianças, incorporando atividades delineadas para estimular interações entre os grupos etários. A ideia é de que crianças e adolescentes melhoram a qualidade de vida dos idosos, fornecendo entusiasmo, afeto e espontaneidade. Idosos, por sua vez, fornecem orientação, confiança e apoio, narrando suas experiências de vida. (Ibid., 2006, p. 5)
Por outro lado, ao colocar as crianças em contacto directo com os idosos e ao fazê-las perceber que os idosos são uns amigos mais velhos que ainda têm muito para lhes ensinar e que lhes podem vir a ser bastante úteis, é possível, de certa forma, influenciar o comportamento educativo familiar da própria criança. Isto porque, segundo Barros de Oliveira (1994)
. . . o comportamento educativo familiar é bem mais complexo do que pode parecer, tendo em conta não apenas o “microssistema” ou a família ab intra, mas também o “mesossistema” (todas as instâncias educativas, particularmente a escola), o “exossistema” ou o meio ambiente onde se insere a família, e ainda o “macrossistema” ou a sociedade em geral (p. 175).
Costa S.J. (2008) vem reforçar esta ideia quando afirma: “. . . nada melhor do que as crianças. Através delas chegamos – podemos chegar – à transformação das famílias e da sociedade” (p. 169).
Ao contrário do que habitualmente se pensa, de acordo com Naves (1998). “O fosso entre gerações não é uma barreira ao diálogo. Num ambiente de aprendizagem partilhada, velhos e novos podem chegar ao conhecimento mútuo” (p. 91). Assim, pode dizer-se que a aprendizagem entre gerações pode ter benefícios não só a nível pessoal, mas também a nível social.