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4.1. Research design: qualitative approaches

4.1.3. Semi-structured elite interviews

4.1.3.1. Selection

O desenvolvimento de ideologias urbanas que relacionam o espaço e a sociedade estão intrinsecamente ligados à emergência de novas formas de produção, as quais requereram também um conjunto de reformas sociais para acompanhar essas transformações. Os problemas de crescimento populacional, a densificação e expansão urbana das principais cidades de finais do século XIX, criaram uma imagem assustadora do mundo urbano em transformação. Por um lado, os subúrbios tornam- se nos lugares das atividades indesejadas, como acontece nos faubourgs parisienses (Merriman 1991). Noutros casos, como aconteceu em Inglaterra, o subúrbio tornou- se numa espécie de microcosmo para uma classe média burguesa se instalar, fugindo aos problemas da cidade (Fishman 1989).

David Harvey (1973) vê na emergência de novas relações de produção (numa base económica) o surgimento de formas espaciais complexas como as cidades. A importância do espaço urbano para o capitalismo começa a ser concebida com base nesse entendimento. Noções como ‘centro’, ‘periferia’ derivam, segundo Harvey, de mais-valias de rendas, de processos de troca e consequentemente de acumulação. Daí resulta a relação entre urbanismo como forma social, a cidade como forma construída, e o modo dominante da produção (1973). A cidade e o urbanismo podem

38 funcionar, assim, como meio de estabilizar um modo particular de produção (Harvey 1973: 203)13.

Por reação aos problemas de crescimento urbano, deu-se a criação de programas urbanos e de instituições como forma de garantir a ordem social. A reconstrução da cidade de Paris por Haussmann constitui o melhor exemplo desses intentos, de impor uma ordem espacial na cidade da revolução (Merriman 1991; Pinon 2002).

Um papel mais preponderante por parte do Estado na sociedade leva à criação de instituições, comissões e grupos de discussão14. Da organização destas instituições derivam enunciações para o programa de habitação15. Como nota Sophia Pzarra, as ideias discursivas que influenciaram o desenvolvimento destes programas, permitem- nos perceber os ‘esquemas de conhecimento’, que exercem influência no modo como a relação entre espaço e sociedade é posteriormente obtida por meio do desenho (2012: 12).

13 A teoria do espaço capitalista de Henry Lefebvre (1991) é próxima da de David Harvey. Interessa registar a noção do espaço capitalista como organizador da vida quotidiana, conforme Lefebvre e que implica o consumo direto e uma hierarquia de distância espacial (em termos de trabalho e de vivência). Para uma análise comparativa destes autores e as suas respectivas posições sobre a relação entre a sociedade e o espaço, ver Vinicius de Moraes Neto (2007) Practice, Communication and Space: A Reflection on the Materiality of Social Structures.

14 A discussão política em torno das habitações para as classes trabalhadoras em Inglaterra, entre outros, levou à criação da Royal Comission on the Housing of Working Classes de 1884-85, donde resultou a Housing of the Working Classes Acts em 1885 e 1890 (Hall et al. 2003).

15 É importante notar, conforme Peter Hall (2002), que resultam do debate em torno das más condições dos bairros de lata e a excessiva densidade em bairros operários nas grandes cidades, visões alternativas sobre a boa cidade, designadamente, princípios como a ‘forma óptima’, que pretendeu estabelecer um número limite de habitantes consoante o escalão urbano, cidade, vila, pequeno aglomerado; princípios de ‘descentralização’, que teve forte impacto sobre as políticas de planeamento após a Segunda Guerra, mas que remonta aos importantes trabalhos desenvolvidos no século XIX pelo economista Alfred Marshall (1884) e que tiveram grande influência sobre Ebenezer Howard (1850-1928), designadamente sobre alguns dos princípios mais relevantes por detrás de concepção da sua ‘cidade jardim’ (Hall et al. 2003).

39 Historicamente o interface entre as ideologias e as morfologias espaciais permitem perceber como o uso do ‘grande conjunto’ se impôs como uma solução para os problemas sociais da habitação desde de meados do século XIX. Derivaram do modelo de Familistère de Jean Baptiste Godin (1817-1888) alguns dos fundamentos basilares do conjunto residencial moderno, designadamente a crescente indissociabilidade entre a componente espacial e social da habitação. Percussor do socialismo utópico de Charles Fourier (1772-1837), Godin estabelece a relação entre o progresso social de massas subordinado ao progresso das disposições sociais da arquitetura (1992 [1871]). Considerava-se, de acordo com Batty e Marshall (2009), que o problema social podia ser resolvido manipulando o ambiente físico construído. A experiência desenvolvida em Guise a partir de 1852, destinada a operários, explora a ideia de uma comunidade ‘contida’ dentro da cidade, como desígnio de fortalecimento dos laços sociais. A intenção de Godin era melhorar a habitação dos trabalhadores, mas também a ‘produção, a troca, a educação e recreação’, incluindo para isso diversas facilidades ligadas a cada uma destas funções. Situação idêntica é perseguida em Cadbury’s Bournville em Birmingham (1893) ou Port Sunlight em Cheshire (1889). A assunção geral nestes vários casos é a de que a melhoria das condições ambientais atuaria sobre a existência moral e social dos residentes (Forty 2000). A visão determinística é a de que as mudanças na forma das cidades e dos edifícios podem conduzir a grandes mudanças nos comportamentos humanos (Rapoport 1977). Esta perspectiva vai ser dominante no projeto do Movimento Moderno em arquitetura (Benevolo 1977; Rowe 1998; Hall 2002) 16.

Estas operações subentendem a relação entre a sociedade e o espaço, tendo como referência o quadro de alojamento para as classes operárias. Deste contexto resultam dois axiomas: O primeiro é a articulação do progresso social de massas à dimensão social da arquitetura, particularmente evidenciada no trabalho de Jean Baptiste Godin (1992 [1871]). O segundo é a determinação da estrutura espacial e

16 Leonardo Benevolo et al. (1977: 11) refere que a arquitectura moderna define um novo tipo de cidade, a contrapor à cidade tradicional. Como nenhum outro autor, Le corbusier tornou este compromisso numa ideologia programática (Fishman 1977).

40 física do bairro como comunidade social. Estas duas ideias terão uma profunda influência sobre o urbanismo, nomeadamente na criação do conceito da ‘unidade de vizinhança’.

Segundo Michel Foucault (1997 [1977]: 367-368), os discursos políticos sobre a arte de governar, apresentaram durante este período um recurso mais sistemático a questões de urbanismo, serviços coletivos, higiene e arquitetura privada. Os procedimentos de manutenção de poder, assentaram em princípios de estabelecimento de uma ordem para a sociedade, numa base similar aquela que se procura para a cidade, ou seja, assente em modelos de como estas deviam ser. Nesse sentido procurava-se evitar epidemias, revoltas e permitir uma moral e uma vida familiar decente.

A intervenção de Haussmann (1801-1891) em Paris é um exemplo revelador de como as ideias de desenho urbano foram profundamente influenciadas por ideias políticas e sociais dominantes, que de resto já estavam em curso desde inícios do século XIX (Pinon 2002). O exercício de controlo17, neste projeto, ligava-se a indícios de diferenciação espacial no contexto físico da cidade, contribuindo de um modo mais sistemático para a construção de um território com identidades sociais e económicas segmentadas18. Segundo Merriman (1991), para além das óbvias vantagens económicas a reconstrução de Paris tinha também um desejo imperial de controlo

17 Walter Benjamin (1997) refere que um dos objectivos prosseguidos por Haussman em Paris era assegurar a cidade contra a guerra civil. O desenho da cidade reflecte por um lado as ideologias de desenho dominantes e por outro, a possibilidade de evitar barricadas.

18 Maurizio Gribaudi confere-nos uma descrição pertinente, dando conta de como a construção dos novos boulevards parisienses de princípios do século XIX, juntamente com as suas actividades, cafés, teatros, bailes, por um lado estabelecem a formação de práticas e de imagens da nova modernidade, mas por outro contribuem para a perda da legibilidade da parte mais antiga da cidade. Gribaudi identifica essa divisão nos discursos produzidos entre finais do século XVIII e inícios de XIX, em que nos primeiros a cidade era vista como um todo, para posteriormente se focar no espaço e figuras sociais dos grandes boulevards e dos novos bairros da cidade (2008: 27-29). De destacar como a diferenciação económica e social é construída não só pelos discursos dominantes, mas também pelas práticas, por meio de reformas locais, promulgação de legislação e outros procedimentos burocráticos e técnicos (Hall 2002).

41 social, expresso por meio dos longos e largos boulevards. Similarmente a anexação das comunas mais próximas facilitava a extensão da autoridade de policiamento até um limite incerto da vida urbana, a partir do centro da cidade (Merriman 1991: 201). Resultou deste facto que determinadas desvantagens sociais introduzidas pelo poder, por via do urbanismo, tenderam a persistir ao longo do tempo e a incorporar-se, especialmente durante o século XX, nas enunciações sobre a cidade e regulamentos de edifícios (Hanson 2002).

Foucault procurando os rituais de exclusão na origem de projetos disciplinadores, observa que estes remontam à forma como as cidades, os governos e as instituições por meio de procedimentos claros de ‘poder’ reagiram às epidemias19. Contra o que a praga representava, a mistura, a disciplina traz para jogo o seu poder de análise. A praga se num primeiro momento gerou um modelo geral para o ‘confinamento’ e ‘controlo’, posteriormente deu origem a projetos disciplinadores. No lugar da divisão massiva e binária entre um conjunto de pessoas e outro, propôs múltiplas separações, distribuições individualizadoras, uma organização de vigilância, controlo e ramificação do poder (1997 [1977]: 358 - 359).

19 Tendo como base de análise uma ordem publicada no final do século XVII, com as medidas a tomar no caso de uma cidade ser tomada por uma praga, Foucault revela-nos as origens deste processo. O espaço é controlado por uma série de procedimentos de sindicância e policiamento. O espaço é dividido por sectores e cada rua é controlada. O espaço é ‘imobilizado’, ‘segmentado’ e ‘congelado’. Cada indivíduo é fixado num espaço, para evitar problemas de contaminação. A inspecção funciona incessantemente. Esta vigilância é baseada num sistema permanente de registo: relatórios dos responsáveis aos intendentes, destes aos magistrados e ao perfeito. Todos os habitantes são identificados por nome, sexo, idade e condição. Uma cópia é enviada ao intendente da zona, outra para a Câmara e outra para os sindicatos locais. Os magistrados têm um controlo completo sobre o tratamento médico. O registo da patologia assim como a evolução era constantemente centralizado e monitorizado. A descrição do espaço segmentado, observado em cada ponto, no qual os indivíduos são fixos a uma zona, em que todos os movimentos são registados, no qual um incessante trabalho de registo liga o centro e a periferia, no qual o poder é exercido sem divisão, de acordo com uma figura hierárquica, na qual cada indivíduo é constantemente alocado e examinado, no conjunto constituem um claro testemunho de ‘ordem’ como resposta à praga. Por meio desta estabelece-se as divisões de cada indivíduo, o seu lugar, o seu corpo, a sua doença e morte, bem como o bem-estar (Foucault 1997 [1977]: 356-357).

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