A consistência e evolução das grandes ideologias espaciais desde finais do século XIX assentaram largamente no pressuposto físico do planeamento urbano, como meio de melhorar as condições de vida social. Paradoxalmente os pressupostos dessas ideologias estiveram longe de obter os resultados desejados.
Frederico de Holanda (2002) refere duas tendências polares ao longo de toda a história das formas arquitetónicas, tendências que podem ser sintetizadas por meio do paradigma de formalidade e o paradigma da urbanidade. O interesse do uso das palavras ‘formalidade’ e ‘urbanidade’, segundo este autor, é o facto de expressarem ideias relativas ao espaço físico, portanto a padrões espaciais e ideias relativas a comportamentos humanos e consequentemente às formas de sociedade. Segundo este autor, estes paradigmas atravessam grandes intervalos de tempo e de lugar, e parecem estar relacionados com uma dimensão estrutural de ordem social que está nos modos de produção ou das formas de ordem política ou religiosa.
‘Formalidade’ vem de ‘formal’, relativo a forma – limites exteriores da matéria de que é constituído um corpo, e conferem a esse um feitio, uma geometria e um aspecto particular, observável. Por sua vez ‘urbanidade’ obviamente se refere à cidade como realidade física e geométrica, mas também topológica, que é o estudo das relações e portanto das qualidades espaciais que “independem da forma e do tamanho” (Medeiros 2013: 596). O paradigma de urbanidade está ligado à noção de padrão, configuração e genótipo e portanto implícito e abstrato. O paradigma de formalidade está antes ligado à noção de fenotipo e portanto aos fenómenos observáveis e visíveis do espaço urbano tais como dimensões, proporções, escalas, etc.
Consequentemente o paradigma da formalidade está focado no objecto e no edifício enquanto o paradigma da urbanidade está focado na cidade enquanto artefacto, na formalização do espaço público e nas relações sociais que este propicia. Estes dois paradigmas contrapõem ainda as noções de composição e configuração, forma e fundo, que se detalham especificamente no capítulo seguinte e que são aspecto fundamental da compreensão da teoria da sintaxe espacial.
56 As nocões de formalidade e urbanidade ajudam ainda a distinguir as formas de organização da cidade moderna da cidade tradicional pois estão associadas às nocão de objecto e espaço respectivamente. A grande diferença morfológica entre estes dois tipos de cidade é que enquanto na cidade tradicional, e portanto no paradigma da urbanidade, são os edificios que definem espaço, na cidade moderna, e portanto no paradigma da formalidade, os edifícios encontram-se soltos no espaço (Figura 2.8). Esta situação conduziu a uma ‘paisagem de objectos’ vs uma ‘paisagem de lugares’ (Holanda, 2002).
Figura 2.8 - Traçado urbano tradicional vs traçado urbano moderno. (a) Ajustamento entre edifícios e ruas. (b) Edifícios e ruas seguem as suas próprias formas dedicadas (Marshall 2005: 6).
De acordo com os princípios modernistas, a funcionalidade dos interiores dos edifícios era a principal determinante da sua forma exterior. “O exterior era o resultado do interior. Desenhados de dentro para fora e respondendo apenas às suas exigências funcionais, luz, ar, higiene, estéctica, movimento, controlo visual, etc. os edifícios tornaram-se esculturas, objectos no espaço meramente pelo resultado da sua organização interior”, (Carmona et al. 2003: 67).
Por outro lado e à larga escala, a cidade modernista defendia o espaço aberto, onde os edifícios se dispunham livremente no espaço em vez de o conterem. Le Corbusier, o arquitecto mais influente da cidade moderna, recusava liminarmente a rua tradicional, como as avenidas ou boulevards (Figura 2.9). Nas 17 gravuras da Ville Radieuse apresentadas por Le Corbusier no terceiro CIAM, em 1930, essa pretensão
57 fica claramente definida: “abandono do binómio: casa-rua: criação da função pura…” (Benevolo 1977:17). Este modelo foi aplicado, sob várias formas, nos planos urbanísticos de Le Corbusier entre duas guerras. Posteriormente, e em grande medida, influenciou o sistema de planeamento de muitas cidades a nível mundial.
Figura 2.9- Paradigma da formalidade: Uma paigem de objectos e a visão futurística de Le Corbusier -1922. Uma cidade composta por arranha-céus e auto-estradas sonhada num período em que as ruas eram dominadas por cavalos e carruagens (Marshall 2005: 46).
O desejo de separação foi reforçado pela saúde pública e pelas normas de planeamento tais como a densidade do zonamento, largura das ruas, linhas de vista, hierarquias e ângulos de iluminação natural. A mudança para edifícios autónomos foi seguida também pelo desejo de distinção – consequência de interesses comerciais do desenvolvimento da indústria e dos promotores. Os edifícios comuns podem assim posicionar-se de numerosas maneiras, separados fisicamente e destacados do contexto. Antes do período moderno, apenas alguns tipos de edifícios – igrejas, edifícios da câmara, palácios, etc. – usavam esse estatuto. Estes eram tipicamente edifícios ‘públicos’ em vez de privados, cujos interiores tinham algum significado para a cidade e para os seus habitantes.
Quando edifícios autónomos são construídos no espaço urbano tradicional, eles desafiam o tradicional sistema de quarteirão onde os edifícios eram adjacentes uns aos outros com a fachada virada para a rua. Com densidades otimizadas o tradicional sistema de quarteirão permitia associar frentes com frentes e traseiras
58 com traseiras enaltecendo a esfera pública. Neste contexto, cada edifício contribuía com a sua fachada principal e respectivas entradas para a constituição do espaço público aumentando assim o seu grau de urbanidade do espaço.
A combinação destas ideologias modernistas com as novas tecnologias e novos materiais de construção resultou num novo tipo de cidade, construída por espaços amorfos pontuados por edifícios comuns monumentais com características arbitrárias e desconexas, (Brand, 1994: 10). Na ausência da preocupação sobre o espaço entre os edifícios, os ambientes urbanos tornaram-se meramente uma colecção de edifícios individuais, (Carmona et al. 2003: 68).
Estas características, que caracterizam o paradigma de formalidade enunciado por Holanda (2002) dominam também e sobretudo, mas não exclusivamente, nos grandes conjuntos urbanos, objecto de estudo deste trabalho. O padrão espacial resultante traz profundas implicações no padrão social dos mesmos. Como afirma Bentley (1999: 125), o conceito de edifício autónomo e objecto escultural ignora a construção social de distinção entre frentes e traseiras, a qual é vital para o estabelecimento de condições de privacidade e na relação entre o domínio público e privado. O espaço beneficia em ter uma frente para o espaço público, para entradas, encontros sociais e atividades ‘públicas’ e do mesmo modo, das traseiras para actividades mais privadas. As traseiras devem dar para espaços mais privados e outras traseiras, ao passo que as frentes públicas devem dar para o espaço público e outras frentes. Mas num contexto de proliferação de edifícios em que todos pretendem ser singulares, o interface entre os mesmos, bem como os espaços públicos adjacentes, deixam de ser socialmente activos para se tornarem socialmente passivos (Carmona et al. 2003: 69).