Sendo o espaço configurado o primeiro objecto de análise em sintaxe espacial, tipicamente sob a forma de plantas de edifícios ou planos de uma cidade, a atenção das análises centra-se sobre a topologia desses espaços no lugar das propriedades geométricas. Este procedimento permite elencar de um modo mais eficaz a relação entre as observações empíricas e as análises topológicas, permitindo captar elementos sociológicos relevantes do espaço configurado. De modo a descrever essas relações topológicas a sintaxe espacial recorreu ao grafo como principal processo metodológico geral. Como refere Bafna (2003: 19), as análises topológicas são
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robustas e fidedignas relativamente às condições do espaço e, para além disso, permitem a articulação com ferramentas de análise quantitativa como a matemática discreta. Por meio da simples análise de grafos compostos por ‘nós’ e ‘ligações’, torna- se possível identificar atributos gerais do espaço em articulação com o seu conteúdo social. Ou seja, podem perceber-se noções como hierarquia, controlo, acessibilidade e profundidade por meio de uma simples planta de espaços (Figura 3.7).
A primazia do grafo coloca o problema metodológico de reduzir o espaço configurado a um grafo apropriado. Trata-se aqui de converter o espaço aberto contínuo em unidades discretas (elementares), de modo a que a configuração dos espaços aconteça naturalmente por meio da produção de limites deliberados (Bafna 2003: 21). Cada nó pode, por esse meio, ser associado a um rótulo de espaço. Neste ponto como é possível verificar, o grafo precisa de técnicas alternativas de representação abstracta. No lugar do espaço ser apropriado, por exemplo, por cada divisão de uma casa ou escritório, no caso de um edifício, o espaço pode ser decomposto em polígonos convexos (explicado em seguida). O mapa de convexidade de um sistema urbano permite a visualização de propriedades locais de um sistema, nomeadamente as relações sociológicas num plano, quanto a questões de permanência e contiguidade com os edifícios em torno de cada espaço convexo. Outra forma de representação é o mapa axial, que ao contrário do mapa anterior, confere uma visualização das propriedades globais do sistema. Este mapa linear, tem sido reconhecido pelos investigadores de sintaxe espacial, como o que melhor se correlaciona com questões de movimento pedestre (e até do movimento veicular) na cidade (Conroy 2001).
A relação entre os espaços convexos e axiais está implicitamente relacionada com a configuração dos edifícios e outras barreiras, como jardins, cercas e outros elementos, portanto confere-nos importantes indicadores sobre como as habitações, lojas, edifícios públicos se posicionam relativamente a eles, se são adjacentes e se estão ligados directa ou indirectamente, resultando daí o entendimento sobre o maior ou menor grau de constituição de um espaço. Segundo Hillier & Hanson: “o sistema de espaços axiais e convexos pode ser discutido em termos das suas configurações,
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em relação entre si, em relação com os edifícios que definem o sistema e em relação com o mundo fora do sistema” (Hillier & Hanson 1984: 92).
A teoria de sintaxe espacial, tal como se referiu anteriormente, está relacionada com a ideia de espaço enquanto sistema configuracional. Importa, por isso, clarificar melhor o conceito de configuração tal como ele é usado no contexto da sintaxe espacial.
Configuração consiste nas relações das partes e a sua posição relativa no sistema como um todo. Se por relações espaciais entendermos as situações em que existe algum tipo de ligação – de contiguidade ou permeabilidade - entre dois espaços, então configuração existe quando as relações entre dois espaços se alteram, ou seja quando relacionamos um ou outro, ou ambas, com pelo menos um outro espaço (Hillier 1996: 24). Considere-se, a título de exemplo, os dois espaços da Figura 3.2 a). Ambos estão conectados e têm uma relação recíproca. O espaço A relaciona-se com o espaço B, tal como o B se relaciona com o A. Diz-se então que as relações são simétricas. Se adicionarmos um terceiro espaço, como na Figura 3.2 b), as relações entre cada um são recíprocas e do mesmo modo que na ilustração, anterior as relações são simétricas. A relação entre A e B é simétrica com o espaço C e B e assim por diante, diz-se neste caso tratar-se de uma estrutura anelar (ringness). A situação altera-se na Figura 3.2 c). Neste caso, as relações entre A e B mantém-se recíprocas, mas com respeito ao espaço C, A e B apresentam diferentes posições no sistema. Por outro lado, para chegar a C, teremos que passar inevitavelmente por B e o mesmo acontece se quisermos passar de C para A. Diz-se neste caso, que as relações são assimétricas. Este tipo de relação implica alguma noção de profundidade (depth), uma vez que se tem sempre que passar por um terceiro espaço, para ir de um espaço a outro.
75 Figura 3.2 – Três conjuntos de espaços ilustrando o conceito de configuração (Hillier 1996).
Esta diferença, a assimetria da posição relacional dos espaços no sistema como um todo, é o padrão configuracional e o sistema pode ser descrito por meio de um sistema de nós e conexões (grafos), como acontece na figura Figura 3.2 d). Estes sistemas de conexões revelam as diferenças de configuração, em que a forma ou o tamanho é irrelevante.
O exemplo da Figura 3.3 permite-nos perceber um conjunto complexo de relações e como estas podem ser um excelente indicador para informar a análise de sistemas espaciais, neste caso com respeito a um edifício.
Na figura apresentam-se edifícios geometricamente similares definidos pelas suas fronteiras físicas (esquerda) a sua forma espacial (meio) e pelo seu sistema configurativo como grafo justificado (direita). É de notar como edifícios tão similares formal e geometricamente, são tão diferentes quando analisados do ponto de vista configuracional. As possibilidades de uso nos três edifícios, será também muito diferente, quer em termos de movimento pedestre quer em termos de distribuição dos espaços público-privados.
Para ilustrar de uma maneira mais precisa a relação entre o plano e a ideia de configuração, considere-se a Figura 3.4. A figura destaca a similaridade topológica por detrás de vários esquemas geométricos utilizados pelo arquiteto Frank Lloyd Wright no projecto de três casas Usonian. As casas apresentam três tipos de geometrias particulares: uma ortogonal, outra circular e outra ainda triangular/hexagonal, no
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entanto o grafo que mapeia as relações de acessibilidade entre os espaços individuais da casa permanece o mesmo (Bafna 1999: 01 1). Ao contrário do que se sucede na Figura 3.3, em que edifícios geometricamente similares apresentam relações topológicas distintas do ponto de vista configuracional, neste caso a situação é precisamente a inversa.
Figura 3.3 – Um ‘edifício’ geometricamente similar descrito pelas suas delimitações físicas. Esq. – a forma espacial; Meio – o sistema configuracional; Dir. – o grafo justificado (Hillier 1996)
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Esta situação vem confirmar o valor próprio por direito das descrições topológicas com respeito aos atributos formais do espaço construído. Dois aspectos particulares destacam-se de acordo com Bafna (1999: 01 2). Primeiro, a topologia dos planos oferecem uma chave para a forma como se acomodam os padrões de habitação e uso. Tais padrões, em geral, parecem ser menos dependentes de altos atributos geométricos, tais como a forma e dimensão dos espaços, do que da maneira como estes se juntam e se conectam uns com os outros. A intrínseca similaridade da estrutura topológica nas três casas de Frank Lloyd Wright refere-se claramente a factores sociológicos comuns e desse modo aos requerimentos programáticos da habitação. Segundo, as inúmeras possibilidades de planos tendo em conta os constrangimentos estritamente geométricos: quanto mais longe são consideradas as altas propriedades geométricas, maior o número de variações dos planos; mas uma vez limitada a descrição ao espaço topológico, as variações caem ao nível das classes discretas. Uma descrição topológica pode fornecer um bom primeiro nível para uma primeira classificação do espaço.
Figura 3.4 – Três casas de Frank Lloyd Wright como planos e sistemas configuracionais (March & Steadman 1971: 27-28).
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O conceito de configuração espacial e o conceito de profundidade (depth), ou a relação de um espaço com todos os outros no sistema, constituem abordagem primordial ao espaço, o qual pode ser matematicamente analisado por meio do método de grafos, permitindo daí retirar informações complementares de análise. Adiante abordaremos em maior detalhe esta técnica de análise.