A filosofia de ‘unidade de vizinhança’ designa a criação de uma comunidade fisicamente delimitada e corresponde à ‘unidade do bairro’ identificada por Kevin Lynch como elemento fundamental do modelo de cidade organismo analisado no ponto 2.6 deste capítulo. A influência generalizada deste conceito como modelo de
21 As experiências de bairros dirigidos às classes operárias constituem a partir de meados do século XIX uma preocupação em termos de política social. A criação de Comissões como a The Royal Comission on the Housing of the Working Class, em 1885, antecedem a construção de alguns exemplares, que permanecem como ‘modelos de habitação para as classes operárias’. Entre outros, o ‘Modelo de Casa para Famílias’ sob patrocínio filantrópico, desenvolvido pelo arquitecto Henry Roberts (1803-1876), em Streatham Street Bloomsbury (1847-50), conheceu incrível divulgação. O bairro de classes operárias da Empresa Peabody Trust, projecto do arquitecto Henry Darbishire (1825-1899), por volta de 1860, propõe uma série de grandes blocos rectangulares, de formas limpas, sem ângulos reentrantes, faceando de um dos lados a rua e do outro um largo pátio privado, como a organização mais saudável, acessível e segura de alojar as classes operárias urbanas (Hanson 2000: 100). Esta influência chega também ao Continente sobretudo a países como a França e Alemanha. Em Paris as preocupações faziam-se sentir, sobretudo pelos imensos bairros de operários sem condições construídos nos fauborgs. A Cité Napoléon, projecto do arquitecto Marie-Gabriel Veugny (1785-1856), na Rue Rochechouart (1849-1851), pretendia estabelecer um ‘modelo’ passível de replicação (Pinon 2002:31).
45 desenho residencial familiar vai permanecer, segundo Banerjee e Baer (1984), por mais de cinquenta anos entre planeadores, promotores e arquitetos como ‘bloco básico de construção’22 da cidade.
A conceptualização do conceito de unidade de vizinhança em pleno século XX, à semelhança do Familistère de Godin e das demais experiências de alojamento operário da segunda metade do século XIX, atrás comentadas, constituiu também um produto de múltiplas forças institucionais, sociais e de desenho da sua época. Em ambos os casos observam-se preocupações comuns, como a associação entre valores sociais (de intentos reformistas) e conceitos espaciais (Hillier 1988).
O conceito de unidade de vizinhança foi inicialmente desenvolvido por Clarence Perry (1872-1944) e apresentado como parte do Regional Plan of New York and its Environs, em 192923. Este representava um ideal de vizinhança residencial
como uma unidade física definida, cuja zona central estava equipada com escola, igreja e zonas de recreio. O desenho deveria permitir aos residentes não andar mais que um quarto de milha (cerca de 400 metros), para alcançar as artérias mais importantes (Figura 2.4). As ruas que permitiam a entrada de tráfego motor eram desencorajadas e relegadas para o perímetro, assim como as zonas de comércio, permitindo aos pedestres caminhar livremente no interior da unidade. Para a implementação deste conceito, Perry sugeria uma área de desenvolvimento aberto não inferior a 160 acres. Cada unidade de vizinhança deveria ter população suficiente para conter uma escola ou seja aproximadamente entre 5.000 e 9.000 habitantes. Esta unidade deveria conter um centro comunitário, envolvendo igualmente um espaço para igreja e 10% da área total destinados a parques e espaços verdes (Perry
22 Esta afirmação tem como referência o estudo desenvolvido pelos autores sobre a unidade de vizinhança na área de Los Angeles (Banerjee e Baer 1984).
23 O conceito de ‘unidade de vizinhança’ tinha sido apresentado por Clarence Perry, em 26 de Dezembro 1923, numa reunião conjunta do National Community Center Association e The American Sociological Society em Washington, D.C. Na mesma reunião Robert E. Park (1864-1944) apresentou uma participação sobre Concentric zones theory form (Lawhon 2009).
46 1929). Estes elementos constituíam o ‘template’ do desenho primário dos novos conjuntos residenciais (Rohe 2011).
Figura 2.4 - Diagrama da unidade de vizinhança, (Perry 1929)
O conceito de unidade de vizinhança de Perry assenta, por sua vez, em múltiplas influências teóricas e práticas. Grupos como os Settlement House Movement24 (1860) e o Comunity Center Movement25 (1914), nos Estados Unidos,
enunciavam aspetos relevantes sobre o sentido de coesão comunitária: o primeiro
24 Este movimento foi concebido pela primeira vez em 1860 por um grupo proeminente de reformistas Britânicos, como John Ruskin, Thomas Carlyle, Charles Kingsley e os designados Christian Socialists. Estes eram constituídos por um grupo de classe media idealista que apelava em favor das condições da classe trabalhadora, contendo uma forte moral optimística fortemente marcada pelo impulso da Era Romântica (Scheuer 1985).
25 Este movimento foi criado em Washigton em 1914. O conceito de Unit Plan como centro de comunidade apresenta fortes similaridades com a conceptualização da unidade de vizinhança de Clarence Perry. A intenção passava igualmente por criar comunidades com fortes laços sociais e necessidades comuns (Bushnell 1920).
47 grupo atribuía valor às zonas recreacionais e ao espaço aberto como componentes importantes da unidade de vizinhança; o segundo grupo via um papel alargado do espaço da escola para atividades sociais, políticas e físicas, complementares ao ensino. A escola, na perspetiva de Perry, mantêm este duplo papel ligado ao ensino e ao reforço do sentido de comunidade na unidade de vizinhança. É no entanto de salientar a influência fundamental da teoria de “grupos primários” do sociólogo Charles Horton Cooley (1864-1929), no qual se incluía a família, grupos de jogo de crianças e vizinhança, (Cooley 1909; Lowhan 2009).
Experiências de urbanizações como Forest Hill em Queens Boroughs, Nova Iorque (1909-1914), promovida pela Sage Foundation Company, constituem a base de investigação empírica que permitiu a Perry explorar o conceito de vizinhança em termos de desenho físico, ancorado ao tema da ‘cidade jardim inglesa’, bem como ao seu ambiente agradável e ajardinado. Alguns conceitos de desenho, como a definição da zona central, a introdução de ruas curvas e os cul-de-sac (impasses), têm como referência a cidade jardim de Letchworth (1903) e o subúrbio jardim de Hampstead Garden (1907) em Londres. A influência teórica de Ebenezer Howard, especialmente da obra Tomorrow. A Peaceful Path to Real Reform, publicada em 1898 e refinada por Raymond Unwin, constituem uma referência do ambiente físico desejado por Clarence Perry. A cidade jardim permitia amenidades que não eram comuns nos centros urbanos. Segundo Yi-Fu Tuan (1974), considerava-se que os benefícios da natureza sobre a saúde e a moral eram importantes, assim como a conceção arquitetónica da comunidade sob o comportamento social.
Radburn em New Jersey (1929), desenvolvida pelos arquitetos Clarence Stein e Henry Wright e que contou com a participação de Perry, constitui o ensaio pioneiro onde se ligam de forma mais expressa os conceitos teóricos da unidade de vizinhança com o desenho residencial. Nela os autores exploram em maior profundidade elementos que se tornaram determinantes na definição de desenho físico da unidade de vizinhança, designadamente a teoria da hierarquização de ruas, refinada a partir do sistema de ruas da cidade jardim inglesa. O resultado foi a criação de um sistema de ruas interno que desencorajava o tráfego e minimizava a influência do automóvel na vida de vizinhança. O objetivo era reforçar a interação entre residentes. A
48 vizinhança deste modo era definida fisicamente por artérias maiores, que formavam as fronteiras da unidade, (Figura 2.4).
A grande versatilidade de adaptações do conceito de unidade de vizinhança explica o seu uso privilegiado após a Segunda Guerra. A compatibilização com os princípios funcionalistas permite a separação de funções e diferenciação dos usos do solo, quanto a atividades habitacionais, recreacionais, trabalho e circulação. O tamanho podia variar em função das normas dominantes na época e a influência do clima económico e político corrente.
Muito embora a unidade de vizinhança gozasse de uma aplicação generalizada, esta foi historicamente acompanhada por controvérsia. No lugar de ser uma aplicação do desenho físico para alcançar fins sociais, o conceito de unidade de vizinhança é, segundo Banerjee e Baer, “uma expressão tridimensional de crenças culturais e intelectuais subjacentes, que prevaleceram no pensamento da América reformista de transição de século” (1984: 17).
A ideologia do grande conjunto pressupõe a criação de relações sociais próximas, tendo como fundamento os pressupostos da unidade de vizinhança. No entanto e paradoxalmente, como notam Jean Claude Chamboredon e Madeleine Lemaire (1992 [1970]), a proximidade espacial confirmou em muitas situações o distanciamento social26. Como escreve João Pedro Silva Nunes: “As diferenças mostram como o grande conjunto residencial se impõe de modo desigual para diferentes populações – em termos de classe social, de estatuto de ocupação do alojamento e trajetória residencial passada…” (2011: 55).