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The four Ps of media innovation

3.2. Media innovation

3.2.1. The four Ps of media innovation

A ideologia do grande conjunto surge associada à ideia de ordem e controlo urbano e territorial como resposta à grave crise de alojamento no início do Séc. XX e

32 aos problemas de habitabilidade da cidade existente do mundo industrializado, (Lacoste 1992: 499).

O conceito de grande conjunto é genericamente usado para designar uma área urbana resultante de um plano de conjunto urbano e arquitetónico com função iminentemente habitacional. Com limites bem definidos e fraca diversidade formal e funcional, destaca-se e ou separa-se claramente da sua envolvente urbana e ou territorial. A variedade de conceitos e designações revela a enorme dificuldade na sua identificação. No entanto, as principais ideias e conceitos urbanísticos subjacentes estavam já em desenvolvimento desde os finais do século XIX (Choay 1965; Hall 2002). O termo grande conjunto deriva do francês grand ensemble e está normalmente associado ao movimento moderno do urbanismo e da arquitetura. O conceito foi cunhado por Maurice Rotival (1897 - 1980), urbanista francês, que num artigo editado em 1935 na revista L’Architecture d’Ajourd hui5 o utiliza para designar

um novo movimento urbano baseado na Carta de Atenas6 (Merlin 1973; Fourcaut e Dufaux 2004; Bertho 2014).

Exemplos internacionais e experiências francesas de vanguarda arquitetónica aparecem como referências simbólicas deste movimento. O modelo da Cité de la Muette em Drancy (1931-1935), projeto dos arquitetos Marcel Lods (1891-1978) e Eugène Baudoin (1898-1983), é apresentado como experiência pioneira (Figura 2.1 e Figura 2.2).

5 “Les grands ensembles. Problème général et implantation des cites. Aménagement des cites”. L' Architecture d'Aujourd'hui, n.º 6, (vol. 1), pp. 57-72. Sobre a história do grand ensemble no contexto francês, ver o dossier coordenado por Annie Fourcaut (2002) “Le grand ensemble, historie et devenir”, Revue Urbanisme, n.º 322 (Jan. – Fev.), pp. 35-89.

6 A Carta de Atenas foi adaptada em 1933 para a reunião do Congresso Internacional de Arquitectura Moderna (CIAM). Mantida inicialmente confidencial, foi publicada e modificada por Le Corbusier em 1941, sobre o título, “La Ville Fonctionnelle” e finalmente lançada na sua versão original em 1958 (Bertho 2014). Em Portugal foi publicada parcialmente em 1944 na revista Técnica, n.º 147 (Maio), pp. 907-914, com o título de “Urbanismo”.

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Figura 2.1 - Rotival, M. 1935 “Les Grands Ensembles”, Architecture d'Aujourd'hui, n° 6 (vol. 1, Jun. 1935), p. 56.

Figura 2.2- Cité de la Muette em Drancy. Postal de época, http://www.pss-archi.eu/forum/viewtopic.php?id=33788

34 O grande conjunto como estratégia de urbanização dissemina-se sobretudo a partir de finais da segunda grande guerra, período em que a técnica aliada à industrialização e ao Estado Providência permitiu a construção em massa de um número notável de casos (Hobsbawm 1999; Acher 1998).

Embora a assimilação do conceito de grande conjunto como objeto urbano seja mais evidente no vocabulário corrente francês, a sua definição é pouco clara. Pierre Merlin coloca como critério de classificação o tamanho:

“Il ne existe pas de définition du ‘grand ensemble’. On designe généralement sous ce vocable les opérations de construction de grand taille, grupant au moins 500 logements, cette limite n’ ayant qu’ un caractere indicatif…” (1973: 23).

Yves Lacoste (1992 [1963]) evidencia, por outro lado, que a caracterização do ‘grand ensemble’ não passa exclusivamente pelo número de alojamentos. O autor assinala também como critério, o planeamento unitário do espaço urbano, da arquitetura e da construção. Salienta ainda vários tipos de ‘alojamento em massa’, designadamente os loteamentos de habitações unifamiliares, mas nota igualmente o sentido de ‘unidade’ e ‘autonomia’ para com outras operações urbanas não planeadas:

“Le grand ensemble apparaît donc comme une unité d’ habitat relativement autonome formée de bâtiments collectifs, édifiés en un assez bref laps de temps, en fonction d’ un plan global que comprend plus de 1000 logements environ. Théoriquement, seraient à exclure de ces grands ensembles véritables, voulus comme tels, les nombreaux conglomérations inorganiques formés pour la coalescence fortuite ou non de plusieurs petites opérations immobiliéres justaposées”, (Lacoste 1992: 500).

O grande conjunto, como política urbana, implicou a condenação de modelos urbanos precedentes. A condenação serviu para legitimação de edifícios coletivos, por reação à disseminação das habitações unifamiliares no período entre as duas guerras7. A mesma sorte recairá mais tarde sobre os grandes conjuntos, aquando do

7 Henry Lefebvre (1992 [1966]) desenvolve um estudo crítico sobre a construção unifamiliar na sociedade francesa no contexto após a Segunda Guerra, “Introduction à l’ étude de l’ habitat pavillonnaire”. Sobre o

35 lançamento da política das “villes nouvelles” em 1973, instituída pela circular Guichard (Fourcaut 2006).

O número crescente de alojamentos construídos ao longo da década de 19608 apontam para o grande conjunto como sinónimo de habitação social. Tanto os ‘grand ensemble’9 franceses, como os ‘housing states’10 ingleses se ligam a programas de

apoios estatais pré-estabelecidos11. Tendo como referência os ‘housing estates’, Julienne Hanson (2000), conclui que estes não são considerados uma morfologia de classe média. No entanto, existem variações, como apontam o caso português e espanhol, em que o sector privado desenvolveu iniciativas destinadas especificamente para a classe média, (Pereira 1994; Nunes 2011; Amador Ferrer 2008). Existem, portanto, variações quanto à interpretação dos grandes conjuntos no que respeita à sua orientação para diferentes classes sociais (Banerjee & Baer 1984).

O grande conjunto resultava dum processo unitário que englobava o projeto, a construção e a gestão (Solà - Morales i Rubio 1997: 91). Tal fato reforçava os atributos de unidade e autonomia do conjunto habitacional: “A construção

efeito de estigmatização da habitação unifamiliar na sociologia, ver Susanna Magri (2008) ‘Le Pavillon Stigmatisé. Grands Ensembles et Maisons dans la Sociologie des annés 1950 à 1970’, L´Anné Sociológique, 1 (vol. 58).

8 Em França durante a década de 1960 foram construídas em média 300.000 habitações por ano, 90% das quais suportadas pelo Estado (Fourcaut 2004: 16).

9 O grand ensemble é indissociável no contexto francês de programas estatais dedicados a habitação a custos controlados. Entre os mais importantes contam-se Habitation à Bon Marché (1894), mais tarde Habitation à Loyer Modéré (1949) e Zone à Urbanizer en Priorité (1959).

10 De acordo com o Oxford Dictionnary: “Housing estate - area in which a number of houses for living are planned and built together” (1989: 606). O desenvolvimento deste programa remonta ao The Housing of the Working Classes Act, criado em 1890, conhecendo maior desenvolvimento entre as duas grandes guerras, com a criação do Housing Town Planning Act, em 1919, onde se determinava que o Estado devia providenciar os meios e as condições para o alojamento e que deveria competir às autoridades locais lidar com o problema (Both 2003). Estes terão maior repercussão na zona de Londres ligado ao London Council Housing.

11 Em Portugal ligam-se particularmente ao Decreto-lei 42.454 (1959), o qual estabelecia um programa público de ‘unidades urbanas’ a serem construídas no concelho de Lisboa (Baptista 1999; Nunes 2011).

36 industrializada conduz, pela necessidade de maior produção, às grandes realizações, que por sua vez implicam um estudo de conjunto, que leva à resolução de todos os problemas técnicos e económicos e sociais….” (Pinto 1968: 154).

As políticas urbanas após Segunda Guerra no domínio do ordenamento do território e planificação urbana desejavam pôr em prática uma gestão controlada do desenvolvimento urbano nas periferias por meio da proposta de grandes conjuntos habitacionais12. A aquisição ou expropriação de extensas áreas, a preços reduzidos e a criação de unidades residenciais definidas e compactas, permitia impedir a dispersão de múltiplas operações casuísticas. O enquadramento destas formas urbanas no âmbito dos planos diretores era teorizado como uma estratégia de desenvolvimento urbano. Estes tinham ainda a enorme vantagem, como refere Amador Ferrer, de ultrapassar os constrangimentos relativos aos velhos tecidos urbanos,

“ofrecían un marco más ágil a la construcción masiva de viviendas, la incorporación de promociones de mayor tamaño y una mayor libertad de ordenación y proyecto que evitaba las limitaciones derivadas de la convivencia con los viejos tejidos.” (Amador Ferrer 2006: 538).

Mas a ideia de autonomia do conjunto habitacional unitário não resultava apenas da construção dum plano de massa. Ela era reforçada pelas infra-estruturas de apoio e equipamento: “A operação de edificação pressupunha a reunião de edificado residencial disposto em proximidade, servido por vias de circulação internas, por redes infra-estruturais e pelos equipamentos tidos como necessários” (Nunes 2011: 41).

12 No Plano Director de Desenvolvimento Urbanístico da Região de Lisboa (1960), embora se procure dar uma resposta a solicitações de urbanizações de grandes conjuntos de iniciativa privada, exteriores às zonas dos planos de urbanização legalmente previstos (Oliveira 1959), a orientação estratégica baseia-se na constituição de ‘aglomerados autónomos’. Posteriormente no Plano Director da Região de Lisboa (1964) o conceito de ‘polinucleação’ orienta este entendimento no sentido de reforçar centros urbanos preexistentes (Bruxelas 1964; Rezende 1967).

37 O recurso a conceções arquitetónicas e urbanísticas de matriz funcionalista com a incorporação de novos tipos arquitetónicos como o bloco de habitação linear, a torre ou casas geminadas provenientes do urbanismo moderno, comutava com as necessidades de construção massiva do alojamento e a introdução de modelos de estandardização aplicados à construção, contribuindo assim para a noção de entidade urbana definida e delimitada.

Mas são as ideologias da relação espaço-sociedade, adiante designadas por cidade capitalista, espaço panóptico, unidade de vizinhança, espaço defensável e urbanidade-formalidade, tratadas por diferentes autores, que do ponto de vista desta investigação melhor caracterizam o objeto de estudo dos grandes conjuntos urbanos.