Genótipo e fenótipo são termos derivados da biologia, adotados pelos estudos urbanos, que se referem a aspetos da organização espacial. O genótipo refere-se àquelas características intrínsecas e comuns de certos tipos de assentamentos humanos que não são observáveis e portanto consideradas abstratas. O fenótipo refere-se, por sua vez, àquelas feições particulares e observáveis que distinguem um assentamento de outro (Bafna 2012; Medeiros 2013).
A variabilidade de conceitos e de formações espaciais ao longo do tempo permitem-nos entender que as estruturas se alteram, desaparecem ou são reinventadas (Figura 2.10). O alcance das ideias discursivas e as suas manifestações espaciais ajudam num contexto de análises sistemáticas a discernir que a ideia genotipica do grande conjunto foi baseada num conjunto assunções paradigmáticas. A identificação de um grupo social específico com certas características podia disciplinar (teoria da reforma social), assegurar comunidade (unidade de vizinhança) ou facilitar uma transição de um espaço comum congenial (que partilha o mesmo género) para um espaço social maior (teoria da territorialidade), (Psarra 2012).
Figura 2.10 – Hulme, Manchester. “Patterns of revolution and counter-revolution”. Esquerda: Hulme no Século XIX; Centro: Hulme nos anos 1960’; Direita: Hulme em 1990 (Marshall 2005: 9).
Embora estas ideias possam encontrar aplicação em diferentes ambientes físicos e contexto sociais, de cada vez com diferentes propósitos, todos partilham um
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princípio comum: De que existe um efeito da organização espacial no comportamento de um grupo social e por implicação um impacto do espaço na sociedade (Psarra 2012).
Hillier identifica as características formais e espaciais recorrentes, cuja ampla divulgação tendeu a conferir aos grandes conjuntos uma certa universalidade, que compele a olhá-los como paradigmas do genótipo modernista. Neste contexto, o autor define os termos enclausura, repetição e hierarquia, como meio de discutir as características do desenho urbano moderno (1989: 19). Tais princípios rematam de uma forma conclusiva este capítulo e resumem a história de uma ideologia urbana.
A enclausura é o conceito através do qual os elementos e as entidades espaciais são definidos quer à escala global, quer à escala local. Tal facto significa que o espaço é definido como distinto dos restantes. À escala global, o grande conjunto forma uma unidade identificável e distinta da estrutura global da cidade, muitas vezes limitada por grandes vias de tráfego que reforçam a sua enclausura. À escala local é no desenho da própria unidade de vizinhança, detalhada anteriormente, que podemos buscar o limite dessas unidades distintas. Já ao nível do espaço público podemos falar de uma unidade de espaço aberto mais ou menos rodeado por edifícios, adiante designada por espaço convexo ou espaço positivo (Figura 3.6, página 79). Socialmente significa que esses edifícios e os seus habitantes têm uma relação especial com esse espaço, uma relação que é definida em termos de identidade. Socio-espacialmente significa que os habitantes se identificam uns com os outros, por meio de uma identidade partilhada nesse espaço fechado. Esta característica do espaço, muito explorada pelas ideologias modernistas e expressas anteriormente na ideia de unidade de vizinhança, espaço panóptico e espaço defensável teve no entanto resultados contraditórios: Estes espaços estão muitas vezes vazios de pessoas, nomeadamente de visitantes, uma vez que estão segregados dos padrões de movimento natural na escala maior da paisagem urbana; e de habitantes, porque as pessoas são forçadas a encontros diretos no espaço e em circunstâncias onde a ausência de estanhos também implica a perda de anonimato urbano, o que reforça os comportamentos de evasão advertidos. A enclausura espacial praticada nestes termos, normalmente nega a comunidade espacial (Hillier 1989).
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A repetição constitui o princípio regulador a partir do qual um sistema espacial como um todo é gerado por adição das partes (cidade máquina de Kevin Lynch, Figura 2.6, página 52). São estruturas geométricas que envolvem a repetição modular que dominam e racionalizam o espaço através da hierarquia e a partir duma geometria e ordem global que se impõe de cima para baixo e no sentido do todo para as partes. A repetição está associada à produção rápida e económica de espaços habitáveis.
Socialmente estamos face a uma sociedade segregada, isto é, uma sociedade composta por subunidades separadas mas idênticas, cuja integração na sociedade em geral acontece por meio de identidades simbólicas, no lugar de ser por meio de integrações espaciais de interdependências práticas. Este processo, segundo Hillier, relembra o conceito referido de ‘solidariedade mecânica’, com a adição da ideia de que as identidades simbólicas de grupos segmentários provêm em primeiro lugar da identidade espacial (Hillier 1989: 20).
Por último, a hierarquia constitui o princípio pelo qual a agregação das partes locais é atribuída de uma forma ordenadada globalmente. A implicação social, em paralelo, é que quanto mais elevada a aplicação de ordem em termos espaciais, maior identificação social de grupos ordenados, que à menor escala, conecta esta distinta identificação com a separação de um todo urbano maior (Hillier 1989: 20).
A ideia de hierarquia como um princípio globalizante confirma, nas palavras deste autor, a ascendência da geometricidade sobre a espacialidade. Cria uma superfície urbana que tem conceptualmente inteligibilidade ao nível do desenho de projeto ou quando observada de cima, mas que tende a anular a inteligibilidade espacial do local, que é a essência da cidade tradicional. Destrói igualmente o potencial de interação da comunidade por meio da quebra do interface dos edifícios com o espaço público - rua. A sobre-localização do elemento espacial primário: enclausura, limita o escopo da comunidade virtual a um grupo pequeno de vizinhos. Provém daqui, em larga medida, o princípio de correspondência entre grupos de pessoas e espaços, que acabou por conduzir aos valores dominantes de enclausura e identidade como virtualidades arquitetónicas. Em essência as transformações modernas da cidade contribuíram para a perda da emergência de uma ordem global
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a partir das partes locais. É esta perda, que na opinião de Bill Hillier, está na raiz da corrente preocupação com o monumentalismo (Hillier 1989: 20).
A essência das transformações modernas da cidade é a perda da sua ordem global que deriva do modo como as suas partes locais são definidas pelos termos formais e espaciais anteriormente designados por enclausura, repetição e hierearquia.
Este conjunto de características tal como tem sido aplicado nos grandes conjuntos tem como efeito uma quebra na ordem global da cidade pois todos pretendem ser espaços de excepção dentro dessa ordem global no lugar de contribuir para ela. Bill Hillier designa esse efeito por ‘monumentalidade’ que está associado ao princípio de identidade simbólica que funciona na prática arquitetónica como um importante fator de diferenciação30. Trata-se de uma estrutura que é adicionada à cidade, como uma região à parte fragmentando o todo inteligível (Hillier 1989: 20)
Apesar da ideia de unidade residencial definida a partir dos princípios de enclausura, repetição e hierarquia que permitem a criação de uma unidade territorial delimitada como um sistema urbano31 bem definido, o efeito de monumentalidade referido está intimamente relacionado com a ideia de um conjunto que procura
30 Norberg – Schulz (1963) propõe a distinção entre o que designa de ‘utilitário’ e ‘monumental’ em arquitectura. No primeiro conceito a arquitectura é determinada pelas necessidades do meio físico, ao passo que no segundo a arquitectura é determinada por um meio simbólico. Esta distinção pretende destacar a importância do factor simbólico em arquitectura em relação a um mero edifício utilitário. De algum modo estas palavras encontram eco nos escritos de Ludwig Wittgenstein sobre arquitectura: “Architecture immortalizes and glorifies something. Where there is nothing to glorify there can be no architecture” (1997:74). Trata-se aqui de notar duas perspetivas sobre a complexa relação entre a arquitetura e edificação. Remetendo-nos para a dificuldade que persiste em definir arquitetura.
31 Importa clarificar o sentido do conceito de sistema urbano utilizado neste contexto. Sistema consiste num conjunto de componentes interdependentes formando um todo integrado ou um conjunto de elementos (melhor designados por componentes) e as suas relações. A conceção teórica de conjunto habitacional, oriunda dos fundamentos do planeamento moderno de inícios do século XX, expressa consideravelmente o princípio de sistema fechado como uma área territorial definida, pelo menos do ponto de vista físico, com uma fronteira ou limite identificável, que separa desse modo a área interior da área envolvente.
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coerência e equilíbrio nos seus elementos internos, mas desvinculados do ambiente envolvente.
Esta situação acabou por inevitavelmente fortalecer o efeito de segregação urbana desses conjuntos que acabaram por converter-se em sistemas de origem- destino (Hillier 2007: 134).
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