6 Finansiering av narkotikamisbruket
6.5 Salg av narkotika ("dealing")
Em diversos trechos do discurso do Corpo Diretivo, é possível identificar uma estreita relação entre as razões alegadas para a criação do Centro e a crise da psicanálise. Senão vejamos:
“... mas o objetivo está bem em função de uma política que é da Associação Psicanalítica Internacional, a IPA, preocupada especificamente com a questão de que a psicanálise comme il faut, como se entende, de quatro vezes por semana, dentro do referencial proposto, das exigências da formação, estava muito restrita a analistas, e não era uma opção de busca das pessoas da comunidade, comuns.”
“ (...) tudo dentro de uma política que não é local, é internacional, da IPA, de tornar a psicanálise mais conhecida para enfrentar essa crise que é de desconhecimento da psicanálise e também das forças da psiquiatria, (...) que torna a psicanálise uma coisa meio assustadora para as pessoas, rara, de muito tempo.”
Os motivos explicitamente relacionados às recomendações da IPA, porém, não escondem a constatação de que a crise não se restringe a uma questão interna à própria psicanálise, mas sinaliza sua perda progressiva de legitimidade enquanto opção terapêutica. Neste sentido o trecho seguinte é paradigmático:
“(...) é um empobrecimento porque, na verdade, a gente percebe isso aqui de maneira quase caricata. Até no meio médico a psicanálise... é uma coisa assim: quatro vezes por semana parece que é do tempo do Freud e só.”
Nessas menções à crise, encontro uma formulação, não manifesta, dapsicanálise identificada com a clínica-padrão e apresentando problemas em sua prática. No trecho que selecionei abaixo, porém, a crise é explicitamente relacionada à separação que ocorre entre o conhecimento psicanalítico possível e as condições nas quais sua prática é realizada, ressaltando a necessidade de repensá-las:
“(...) A psicanálise enquanto conhecimento, enquanto corpo teórico que surgiu para dar conta de certa dimensão da humanidade moderna, (...) eu acho que não está morta. Ao contrario, está muito viva. Agora, as condições de sua prática, isto é outra coisa. São questões de outra natureza, de como a psicanálise vai ser consumida no mercado produtivo (...) não é da natureza do conhecimento. (...) O conhecimento psicanalítico não tem que mudar; ao contrário, ele está extremamente vivo (...)
Podemos ler nos documentos oficiais da criação do Centro uma referência específica à crise. Em trecho das considerações iniciais do ‘Anteprojeto para a Implantação de um III Setor na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo’, reproduzido abaixo, menciona- se a diminuição da procura por análise como fator de encolhimento do mercado de trabalho dos analistas:
“Mesmo nos setores envolvidos, de alguma forma, com a área da saúde mental, como os médicos, estudantes de medicina, assistentes sociais, etc., não é raro encontrar:
a) Um desconhecimento das diferenças entre o que são e que funções desempenham um psiquiatra, um psicólogo, um psicoterapeuta e um psicanalista;
b) Uma oposição irracional a tudo que tem a ver com essas especializações.
São condições que põem em risco a atividade da psicanálise e ameaçam a sobrevivência do psicanalista, uma vez que já não prevalece aquela situação economicamente confortável existente há alguns anos. E acreditamos que não devemos ter pudor em confessá-lo, pois estamos seguros de que o legítimo interesse dos psicanalistas, que aponta para a necessidade de ampliação de seu mercado de trabalho, não se opõe à ampliação de suas ações, visando atuar sobre uma demanda populacional excluída, também por razões sócio-econômicas.”
A uma leitura rápida, poderia parecer que um dos principais fatores envolvidos na crise da psicanálise seria a falta de conhecimento de sua atuação por parte da população em geral, incluindo os profissionais de saúde mental. Entretanto, se assim fosse, bastaria uma ação de divulgação e esclarecimento por parte da SBPSP para sanar o problema.
O excesso de oferta e a dificuldade para discriminar o que de fato tem valor ou não, no mercado das terapias, também é designado como
fator componente da crise. O trecho abaixo, no entanto, revela uma apreensão com a concorrência que o movimento psicanalítico, dito oficial, passou a ter de enfrentar e, implicitamente, aponta para o não dito do encolhimento da oferta de pacientes:
“Outro fator importante foi uma questão que não é só nossa, mas uma questão mundial talvez, provocada pela proliferação de técnicas, pela expansão da medicação e do atendimento psiquiátrico, que mostrou a necessidade de realmente darmos uma empurrada e levar a psicanálise mais claramente para fora.”
O fechamento da psicanálise dentro das instituições de transmissão, seu suposto descompasso com o mundo atual revela-se agora como um problema de conseqüências sérias, conforme sugere o seguinte depoimento:
“O que se verificou é que ela, a psicanálise, nos meios culturais e científicos, se ligava ainda muito a um modelo tradicional, freudiano, em que o paciente se deita no divã, o analista não fala, a pessoa fica ali dez anos, nem sempre com bons resultados. Quem é que tem tempo, dinheiro e vontade de fazer isto? Ninguém. Então se tentou dar uma visão, mostrar outra perspectiva da psicanálise como podendo interferir no mundo, contribuir com o mundo, por meio de várias outras possibilidades.”
No entanto não existe consenso em relação à conveniência de divulgar a psicanálise; teme-se o risco de vulgarizá-la, tornando-a um produto de fácil consumo, para atender pressões de mercado. Acompanhando a citação abaixo, referente ao documento ‘Anteprojeto para a Implantação de um III Setor na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo’, podemos ver alusões a esse medo:
“Há uma série de outras questões que estão nas (inter) entrelinhas dessa exposição. Só para citar algumas:
a) a necessidade de manter a formação de psicanalistas tão rigorosa quanto vem sendo até agora;
b) o risco, freqüentemente lembrado por alguns analistas, de que uma proposta de extensão possa implicar a tendência a se afastar do método original em prol de versões de menor ou nenhum valor, tendo em vista a resistência que indivíduos ou grupos opõem ao crescimento mental; ou ainda o risco de uma apropriação, em que a transmissão implique assumir o modelo acadêmico;
c) a preocupação de que a oferta da possibilidade de atendimento com menor número de sessões semanais ponha em descrédito a necessidade das quatro ou cinco sessões, quando pretendemos nos ater ao método e à formação psicanalítica.”
Os resultados da pesquisa feita pela IPA em 1997 e relatada por Israel (1999) são recordados para reforçar a necessidade de levar em conta os sinais de mudança na realidade da clínica atual:
“(...) Na verdade, esta foi e continua a ser uma política proposta pela Associação Internacional que, em suas pesquisas e enquetes, verificou, como nós também já sabíamos, que a psicanálise estava cada vez mais ligada à psicanálise de formação, quer dizer, quem fazia realmente análise eram os pretendentes a analistas; fora disto, os pacientes se submetiam a um atendimento psicanalítico duas vezes, naquela época, ou três vezes no máximo por semana (...)”
Questões ligadas à formação de novos analistas e à dificuldade de encontrar pacientes que se adeqüem à clínica-padrão também se revelam no discurso desse grupo, na alegação da possibilidade que o Centro oferece para “garimpar pacientes de quatro vezes por semana”:
“O Centro Clínico não é uma clínica de atendimento psicanalítico, porque é mais um centro de triagem, é onde você vai
verificar se a gente pode ir a outros lugares da comunidade garimpar pacientes para a psicanálise de quatro vezes por semana.”
Ou nesta outra afirmação:
“A clínica foi constituída com um objetivo muito específico, tentar promover, e tentar contribuir para com os candidatos em formação. De que maneira? Oferecendo pacientes para supervisão com quatro ou três sessões semanais a custo muito baixo, simbólico, ou até mesmo sem custo, quase sem remuneração, buscando, na verdade, beneficiar os candidatos, tentando oferecer pacientes para supervisão e atendimento três ou quatro vezes por semana.”
A formação dos novos analistas é, nos depoimentos recolhidos e documentos consultados, considerada de fundamental importância para a sobrevivência da psicanálise enquanto profissão e da instituição psicanalítica como órgão de transmissão de um saber. Quando diminuem os pacientes disponíveis para as condições exigidas pela formação, segundo os padrões da IPA, aparece, ao mesmo tempo e contraditoriamente, por um lado, a defesa da preservação desses padrões, agora restritos à formação, e, por outro, a necessidade de alterá-los:
“Foi verificado também como era difícil que os candidatos tivessem pacientes quatro vezes por semana ou três vezes para supervisão, sendo a chamada psicanálise nos moldes da IPA, como a psicanálise de formação, restrita aos candidatos em formação.”
“Esta nunca foi uma situação desejada pela IPA. Nunca foi desejada por nós aqui também, porque, na verdade, nós não acreditamos que um candidato a psicanalista, uma pessoa em formação, possa se submeter à análise quatro vezes por semana e, por outro lado, atender seus pacientes apenas duas ou uma vez por semana. Não acreditamos que isto seja uma experiência que integre o modelo analítico (tripé). Nós achamos que todo o mundo pode atender uma ou duas vezes por semana
por escolha pessoal, mas, como psicanalista, deve não só se submeter à psicanálise, passar pelo processo psicanalítico, como também desenvolver o processo com o paciente. Esta foi uma das questões que levou a IPA a pensar muito na necessidade de se criarem clínicas, de se criarem setores de divulgação e de expansão.”
Assim, a criação do Centro vai se mostrando, ao mesmo tempo, como uma resposta institucional da Sociedade aos problemas que foram surgindo na formação, segundo os padrões recomendados pela IPA:
“(...) uma recomendação de que a Sociedade de Psicanálise fizesse alguma coisa pela comunidade e pela formação, então, quer dizer, o centro clínico está apoiado principalmente nisso daí.”
A crise de mercado, apesar de mencionada em citações anteriores, fica camuflada, como mostra o trecho abaixo, pela necessidade de o Centro atrair pacientes para os candidatos em formação e também divulgar a psicanálise para uma população que, de outra forma, não teria acesso a ela:
“(...) o objetivo é uma coisa, é uma via de duas mãos, quer dizer, é trazer benefícios para nós, analistas, e nós que cuidamos da formação de analistas que estão propiciados a candidatos, que possam ter pacientes quatro vezes por semana mais facilmente, e também fazer com que outros segmentos da população que não os iniciados, os familiares de analistas, voltem a descobrir, a saber, que é uma coisa viva e que tem uma função.”
A importância dada à prática do atendimento nos moldes-padrão, como forma de introjeção da função analítica, é ressaltada nesta afirmação:
“(…) mas o primordial é prover pacientes quatro vezes por semana para quem quer e precisa ter essa experiência, além do universo de nós, analistas, e de analistas em formação que fazem sua análise, mas precisam ter essa experiência de também praticar. Porque eu acho que um analista formado pode fazer muita coisa, assim, tendo esse viés, mas,
para adquirir o viés, a gente acha que é importante a análise pessoal de quatro vezes por semana e a experiência de analisar.”
Entretanto, para além dos objetivos da formação, vai se revelando outra realidade na própria negação de que o Centro atenderia ao objetivo de encaminhar pacientes para analistas de um modo geral:
“Em nenhum momento o objetivo foi oferecer pacientes para analistas que estavam sem pacientes, em nenhum momento foi desenvolver uma psicoterapia psicanalítica, que, sem ter nada contra, não é e nem nunca foi o objetivo principal do Setor III.”
A realidade do Centro desvela outro panorama, segundo declarações do Corpo Diretivo:
“Há uma procura dos pacientes, que é grande, e dos psicanalistas por pacientes, inclusive uma demanda muito grande de psicanalistas que me ligam porque querem pacientes também. Está mudando um pouco. Vejo que há psicanalistas que querem pacientes para o consultório mesmo, não só para formação (...) justamente por essa mudança do social que a gente tem, a situação socioeconômica que a gente vem enfrentando hoje em dia (...)”
“(...) não é objetivo do Centro Clínico encher os consultórios das pessoas que não têm pacientes, mas eu vejo que as coisas funcionam assim.”
Quanto aos Analistas, suas observações sobre a crise estão muito ligadas ao dia-a-dia do atendimento clínico, e eles se manifestam às vezes com humor:
“(...) A pessoa quer ir para o Rio de Janeiro e eu quero levá-la para São Petersburgo, vôo de Concorde... Mas eu não quero São
Petersburgo. O Rio está bom (...). Você entende? (...) e ainda ficar
olhando a paisagem por onde a gente passa.”
“(...) nós estamos ficando velhos, a nossa linguagem está ultrapassada, a gente tem que se reeditar de alguma forma, e aí entra até aquela coisa do marketing, onde nós estamos? Em nenhum lugar.”
Às vezes com dramaticidade:
“Primeiro você precisa convencer o paciente daquilo que você faz e não ir enfiando a faca nele.”
Entretanto, essas manifestações revelam uma espécie de inadequação entre o que é exigido pela formação e a realidade das pessoas que procuram o Centro, entre a proposta dos analistas e o que esperam os pacientes. Como avaliar essa questão? Uma possibilidade é considerar que é próprio e característico do trabalho analítico analisar e não atender às demandas dos pacientes. No entanto, os depoimentos revelam que os próprios Analistas, o mais das vezes, também não se sentem confortáveis com as condições exigidas pela clínica-padrão.
Este ponto mereceria uma investigação mais profunda. No momento, lanço algumas questões relacionadas ao tema. Os candidatos e os próprios analistas vêm se deparando com uma clínica que está mudando e que necessita ser pensada. Como desenvolver recursos que são teóricos, técnicos e de personalidade para dar conta de refletir sobre ela? A análise pessoal, os cursos teóricos e as supervisões constituem o tradicional tripé onde se assenta a formação. A manutenção de critérios formais da técnica identificada com A psicanálise estará colaborando para o desenvolvimento de um pensamento independente? O analista, uma vez completado o período de formação dentro dos moldes-padrão, poderá exercer uma clínica em outro formato chamando-a de psicanalítica? Tenho me deparado com respostas diversas e às vezes conflitantes para essas questões, mas não foi meu propósito explorá-las neste estudo.