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6 Finansiering av narkotikamisbruket

6.6 Kort oppsummering av kapittel 6

Passo agora a tecer considerações sobre algumas características dos pacientes que procuram o Centro, de acordo com os dados revelados nas entrevistas. Para tanto, reproduzo trechos destas. Esses relatos são importantes, a meu ver, na medida em que permitem responder se há ou não uma diferença marcante entre eles e aqueles que compõem a clínica ‘normal’. Sempre, cabe reiterar, tendo em mente não só a crise da psicanálise, mas como se apresenta a clínica atual.

Logo que o CCP começou a funcionar, passou a atender a procura antes dirigida ao SAT. À época da pesquisa, havia uma grande demanda de potenciais pacientes, a ponto de ter sido necessário limitar as inscrições mensais para que os grupos pudessem absorvê-las. Entretanto, podemos questionar se esta era, efetivamente, uma procura por análise, segundo as observações do Corpo Diretivo:

“(...) No início teve muito (...) agora diminuiu... de as pessoas procurarem achando que era um serviço social, gratuito. Aconteceu então isso: já tinha que triar por telefone, porque R$ 20,00 para quem não pode pagar nada é muito, para se inscrever e não fazer nada.”

“(...) aberto o Centro Clínico, as pessoas que o procuravam, inicialmente, eram pessoas que sequer tinham condições financeiras para pagar a condução até lá. Acho isso muito, muito intrigante, inclusive, como é que essas pessoas tiveram acesso à informação de que a Sociedade tinha aberto o atendimento, se não tinham noção do que é psicanálise, que seria um atendimento diversificado, ou mais qualificado de alguma maneira.”

Alguns membros desse grupo também fazem ou fizeram triagens e possuem uma experiência direta com os pacientes que procuram o Centro. Assim, puderam fazer considerações pessoais sobre essa demanda:

“Olha, não tenho muita clareza não, eu acho que, do ponto de vista psíquico (isso é o que me interessa), do ponto de vista psíquico não tem muita diferença, embora, claro, hoje é uma questão que está na ordem do dia; é a questão, digamos assim, do universo simbólico, fruto da modernidade, das relações de classe, etc. e deve haver alguma diferença, mas, do ponto de vista psíquico, até onde eu vejo (...)”

Embora no início tenham acorrido pacientes muito diversos, a demanda também é composta por pessoas que não podem ser consideradas como totalmente desprovidas de recursos econômicos ou culturais:

“(...) Faculdades de Medicina: tem muita gente de lá, e de Faculdades de Psicologia; tem vindo muito estudante, pessoas que sabem alguma coisa sobre análise, já ouviram falar, valorizam a Sociedade de psicanálise; pessoas que precisam, mas não têm os meios, ou em situações quase que marginais (...) Não seria bem a palavra (...) mas que estão fora, com todo esse processo econômico (...)”

São apontadas certas diferenças de conotação mais sociológica: “(...) são pessoas vinculadas a diferentes estratos de classe, comparados com aqueles do nosso consultório. Às vezes, digamos assim, a fenomenologia externa, os sintomas, as histórias ou as estórias que aparecem, às vezes elas são muito dramáticas... Tocam-nos como seres humanos, nos tocam do ponto de vista político, nos emocionam pela miséria, mas eu acho que essa é outra questão. Do ponto de vista psíquico, se a gente pretende oferecer uma atividade psicanalítica, acho que não tem muita diferença. Agora, do ponto de vista da caracterização da clientela, claro que também há certa diferença, mas não muita, porque também, desde o começo (acho), procurou-se estimular ou privilegiar certas áreas de encaminhamento, como faculdades, escolas de Psicologia, etc., etc., o que não impede que apareçam muitas outras categorias, como

operários, desempregados e pessoas gravemente comprometidas do ponto de vista social e psíquico (....)”

Porém, não são consideradas diferenças psicopatológicas:

“É, não vejo muita diferença não, de problemática não, é mais de perfil social. Há muitas pessoas que são migrantes, do Norte, Nordeste, pessoas do Pará, de lugares assim mais incomuns de migração típica para São Paulo.”

“Acho que são nichos mais periféricos... não são pessoas que moram nos Jardins, nesse circuito; às vezes mesmo pessoas que têm nível superior, como eu já vi, advogados, mas (...) de origem mais humilde, mais remotos.”

Voltado a um vértice mais psicanalítico, o grupo pode, então, expressar que as diferenças tornam-se mais tênues:

“Agora, uma vez sendo possível estabelecer um contrato a partir da triagem, acho que a questão fica praticamente como no consultório; é possível que as atuações sejam maiores, mas isso depende também do analista, de levar em consideração esses aspectos.”

“(...) acho que qualquer pessoa, independente da relação de classe, eu acho que vai ter consciente, inconsciente, angústia, desejo, sentido da vida, da morte, inveja, objeto interno, idealização, destrutividade, agressividade, eu acho que tudo isso deve estar presente na mente de qualquer pessoa.”

“Agora, as pessoas em si, com certeza, na sua globalidade, obviamente elas são diferentes, mas do ponto de vista do vértice analítico, não vai ter muita diferença.”

“Só tenho visto casos interessantes. Interessante que eu digo é como cliente psicanalítico.”

Contudo, no decorrer das entrevistas, certas características, muito peculiares à população que procura atendimento no Centro, vão se revelando:

“São pessoas mais comprometidas no desenvolvimento psicológico, cabendo um diagnóstico de personalidade borderline: pessoas envolvidas com drogas, álcool, exaltadas, com uma urgência para serem atendidas, ‘tudo é para ontem’. Eu acho que não está fácil trabalhar analiticamente,... tem também essa coisa da medicina para considerar, nunca se divulgou tanto na mídia a questão do diagnóstico, nunca se foi nessa premissa de esvaziar a responsabilidade do sujeito, que um auto- questionamento importe; então, é muito comum enquadrar o sofrimento relacionado com a doença, com os sintomas de uma doença e aí a medicina responde melhor: ‘Como é que se trata isso? ’, ‘O que eu tomo? ’. A pessoa já vem com essa pergunta; ela não diz: ‘Eu não sei o que está se passando comigo’, mas: ‘O que eu tomo? ’ Pelo que ouvi no Fantástico e vi na Veja, eu tenho síndrome não sei do quê, ou tenho transtorno não sei o que lá, então vim saber qual o melhor remédio que tenho que tomar’.”

Na explicação do entrevistado, trata-se de ‘mal dos tempos modernos’. As pessoas não estão dispostas a esperar, querem imediatismos:

“(...) eu acho que é um mal dos tempos modernos, as pessoas querem ser atendidas imediatamente do jeito que elas querem. São pessoas com um comprometimento de origem, de famílias desestruturadas, genitores com doença mental, principalmente, famílias desestruturadas.”

Outra categoria psicopatológica começa a aparecer nos diagnósticos de caso:

“Era uma pessoa, uma personalidade narcísica com uma falha básica muito importante.”

O fato de que um serviço de atendimento como o Centro atraia certo tipo de paciente fica explícito neste depoimento:

“São pessoas que fazem uso perverso da instituição: têm disponibilidade financeira, mas não querem pagar nada. Por exemplo: uma paciente dizia ter pago trezentos reais em uma consulta com um psiquiatra e queria dispor de cem reais por mês para o analista. Então eu chamo de perverso neste sentido, de não se dispor a investir mesmo, e procurar o Centro Clínico tendo condições de procurar um consultório particular. Ou, mesmo estando no Centro, se dispor a pagar mais.”

Os próximos depoimentos referem-se a como o Corpo Diretivo vê o desafio de analistas em formação lidarem com os tipos de paciente descritos acima. A possibilidade de se manterem pensando analiticamente, mesmo em situações frustrantes, é frisada neste depoimento:

“(...) o pagamento, eu acho que (...) essas, sim, são questões complexas, nem Freud nos deu receita sobre isso, a gente tenta (...) pensar diante das nossas precariedades, dos nossos limites. Mas, se um analista de fato se submeteu a uma análise, não só formalmente, mas que tenha aprendido (...) eu acho que nessas questões ele vai podendo discriminar os limites e também a precariedade. Se a gente puder perceber isso, acho que o trabalho fica mais ‘fácil’, pelo menos a questão é mais com a gente. Se você se veste com a camisa-de-força da onipotência e acha que pode resolver tudo, é muito complicado.”

Ressalta-se a importância da análise pessoal para o desenvolvimento da capacidade de pensar e da função analítica, conforme podemos ver a seguir:

“Eu acho que análise (...) que a experiência analítica permite a você ver se aquela pessoa pode, a partir dessa experiência de reencontro, ir se re-metaforizando; incorporar aquilo que o analista vai oferecendo como modelo de metáfora, com modelo de observação. Será sempre o

paciente o árbitro epistemológico final, como diria Habermas, quer dizer, esse é um conhecimento que se faz muito por extensão e familiaridade, o conhecimento analítico não tem uma prova.”

Os Analistas, que fazem triagens e atendem pacientes, também se manifestam. Encontrei afirmações sobre não haver diferença marcante entre os pacientes particulares e os que vêm através do Centro, quanto ao que esperam da análise e às expectativas imediatistas de cura:

“Sabe o que eu estava pensando, e eu não sei se no final das contas, quando o paciente chega ao consultório, se ele é muito diferente do paciente que vem para a gente, você também não sente isso?”

“Eu diria que é muito parecido com o que acontece com a clínica da gente, não acho tão diferente, acho até um pouco pior, porque a pessoa vem numa situação de precisão, ou ela se coloca assim – a gente nunca sabe se é real – mas ela tem pouco dinheiro, ela procura um órgão, quase uma ONG, para ter psicanálise a um preço acessível.”

O que podemos perceber mediante os depoimentos é que há desconforto, por parte dos Analistas, em atender em tais condições de preço e horário:

“Já existe a questão econômica, é muita dificuldade de horário e, ainda por cima, há uma exigência da parte dos pacientes de que a gente esteja totalmente à disposição, até mais do que um paciente particular.”

“(...) então assim tem muita resistência e muita exigência em relação à disponibilidade da nossa parte, eu não me coloco tão disponível.”

As exigências da clínica-padrão, porém, quando confrontadas com as expectativas e as condições das pessoas que procuram, também apareceram comoquestionáveis:

“A gente topou esse jogo, mas eu tenho muito problema. Há muitos problemas de resistência ou de idealização da psicanálise. São

pessoas que vêm às vezes querendo resolver um problema emergencial, vão se separar, estão sem emprego, e chegam lá e vão desmistificando o que a gente faz e não gostam. Tem muita gente que não gosta do trabalho porque espera uma coisa mágica, que num mês resolva a questão do casamento, do trabalho, e quando vê que não é assim, que a gente não tem nenhuma solução, as pessoas também vão embora, não ficam, mas isso também acontece na clínica normal da gente.”

“(...) o que eu acho esquisito é chegar uma pessoa lá e a gente enfiar a faca, acho isso muito estranho, sempre me incomodou, porque eu acho que é construído. Tem assim como a gente vive a vida moderna, a pressa, a disponibilidade, as pessoas não lêem hoje, nem livro se lê inteiro, você vê coisas na Internet, é tudo muito fragmentado, e chega a pessoa lá e você fala quatro vezes por semana, isso é uma coisa que eu acho que é um pouco violenta...”

Parecer haver uma expectativa, por parte dos Analistas, de que o Centro selecione pacientes que se disponham a fazer análise no modelo- padrão, ou seja, quatro vezes por semana:

“(...) eu tenho experiência com população de baixa renda, mas eu queria estar atendendo numa instituição que fosse a Sociedade de Psicanálise... a minha idéia é que esses pacientes estariam vindo de outra forma, estariam vindo pacientes para análise (...) já pacientes um pouco mais trabalhados, o que não acontece. O que percebo é que os pacientes que ‘vingam’ são de classe média, de nível universitário, em começo de carreira, ou empobrecidos circunstancialmente, ou jovens. São pessoas capazes e no momento querendo pensar sobre a própria vida, mesmo que elas não saibam disso. Quando você começa a trabalhar e fazer, de um paciente qualquer, um paciente de análise, percebo que são esses os pacientes que ficam. Eu tenho pacientes há bastante tempo do Centro Clínico (...)”

Outra observação feita pelos Analistas é que pacientes com perturbações mais sérias geralmente não permanecem em análise:

“O que eu percebo é que pessoas muito perturbadas não ficam.” Assim, destaco, no discurso explícito dos Analistas, uma expectativa de conseguir, por meio de uma triagem institucional, pacientes que queiram e possam fazer análise segundo o modelo aprendido na formação. Entretanto, acabam se deparando, na maior parte das vezes, com pacientes difíceis que não permanecem em atendimento. Identifico, em trechos como os que destaco abaixo, uma condição essencial para que a parceria analítica prossiga: a disponibilidade do paciente, ele querer fazer análise. A disponibilidade do analista é fundamental, mas precisa existir a contraparte:

“(...) nós queremos mais que eles.”

“Acho que são pacientes que não ficam mesmo, porque não são pacientes que querem fazer análise, que querem ter um investimento nesse nível, de uma procura, de um ‘se debruçar’ sobre si.”

As respostas dos Analistas do meu grupo, obtidas por meio dos questionários, vêm corroborar algumas das observações acima. Critérios de analisabilidade vão sendo estabelecidos, embora nem sempre nomeados como tais, fazendo parte do discurso implícito.

Assim, os pacientes que são estudantes universitários ou jovens profissionais em início de carreira são considerados mais promissores. Aqueles capazes de contacto com emoções e desejos e que, além disso, possuam condições de pensar a própria vida são, também, os passíveis de serem analisados. Penso que esses critérios, além de refletirem uma experiência real de atendimento e de observação de quem fica ou não em análise, possuem certo componente de idealização não explicitado, mas que permeia as expectativas dos analistas. Chego até a pensar que pacientes com as características acima não precisariam de atendimento, a

não ser como um desejo de expansão da própria vida mental. São casos raros em minha experiência.

A capacidade de persistir em situações difíceis, que também pode ser chamada de capacidade de tolerância à frustração, encontra-se entre os critérios apontados pelo grupo para a permanência em atendimento. Um alto grau de angústia foi considerado um bom motivo para prosseguir em análise, desde que associado à capacidade de tolerar a dependência do analista, transformando a situação analítica em uma ‘situação de conforto muito mais que de confronto’.

A possibilidade de depender de alguém, pelo tempo necessário para que algum trabalho seja feito, está entre as condições de permanência dos pacientes. Entretanto, os colegas apontam que a dependência muito grande, no sentido de esperar um ‘milagre’, como seria o analista poder curá-los sem sua participação, não é uma condição favorável. Nesses casos, a decepção com os resultados e mesmo com a própria proposta terapêutica é rápida, e fatal para a continuidade da terapia. Assim sendo, posso concluir que, para esses colegas, tanto a resistência a depender, quanto o depender para se ver livre de qualquer responsabilidade pela sua melhora, por parte dos pacientes, constituem uma dupla de opostos que interfere, de maneira negativa, no prosseguimento da análise.

Finalizando esta análise, pude observar que os Analistas do meu grupo expressam mais livremente as dificuldades que encontram com os pacientes do Centro, do que os colegas entrevistados. Um deles assim se manifestou: “Os pacientes do Centro são iguais aos do consultório, só que piores.”

Embora possa parecer uma afirmação paradoxal, proponho que se pense se ela não contém a expressão de certa perplexidade do grupo frente às pessoas que os procuram e que, mesmo encontrando condições bastante favoráveis em relação a honorários e horários, não permanecem em

atendimento. O contacto com essa perplexidade trouxe-me a necessidade de, ao mesmo tempo, tomar uma distância e me aproximar para poder analisar mais detidamente o fenômeno. Parece que estamos frente a uma clínica que vai adquirindo características diferentes das de outrora. A análise dos dados de minha pesquisa autoriza-me a afirmar que a mudança, porém, é percebida sem contornos muito definidos. Assemelha- se, em princípio, a um fantasma que ora causa incômodo, ora assusta, mas que talvez não passe de uma nova realidade necessitando ser pensada. Nesse caso, estaríamos frente a um desafio à nossa capacidade de lidar com situações indefinidas e frustrantes.

Como procurei demonstrar ao longo da dissertação, ao tomar o CCP como sintoma da crise da psicanálise, tal como ela se desenha nos dias de hoje, foi possível penetrar os meandros de sua constituição sintomática. O Centro recebe da instituição o papel de ser seu agente externo de atuação clínica na sociedade mais ampla. É um desbravador que tem que ser inventado, mas nos moldes prescritos pela IPA. Esse papel é tomado pelos candidatos e analistas da Sociedade como a chance de ampliar a própria clínica privada, ainda que cobrando menos. Mas, como chance de clínica, esse papel do Centro não pode ser pensado nem falado. É o implícito que se cala, diante do explícito da função social, estabelecendo-se uma falta de coerência entre o que se diz (a relação) e o que se cala (o campo). Parece-me que é na vigência desse campo do discurso implícito que o desafio que apontei acima fica mais difícil de ser enfrentado.

Nas conclusões do relatório de Paul Israel (1999, p.16) sobre a pesquisa da IPA (1997), encontrei algumas considerações que confirmam a extensão e complexidade do tema, que inclui mudança na clínica atual:

“El interés apasionado aunque cauteloso que la mayoría de analistas y sus Asociaciones ponen en este tema demuestra que las

transformaciones históricas y socioeconómicas de las últimas décadas han introducido un cambio importante en la perspectiva de la práctica psicoanalítica. Si bien los institutos de entrenamiento están indudablemente conscientes de estos cambios, en general no han sido capaces de integrarlos, debido precisamente a la ausencia de claridad acerca del estatus teórico y de identidad de tratamiento de pacientes fuera de la cura clásica. El hecho sigue siendo que estos pacientes constituyen cada vez más la clientela habitual de los psicoanalistas – al punto que sus consultorios parecen cada vez más salas de espera de ciertos centros públicos dedicados a consultas y tratamientos psicoanalíticos. ‘Uno

encuentra adultos jóvenes que sufren conflictos ligados al narcisismo (depresiones) y a la identidad (sufrimiento existencial, casos borderline) junto con numerosos pacientes con desórdenes somáticos y de comportamiento (en particular desórdenes de la alimentación): la evolución de esta clientela parece reflejar las transformaciones que han ocurrido en los últimos treinta años en el campo de la cultura así como a nivel socioeconómico y a nivel de las referencias de identificación familiar y comunitaria’ ( he citado a J-L Donnet en su proyecto de definición del funcionamiento del Centro para Consultas y Tratamiento Psicoanalítico que está ligado a la SPP).”