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6 Finansiering av narkotikamisbruket

7.1 Hvorfor er sammenhengen mellom narkotikaforbruk og

P.A. Todos os Institutos são mortos; portanto, como

todos os objetos inanimados, seguem leis e sub-leis que são compreensíveis dentro dos limites do entendimento humano. Entretanto, como estas Instituições são compostas de pessoas e indivíduos, que são susceptíveis de desenvolvimento, a Instituição começa a ceder à pressão.” (Bion, W. R., 1996).

Nos capítulos anteriores, apresentei os aspectos que considero mais relevantes para o desenvolvimento do meu tema: uma análise cultural- ideológica do CCP, tomando-o como um sintoma de uma situação mais ampla que chamei de crise da psicanálise. Nessa análise, através das relações constituídas pelo que denominei de discurso explícito, procurei evidenciar, ao longo do capítulo anterior, o campo que as suporta, ou seja, o discurso implícito que ocultam.

Meu estudo caracterizou-se, então, como um trabalho de Clínica Extensa, segundo a concepção de Herrmann (2005), aquela que, utilizando o método da psicanálise, centra-se na consideração dos campos inaparentes que sustentam as relações manifestas, seja na clínica de pacientes, seja em recortes do real humano.

Na Introdução, situei minha preocupação com uma das manifestações da crise da psicanálise, ou seja, a diminuição da procura de pacientes a partir do final dos anos 90 e que permanece até hoje. Até então, apesar de ser menos experiente, na minha própria clínica, não encontrava qualquer dificuldade em atender diversas pessoas quatro ou mais vezes por semana, por longos períodos. Estava iniciando a formação na SBPSP e,

naquele momento, achei que poderia ser uma dificuldade minha a diminuição da clínica psicanalítica propriamente dita, de acordo com os padrões exigidos pela formação. A participação no SAT e depois no CCP trouxe uma dimensão mais ampla para essa questão da clínica, por meio do contacto com diversos colegas que viviam experiências semelhantes. Assim, surgiu a necessidade de investigar a questão mais amplamente.

No capítulo sobre o Histórico, creio ter demonstrado que a profissão de psicanalista sofreu uma mudança ao longo das últimas décadas.

O monopólio da formação psicanalítica pela SBPSP começa a declinar em meados dos anos 70 e termina no final dos 80. A clínica- padrão, sustentada pela SBPSP e exigida de seus candidatos, é atingida em cheio com a proliferação de formações que não seguem os padrões da IPA.

O universo dos psicanalistas, que era predominantemente formado por médicos e homens, vai mudando de perfil. Mesmo na SBPSP, a partir de meados dos anos 80, vai se impondo uma maioria de mulheres e não- médicos (basicamente psicólogos).

A profissão torna-se mais feminina e menos médica. Como curiosidade, esse dado parece acompanhar uma tendência da sociedade como um todo. O crescimento do número de mulheres na psicanálise deve- se também à maior inserção feminina no mercado de trabalho, como pode ser verificado pelas pesquisas mensais de emprego e desemprego realizadas pela Fundação SEADE, em parceria com o DIEESE6.

A renda dos analistas cai, como mostram duas pesquisas da ABP – 1992 e 1998, citadas anteriormente. A partir de 2001, encontrei referências à queda de renda da classe média.7

6 Em todas as pesquisas mensais, há um levantamento do nível de ocupação por gênero. Cf. <www.seade.gov.br>.

7 “Nos últimos cinco anos, a classe média (considerando os que recebem mais de 3 salários mínimos ou R$ 1.050) viu a criação de empregos e a renda decrescerem, aponta estudo divulgado pela MB

Com base nesses dados, podemos pensar que o mercado de trabalho dos psicanalistas ficou mais competitivo. Concessões à clínica-padrão precisam ser feitas e são, mas não podem ser consideradas oficialmente, pelo menos no que diz respeito à formação. Estas pressões são mais fortemente vividas pelos candidatos à formação do Instituto de Psicanálise da SBPSP.

Em 1999, uma série de jornadas realizadas pela Diretoria Científica da SBPSP traz o assunto à baila. No mesmo ano, ele volta a ser discutido em um número do Jornal de Psicanálise que é lançado com o tema ‘Psicoterapia: Mal-Estar na Psicanálise?’. Dada a sua complexidade, era natural que surgissem distintos posicionamentos sobre a questão. Os debates se centravam principalmente na distinção entre psicoterapia e psicanálise. Já mencionei na Introdução algumas das idéias debatidas na ocasião e, em parte, publicadas no Jornal de Psicanálise.

Da mesma forma, a história dos Ambulatórios e Centros de Atendimento da SBPSP traz indícios de mudanças que estavam ocorrendo. Ao acompanhar atentamente tal história, vemos que esse Ambulatório, desde sua criação até meados dos anos 90, guardadas as especificidades de cada época, tinha a finalidade de colaborar para a formação dos candidatos, oferecendo pacientes para as supervisões oficiais. A partir desse momento, incluindo-se aí o próprio SAT, torna-se uma fonte de encaminhamentos para analistas em formação ou não. Sinal de que os tempos estavam mudando?

Conforme já assinalamos, nos últimos anos do funcionamento do SAT, foram tentadas diversas experiências de triagem. As mudanças nos processos de triagem já estavam relacionadas à constatação da baixa adesão dos pacientes. Com a nova triagem, foram obtidos bons resultados na recepção e encaminhamento dos pacientes, mas isto por si só não garantiu a permanência em análise. Com efeito, na pesquisa promovida pelo SAT e

mencionada no capítulo 2, fica claro que, no período de dois anos, dos 171 pacientes encaminhados, somente 37 permaneceram em análise, dos quais apenas 5 eram pacientes de quatro vezes por semana e outros 11, de três sessões semanais.

A posterior criação do CCP não utilizou os resultados dessa pesquisa, nem a experiência acumulada, tendo de se defrontar com problemas provavelmente já encaminhados pelo SAT no trabalho desenvolvido. Em termos mais claros, é razoável supor que já era demasiado reduzido o número de pacientes dispostos a se submeterem a uma análise nos moldes da clínica-padrão, independentemente da criação de um novo Centro. Entendemos, no entanto, que se trata de uma dimensão da política institucional, que buscava solução para problemas que atingem a instituição como um todo e a sobrevivência da profissão de psicanalista, em particular. Entretanto, a diminuição na procura, por parte dos pacientes, é sintoma de um fenômeno bastante complexo, que requer maiores investigações.

Herrmann (2002 ) apresenta algumas idéias para se pensar sobre esse tema. Para ele, a crise da psicanálise não se reduz à falência da clínica- padrão ou mesmo à falta de pacientes, mas diz respeito àquilo que ele denomina a psicanálise como resistência à Psicanálise. Fala da transformação de teorias psicanalíticas em um saber acabado, como, por exemplo, a teoria do inconsciente vista como fato e não como hipótese operativa. Isso geraria uma paralisação das descobertas ou, dizendo de outro modo, um afastamento do espírito de descoberta que caracterizou os grandes mestres da psicanálise, como Freud, Melanie Klein, Lacan e Bion, para citar alguns. A crise atual é, portanto, para ele, tanto da clínica-padrão quanto da teoria-padrão a ela ligada. Esta, reificada, transformada em fato, constituiria uma resistência ao desenvolvimento da teoria psicanalítica enquanto ciência do homem moderno. A própria teoria criaria uma camisa-

de-força para o desenvolvimento da psicanálise. Para Herrmann (2002), a saída para o impasse seria uma extensão da clínica para além do padrão, acompanhada do que denominou ‘alta teoria’, um pensar sobre as teorias para além da região da metapsicologia. Diz ele:

“Estendida a clínica, já não temos os pacientes habituais. Outras patologias impõem-se, outros suportes da psique não necessariamente individuais, novas modalidades de prática no próprio consultório, algumas, aliás, muito antigas.” (Herrmann, 2002, p.19).

Outros autores também vêem, na diminuição da procura por análise, aspectos mais ligados a mudanças culturais e psicopatológicas.

Ahumada (1997), por exemplo, identifica a crise da psicanálise com uma crise da cultura inerente à sociedade global. Nesta, o pensar, a auto- reflexão é substituída pelo uso da mente como músculo, significando que é utilizada basicamente para expulsar excitações em vez de contê-las e as elaborar. Nesse sentido, ele identifica na sociedade atual uma crise no pensar reflexivo acerca de si mesmo e o surgimento do que ele, citando Gaddini (1992), vem a chamar de psicopatologias de gratificação peremptória.

Seguindo uma linha semelhante de pensamento, Rocha Barros (1999) afirma que a psicanálise é uma disciplina cujo saber se constitui por crises, necessárias para que o conhecimento não fique estagnado. No entanto, no mais das vezes, quando se aponta para crise, está se falando de crise de mercado: a psicanálise precisaria inovar para agradar aos pacientes consumidores e agradar-lhes seria oferecer alívio imediato. Diz que a verdadeira inovação provém do questionamento dos fundamentos da psicanálise e não da adaptação às demandas do mercado.

Ambos posicionam-se contra uma divulgação simplificadora da psicanálise, tornando-a aparentemente um produto de fácil consumo. Argumentam que a experiência psicanalítica necessita ser vivida na

situação de análise para ser compreendida, senão corre o risco de se tornar um conhecimento teórico, porém distante do que é psicanálise.

Todos os autores acima citados concordam em um aspecto, qual seja, a necessidade de retomar o espírito investigativo que caracterizou os pioneiros da psicanálise, como possibilidade de superação criativa da crise. No entanto, não existe concordância no que diz respeito à clínica-padrão. Enquanto, para Herrmann (2002), aferrar-se a ela seria uma espécie de suicídio para o psicanalista e um afundar da própria teoria psicanalítica, Rocha Barros (1999) faz uma crítica às tentativas de mudança do setting psicanalítico para atender pressões de mercado. A questão parece ser: o que caracteriza a psicanálise? E que mudanças podem ser feitas sem que se perca sua especificidade? Não existe concordância, sequer, sobre o que define o método psicanalítico. Herrmann alerta para não se confundir método com técnica, pois isso poria em risco o desenvolvimento de nossa ainda não ciência (Herrmann, 2002, p.16), que poderia dissipar-se junto com o desaparecimento da clínica-padrão.

Retomando, podemos afirmar que, em princípio, a crise da psicanálise é teórica, cultural e enquanto profissão, o que inclui a concorrência com psicoterapias e outra formas de abordagem dos problemas mentais, com, por exemplo, medicação.

Ao longo da dissertação, procurei mostrar que a crise da psicanálise pode ser abordada de vários vértices, e que, ao que tudo indica, é uma crise mundial, muito embora possa ter características locais. Procurei expor as visões de analistas praticantes, de diversos autores, assim como os discursos da instituição oficial de formação da IPA em São Paulo, através de seus documentos, registros e entrevistas com os dirigentes do CCP. Enfim, a todos dei voz.

O encolhimento do mercado de pacientes, em especial dos que aceitam se submeter à clínica-padrão, pode ser visto como uma

manifestação sintomática desta crise muito mais profunda da psicanálise. Ela parece ter no mínimo três desdobramentos, ainda não ditos, que necessitam ser abertamente discutidos, pois, do contrário, tendem a se perpetuar. O primeiro, sem dúvida alguma, diz respeito à própria sobrevivência da psicanálise enquanto prática terapêutica, na medida em que se constata uma crescente dificuldade para formar analistas dentro dos padrões exigidos pela IPA, por conta da diminuição no número de novos pacientes; ou seja, parece haver uma crise objetiva de reprodução da atividade psicanalítica dentro dos padrões clássicos.

Vejo, ainda, dois outros desdobramentos, de caráter mais subjetivo, provocados pela contínua redução de pacientes, quais sejam: a viabilidade profissional dos psicanalistas e uma crise de identidade dos mesmos.

Apesar de mencionada apenas uma vez nos documentos oficiais8, é crescente a dificuldade para se estabelecer profissionalmente como psicanalista, mesmo para aqueles com vários anos de experiência, inclusive quando vêm realizando atendimentos com freqüências inferiores às determinadas pela IPA. Se a isso for associada a perda de prestígio do psicanalista junto à sociedade – quando mais não seja por conta do surgimento de inúmeras ofertas de outras terapias, inclusive medicamentosas –, parece possível afirmar que estamos vivendo uma crise que atinge nossa identidade profissional. Uma das manifestações dessa crise de identidade é a sensação de que a redução de nossa clínica é um problema exclusivo de competência pessoal.

Em suma, são esses, a meu ver, os suportes do discurso implícito, aquele que não pode ser dito nem mencionado, que vêm provocando um crescente movimento, tanto no âmbito da instituição – SBPSP/CCP –, como de seus participantes, no sentido de lidar com a questão da crise da

psicanálise por meio da criação e posterior reformulação do Centro Clínico. Movimento que atrai, em número cada vez maior, analistas membros associados e efetivos para os grupos que o constituem. Unir-se, todavia, é insuficiente.

Assumir explicitamente os pontos expostos nos parágrafos anteriores parece ser um bom começo, na medida em que possibilita pensar de modo mais extenso sobre a crise e seu sintoma. Esta, contudo, é uma crise de grande complexidade, cujo encaminhamento demandará profundas reflexões e espíritos muito abertos, como bem coloca Adorno, ainda que se referisse a outras circunstâncias:

"Não se pode esperar, nem mesmo procurar uma resposta simples à questão levantada por tais problemas. Alternativas que impliquem o dever forçado de optar por esta ou por aquela definição, ainda que fosse apenas no plano teórico, são já em si mesmas situações coercitivas, estabelecidas à imagem daquelas que encontramos numa sociedade não-livre e impostas ao espírito, cujo papel deveria ser o de fazer o possível para quebrar essa não liberdade, ao preço de uma reflexão profunda sobre essas alternativas." (Adorno, 1968)

8 Vide, no capítulo 3: “... São condições que põem em risco a atividade da psicanálise e ameaçam a

sobrevivência do psicanalista, uma vez que já não prevalece aquela situação economicamente confortável existente há alguns anos..

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