6.4 Nodal Point 2: “Cultures” in the Plural
6.4.2 Russia’s Own Multiculturalism
interacções passadas, pela percepção/antecipação das reacções (plausíveis) dos outros em face de um movimento da nossa parte e pela moldura institucional que define e enquadra a relação. A reciprocidade conjuga harmoniosamente a memória (factor preponderante), a antecipação estratégica (factor acessório) e o espaço normativo (factor de contexto).
Fehr, Kirchsteiger e Riedl (1998) também encontram provas da presença da reciprocidade em mercados experimentais onde não existem contratos completos (no que se distinguem das conhecidas abordagens de, entre outros, Roth et al., 1991, de Davis e Holt, 1993 ou de Kachelmeier e Shehata, 1992b). Nestes mercados experimentais existe um leilão em que os compradores fazem ofertas de preço sem saberem a qualidade que lhes será atribuída pelos vendedores que aceitam o preço. Este modelo de leilão de preços e qualidades possui um potencial heurístico evidente, bastando substituir preços por salários, qualidade por esforço, vendedores por trabalhadores e compradores por empregadores para termos modelizado um esquema de contrato de trabalho com troca de dons. Esta situação experimental que exclui reputações e memórias (o anonimato é a regra) destina-se a provar que existe uma correlação forte entre preço e qualidade ou, alternativamente, entre salário e esforço, desde que ambos sejam conceptualizados como "resposta a movimentos anteriores", ou seja, desde que exista uma atribuição de responsabilidade a quem oferece e a quem retribui. A construção de um jogo de expectativas que se desenvolve para lá do contratado e que envolve atribuições suplementares é, por si só, suficiente para desencadear dinâmicas de reciprocidade. Os autores chegam a esta conclusão, desenvolvendo dois quadros experimentais: um de reciprocidade e um de controlo (onde a qualidade do bem é fixada exogenamente). Um desenho experimental deste tipo pretende isolar a dimensão comportamental da reciprocidade, isto é, a componente da reciprocidade que revela apenas uma acção simples e directa de punir ou retaliar em face de um tratamento tido como não equitativo e recompensar ou bonificar uma acção vista como amigável.
Os autores interpretam a prevalência experimental desta dimensão da reciprocidade como testemunho vivo e marcante que existe mais sob o céu do que mera racionalidade. No entanto, existe uma armadilha de regressão ao infinito que estas experiências nunca conseguem excluir totalmente. Assim, embora manifestamente desenhadas para colocar reticências no modelo da racionalidade absoluta, estas experiências provam que a maior parte dos actores sociais são altruístas condicionais (no sentido em estão dispostos a incorrer em custos para manter uma posição de equidade). A presença de preços baixos conduz os vendedores a uma situação em que se encontram comparativamente pior do que os compradores. Deste modo, eles tornam-se egoístas e invejosos, escolhendo a resposta da baixa qualidade como forma de punição. Pelo contrário, um preço elevado coloca os
vendedores em melhor situação, acabando por adoptar um comportamento altruísta fornecendo melhor qualidade. Dado o jogo de expectativas que se desenvolve entre os actores sociais, qualquer das respostas, na medida em que alinha qualidade e preço, é uma resposta racional. Fugindo do modelo da racionalidade como equilíbrio paralisante e inerte (que nada mais é do que uma derivação do paradoxo do Burro de Buridan) acabamos por chegar a um modelo de racionalidade que concilia respostas contraditórias, mas sempre com base numa ideia do melhor resultado possível.
Gächter e Falk (1998) consideram a reciprocidade como um dos três remédios possíveis para resolver os dilemas criados pela existência de contratos incompletos, sendo os restantes dois os incentivos contratuais e as interacções repetidas. Em boa verdade, estes últimos são apenas uma parte do próprio instrumento da reciprocidade. No entanto, estes autores tendem a considerar que o usos sistemático de incentivos contratuais provoca, no limite, um efeito de crowding out (com argumentos próximos daqueles que são usados por Frey, 1997). O problema que surge neste e noutros textos que abordam a questão da incompletude contratual (quase sempre centrada na relação entre trabalhadores e gestores) é a exagerada ancoragem da questão da incompletude à questão da suposta motivação dos trabalhadores. Os problemas surgem não por questões de maior ou menor motivação no cumprimento (o que levaria necessariamente a questão para o campo dos incentivos e dos artifícios de persuasão ou mudança atitudinal, mas para questões de percepções de normas de equidade e para o terreno da ligação entre esforços empreendidos e resultados percebidos. Enquanto que a motivação se estabelece ao nível da indução comportamental por intermédio de determinados estímulos, a questão da equidade resulta de comparações relevantes dos rácios esforço-resultado entre nós e os outros tidos como pares. A excessiva concentração do debate na questão motivacional obscurece mais do que ilumina. O uso da reciprocidade como instrumento de cumprimento contratual (explicitamente apresentado como mais eficiente, mas geralmente descurado pela literatura económica) revela bem o potencial utilitarista que este conceito produz quando cessa a sua utilização como argumento científico e se inicia a sua transformação em noção ideológica de capitalização imediata. Dissemo-lo antes e repetimo-lo agora, a reciprocidade não é um produto motivacional, mas sim o resultado de acções com memória; não se prende com escolhas prévias ou com incentivos, mas com acções de comparação relevante.
Por sua vez, Van der Heijden et al. (1998b) tomam como garantida a questão da reciprocidade relacional e pretendem verificar os efeitos de uma dimensão negligenciada nos estudos experimentais: a questão da coordenação como forma de garantir o cumprimento do acordado. Neste caso, considera-se que, pese embora as regras da reciprocidade e da confiança sejam poderosos mecanismos de garantia do cumprimento contratual, a presença de problemas intrincados e o aumento da escala da interacção obrigam necessariamente ao recurso a formas mais elaboradas de organização e coordenação do esforço, isto é, surge a necessidade de levar em linha de conta as instituições sociais. Neste, como em muitos outros trabalhos, considera-se que a situação de equilíbrio é não oferecer nada, mas
escolher essa opção é passar ao lado dos múltiplos ganhos que resultam da troca, embora estes necessitem da presença da reciprocidade e da confiança. Os resultados óptimos exigem paciência e uma certa aversão ao risco, bem como uma aceitação de resultados assimétricos em cada fase do jogo (a multiplicação da interacção com a concomitante variação das posições de recebedor e de ofertante produzem os melhores resultados na matriz de ganhos de cada um dos jogadores).
A experiência de van de Heijden et al. demonstra bem que a reciprocidade e a confiança produzem melhores resultados do que o simples exercício de racionalidade, mas que a coordenação ainda produz melhores resultados. A abertura experimental à possibilidade de reacção induz níveis acrescidos de reciprocidade e de confiança. No quadro de parceiros, esta reciprocidade deve ser maior do que no quadro de estrangeiros. Por outro lado, a reciprocidade será sempre maior por reacção do que por antecipação, isto é, por observação directa do comportamento do outro do que por presunção do seu hipotético comportamento (op. cit.:8). O mesmo se pode dizer da estrutura sequencial quando comparada com uma estrutura de troca simultânea. A introdução de um elemento propiciador de hiatos de reciprocação faz desta experiência uma das mais interessantes. O hiato confere vantagens suplementares, mas é mais difícil de obter do que a troca simples e directa. De qualquer modo, os autores, contrariamente ao esperado, notam que a reciprocação do segundo jogador é, em média, inferior ao contributo do primeiro, factor que negaria a hipótese do carácter sumptuário do dom e reforçaria a hipótese de uma exploração da posição estrategicamente vantajosa que cada um ocupa. Os autores concluem que a repetição da interacção é uma condição necessária mas não suficiente para o desenvolvimento de trocas complexas, sendo decisivo que cada jogador envie sinais claros das suas intenções. Este tipo de interacção complexa ou se desenvolve de forma perfeita ou não se chega a desenvolver. Tal como em muitos jogos, a memória é relativamente curta porque o número de repetições é escasso.
Saliente-se que a interpretação, à maneira de Akerlof, da relação contratual de trabalho como troca de dons não nos deve conduzir a uma visão romântica das relações laborais. As assimetrias de interpretação das relações contratuais entre empregadores e empregados são uma constante, mesmo que os níveis de esforço desenvolvidos pelos empregados se ajustem aos interesses e objectivos dos trabalhadores, graças ao processo de alinhamento produzido pelas dinâmicas das reciprocidades de compensação e de retaliação. Se os trabalhadores consideram a relação laboral e a trabalham no sentido de uma contribuição em dom, esperando uma resposta em contra dom (mobilizando, para tanto, normas de equidade e de reciprocidade), os empregadores produzem uma oferta salarial que responde a um nível do esforço e que se constitui como incentivo à melhoria dos resultados e a um acréscimo da eficiência produtiva. Existe assim, mesmo numa relação recíproca, uma completa assimetria das lógicas sociais subjacentes (Cordonnier, 1997: 127): os empregados reciprocam em função de uma norma de equidade, enquanto que os empregadores reciprocam como modo de mobilização do esforço e como garantia de eficiência. Será aqui
fundamental reter até que ponto a solução da reciprocidade se constitui como ponto de equilíbrio ou solução para os impasses relacionais que se estabelecem numa relação constitucionalmente assimétrica e onde os actores sociais em presença possuem objectivos diferenciados, orientações contraditórias e operam sob molduras de decisionais e culturais bem distintas. Ainda e sempre a reciprocidade responde bem aos dilemas, mesmo não sendo uma escolha óptima, maximizadora ou perfeita. A força desta linha de acção é ser um
second best e não uma resposta perfeita.
Proposição 23: A reciprocidade é uma solução relacional sub-óptima para cada