envolve estados emocionais de grande intensidade numa esfera económica que está incrustada no mundo social.
A teorização de Frey tende a questionar fortemente as hipóteses comportamentais e as soluções propostas pela teoria da agência para alinhar os interesses do principal e do
agent em quadros dominados não só por posses assimétricas de informação e
predominância de situações de moral hazard e de selecção adversa. Por um lado, Frey apresenta uma visão mais benigna da natureza humana e considera que, quer do ponto de vista descritivo, quer do ponto de vista normativo, a confiança e o comportamento solidário estão, e devem estar, mais presentes na vida social do que aquilo que é concedido pela economia moldada por um modelo simplista de Homo Œconomicus, o que implica que os alinhamentos entre principal e agent deverão ser mais fáceis e não completamente dominados pelo oportunismo dos segundos em face dos primeiros; por outro lado, mesmo que essa concepção de natureza humana fosse aceite, estava por provar que a estimulação por contratos contingentes em função de desempenho e a constituição de esquemas de pagamento por alinhamento com os interesses do principal funcionasse. A modelização de Frey alarga-se a questões ambientais, onde se fala da desmoralização introduzida pelo pagamento de compensações a comunidades que recebam resíduos tóxicos. Esta solução teria não só o efeito de eliminar qualquer hipótese dessa comunidade voltar a receber algo considerado como tendo impacto ambiental num futuro próximo e sem contrapartidas, como também implicaria que mais nenhuma comunidade voltasse a aceitar uma situação sem contrapartidas crescentes. O crowding out associado ao spillover e a um efeito de escalada levaria a situação a extremos em que a motivação intrínseca estaria eliminada para todo o sempre e a extrínseca só funcionaria graças a incrementos cada vez maiores.
Frey não escapa a uma argumentação de virtude. O dinheiro, uma vez instalado, parece eliminar toda a base virtuosa do comportamento e produzir cooperação apenas nas condições de vantagem assegurada. As hipóteses de comportamento cooperativo genuíno, (depois da introdução de estímulos materiais que geram efeitos de crowding out) limitar-se- iam provavelmente a situações de pós catástrofe (Frey, 1997: 59), o que equivale a dizer que a cooperação e a reciprocidade necessitariam de um regresso às origens para poderem voltar a ser princípios operativos. A relação estabelecida entre recompensa financeira e
actividade desenvolvida é do tipo paradoxal ou perverso, o que é uma constante em muitos argumentos favoráveis à presença da reciprocidade como norteadora das relações sociais.
Na mesma linha de pesquisa, um texto recente de Fehr e Gächter (2000)85 revela que os contratos de incentivos (tradicionalmente vistos como a melhor forma de alinhar os interesses do principal e dos diversos agents) podem provocar um forte efeito de crowding
out na cooperação relacionada com a reciprocidade. O seu estudo experimental revela que
este efeito é de tal forma nítido que a eficiência dos contratos sem incentivos é maior. A lógica subjacente ao raciocínio de Fehr e Gächter inverte os pressupostos do modelo padrão. Em vez de postularem que, em face de agents com múltiplas hipóteses de shirking, a resposta mais racional dos principals é ou a coerção ou o incentivo material (um modelo chicote-cenoura), os autores seguem, Bewley (1995, 2000) e consideram que é exactamente devido a essas múltiplas oportunidades que não se deve recorrer a estes motivadores simples. Num quadro complexo de alinhamento de interesses recorrer a um esquema simplista não pode produzir bons resultados. O argumento de Fehr e Gächter tem todos os condimentos de uma leitura paradoxal dos fenómenos de acção colectiva, isto é, a melhor forma de garantir contributos acima do esperado não é recorrer a um modelo de incentivos, mas sim deixar livre o campo para o desenvolvimento de uma relação de reciprocidade em que emoções como a lealdade e a equidade se encarregam de produzir os efeitos que os incentivos não conseguem.
Tal como Frey, os dois autores tecem a consideração de que na presença de actividades agradáveis, a presença de um estímulo material pode ter o condão de provocar um efeito de crowding out, mas alargam o raciocínio, afirmando a validade dessa constatação mesmo no caso do exercício de actividades desagradáveis. O que este estudo revela é que o facto de se levantar a hipótese de comportamentos racionais e interesseiros por parte dos agents, conduz os principals a antecipar esses efeitos, oferecendo contratos de incentivos. Só que ao fazê-lo, os principals estão a induzir o próprio comportamento que queriam prevenir e afastam de forma definitiva qualquer esperança de reciprocação e de
85
Esta experiência que se insere no domínio das situações experimentais configuradas pela troca de dons pretende testar uma situação contratual envolvendo uma relação salarial. No entanto, para evitar cargas valorativas, durante a experiência os salários recebem o nome de preços; os níveis de esforço são referidos como qualidade do produto oferecido e a multa pelo shirking é definida como dedução potencial de preço. Será de frisar que embora cada um dos termos propostos seja um sucedâneo para medir a mesma realidade, o facto é que a moldura de apresentação pode influenciar decisivamente os resultados. A dimensão aleatória dos encontros; a ausência total de efeitos de reputação; a não repetição das interacções e o facto de as ofertas se fazerem no anonimato do mercado são factores que reduzem o impacto explicativo desta experiência numa teoria da reciprocidade. Fiéis à definição correntemente usada por Fehr, os autores descrevem um actor como recíproco quando ele responde de forma hostil a uma proposta entendida como hostil e responde de forma simpática a acções que interpreta como simpáticas (op. cit., 7). No quadro da economia experimental, esta definição de reciprocidade corresponde à identificação de um fenómeno de preferências e distingue-se claramente da apresentação que fazem Binmore e Samuelson, 1994 que consideram a reciprocidade como uma expressão de racionalidade limitada, correspondente a um hábito evolutivo resultante de múltiplos jogos repetidos (cf. op. cit. 7, n.9). De qualquer forma, será de considerar que ambas as versões são pobres do ponto de vista de uma teoria da reciprocidade, pouco importando se se considera a reciprocidade como elemento incorporado no esquema de preferências dos actores sociais ou como hábito enraizado. Ambas as versões não escapam a um certo perfume funcionalista: a reciprocidade existe e mantém-se porque produz bons resultados, é eficiente e evolutivamente estável.
desenvolvimento de emoções positivas.86 O comportamento interesseiro seria a consequência das próprias medidas preventivas destinadas a evitá-lo.