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intersticiais e constitui um espaço de refúgio que opera como mecanismo de escape e protecção em face dos dilemas do mundo mercantil.

A reciprocidade produz vantagens sempre que as trocas não sejam padronizadas, envolvam interacção directa e quando os bens e serviços transaccionados são únicos, dispendiosos ou possuem múltiplos factores de qualidade (Offer, 1997: 450). A reciprocidade é aqui manifestamente considerada como um instrumento de reserva, uma forma a aplicar no caso de trocas irrepetíveis ou que, pelo menos, fogem ao cânone das trocas facilmente definíveis, reguláveis e controláveis. A interacção social é importante porque gera reconhecimento, atenção, aceitação, respeito, reputação, status, poder, intimidade, amor, amizade, sociabilidade, termos que são globalmente descritos por Offer (op. cit., 451) sob a designação geral de regard ou a que, sendo inteiramente smithiano, poderíamos chamar simpatia. A vontade do lucro adocicada transforma-se apenas numa vontade de reforçar a estima e o reconhecimento e de estabelecer uma relação empática com o outro. Este acto de

regard envolve o descentramento do self e uma necessária projecção do eu sobre o outro,

procurando, num jogo de espelhos, prever e antecipar as suas preocupações, alimentar as suas necessidades, simpatizar com as suas dificuldades.

Assim definida a questão, teríamos em equação dois quadros de termos duplos que definiriam dois tipos extremos de organização económica que, no entanto, não seriam incompatíveis entre si, antes se conciliando de forma mais ou menos harmoniosa: a simpatia estaria para a troca de dons tal como a propensão para o ganho estaria para o mercado. A nota que introduzimos aqui relativa à coexistência pacífica entre os dois sistemas, em assumida marcha contrária ao argumento da maior parte dos autores que dedicam páginas a esta temática, destina-se sobretudo a revelar que os dois sistemas não estabelecem nem marcos temporais numa escala evolutiva de transições (ou, aproveitando o termo de Polanyi, de Grande Transformação), nem pontos extremos numa distribuição de formas de organização da actividade económica. O que importa reter é que as duas formas são separadas por uma fronteira ténue, por um hímen facilmente desvirginado que permite a mais interessante das reflexões: as formas de transição de dom em mercado e de mercado espécie de refúgio para um mundo desencantado. Ao mesmo tempo, e como vimos claramente nestas páginas, a reciprocidade tem vindo a constituir-se como uma forma que garante o alinhamento de interesses entre participantes organizacionais com objectivos divergentes e assegura ganhos de

em dom, ou seja, permite o esboçar de uma teoria dos valores de conversão de mercadorias em dons ou de dons em mercadorias num mesmo tempo e num mesmo espaço. Com isto, recusamos a análise evolucionista da reciprocidade, a sua consideração primitivista, mas também o seu tratamento enquanto forma utópica ou de redenção social. A reciprocidade deve ser considerada meramente como um princípio universalmente operativo, independentemente dos graus de avanço da dimensão material das culturas em consideração e do grau de sofisticação (civilização) dos artifícios contratuais que presidem à organização das actividades económicas e à regulação das transferências de bens e serviços entre actores sociais e agentes económicos.

Offer percebe bem até que ponto a diferença entre uma troca padronizada e moldada pelos princípios mercantis e uma troca orientada pela reciprocidade reside na questão do hiato temporal diferenciado que consagram. Enquanto que uma troca mercantil exige que cada compra seja simultaneamente uma venda (independentemente de haver um circuito de crédito e de dilação contratualmente estabelecida entre o dinheiro recebido e a entrega do bem ou a prestação do serviço); a reciprocidade obriga à presença de um hiato doador de sentido que afasta temporalmente o dom da contra-prestação, num sistema em que o segundo movimento, ainda que socialmente constrangido e fixado, goza de alguma liberdade interpretativa e concede margem de manobra ao contra doador.

A busca de regard envolve necessariamente riscos. A existência de um dom original (ou de uma expressão de confiança) nunca cria a certeza de uma reciprocação. Contrariamente a uma troca spot que se materializa de imediato e que se finaliza no momento em que se efectua, a troca centrada em dons implica necessariamente uma espera e uma convicção de reciprocação. A garantia da reciprocação deriva do carácter auto- alimentador que está subjacente às normas de reciprocidade. Os riscos da exclusão e do ostracismo são custos sociais gravosos que conduzem os participantes para o mundo das trocas, mesmo quando racional e oportunisticamente eles poderiam desertar dessa mesma troca. Como Offer afirma (op. cit. 454) o regard pode ser visto como um benefício de transacção, na medida em que gera confiança e esta é em grande medida eficiente. Deste modo, a perspectiva de Offer é curiosa, uma vez que partindo do dom como forma alternativa ao mercado e pondo de parte as buscas de maximização do lucro, acaba por voltar ao início da questão ao postular a maior eficiência do modelo da reciprocidade em contextos particularmente sensíveis à presença do outro. O regard possui vantagens óbvias se o considerarmos como sistema de sinalização e comunicação que vai progressivamente oleando a relação social entre partes que organizam uma transacção. O regard pode ser entendido como um reforço sinalético da intenção de reciprocar, uma vez que acompanha as acções e as verbalizações com uma série de sinalizações não verbais. A definição de regard em Offer é um argumento suplementar na defesa de uma economia embedded.

eficiência nas próprias transacções mercantis em situações onde a racionalidade por si só não produziria os melhores efeitos.

Offer (op. cit., 455) sublinha que o dom, como o mercado, tem o potencial de criar

goods e bads, sobretudo em função dos processos sociais de criação de dívidas e de

obrigações, mas, ao contrário do mercado, estabelece relações sociais emotivas e apaixonadas, sejam elas expressas por dons e contra dons carregados de simpatia e amizade, sejam elas orientadas para a retaliação. O mercado oferece uma fuga a esse tipo de laços intensos e permite economizar no amor.

Proposição 25: A reciprocidade pressupõe relações sociais de risco, na medida