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estabelece uma desconfiança relativamente a estrangeiros. A dimensão paroquial da reciprocidade pode ser curvada por uma lógica de dom por parte do recém-chegado que, assim, conquista um espaço de confiança.

Um dos cenários habituais nos testes à reciprocidade em contextos evolutivos envolve transferências intergeracionais.55 Este tipo de transferências sublinha a dimensão sequencial da reciprocidade e permite visualizar os modelos de resposta a dons recebidos não por parte de indivíduos particulares, mas por simulação de populações. Está neste caso o modelo de Van der Hejden et al. (1995). Estes autores compreendem bem que as transferências intergeracionais e as sequências memoriais aí presentes são um teste robusto à hipótese da reciprocidade, mas o desenho experimental que desenvolvem mina por

completo esse desiderato porque apenas submetem ao crivo da observação situações de transferências unilaterais de uma geração mais nova para uma mais velha. Testar a reciprocidade implica sempre testar as reacções bilaterais, mesmo que a relação estabelecida seja fortemente assimétrica. A reciprocidade aqui testada é de um outro tipo (mais estratégico): cada geração contribui para a anterior na expectativa que isso crie um mecanismo de memória social que a favoreça no momento geracional seguinte e lhe permita usufruir dos mesmos benefícios. Estamos aqui confrontados com uma reciprocidade de expectativas que envolve não as trocas directas entre duas gerações que coexistem no espaço e no tempo, mas uma triangulação de reciprocidade em que o beneficiário em t desaparece em t+1 e onde o contribuinte em t se torna beneficiário em t+1, por acção de uma geração que será, por sua vez, recebedora líquida em t+2 e assim sucessivamente.

Nesta situação, a penalização por incumprimento de um contrato social implícito de solidariedade é feita não pela geração que não recebeu a compensação pelo seu esforço prévio, mas por uma geração subsequente que retalia sobre a geração anterior à sua.56 A um outro nível, este tipo de experiências oferece um problema adicional: a finitude do jogo oferece hipóteses à última geração de não reciprocar e assim colher os benefícios da sua acção sem receio de punição pela geração subsequente, elemento que retira obviamente realismo à experimentação. Adicionalmente, estes jogos sequencias são dominados por dois efeitos que moldam a interacção, mas que são difíceis de distinguir: a reputação e a aprendizagem/experiência. Se os últimos são muito importantes nos primeiros lances e os primeiros são fundamentais na definição das últimas jogadas, permanece a questão de não existirem metodologias aceitáveis de distinguir experimentalmente um efeito do outro (cf. op.

cit. 7, n.7). Com este desenho experimental, torna-se fácil perceber o porquê de os autores

não encontrarem qualquer evidência que sugira a presença da reciprocidade na dinâmica intergeracional.

Fabra (1993) conduz uma simulação de modo a tornear um problema encontrado por muitos investigadores: a presença de múltiplos equilíbrios em jogos infinitamente repetidos. Para tanto, recorre a um modelo matemático de evolução (desenvolvido no campo da Biologia) chamado Replicator Dynamic. Neste jogo (op. cit. 1), pressupõe-se a existência de uma vasta população de jogadores, estando cada um deles dotado de uma estratégia particular. Cada jogador vive uma vida que corresponde à disputa de jogos, cria descendência que o replica totalmente e, de seguida, morre. Cada geração depende dos níveis de sucesso57 particular dos jogadores da geração anterior. Esta dinâmica implica que a presença de tipos diversos de jogadores depende do sucesso relativo dos seus antecessores das gerações anteriores e também implica que haja alterações na importância

55 Para uma explicação evolutiva dos padrões de relações intergeracionais veja-se Linster (1998). Para

uma aplicação do conceito de reciprocidade a alguns jogos de transferências geracionais, veja-se Lagerlöf (1997).

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Johnson et al. (1999) conduzem também um jogo de dom intergeracional em que a punição dos jovens free riders não é dada pela geração anterior, mas pela geração subsequente, facto que pressupõe obviamente informações sobre a história das interacções geracionais.

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relativa de cada espécie, consoante esse mesmo sucesso anterior. Sendo impossível reproduzir no jogo toda a panóplia de estratégias existentes no mundo real, Fabra introduz um critério limitador das estratégias, de modo a que a experiência possa ser melhor conduzida. O critério encontrado é o da memória finita dos jogadores, ou seja, uma limitação de racionalidade. Embora este não seja um critério isento de críticas, permite ao autor avançar na sua simulação, tendo concluído que a maior parte dos jogos simétricos e assimétricos, envolvendo dois jogadores e duas matrizes, possui um único ponto de equilíbrio sempre que os jogadores são caracterizados por lembrança limitada. Nesse equilíbrio único acontecem quer trocas de favores, quer maximização de curto prazo, quer ainda um resultado irracional. Fabra conclui de forma categórica e darwinística que só os mais aptos sobrevivem e, acrescentaríamos nós, sobrevivem porque são os mais aptos e são os mais aptos porque sobreviveram.

Por seu lado, Guttman (2000) pretende provar a estabilidade de um comportamento de reciprocidade e endogenizar o gosto pela reciprocidade nos modelos económicos. Com base numa simulação, constrói um modelo de evolução social que coloca em liça um reciprocador (definido por ele alguém que prefere uma solução cooperar-cooperar num dilema do prisioneiro) versus um oportunista (alguém que prefere explorar o seu adversário, jogando fuga enquanto o outro joga cooperação). Guttman demonstra que com encontros repetidos, mas aleatórios e onde a probabilidade de repetir uma interacção é baixa (dado consistente com a simulação dos encontros sociais numa metrópole contemporânea), o resultado dos encontros face a face de reciprocadores e de oportunistas tenderá para o triunfo dos reciprocadores (leia-se vantagem evolutiva e expulsão dos oportunistas), na condição de estes terem a possibilidade de identificar os seus opositores, ou seja, só com discriminação e reputação é que os reciprocadores triunfam na luta evolutiva de forma completa. No entanto, mesmo na ausência desta capacidade de identificação, Guttman considera que o reciprocador sobrevive porque é racional e só coopera quando espera que o seu opositor coopere. Vale esta afirmação por dizer que a reciprocação não é nem incondicional nem uma simples resposta a movimentos anteriores (ainda que protagonizados por outros actores sociais, uma vez que a repetição da interacção com o mesmo sujeito possui uma probabilidade quase nula de ocorrência), orientando-se sobretudo para as expectativas em torno do comportamento que se imagina que o outro tenha.

Proposição 14: A reciprocidade implica uma capacidade de discriminação e de